Conte Sua História de São Paulo: aprendi a andar por aqui com as páginas do guia da cidade

 

Por Pedro Lúcio Ribeiro
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Vivo em Campinas, desde meus dois anos de idade. Logo, sou campineiro aos sessenta.

 

Aos sete ou oito anos, conheci São Paulo, no Parque Edú Chaves, e fiquei vivendo na casa dos tios por uma semana em companhia de meu priminho de oito meses.

 

Naqueles dias, conheci a televisão assistindo ao Zas-Trás, programa infantil apresentado pelo “Tio Molina” e pela “Tia Márcia”. Hoje esse priminho é Tenente Coronel Reformado, aposentado, da PM de São Paulo.
 

 

Muito tempo depois, mais de 25 anos, tive de me embrenhar nas ruas e avenidas de São Paulo, sozinho, por minha conta, para cumprir missão decorrente de um concurso para o cargo de escriturário na Secretaria de Fazenda de São Paulo.
 

 

Putz! Eu não conhecia São Paulo, tinha medo de andar sozinho, mas tinha de ir à Secretaria da Fazenda para tomar posse do cargo de “Escriturário Lei 500” (só quem é do ramo sabe o significado disto).
 

 

Peguei um “Cometão” de Campinas a São Paulo com algumas páginas de um guia da cidade. Apeei antes da Julio Prestes – antiga rodoviária – e fui contando as quadras e as quebradas pelas quais eu deveria passar para chegar ate a Rangel Pestana, número 300.
 

 

De lá, outras instruções para exames médicos no Instituto de Assistência Médica do Estado de São Paulo. Tive de pegar as páginas do guia no bolso da calça para ver como chegar na rua Maria Paula passando pelo viaduto Maria Paulina, etecetera e tal. 

 

Fiz o trajeto pelo menos três vezes, sempre acelerado. Era tal a minha tensão  e concentração que muitos pensavam que eu era dali e paravam minha caminhada frenética para perguntar uma ou outra informação. E, medroso, medo de ser assaltado, eu falava qualquer coisa para me desvencilhar da pessoa.
 

 

Coitada de uma mulher, coitado de mim. Uma senhora queria ir para São Miguel e me perguntou se aquele ônibus pertinho de nós, por onde eu passava, fazia este trajeto. Eu apressado disse que sim. Só depois li no letreiro que o itinerário era outro e no sentido oposto: jóquei clube ou coisa parecida.

 

Depois disto, vinte e tantos anos depois, conheci essa cidade como “motorista de juiz”. Hoje, sei andar por São Paulo como se paulistano fosse. Mas não gosto de ser motorista por aqui. E não gosto por razões que só explico em verso:
 

 

“Cidade imponente, decadente e ultrapassa,
adorada só por gente impaciente e afobada.
Que loucura é aquilo ali! Quanta gente nas calçadas!
Cedo, tarde ou à noitinha… Ou varando a madrugada.
 

 

Seu tamanho é seu orgulho.
Seu tamanho é seu perigo.
Ali cheguei sem barulho, paranóico e nada rico.
 

 

Que me vê até se ilude.
Pensa até que sou dali.
Tenho cá minhas virtudes,
E uma delas é fingir.

 

São Paulo imponente,
São Paulo meu terror,
Eu não sei se te odeio,
Ou por ti declaro amor!

 


Pedro Lucio Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Débora Gonçalves. Conte você também a sua história. Escreva para milton@cbn.com.br

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