Expressividade: transforme o ouvinte em “escutador”

 

 

Você acompanha a segunda parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

singer-340210_960_720

foto: Pixabay

 

 

SEGURANDO NO GOGÓ

 

 

Maria Adelaide Amaral escreve livro, peça e minissérie. Consegue fazer tudo isso com sucesso e paixão. Durante entrevista em que contava suas façanhas na televisão, passamos a conversar sobre “A Casa das Sete Mulheres”, trabalho que arrebatou público e crítica na TV Globo. Logo que ela se deu conta que conversava com alguém natural da terra que serviu de cenário para história, não se conteve e perguntou: “Você sabe cantar o Hino do Rio Grande do Sul?”. Saber o hino, eu sabia, mas cantar, nem pensar. Apesar de ser um profissional da voz, nunca tive afinação suficiente —- ou seria consciente? — para a música ou para o grito de gol. No futebol até arrisquei, mas fujo do karaokê como o diabo da cruz. Para não correr o risco de Maria Adelaide Amaral insistir no convite para que eu desse uma “palhinha” em público, expliquei, constrangido, que música não cantava nem se fosse o hino do meu time do coração.

 

 

Minha carência vocal para algumas atividades me leva a admirar gente que é capaz de segurar a audiência apenas no gogó. Músicos, professores, padres e pastores que transformam a palavra em um poderoso elemento de sedução. Radialistas também fazem parte deste grupo já que têm na voz seu principal recurso para exercer esta arte que exige apuro técnico, esmero profissional e muito jogo de cintura.

 

 

Se nada disso lhe causa admiração, acompanhe esses números e você verá o quanto é desafiante a tarefa da turma aí de cima.

De toda a informação transmitida de uma fonte vocal, portanto que chega até você apenas pelos ouvidos, 60% são retidos nas primeiras três horas. Três dias depois sobram apenas 10%. Talvez isso explique porque os telefones das redações de rádio toquem frequentemente. São ouvintes querendo detalhes de uma notícia que eles não sabem bem a que horas foi divulgada nem, exatamente, sobre o que se tratava, mas lembram, com certeza, que era algo importante para eles. Se comparar os números acima com o poder de retenção da mensagem quando a fonte é apenas visual, você já terá percentuais bem mais generosos. Após três horas do momento em que a imagem foi divulgada, o receptor terá retido 72% da mensagem, enquanto que três dias depois, o índice ficará em 20% —- o dobro do volume de informação retido se a fonte for verbal.

O estudo divulgado pela pesquisadora mexicana Maria Cristina Romo Gil, que integra o Conselho Nacional Para o Ensinamento e a Investigação das Ciências da Comunicação, no livro “Introducción al conocimiento y prática de la radio”, que apresenta as estatísticas sobre a retenção da mensagem pelos sentidos, traz uma informação que não deve desanimar, mas, sim, servir de desafio para quem tem de garantir a audiência apenas no “gogó”. Quando a fonte da mensagem é audiovisual, portanto recebida pelos olhos e ouvidos, 85% da informação são mantidos pelo receptor ao fim de três horas e 65% ficam na memória após três dias. Se servir de consolo: apesar dos números, os telefones nas redações das emissoras de televisão tocam com a mesma frequência, senão maior, que nas redações de rádio.

 

 

As estatísticas parecem não querer ajudar este pessoal que não pode contar com a imagem ou com a própria expressão do corpo para ilustrar o que falam. Por mais que se pesquise, os dados mostram que o componente não-verbal é responsável por cerca de 80% da comunicação. Cabe a esses profissionais enfrentar os moinhos de Quixote com as armas que estão à sua disposição. Transformar o ouvinte em uma espécie de “escutador”. Tirá-lo desta posição confortável, passiva, em que a intenção ao ligar o rádio é apenas a de perceber o som e criar no ambiente uma espécie de fundo musical com a voz do locutor. Incentivá-lo para um novo comportamentos ativo, em que a atenção está voltada para aquilo que é comunicado. Ao provocar esta mudança, o comunicador está próximo de levar a audiência a atingir o estágio ideal que resulta da combinação de escutar e prestar atenção. É o momento da concentração na mensagem, quando o ouvinte não é mais sequer “escutador”e, sim, um “assimilador”.

 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s