Sinto tristeza e pena da morte de Marco Archer

 

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Neste sábado, senti tristeza alheia. Sentimento estranho porque não deveria nos pertencer. A tragédia não é minha, está distante da minha família e ocorre com pessoa de quem tenho quase nenhuma referência. Sei tanto quanto você sabe, assistindo ao noticiário. A tristeza que me tocou foi pelo fuzilamento de Marco Archer, condenado a pena máxima por tentar entrar na Indonésia com 13 quilos de cocaína escondidos em uma asa delta. Ele estava há 11 anos na prisão e havia completado 53 de vida, pouco mais do que eu, o que me faz acreditar teria muitos outros pela frente, não fosse o erro grave que cometeu. A vida se foi diante de um pelotão de 12 soldados que portavam rifles, sendo que apenas três deles realmente tinham balas de verdade para matar.

 

Todos sabemos que Archer cometeu um crime e tinha consciência do risco que corria ao aceitar a oferta que, segundo ele, o ajudaria a pagar dívida hospitalar que contraiu após tratamento por acidente sofrido. Percorreu o caminho mais perigoso, talvez por estar acostumado com as coisas aqui no Brasil, onde a impunidade é a regra. Tudo conspirou contra a vida de Archer, a começar por seu próprio ato. Além de ser flagrado pelos agentes de segurança no Aeroporto de Jacarta – por onde imagino passem outros tantos sem serem importunados -, ainda se deparou com um presidente que acaba de se eleger com a promessa de ser implacável com os criminosos condenados à morte por tráfico de drogas. Assassinar Archer e mais 63 traficantes que já tiveram pena decidida foi promessa de campanha. E lá parece que eles cumprem com suas promessas, mesmo que sejam bárbaras. Mesmo que incompetentes para dar uma solução às drogas.

 

Sei, também, que o consumo de drogas tem causado danos profundos a pessoas doentes e suas famílias. Um parente viciado faz com que a doença se espalhe como metástase, contamina a todos, quando não os mata. Provoca sentimentos dúbios de compaixão e ódio. Põe em dúvida nossas convicções de respeito à vida. E nos faz sofrer mais ainda quando a morte do viciado traz alívio em lugar que deveria ser destinado à tristeza. Sim, as drogas nos matam. Mas isto não me faz desejar a morte de ninguém.

 

A imagem de Archer, com cara de bonachão, olhar assustado e voz arrependida apareceu com frequência nas nossas casas nesses últimos dias com o aprofundamento da cobertura jornalística. Está na cara que ele não produz, não comercializa e não mata para manter a enorme rede criminosa que atua no tráfico de drogas. Está distante dos que ocupam o topo desta hierarquia. Era uma mula, como muitos desses desgraçados que são presos em aeroportos brasileiros levando droga pra lá e pra cá. Archer era mais um desgraçado consciente do que fazia, é verdade; querendo tirar proveito da oportunidade oferecida, sem dúvida; mas muito longe de ser merecedor da morte nestas circunstâncias. Lembrar do olhar dele voltado para a câmera, como se estivesse pedindo ajuda para alguém, me provocou tristeza.

 

E mais tristeza senti ao me deparar com gente que não acredita na força do ser humano e na sua recuperação. Pior, gente incapaz de perceber a desproporcionalidade da pena diante do crime cometido. Ou muito pior, gente que mesmo diante de uma tragédia humana como a do fuzilamento de Archer, encontra espaço para partidarizar o debate. Gente sem alma, gente desgraçada essa por quem sinto tristeza. E tenho pena, mas não de morte!

14 comentários sobre “Sinto tristeza e pena da morte de Marco Archer

  1. Milton

    Acho que este é o único texto que li até agora que conseguiu expressar, de forma simples e objetiva, o que eu também estou sentindo. A maioria das coisas que li até agora foram divagações e teses políticas para tentar justificar o ato. Mas, no meu caso, apesar de querer entender o funcionamento dessas regras nos outros países, eu só queria olhar para um ser humano que errou e merece ser punido, mas não com a morte. Isso é muito triste. No caso dele, em específico, relacionado às drogas, só quem passa por isso, só quem tem na família alguém envolvido com isso, sabe o que é. A família toda adoece. Será que essas pessoas que estão aplaudindo, achando que isso deveria ser implantado no Brasil, teriam o mesmo comportamento se fosse alguém da sua família? Se colocar no lugar do outro é difícil. Eu defendo e sonho com ações preventivas e um sistema carcerário onde o ser humano possa cumprir sua pena e ser ressocializado. Poucos são os trabalhos desenvolvidos hoje que acolhem, por exemplo, ex-presidiários e os ajudam a buscar oportunidades nesse Brasil inundado por preconceito. Você deve se lembrar do TEDx Vale do Anhangabaú, o depoimento do Chinaider Pinheiro, ex-chefe do tráfico do Comando Vermelho. Foi naquele evento que eu me inscrevi para participar de um projeto de levar o direito do voto aos centros de detenção provisória em São Paulo. Fui mesária no CDP de Guarulhos, uma experiência para a vida toda.
    Enfim, eu acredito no ser humano, eu acredito na ressocialização. Se apenas 01 daqueles moleques que eu vi votando conseguissem sair dalí e mudar de vida, eu ficaria satisfeita. Mas, no fundo, eu gostaria de não vê-los ali, mas isso depende de vontade política e políticas públicas para as periferias.

  2. Maria Claudia, o Chinaider é uma ótima referência para esta discussão que estamos tendo. A morte teria tirado a oportunidade dele trabalhar pela comunidade, se recuperar e recuperar outras pessoas. Bem lembrado.

  3. Nada justifica o caminho do crime, principalmente o trafego de drogas, que deixa tantas crianças órfãs e famílias destruídas !!!
    Sou um simples caminhoneiro e certa vez, a muito tempo, no nordeste me ofereceram uma carga de maconha e muito dinheiro, embora com dividas e sem dinheiro p/ uma refeição digna, não aceitei o frete e fiquei só com bolacha e água. Mas no dia seguinte arrumei carga p/ voltar pra casa.

  4. Já não sei mais o que é certo ou errado,principalmente,quando se fica diante de um dilema como o criado pelo ” Caso Archer “. Opinei. Aí,começo a ler as repercussões,os prós e os contras. E surge a dúvida cruel. Acho que errei, mas ao mesmo tempo não terei acertado? De uma única coisa estou: convicto:valeu a pena ler o teu texto sobre o triste episódio. Aprendi,graças a ele,uma boa lição:essa,ao contrário do que se poderia imaginar,foi dada ao pai pelo seu filho.l

  5. A pena capital sempre foi para mim uma punição hedionda e arrogante. Uma prova da natureza bárbara do ser-humano. Considero o mundo um lugar tão áspero e a humanidade capaz de coisas tão terríveis que este final do Archer também muito me comoveu. Uma espécie de dor misturada com lamento…

  6. Milton, li a respeito deste caso pois também me comovi com a história. Na verdade este cara era um conhecido traficante, que vivia uma vida de luxos e mulheres, ha mais de 25 anos trabalhava como traficante e estava longe de ser apenas uma mula.

  7. Quanto a pena capital? O que fazer com criminosos como Fernandinho Beira Mar, Marcola, Maniaco do Parque, Suzanne Von Richtofen… Voces acreditam que estes animais poderiam voltar à vida em sociedade? Prisão perpétua no Brasil não existe…. Vocês, sem hipocrisia, conseguem se colocar na pele de um pai/mãe que tem seu filho assasinado? Nossa, desejaria o pior para alguém que fizesse algo com meu filho. Sim, sou a favor da pena de morte nestes casos que citei. Sou a favor da prisão perpétua(sem esta palhaçada de progressão de pena!) no caso de tráfico de drogas! Me desculpe se te decepciono Milton, mas estou cansada de ser EU a prisioneira do meu país, de suas leis fracas e condescendentes, da violência bárbara que faz parte do nosso dia dia!

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