Rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar

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“Não há espaço melhor para a construção de relacionamento de um com os outros do que no território da voz”

Transparência é fundamental nessa nossa conversa, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Por isso, saiba que vou falar do que assisti há uma semana no canal Dez Por Cento Mais, no Youtube, que é produzido e apresentado pela minha mulher, Abigail Costa, e pela minha colaboradora de blog, doutora Simone Domingues. Na busca de explicações sobre o comportamento do cidadão diante da pandemia, elas convidaram o antropólogo Michel Alcoforado, de quem sou admirador. Ou seja, minha fala aqui deve ser considerada totalmente parcial nos elogios e afagos.

Pouco me importa, também. Até porque tenho convicção de que se você tirar uma hora da sua semana para assistir ao que as duas levam ao ar, ao vivo, toda quarta-feira, às oito da noite, vai ficar admirado e muito bem informado. O canal é dedicado ao comportamento humano e à saúde mental. 

Na discussão sobre como estamos agindo na pandemia e como agiremos depois dela, provoquei Michel Alcoforado a falar sobre o consumo de informação no rádio. Ouvi muito mais do que poderia desejar.

“A medida que estamos mais dentro de casa, a voz  que acompanha a gente, a voz do rádio, ajuda a gente a construir contexto. O que é muito importante para esse mundo descontextualizado.”

Michel trouxe a própria experiência com o rádio, com o qual acorda todas as manhãs e o acessa através da assistente de voz, que o acompanha pelos cantos da casa. Como boa parte de nós, mais dentro de casa do que fora, por força da pandemia, os dias tendem a ser todos iguais. Mas nosso antropólogo lembra que ao ouvir o Sérgio Abranches, às oito da manhã, sabe que é terça; o Cortella, às sete, é quarta; e o Hora de Expediente, o faz perceber que já são nove da manhã.

É um hábito que começou no século passado, lembra Michel. O rádio marcava a passagem do tempo da avó dele —- das nossas avós e de nossos pais, também. Ela sabia que quando um programa terminava, estava na hora de servir o almoço;  quando se iniciava outro, era a vez do jantar; e havia um que ela não gostava muito, que alertava para o fato de que era tempo de ir para cama.

“A gente tem o rádio de novo marcando essa posição. O rádio sobretudo ganha uma dimensão muito importante, porque a gente já vinha falando tempos atrás sobre a dimensão que a voz tem. E cada vez mais os aplicativos e gadgets das nossas casas vão ser orientados pela onipresença da voz”

Das coisas boas que ouvi Michel Alcoforado dizer foi que o rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar. Mesmo que esteja sendo reproduzido também no Youtube ou no Globoplay —- como é o caso do Jornal da CBN —-, por mais que seja imagem, não é um programa de TV. É o rádio com sua lógica de construção de comunicação em um outro formato de mídia.

“O áudio como aconchego tem crescido pra caramba. O que acontece é que a tela só lida com um sentido nosso, com a visão, não nos dá um despertar de sentidos. Não consegue. Não é a toa que o filme precisa de um sonoplasta. O audio trabalha com pedaços do nosso campo cognitivo que a tela não é capaz de alcançar”. 

Por vantagens que tenha, o rádio também encara os desafios das demais mídias que é o da pulverização de meios e mensagens —- já conversei várias vezes com você neste blog sobre o volume de informações que somos submetidos todos os dias e o quanto isso reduz nossa capacidade de assimilar o conteúdo, e de apurar nossa sensibilidade para as fontes mais confiáveis. Michel Alcoforado trata do tema a partir da definição de um antropólogo americano Gregory Bateson que diz que informação é todo o dado que gera diferença. Isso significa que talvez estejamos produzido muito dado e pouca informação. Ou notícia.

“Se você não está gerando diferença, você não está informando”.

Como ser diferente no radiojornalismo se toda notícia parece igual? Você entra no portal G1, depois pula para o UOL e navega em qualquer outro site de notícia disponível na sua tela deparando-se com conteúdo muito semelhante. Michel Alcoforado dá a dica —- que você pode ouvir na íntegra e com as devidas referências que a modéstia me impede de reproduzir, no vídeo publicado neste post. Ele fala algo que me move há muitos anos no rádio e que se perdeu no tempo pela forma padronizada como se relata os fatos ocorridos. Ao contrário da matemática, na subjetividade das emoções um mais um não é dois. Portanto, não basta seguir a fórmula correta, aprendida no livro da faculdade, de preencher as lacunas para atender a técnica do lead ou da hierarquia dos dados. Nem o português mais castiço salva essa equação – ao contrário, tende a causar estranheza. 

Michel lembra, por exemplo, a importância que a informação de trânsito tem na programação de rádio, a ponto de as emissoras —- cada vez em menor número —- investirem na cobertura a partir do helicóptero. A observação do tráfego em uma avenida pelo repórter aéreo por si só pode não fazer diferença; mesmo porque o ouvinte que está na região talvez até já saiba mais através do mapa digital que o guia no painel do carro.  Por outro lado, conforme a leitura que o repórter faz, provoca-se empatia, o ouvinte se identifica com a história, enxerga-se como personagem. E protagonista que se vê, experimenta aquele momento conduzido pela voz do jornalista.

Entretenimento é a palavra que Michel Alcoforado usa para definir a forma como devemos conversar com o ouvinte. É preciso saber entreter sua audiência:

“É muito mais do que saber que a Marginal está parada. Eu já sei que Marginal está parada. O que me interessa é como você me conta que a Marginal está parada. É isso que gera diferença”.

Como fazer diferente o mesmo todos os dias é outro dos desafios que precisamos encarar no comando de um programa ou no relato das notícias no rádio. Explorando a imaginação do ouvinte, diz Michel:

“A gente enquanto humano precisa explorar cada vez mais os nossos sentidos … O áudio permite que a gente exercite um ponto fundamental da nossa existência que é a imaginação. E aí você pode usar todos os sinônimos desse negócio que chamo de imaginação: fantasia; o desejo pode ser também uma forma desse lado da imaginação. Mas não há como a gente ser humano sem a capacidade de imaginar. E só nós humanos temos capacidade de imaginar. O áudio abre essa chance para a gente imaginar”.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais com a entrevista completa de Michel Alcoforado.

Expressividade: uma relação sem fim

 

Hoje publico o último episódio desta série com textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, que foi comemorado em 16 de abril, quando iniciei a publicação dos textos. Para ler o capítulo completo, acesse o link no pé deste post. Eles estão em ordem decrescente:

 

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ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!(2)

 

 

Na era pós-Glorinha de minha vida, descobri que este mercado, além de dominado pelas mulheres, tinha muita gente bem preparada que atuava com “amor, persistência e sensibilidade” —- palavras consideradas mágicas pela protagonista do livro “O que é ser fonoaudióloga – memórias profissionais de Glorinha Beuttenmüller”. Encontrei profissionais familiarizados com as características específicas do jornalismo ou daqueles que usam a voz como ganha-pão. Eram pessoas que não cuidavam apenas da fala, mas da alma, também. Muitas vezes as sessões eram ocupadas para contar casos pessoais ou histórias da redação, mais do que discutir diretamente o que deveria fazer para corrigir este ou aquele problema na comunicação. Mesmo porque as dificuldades na fala, algumas vezes, estão ligadas a questões emocionais.

 

É fundamental que a fonoaudióloga tenha excelente ouvido, capaz não apenas de perceber pequenos detalhes do som que emitimos, mas auscultar nossos sentimentos. Uma das experiências que tive em fonoaudiologia me mostra esta verdade de maneira mais crua. Por motivos que não saberia avaliar claramente quais foram, a relação que mantive com uma profissional contratada pela emissora de televisão em que eu ainda trabalhava foi das mais ruidosas. Não era exatamente pelo fato de ela fumar entre uma sessão e outra —- o que sempre pareceu uma contradição, mas o que eu tinha a ver com isso? Talvez tenha sido as inúmeras proibições que me foram impostas: “não beba, não fale, não …. e mais não”. Certo mesmo é que algo aconteceu — ou deixou de acontecer — entre nós que me levou a transformar cada sessão fonoaudiológica em uma avaliação da empresa. Parecia-me que todo encontro seria decisivo para meu futuro naquele emprego. Novamente somatizei na garganta a insegurança profissional e, impreterivelmente, na véspera de cada atendimento, minha voz sumia. Como o tratamento não flui fui recomendado a procurar uma profissional que não estivesse ligada à empresa e pudesse me receber com mais frequência. Foi daí que parti para minha terceira experiência.

 

Não sei quanto deste artigo poderá ser útil a você que lê neste momento. No entanto, se servir para que pelo menos uma fonoaudióloga pare para repensar seu comportamento sempre que estiver atendendo um empregado da empresa da qual ela é contratada, estarei realizado. Preste atenção se sua imagem —- e escrevo especificamente para as fonoaudiólogas —- não está sendo confundida com a do chefe do departamento ou diretor da fábrica; se sua postura naquela sala, sentada diante de um funcionário, não está muito mais parecida com a do patrão. Faça-o entender que o trabalho que está sendo realizado naquele momento, não é benefício da empresa, mas dele próprio.

Seja parceira do seu paciente.

Como já disse, estava na hora de encarar a terceira fonoaudióloga da minha vida. Na verdade, a terceira e a quarta, porque no mesmo consultório trabalhei com duas profissionais que não atuavam em emissoras de rádio e televisão, mas com conhecimento profundo do uso da voz no jornalismo. Passei por avaliações minuciosa a partir da aplicação de métodos de análise acústica e espctográfica, pela primeira vez. Aprendi exercícios para relaxar as cordas vocais e aquecer a garganta antes de iniciar uma locução. Alguns já conhecia e, para os novos, fui apresentado. Coisas como fazer sons semelhantes a mantras ou abrir e fechar a boca articulando exageradamente as vogais, que quando feitos dentro do carro a caminho da redação provocavam, nos mais próximos, estranhos olhares. Azar dos bisbilhoteiros. Soubessem eles os benefícios que sentia a cada movimento, fariam o mesmo, e, chegando ao trabalho, poderiam conversar com colegas em um tom “aveludado”, mais sedutor.

 

Mais importante, contudo, não foram os exames e exercícios, mas a liberdade que ganhei. Até começar esta etapa com as novas fonoaudiologia tudo era proibido. Eu seguia à risca a recomendação de não falar ao telefone, fechar a boca em locais barulhentos, ficar quieto dentro do carro da emissora, eliminar bebida gelada de meu cardápio, entre outras restrições. E nada resolvia. Perda de tempo, porque assim que me ensinaram que era possível fazer quaisquer dessas atividades —- convenhamos, algumas prazeirosas —- desde que com moderação, o tratamento passou a dar resultados positivos.

 

Falar sob estresse é parte da rotina de um jornalista de rádio e televisão. As restrições a que estava submetido, no entanto, aumentavam esta pressão psicológica, atingindo o ponto mais sensível de um profissional da voz — a própria. Pesquisas mostram a relação entre distúrbios da voz e a dificuldade para lidar com situações de estresse. Minha experiência pessoal serve bem para ilustrar estes estudos.

Ao abrir mão das restrições impostas, mas confiando minha palavra na moderação de meus atos, consegui atingir um ponto de equilíbrio.

Desde aquele momento, tornei-me grato às fonoaudiólogas. Entendi sua importância no processo de comunicação e passei a lamentar a falta das mesmas na maioria das redações brasileiras, principalmente as de rádio. É inacreditável que um veículo que tenha no som sua principal característica, tão pouca atenção dê à capacidade vocal de seus profissionais. É verdade que houve avanços neste processo. A locução radiofônica também ganhou tom coloquial e a forma de apresentar passou a ser vista com a mesma importância que o conteúdo. Há emissoras de rádio, como a CBN, em que os locutores obrigatoriamente são jornalistas. Não bastando mais ter um vozeirão. É preciso entender a notícia para transmiti-la com correção. Ao mesmo tempo, exige-se que este jornalista tenha recursos vocais, como articulação dos sons precisa e sem exageros e modulação e intensidade da voz coerentes como o que está sendo noticiado. Fatores que garantem o interesse do ouvinte, informam de maneira precisa e transmitem credibilidade. Apesar disso, você dificilmente verá uma fonoaudióloga com o crachá de uma emissora de rádio, a não ser que seja de visitante.

 

Minhas relação com as fonoaudiólogas nunca mais se encerrou. Fui e voltei aos consultórios tantas vezes entendi ser necessário. Lá estive para resolver problemas circunstanciais de rouquidão e, também, para encontrar o tom certo nesta ou naquela forma de transmissão. Em alguns casos para aumentar a velocidade da locução de notícias. Em outros, para ganhar confiança na apresentação dos programas. Procurei até mesmo para achar a nota certa no grito de gol. Não foi sempre que saí de uma sessão com o problema resolvido. Até hoje busco um recurso melhor para determinadas situações. O que apenas reforça a minha tese de que estas profissionais deveriam estar integradas ao corpo funcional das empresas de comunicação, assim como estão locutores, repórteres, redatores e editores — o que, faça-se justiça, já ocorre em algumas emissoras de televisão no Brasil, como é o caso da TV Globo.

 

Não estranhe o fato de ter citado apenas o nome de uma fonoaudióloga ao longo deste trabalho. Não é esquecimento ou injustiça deste que escreve. Primeiro, não é meu objetivo fazer críticas pessoais. Segundo, cada uma das profissionais das quais fui paciente vai encontrar —- se é que me darão o prazer da leitura —- um ponto aqui e outro acolá que deixarão evidente a importância dela na minha formação. Identifiquei apenas Glorinha Beuttenmüller por ser a pioneira na terapia da voz nos meios de comunicação.

 

Glorinha se aproximou de uma redação de telejornal no início da década de 1970. Sérgio Chapellin, já citado em capítulos anteriores, estava completamente rouco. Consta que o problema seria resultado da pressão psicológica provocada por ter de substituir na apresentação um dos maiores nomes do rádio e da televisão brasileiros, Heron Domingues, que se consagrou como locutor do “Repórter Esso” e depois se transferiu, como era comum, para a televisão. Já tendo sido aluno de Glorinha na Rádio MEC — onde a fonoaudióloga ministrou cursos de dicção, entre 1964 e 1973, curiosamente para profissionais liberais e não para radialistas —, Chapellin confiou sua recuperação na terapia desenvolvida por ela. O tratamento foi bem-sucedido e marcou o nascimento de uma nova atividade dentro das redações.

 

Esta história já tem 30 anos, período em que a relação entre fonoaudiólogas e jornalistas amadureceu. No princípio, eram os problemas vocais que levavam os profissionais de comunicação ao consultório. Queriam resolver distúrbios na maioria das vezes provocados pelo uso inadequado da voz. Hoje, estas mulheres incríveis —- homens, também —- e suas técnicas maravilhosas não apenas curam, mas apuram um padrão de qualidade, com enfoque no corpo não apenas na voz. Estimulam o desenvolvimento de um estilo próprio, respeitam a característica de cada indivíduo. Natural e espontâneo, o jornalista ganha expressividade e transmite credibilidade.

 

Para ler todos os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”,clique aqui. Estão publicados na ordem decrescente.

Expressividade: minha carreira foi salva pela fonoaudiologia

 

Estamos quase chegando ao fim deste seriado composto por trechos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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Foto Pixabay

 

ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!

 

O Colégio Nossa do Rosário sempre foi um dos mais completos de Porto Alegre. Lá passei boa parte da minha infância e adolescência. Aprendi muita coisa nas salas de aula, apesar de nunca ter sido um aluno exemplar. Aprendi mais ainda do lado de fora, convivendo com professores, comandando agremiação estudantil, trocando experiência com colegas e nos muitos treinos no time de basquete. Foi na escola, também, que me dei conta pela primeira vez das vantagens e desvantagens de ter uma voz grave mesmo na idade em que a maioria dos meninos ainda fala com o som de “taquara rachada”.

 

Não tenho dúvida de que minha voz — mais do que a personalidade —- colaborou muito para que eu assumisse posição de liderança nas discussões de política estudantil e nas atividades esportivas. Levava vantagem porque falava mais alto do que os outros. Mas ao mesmo tempo, o “vozeirão” me provocava constrangimento.

 

Foram muitas as vezes que, na dúvida entre uma resposta e outra no exercício de um exame qualquer, meu cochicho no ouvido do vizinho de carteira escolar reverberava no quadro negro e chamava atenção do professor. Outro motivo de incômodo era a brincadeira do dono da cantina que não se cansava em dizer: “enquanto os meninos trocam a voz fina pela grossa quando crescem, você vai mudar da grossa para a fina”.

 

Afinar não afinou, mas logo comecei a sentir problemas na garganta. Fosse depois de um recreio barulhento, uma festa com som alto, um discurso para o pátio repleto de gente, uma partida de futebol, sentado na arquibancada do estádio torcendo pelo meu Grêmio, o resultado final era o mesmo: rouquidão. Quase não conseguia falar. Situação que se agravou quando comecei a usar a voz profissionalmente. Os excessos foram tantos que o diagnóstico não tardou a surgir. Fui para a mesa de cirurgia tirar um nódulo nas cordas vocais, operação que me deixou sem falar por alguns dias e se tornou inócua por falta de orientação médica. Sem nenhum treinamento posterior, as dificuldades voltaram a aparecer.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, contrastado pela TV Globo. Um passo e tanto para quem ainda era inexperiente na profissão e havia trabalhado apenas um ano no veículo. A pressão psicológica se refletia na garganta. Algumas horas de trabalho e a voz começava a sumir. Foi quando conheci uma dessas figuras que se transformaram em ícone do jornalismo brasileiro, mesmo sem ser jornalista: Glorinha Beuttenmüller. Quase um mito, já que suas histórias —- muitas, lendas —- corriam o Brasil e, em cada estado que chegavam, recebiam uma nota mais alta. A fama era de que o sucesso dependia da palavra final dela. Só sobreviveriam os ungidos por sua benção.

 

Não precisei mais de um encontro para descobrir a verdade por trás daquela figura mística. Glorinha Beuttenmüller não era semideus. Era ser humano. Atendia a todos e tinha uma palavra para cada um dos seus ‘pacientes’. Ficou espantada quando lhe contei que apesar de ter feito uma cirurgia nas cordas vocais jamais havia sido orientado a procurar uma fonoaudióloga. Como sua presença na Globo de São Paulo não era frequente, dedicava seu pouco tempo comigo dentro de uma ilha de edição, reproduzindo minhas reportagens e chamando atenção para o forte sotaque gaúcho que marcava minha fala. Brincava —- ou seria uma ameaça? — ao dizer que iria proibir meu retorno ao Rio Grande do Sul, pois bastava um fim de semana nos pampas para o trabalho dela ir garganta abaixo.

Apenas alguns anos depois, quando ela e eu já não trabalhávamos mais na TV Globo, fui descobrir que Glorinha havia vivido boa parte de sua infância pelo interior gaúcho, tempo suficiente para detectar os defeitos da língua. Que fique bem entendida a frase anterior. A Globo, que fazia a primeira experiência de rede nacional de televisão, tinha como objetivo suavizar a pronúncia regional para não ferir os ouvidos alheios. O sotaque rasgado tem o mesmo efeito do excesso de gestos diante da câmera ou o uso de brincos, colares e gravatas extavagantes. Como bem define o jornalista Armando Nogueira, são vampiros que sugam a atenção do telespectador deixando a informação em segundo plano.

Lá no Rio Grande do Sul, além do sotaque trouxe algumas expressões, também. Goleira, atucanado, bragueta, pandorga, bergamota e barbaridade —- esta última podendo ser usada apenas pelo apelido, “bá”, ou acompanhada pelo polivalente “tchê” —- tornavam meu vocabulário exótico em terras paulistas e o trabalho de Glorinha mais difícil. Não havia erros de português ao utilizá-las mas atrapalhava o entendimento da mensagem. Parte pela insistência dela — que só não foi maior porque logo deixaria a emissora —- e parte pela facilidade que sempre tive em imitar a língua alheia, fui deixando o regionalismo de lado. Neste processo não poderia esquecer os puxões de orelhas do jornalista Carlos Tramontina, na época âncora do Bom Dia São Paulo, da TV Globo. Um professor na redação que quase perdia as estribeiras quando me ouvia dizer que “o fuca subiu a lomba e, em frente a lancheria, travou para não atropelar o guri com a pandorga na mão” (aperte a tecla sap: “o fusca subiu a ladeira e, em frente a lanchonete, brecou para não atropelar o menino com a pipa).

 

Apesar dos poucos encontros que tive com Glorinha, lembro de outra recomendação que fazia ao assistir às minhas passagens nas reportagens e participações ao vivo: “você tem de sentir os pés firmes e sentir o cóccix”. Era a a forma de explicar como manter uma postura equilibrada que transmitisse segurança. Em 1992, Glorinha Beuttenmüller deixou a TV Globo. Meu sotaque estava aparentemente dominado, mas ainda encontrava dificuldade para controlar a saúde vocal. De qualquer forma, minha primeira boa experiência com uma fonoaudióloga me abriu caminho para outras relações mais duradouras que me ensinaram a importância desta profissional.

Antes de seguir em frente, um pedido de desculpas: uso a palavra que designa o profissional responsável pela terapia da fala no feminino por força do hábito. Sempre trabalhei, entrevistei, fui entrevistado e li textos de fonoaudiólogas. Portanto, levando minha experiência em consideração, fonoaudiólogos que aí estão lutando contra a discriminação sofrida pelo sexo frágil, o masculino, me perdoem.

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

Expressividade: não confiamos em que não age naturalmente

 

Você acompanha a terceira parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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O BICHINHO DO HÃ-HÃ

 

Algumas pessoas quando se preparam para falar têm o péssimo hábito de chamar o “bichinho do hã-hã”. Colocam a mão fechada diante da boca e dão duas tossidas curtas. Deixo para as fonoaudiólogas explicarem os males que esse cacoete provoca na saúde vocal. A mim cabe destacar que esse comportamento já se transformou em caricatura de oradores. Em qualquer paródia, no rádio ou na televisão, em que aparece alguém pronto para o discurso, lá vem o malfadado “hã-hã”. Transformou-se em símbolo do político “enrolão”, da autoridade provinciana, uma espécie de chato de galocha. Daqueles que não deixam escapar uma festa na empresa, um casamento do cunhado ou o batismo do filho do chefe sem pedir a palavra para um breve improviso. Essa gente que já ganhou lugar anedótico no imaginário popular. Que ainda não se deu conta que a “Era do Discursão” já era.

 

A comunicação passou a ser fator de transformação da sociedade. A mensagem é recebida por uma audiência mais qualificada. Mesmo o cidadão do pequeno vilarejo lá nos cafundós do Judas não se satisfaz mais com as palavras bonitas do “doutor”. Em lugar das citações tiradas do livro de poesia barata, quer definições. Não se satisfaz com a promessa de “mais saúde, educação e segurança”. Que saber como conquistá-las. Não se seduz pelos “minha gente”, brasileiros e brasileiras” e “trabalhadores do Brasil”, que marcaram a fala de velhos presidentes da República e passaram a ser mais repetidos do que estrofe de marchinha de carnaval. Sem o mesmo sucesso, diga-se de passagem.

Para conquistar o ouvinte apenas com a fala é preciso ganhar a confiança dele. E nós não confiamos em que não age naturalmente. Por isso, o tom deve ser coloquial, como se estivéssemos em uma conversa a dois. O mais próximo possível de um bate-papo. Ressalto a palavra “possível”porque mais adiante veremos que a comunicação, dependendo do meio pelo qual é feita, sempre terá aspectos artificiais. Na próxima vez em que você for convidado para umas rápidas palavras na reunião da empresa, experimente conversar com seus colegas em vez de discursar. Você notará a diferença nos cumprimentos que receberá logo após o evento.

Aqueles que trabalham ou usam o rádio para se comunicar têm que ter cuidado ainda mais especial. A fala é o principal instrumento da comunicação radiofônica. Não me refiro apenas à voz. Essa é um fator fisiológico resultado de uma série de ações do corpo, desde o ar que sai dos pulmões, provocando as pregas vocais, até a forma como o som lá produzido vai se refletir nas cavidades da face e será articulado pela língua e afins. Falar é um processo muito mais complexo. É a maneira como a voz se expressa.

 

Você já parou para ouvir João Gilberto ao violão, certamente. A voz desse baiano refinado é quase um suspiro capaz de conduzir o público para o mundo dele. Aproxima as pessoas para seduzi-las em seguida. Mas, como ressaltou certa vez o jornalista Daniel Piza, apenas parece ter um fio de voz, porque, em sua juventude, cantava à la Lúcio Alves. Ouça João Gilberto e aprenda a lição que soa em meio à canção. Um tapa de luva naqueles que pensam em se transformar em líder na marra. Para quem não entendeu que no mundo da comunicação não se vence no grito. Mas na fala afinada com o bom senso.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Dia Mundial da Voz: “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

Minha primeira experiência em livro surgiu pelas mãos da fonoaudióloga Leny Kyrillos, organizadora de “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), publicado em 2005. Ela convidou 19 especialistas no tema da comunicação para que descrevessem o resultado de seus estudos e pesquisas. Eu era o 20º autor, uma espécie de gaiato neste navio, que  reunia mestres e doutores. Ao contrário dos demais colegas de publicação, era apenas um jornalista que havia aprendido muito mais dentro da redação do que na academia. Minha missão foi falar da vivência ao lado de colegas de profissão e de como uma série de fonoaudiólogas foi fundamental para minha formação. 

 

Para marcar o Dia Mundial da Voz, comemorado no dia 16 de abril, que neste ano tem como tema “Em tempos de distanciamento físico, a voz nos aproxima”, começo hoje a reproduzir, aqui no Blog, o capítulo de minha autoria “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

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Milton F Jung, o pai, foi a voz do Rio Grande e apresentou o Correspondente Renner

 

 

“Aqui fala o Correspondente Renner …”. Durante 42 anos, esta frase marcou uma das mais tradicionais sínteses noticiosas do rádio brasileira. Uma corneta estridente, com toque militar, era a característica musical que identificava o programa de notícias da Rádio Guaíba, de Porto Alegre. Já nos seus primeiros acordes, o ouvinte se ajeitava na cadeira, o motorista levantava o som do rádio no carro, as crianças tinham de fazer silêncio. E nos restautaurantes em que o serviço de alto-falante retransmitia a emissora, o barulho diminuir, como testemunhou, certa vez, Claudionor Bayard, garçom de uma churrascaria de Carazinho, cidade do interior do Rio Grande do Sul.

 

“Aqui no restaurante acontece uma coisa engraçada. O serviço de alto-falante funciona na Guaíba o dia inteiro. Quando chega a uma da tarde toca aquela corneta do Rener. O ruído ambiente baixa para mais da metade. As pessoas começam a falar mais baixo e até o barulho dos talheres diminui. Todos prestam atenção no Correspondente Renner”

 

Claro que estou falando de um tempo em que na sala da casa ou no salão do restaurante, o rádio predominava. Os aparelhos de televisão ainda não haviam encontrado seu lugar definitivo nem tinham tamanho suficiente para se sustentarem pendurados nas paredes. Época em que as sínteses noticiosas eram a principal e mais confiante fonte de informação. Naqueles tempos, em Santa Rosa, outra cidade gaúcha, as casas que tinham janelas de frente para a calçada permaneciam abertas. Não havia a necessidade das grades e muros que fazem parte da arquitetura atual. Lá de dentro era possível ouvir o som do rádio que ecoava pelos corredores de madeira e vazava para a rua. Lembro sempre de uma história que ouvi do jornalista Eridison Lemos, que após deixar o interior do Estado, fez sucesso nas redações das rádios Guaíba e Gaúcha.

 

“Quando eu trabalhava numa estação de rádio, em Santa Rosa, meu horário de saudade era a uma da tarde. Morava a uns 500 metros da emissora e ao me dirigir para casa ía ouvindo o Correspondente Renner sem levar nenhum rádio comigo. Eu ouvia pelo rádio dos vizinhos, pois em cada rua ou quadra havia pelo menos uma pessoa ouvindo a Guaíba”

 

Síntese noticiosa é um programa radiofônico em que os principais fatos são apresentados em textos curtos e diretos, com duração que varia de cinco a dez minutos. A locução é feita com velocidade, passando a sensação da urgência dos fatos ali noticiados. A fórmula foi consagrada pelo Repórter Esso que começou a ser transmitido pelas rádios Nacional, do Rio de Janeiro, e Record, em São Paulo, em agosto de 1941. Dezesseis anos depois, em maior de 1957, no Sul do País entrava no ar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que tinha como destaque na sua programação o Correspondente Renner. O noticiário, que começou com quatro edições diárias, em pouco tempo se transformou na principal fonte de informação do público gaúcho.

 

O Correspondente Renner teve quatro apresentadores em toda sua história, que se encerrou em 1999 quanto a empresa patrocinadora que emprestava o nome à síntese não renovou contrato com a Guaíba. Atualmente o patrocinador é a Portocred. A mudança foi apenas no nome já que a emissora manteve as demais características do programa. A começar pelo apresentador Milton ferrete Jung que durante 35 anos foi reconhecido como a “voz do Renner”. fato que lhe garante desde então um recorde. É o locutor que há mais tempo apresenta um mesmo noticiário no Brasil.

 

Aqui, caro leitor, peço licença para uma pausa nesta conversa. Há necessidade de alguns esclarecimentos urgentes antes que você desista desta leitura e pule logo par ao próximo capítulo.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, mesma produção deste que lhe escreve. É natural do Rio Grande do Sul, assim como o autor deste texto. Trabalha na Rádio Guaíba, de Porto Alegre, como já fiz no início da minha carreira, lá pelos anos 80. Narra futebol, como já tentei certa vez em televisão. Se não bastasse tem o mesmo nome do acima assinado. Não se espante. Apesar das coincidências não sou eu, não. Mesmo porque ainda não fui contaminado pelo vírus que toma conta de alguns jogadores de futebol que costumam falar deles próprios na terceira pessoa: “O Zé Bedeu chega para somar”, o “o Zé Bedeu promete que vai jogar com muita raça e determinação”. E dê-lhe Zé Bedeu pra lá e pra cá na entrevista do próprio. As nossas semelhanças não são mera coincidência. O Milton, personagem desta história, além de ser tudo aquilo que já descrevi, é meu pai. Posso garantir, contudo, que a presença dele neste texto tem razões bem mais lógicas do que somente os laços familiares, como você verá mas adiante.

 

Esclarecimentos à parte, vamos em frente.

 

Seja pelas questões familiares, seja pelo costume de boa parte dos gaúchos, ouvir o Correspondente Renner era uma obrigação em casa. Quantas vezes minha mãe não abusou de nossa ingenuidade para garantir silêncio e respeito na sala logo que o noticiário começava: “vamos ficar quieto, crianças, se não o pai de vocês vai acabar ouvindo esta bagunça”. Anos depois, mesmo sem ainda ter lido os ensaios de Marsahl McLuhan, percebi que aquela caixa de madeira de onde saía o som da voz de meu pai não tinha ouvidos. Não demorou muito para outros fatos bem mais relevantes naquela transmissão me chamarem atenção.

 

TUDO ESTAVA CARO DE MAIS

 

José Sarney era o presidente da República. Na política, o Brasil ainda aprendia a viver no regime democrático. Na economia, um caos. A inflação era galopante. o preço da gasolina, ainda sob controle “rígido” do governo, subia a cada semana. E no Correspondente Renner, Milto Ferretti Jung traduzia a indignação do cidadão apenas com o recurso da voz. A mudança de tom que beirava a ironia, a quebra de ritmo na frase e a articulação mais precisa da palavra ao informar o novo valor do livro da gasolina expressavam um sentimento que aproximava o radialista do seu público. Tornava-o cúmplice do ouvinte, propiciando a identificação do receptor com aquilo que era transmitido.

 

Foi naquele período que, pela primeira vez, percebi o poder que o locutor de notícias tinha de persuadir o público através da expressividade da voz. Uma lição marcante para quem começava a sonhar com a oportunidade de se transformar em jornalista e colocar em prática aquilo que aprendera dentro de casa. Mais Importante ainda porque esta ferramenta me soava inusitado para a época, principalmente se o assunto era a síntese noticiosa. Imperava no rádio o padrão impostado quase monocórdio. Mas valia o “vozeirão” do que a expressão.

 

O incômodo popular com as constantes mudanças de preços naqueles tempos de inflação draconiana — nós já vivemos épocas assim, não lembra mais? — era reporduzido na ênfase da narração de Milton Ferretti Jung. Daquela forma, o locutor conspirava, consciente ou não, contra a retórica objetiva do rádio na qual a linguagem usada na construção do discurso era direta e reta. Sem espaço a interpretações, imaginavam os autores da tese.

 

Poucos locutores arriscavam novas fórmulas na apresentação das notícias mesmo porque ainda havia os mitos da imparcialidade e da objetividade da informação. Como se a simples seleção dos fatos transmitidos e a própria ordem com que estes são apresentados já não expressassem uma ideia. Até hoje, manuais de radiojornalismo de algumas emissoras reforçam a necessidade de se manter estes dois componentes na edição de um programa. Confundem imparcialidade com isenção e objetividade com correção.

 

Mostrem-me um jornalista imparcial e eu lhe apontarei uma mentida. Este só existe na teoria acadêmica. Você nasce, vive, convive, aprende, entende e pensa. Em cada etapa deste processo sofre influência. Cria suas próprias teses. Desenvolve suas ideias ou as copia. O jornalista — parafraseando aquele ministro do Trabalho —- também é ser humano. Tem seus valores e a partir deles toma partido, às vezes tem partido. Quase sempre torce para este ou aquele. Vibra com seu time de futebol, reza nesta ou ora naquela religião. Preza alguns, desgosta de outros e odeia mais tantos. Onde está a imparcialidade?

 

A meta tem de ser outra. Ao jornalista cabe a isenção ao executar se trabalho. Esta é possível. Aliás, é necessária. Deve ter respeito com o entrevistado, esteja este na seção dos que preza, desgosta ou odeia (se houver problema com este último, tome um Engov antes e outro depois que passa). Não há jornalismo sem o contraditório. Os diferentes pontos de vista devem ser apresentados para que o público tenha a sua própria opinião. É na busca da isenção que se afasta o risco de os meios de comunicação transformarem-se em doutrinários, instrumentos de grupos econômicos, políticos e religiosos.

 

Amanhã, leia a segunda parte do capítulo Santo de casa não faz milagre mas tem expressão, do livro “Expressividade, da teoria à prática”

Virada vocal: “em tempos de distanciamento físico, a voz nos aproxima”

 

 

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O Dia Mundial da Voz, data que surgiu em movimento criado em São Paulo, é comemorado todo 16 de abril. Neste ano, não será diferente. E, claro, o coronavírus e seus efeitos pautarão as atividades programadas. A Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia promoverá a Virada Vocal, em uma série de eventos online. Leia a seguir o material de divulgação da SBF, compartilhe a informação nas suas redes sociais e aproveite para se desenvolver pessoal e profissionalmente com o conhecimento que estará disponível:

Em um momento em que a maioria da população está isolada em suas casas, como é possível ficar mais perto? Seja para estar com familiares, amigos ou no meio profissional, a tecnologia tem tido papel importante para que uns estejam presentes na vida dos outros, tanto por texto e imagem, como principalmente pela voz.
 

 

Pensando nisso, a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia lança a Virada Vocal, evento que contará com 24h de programação on-line para tratar sobre este aspecto que é tão significativo na comunicação.
 

 

“O nosso objetivo com a ação é destacar a importância da voz em nosso cotidiano pessoal e profissional para nos expressar e, especialmente no contexto de distanciamento físico, de nos aproximar, identificando os cuidados necessários que precisamos ter com ela e tudo o que a envolve.”, conta Dra. Lívia Lima, coordenadora do departamento da Voz da sociedade.
 

 

A ação faz parte da Campanha Amigos da Voz, realizada anualmente para conscientizar a população a respeito dos cuidados com a voz e em alinhamento ao Dia Internacional da Voz, celebrado em 16/04. O tema escolhido para 2020 é “Em tempos de distanciamento físico, a voz nos aproxima”, levando em consideração o cenário atual e toda a mudança de rotina e mercado promovida pelo aparecimento do novo coronavírus.
 

 

Entre os destaques da agenda estão as palestras “Impacto da Covid-19 no mercado da música”, “Profissionais da voz e epidemias: recomendações e cuidados”, “Voz e jornalismo”, “voz e comunicação do professor” e “Demandas fonoaudiológicas no atendimento de voz e comunicação da população trans e travesti”.
 

 

“Não queremos falar apenas com um indivíduo, mas diversos deles. Isso inclui fonoaudiólogos, claro, mas também professores, jornalistas, cantores e leigos. Todos aqueles que têm voz, por fim”, afirma Dra. Thays Vaiano, vice-coordenadora do Departamento da Voz da SBFa.
 

 

A programação, totalmente gratuita, começa às 20h do dia 15 e vai até as 20h do dia 16 de abril.
 

 

AGENDA
 

 

O quê: Virada Vocal
 

 

Quando: De 15/04 a 16/04, às 20h
 

 

Onde:https://www.youtube.com/user/SBFaorg

Falando com as máquinas

 

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Dia desses testei pela primeira vez o uso do sistema de voz para pedir orientação ao aplicativo de trânsito — parece incrível que o recurso esteja disponível há tanto tempo e eu continue a dedilhar os endereços onde pretendo chegar. É cultural. Mesmo a TV conectada que recebe comando de voz segue sendo acionada em casa pelo controle remoto. Sempre fiz assim. Nunca me senti confortável falando com uma máquina — ainda que tenha dedicado a vida a falar com um microfone.

 

Ao telefone, quando procuro o call center de algumas empresas, a máquina que me atende tenta disfarçar sua falta de humanidade. Se esforça para revelar intimidade que não existe entre nós. Faz perguntas com reticências, mas não me engana. É máquina como qualquer outra e minhas respostas saem em tom de constrangimento. Acho estranho.

 

Por outro lado, minha sobrinha americana mais nova já faz lição de casa com auxílio de uma assistente digital, para a qual faz perguntas ao deparar com uma dúvida ou pede música para acompanhá-la enquanto realiza os trabalhos escolares. Lá no país em que mora quase um quinto das casas têm assistentes de voz — logo ocuparão o cômodo das nossas casas aqui no Brasil, em grande escala, também, porém antes a maioria delas terá de falar em português.

 

As novas gerações estão aderindo muito rapidamente a esses equipamentos, talvez até em maior velocidade do que aderiram aos smartphones. Nós, migrantes digitais, também vamos nos acostumar com essa realidade. E o que para mim ainda é constrangimento ganhará ares de naturalidade.

 

Relatório da National Public Media, contou o Globo dia desses, mostra que a maior parte dos americanos usa os assistentes para ouvir música (60%), responder a uma pergunta (30%), contar uma piada (18%) —- convenhamos, que coisa mais sem graça —, falar sobre o clima (28%), ligar o rádio (13%) — esta eu gostei —, dar notícias (13%) e programar o alarme (13%).

 

Como em todos os avanços tecnológicos que impactam nossos hábitos é preciso cuidado — corremos o risco de criarmos filhos que falam mais com as máquinas do que com os pais. Ou com os amigos.

 

Aliás, já estamos fazendo isso — e o inimigo nas são as máquinas — como se percebe em reportagem da edição dominical de O Globo, na qual traduz texto da pesquisadora Rachel Simmons, publicado originalmente no Washington Post.

 

Segundo ela, estudo de uma empresa de saúde identificou que a turma mais velha do que minha sobrinha, jovens de 18 a 22 anos, forma a geração mais solitária de americanos.

 

Jovens solitários, que triste!

 

Apesar do uso constante de equipamentos eletrônicos — como celulares e assistentes digitais — , estes estão longe de serem os responsáveis pela solidão. O grande mal constatado é o excesso de tarefas na fase entre o fim do ensino médio e o período na universidade.

 

Com agenda repleta, eles e elas têm pouco tempo para o convívio — mesmo que estejam realizando trabalhos em grupo. Não conversam sobre a vida, têm de falar de compromissos.

 

Pesquisa de Calouros da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) de 2015, que inclui respostas de 150 mil estudantes em tempo integral de mais de 200 faculdades e universidades, mostrou que o número de alunos de primeiro ano que passavam 16 ou mais horas por semana com os amigos caiu pela metade em dez anos —- são apenas 18%.

 

Mesmo se a oportunidade de relaxar surge, ficam constrangidos, pois temem serem vistos como pessoas desocupadas, sem objetivo na vida. Sofrem pressão em casa, na escola, dos gestores e dos grupos sociais em que sobrevivem.

 

Se realmente decidirmos entregarmos nossos filhos mais novos à companhia de assistentes digitais, acreditando que preencheremos a lacuna de nossa ausência, é provável que os próximos estudos revelem crianças solitárias — menininhos e menininhas que deixarão de conversar amenidades, sequer saberão como olhar no olho do outro e incapazes de exercitar a generosidade.

 

Simmons escreve que “a capacidade de fazer amigos atrofia se não for usada”.

 

Precisamos de amigos para confidenciar nossas angústias e nossos filhos precisam de pais mais próximos e dispostos a conversar com eles sempre que forem “acessados” — com a mesma agilidade que as máquinas o fazem, mas com o amor que só os seres humanos são capazes de oferecer.

O palco não perdoa, lição para os candidatos a apresentador do Miss Universo 2016

 

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(texto escrito originalmente no Medium.com)

 

Concursos de miss não estão entre os meus esportes favoritos, apesar de me lembrar da família assistindo aos desfiles na televisão, durante a infância em Porto Alegre. O Rio Grande do Sul sempre teve boa fama nas passarelas e talvez por isto esses tenham se transformado em programas especiais para o orgulho gaúcho. Em 63 edições, o Estado teve 14 candidatas no Miss Universo, sendo a mais famosa delas Iêda Maria Vargas, a primeira brasileira a conquistar a coroa, em 1963. A medida que a adolescência surgia, o evento ficava mais brega e sem sentido.

 

Hoje, tenho apenas informações protocolares do Miss Universo, por isso me surpreendi com a atenção que um dos meus cunhados dedicou a transmissão feita na noite de segunda-feira, pela Fox, aqui nos Estados Unidos. Sem perder nenhum lance (sequer os relances) fez torcida especial por uma das candidatas — ou a italiana ou a americana, imagino, dadas as suas origens. Soube por ele que a brasileira, Marthina Brandt — outra gaúcha, registre-se -, ficou entre as 15 finalistas, mas não conseguiu chegar à grande final. Que pena — até porque era gremista!

 

Claro que não estou aqui para falar do potencial do Rio Grande nos concursos de beleza, mesmo que este possa ser assunto instigante para alguns dos caros e raros leitores deste espaço. Fiquei mais curioso mesmo foi com a gafe cometida pelo mestre de cerimônia, o comediante Steve Harvey, sucesso no rádio, na TV e nos palcos americanos, além de autor de dois livros.

 

A esta altura você já deve ter lido algum artigo ou visto algum meme no Twitter mais próximo sobre o engano de Harvey. Em lugar do nome da candidata das Filipinas, Pia Alonzo Wurtzbach, ele anunciou como vencedora a colombiana Ariadna Gutiérrez Arévalo, que chegou a vestir a coroa de miss, posar como miss e chorar como miss. Emoção, pelo que se soube, compartilhada com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que assistia ao evento pela TV.

 

A alegria colombiana foi interrompida pela cena mais constrangedora de todos os tempos do concurso: Harvey, com seu vozeirão, foi obrigado a pedir desculpas (“There’s. … I have to apologize.”), confessar o erro, mostrar o cartão oficial com o resultado e chamar a filipina Wurtzbach para a troca de coroa. Rainha deposta, rainha posta.

 

 

Na noite passada, Harvey não deve ter tido o sono mais tranquilo de seus 58 anos de vida e 30 de carreira. Verdade que na década de 80, por muito tempo, não tinha casa para morar e dormia após os shows dentro de um Ford 1976, enquanto, desta vez, deve ter ido para a confortável suíte providenciada pelos organizadores da festa. Mas, certamente, isto não terá sido suficiente para seu consolo.

 

Mesmo já tendo conquistado muito sucesso nos vários papéis que exerceu, a performance no palco do Miss Universo vai acompanhá-lo por anos. Será vítima de um paradigma da Era Digital que eterniza erros reais graças ao alcance do mundo virtual. O artigo de Steve Harvey no Wikipedia, em inglês, já registrava a gafe minutos após o acontecido. E, em língua portuguesa, a história ocupa mais espaço do que toda a descrição de sua bela carreira.
Steve Harvey

 

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Distante de qualquer comparação, a infelicidade de Harvey me deixou muito incomodado, pois costumo ser convidado para exercer o papel de mestre de cerimônia em diferentes eventos. Há poucas semanas, estive no Prêmio Aberje, destinado aos melhores do jornalismo corporativo, e, na véspera das férias, no Prêmio Findes, oferecido às melhores reportagens do Estado do Espírito Santo. No ano que se encerra, por mais de uma dezena de vezes, tive o privilégio de estar na apresentação de outras atividades.

 

Antes que você pergunte: não, nunca apresentei concurso de miss, ao menos profissionalmente; sequer tenho perfil para tal. Aos candidatos (a mestre de cerimônia em desfile de beleza) exige-se muita fama e talento artístico.

 

Considerando que jamais me capacitei para estar à frente de evento da mesma dimensão, também jamais me coube a possibilidade de cometer erro semelhante. Puxo da memória e não encontro gafes merecedoras de registro, talvez porque as que tenham ocorrido não se tornaram públicas. Recentemente, anunciei o vencedor antes de chamar o vídeo de apresentação, mas esta falha entra no rol das que “só o roteirista ficou sabendo”.

 

Comecei a atuar como mestre de cerimônia há 15 anos quando era âncora na televisão. Hoje, a visibilidade que o trabalho de rádio me oferece reforça o potencial de convites para a função. Mesmo assim não me considero um profissional do setor. Por isso, para seguir em frente neste artigo que busca entender o erro cometido por Steve Harvey, peço licença para recorrer ao conhecimento de um outro membro da familia, Christian Jung, esse sim especializado no assunto, pois desde 1998 integra equipe de cerimonial, no Rio Grande do Sul, e participa de atividades oficiais com chefes de estado e de governo, diplomatas e outras autoridades do setor público e privado — que exigem precisão no conteúdo e rigor na forma, pois estão submetidas a regras bastante rígidas.

 

(a propósito: o Christian assistia ao meu lado e da família aos concursos de Miss na televisão)

 

Que fique claro, desde agora: cerimônias pedem posturas diferentes conforme sua finalidade; se oficial, mais disciplina, se festiva, mais espontaneidade; as próprias características do mestre de cerimônia contratado costumam ditar a forma da apresentação, como se lê em texto publicado por Christian Jung em seu perfil no LinkedIn.

 

Qual a sua expectativa com o Mestre de Cerimônia? (leia depois o texto do Christian, no LinkedIn)

 

Quando se tem no palco uma personalidade como Harvey, espera-se o improviso bem planejado, dá-se autorização para iniciativas próprias dentro do clima da festa, permite-se o gracejo na hora certa e o “desrespeito” ao roteiro. Se o mestre vem de um escola de cerimonialistas, a intenção é que o protocolo prevaleça, com a hierarquia dos presentes sendo respeitada e a disciplina, mantida. Em ambas as situações, descontraídas ou não, deve-se ter o controle das ações, com a acompanhamento prévio dos detalhes de todo o evento, de preferência ensaiando sempre e estar pronto para os erros que, como diz o ditado, são insidiosos.

 

Planejar para o fracasso é estratégia usada tanto por grandes executivos como por renomados profissionais de diferentes áreas, pois mesmo a mais rigorosa das organizações é incapaz de garantir falha zero. Assim, traçar planos para o que possa ocorrer e para o que, tomara, jamais aconteça, é essencial. O público pode ser hostil a brincadeiras? O evento tem conotação política e gerar vaias? E quanto ao equipamento? Se o microfone falhar tem de se ter outro a mão e se o teleprompter apagar, o roteiro tem de estar impresso. Se as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo: que baita azar, hem!

 

E se o apresentador anunciar errado o nome da miss? “There’s. … I have to apologize.” Perdão, mas não resisti à brincadeira.

 

A princípio, Steve Harvey confundiu-se com a ordem dos nomes que estavam registrados na ficha entregue pelos jurados. É o que ele deu a entender. Mas por que isso teria ocorrido? Difícil fazer o diagnóstico à distância. Arrisco pensar que a segurança excessiva do apresentador tenha traído sua atenção. Mesmo sendo o ponto alto do concurso, vamos lembrar que Harvey já havia conduzido com desenvoltura toda cerimônia, que, aliás, é complexa, pois tem diversos desfiles, escolhas do júri, participação do público e entrevista das finalistas. Portanto, ele se sentia com o domínio pleno da festa. O bam-bam-bam …

 

O palco não perdoa, ensina Christian Jung em sua lista de dicas úteis para mestres de cerimônia. A segurança importante para o bom desempenho do apresentador pode se transformar em armadilha, se ele não se mantiver em posição de vigilância do início ao fim do evento. Assim que ele baixar a guarda, assim que surgir o primeiro sinal de soberba, o fracasso se apresenta e pode ser fatal, como o da noite de segunda-feira, em Las Vegas.

 

Fala,voz, ritmo, adjetivos do MC (leia depois este outro texto do Christian, no LinkedIn)

 

Com base no que diz e escreve sobre cerimônias oficiais, elenco algumas das principais recomendações do mestre de cerimônias Christian Jung, que podem servir para você em qualquer tipo de evento (desde o concurso da miss universo — já que estão aceitando currículo para o ano vem — até a festinha junina da escola dos seus filhos):

 

1.Seja humildade. Entenda que o mestre de cerimônia apresenta o evento, ele não é o evento.

 

2.Tenha disciplina e conheça o evento em detalhes.

 

3.Mantenha o foco; quanto mais atenção você dispensar ao que estiver fazendo, maior a chance de ficar concentrado por longos períodos na mesma tarefa.

 

4.Esteja atento, no cerimonial público as coisas mudam com muita velocidade; esteja firme porque da sua capacidade dependerá o bom andamento do evento.

 

5.Antecipe-se, reconheça o lugar, ajuste o teleprompter e preveja possíveis problemas; isto aumenta as chances de dar tudo certo. Mas não esqueça: quando o evento começa, tudo pode acontecer.

 

6.Ferramentas do mestre de cerimônia: roteiro, caneta, microfone e público.

 

7.Preocupe-se com o que está escrito no papel que você lê e não com o que falam de você.

 

8.Comece a fala de forma natural, despertando no ouvinte o interesse no conteúdo da apresentação.

 

9.Tem de ter voz qualificada, dicção, postura, conhecimento das regras do cerimonial e, sem dúvida, bom senso. Cerimonial vive de bom senso.

 

10.A voz não existe isoladamente, está inserida na fala, que por sua vez está inserida no contexto social. Falar implica em transmitir atitude e emoção.

 

11.Ninguém trabalha sozinho. É preciso saber o que dizer e aprender a escutar os colegas.

 

12.Existem vários formatos de solenidade e para cada um deles se imprime uma leitura ou postura diferenciada.

 

13.Descontração nem sempre cabe em ambientes cheios de protocolos e autoridades.

 

14.Excesso de protocolo e formalidades nem sempre cabem em eventos com tema, público e participantes descontraídos; dão a ideia de “cerimonial barroco”.

 

15.Mestre de Cerimônia não faz stand-up comedy!

 

Se o apresentador tivesse feito uma leitura cuidadosa, sem precipitação, do cartão com o nome das vencedoras; se os organizadores tivessem tido o cuidado de registrar de forma mais clara o nome das vencedoras; se todas essas e outras medidas preventivas tivessem sido adotadas, talvez o vexame tivesse sido evitado. Digo talvez, porque não se deve nunca esquecer a lei número 1 de Murphy:

 

Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior
maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível
.

Mundo Corporativo: A voz do líder

 

Esta entrevista ao Mundo Corporativo foi ao ar no dia 28 de abril, mas não havia sido publicado neste blog.

 

O maestro não faz, inspira a fazer, e assim tem de ser o líder em sua empresa. Quem traça este paralelo entre a música e o ambiente corporativo é a maestrina Rita Fucci-Amato, pós-doutorada em gestão da USP, e autora do livro “A Voz do Líder – arte e comunicação nos palcos da gestão”, editado pela Campus. Nesta entrevista no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, ela destaca a importância da fala no desenvolvimento do profissional. Da fala e do silêncio, pois os grandes gestores tem de saber ouvir seus comandados, explica a professora que tem levado para as empresas esta experiência alcançada no trabalho com corais e na academia.

 

Na entrevista, Rita Fucci-Amaro dá importantes dicas para você montar sua estratégia de apresentação e de como melhorar sua qualidade vocal:

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Vejo vozes

 

Reproduzo coluna escrita pela escritora Cláudia Tajes publicada no Caderno 2 do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. E o faço sem perdão nem licença usufruindo um direito que ela não me deu mas que como prima, espero, não me negue jamais. E o faço, também, porque fala de rádio, fala de minha família, fala de minha infância, e fala (ou escreve) com o estilo que lhe é peculiar:

Um dos grandes baratos do rádio é inventar rostos para as vozes que a gente escuta. No meu caso, basta ligar o rádio para a figura do locutor surgir na minha cabeça, mesmo que eu não saiba como ele é. É impossível ouvir uma voz sem imaginar a cara que ela tem. A curiosidade é que nenhum dos locutores que conheci era parecido com a imagem que eu fiz. A surpresa é outra das mágicas do rádio.

Adoro rádio desde criança, tanto porque meu pai passou o gosto aos filhos, quanto pela convivência com o tio Milton Jung, o lendário Correspondente Renner. Engraçado é que um dos programas preferidos de sábado, ir com irmãos e primos à rádio para ver o tio narrar, trouxe também uma decepção da infância: descobrir que não era o Milton quem tocava a cornetinha característica do início do noticiário.

Nessa época fui apresentada, nos aniversários de família, às vozes do professor Ostermann e do Lauro Quadros, e como era bom ver que eles pareciam o nosso rádio de casa quando falavam as coisas mais simples, um sim para a torta fria, um não para a salada de batata.

Outra voz: a da Katia Suman. Muito antes de se transformar em um cabelão familiar para os telespectadores, a Katia pedia um paracetamol na farmácia e o atendente se derretia: Katia Suman! Incrível como ninguém esquece uma boa voz.

A da Sara Bodowsky, por exemplo, eu não esqueço de ouvir, nas vezes em que a madrugada me pega de pé. E quem não lembra da voz que precedeu a da Sara, a do Jayme Copstein, então a companheira dos noctívagos e insones?

Nos últimos tempos, por conta dos convites para participar de um ou outro programa, tenho visto muitas vozes de perto. As dos meus queridos amigos do Cafezinho, vejo praticamente todas as semanas. Da turma Gre-Nal comandada pelo Serginho Couto, também. Depois que a gente vê vozes, ouvi-las no rádio ganha outro prazer.

Volta e meia alguém diz que o jornal vai terminar, que o livro vai morrer, que o CD já era. Sobre o rádio, ninguém arrisca uma previsão desse tipo. A impressão é que ele se espraia cada vez mais, invadindo o celular, a internet e o que mais chegar. Para que as vozes do locutor que nos acompanha e do cantor que tanto amamos não nos abandonem jamais.

Sem voz, só som instrumental da pesada: o novo CD do Arthur de Faria & Seu Conjunto, Música para Ouvir Sentado. Faltam palavras para dizer como é bom.