Fora da Área: quem chora por último chora campeão

 

 

Chorei muito na vida. Nas conquistas pessoais, nas vitórias de amigos e nas mortes, também. Nas arquibancadas do velho Olímpico Monumental chorei muitas derrotas. Os colegas mais próximos começavam a me preparar a medida que o jogo se aproximava do fim, pois sabiam que meu choro era inevitável diante da partida perdida. Quando fui para dentro do campo ou das quadras, chorei mais ainda. De alegria, mas principalmente de raiva por não alcançar os resultados que sonhava. Chorava ao ver injustiças acontecendo à minha frente. Às vezes o choro me levava ao descontrole e as lágrimas se transformavam em violência. Tinha de me conter. A maioria das vezes, ser contido. Ao deixar o esporte competitivo, voltei a chorar de emoção em especial nas vitórias de meu time do coração. O esporte, sempre o esporte a mexer comigo. O mais feliz de todos os choros foi na incrível conquista da Segunda Divisão, em 2005, quando o Grêmio foi protagonista da Batalha dos Aflitos. Naquele dia, levei os filhos a chorar, também. E não tive vergonha. Me orgulhei. Até hoje quando revejo o filme que conta essa epopeia, os olhos enchem de água. Encharco as vistas com muito mais facilidade do que se possa imaginar, às vezes com notícias que me tocam, favores que recebo ou me permitem oferecer.

 

Talvez é de tanto chorar que não me surpreende a reação dos jogadores brasileiros nesta Copa. A cantoria do hino à capela nos estádios tem tocado muitos deles. É nítida a tensão com que cada um está enfrentando a responsabilidade de disputar o Mundial dentro do Brasil. São todos muito jovens e forjam suas personalidades jogo a jogo. A reação de Julio Cesar antes de partir para seu maior desafio, a cobrança de pênaltis na decisão da vaga às quartas de final, contra o Chile, chegou a me assustar, pois transparecia insegurança. Descobrimos, após duas defesas, que era apenas agradecimento pelo destino lhe oferecer a oportunidade de reescrever a história na seleção. Os olhos marejados de Thiago Silva, o capitão, desde a primeira partida, poderiam embaçar sua liderança, mas a torna transparente e humana. Nada disso, porém, tem convencido muitos críticos e torcedores que se incomodam com os chorões da nossa seleção. Não é por acaso. Crescemos ouvindo que homem que é homem não chora. Meninos não choram (Boys Don’t Cry), é o que diz o refrão da música do The Cure, que conta a história de personagem que ri diante do sofrimento do amor perdido, “escondendo as lágrimas em meus olhos”.

 

Os meninos do Brasil não escondem as lágrimas de seus olhos. Não têm vergonha da sinceridade de suas lágrimas. E compartilham seu choro com toda a Nação. Que continuem a nos fazer chorar, também. Até a final desta Copa do Mundo, porque quem chora por último, chora campeão.

7 comentários sobre “Fora da Área: quem chora por último chora campeão

  1. Milton: Confesso que não vi na íntegra, nenhum dos jogos da etapa classificatória do Brasil, pois estava em gozo de merecidas férias em USA e Caribe com a família ( só faltou a filha), mercê de plantões. Pudemos constatar, in loco, a torcida e a vibração de norte-americanos, bem como de outras nacionalidades, com os confrontos e resultados, alguns simplesmente inimagináveis ( vide Espanha..). E, o soccer, como lá é conhecido, ainda não alcançou a popularidade do nosso país… O grito de “USA, USA” é algo contagiante, maravilhoso, de se ouvir e ver. O amor á pátria que eles revelam, e demonstram, sem sombra de dúvida, é algo que parece profundamente arraigado neles desde a mais tenra infância… Que o significado de nossas lágrimas de sábado represente igualmente nosso amor á pátria, nosso desejo de vitória, nossa união do Oiapoque ao Chuí em prol de mais uma conquista. Parabéns, seus textos, como sempre, brilhantes!

  2. Assim como o Mílton,quem sou eu para criticar os que choram,sejam homens ou mulheres,crianças,jovens ou barbados. Por quê? Porque,a rigor,fico com os olhos marejados ao ver lágrimas sinceras brotando ou rolando dos olhos alheios. Quanto mais velho fico a cada dia,mas facilmente me emociono. E não tenho vergonha de confessar esta virtude, virtude sim e não defeito,mas que nem todos compreendem por pensarem que macho não chora. Tenho pena dessas pessoas,especialmente as do meu sexo,que têm vergonha de chorar. Só nesta Copa do Mundo,chorei por todos as seleções da minha preferência,a do México antes das demais,seja porque venceram e,ainda mais,se perderam. Agora mesmo,ao ler o belo texto produzido pelo Mílton,fiquei com os olhos molhados.

  3. Caro Milton,
    Gostaria de falar sobre os comentários de hoje, 01/07, no liberdade de expressão. O Xexel e o Coni como sempre foram muito bem. Porém, a Viviane novamente falou muito mal. Primeiro que ela não entende nada de futebol. Dizer que é bonito chorar tudo bem, mas chorar antes de enfrentar a emoção, não é certo. Ela falou sobre a Alemanha contra Nigéria e do sofrimento que foi para a Alemanha ganhar. Eu até concordo que foi sofrido, mas quando eu estava assistindo o jogo, o que percebi é que a Alemanha venceria a qualquer momento, tamanha a superioridade e a categoria que vinha demonstrando em campo, muito, mas muito diferente mesmo do Brasil. Infelizmente os comentários da Viviane são sempre péssimos. Não gosto nada dela. Não dá para você colocar uma outra pessoa no lugar dela ? De preferencia uma pessoa de São Paulo, já que o liberdade de expressão esta muito carioca.
    Abraços.

  4. Milton, não estou concordando com as críticas que os jogadores brasileiros estão recebendo por terem demonstrado emoção.
    Será que mais uma vez o futebol tem que ser retrógrado?
    Veja o caso dos tenistas, a começar pelo espanhol NADAL e até mesmo pelo “frio” suiço FEDERER. Quando ganham um grand slam é choro na certa.
    E no voleibol?
    Idem.
    É muito machismo.

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