Dia Mundial da Voz: “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

Minha primeira experiência em livro surgiu pelas mãos da fonoaudióloga Leny Kyrillos, organizadora de “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), publicado em 2005. Ela convidou 19 especialistas no tema da comunicação para que descrevessem o resultado de seus estudos e pesquisas. Eu era o 20º autor, uma espécie de gaiato neste navio, que  reunia mestres e doutores. Ao contrário dos demais colegas de publicação, era apenas um jornalista que havia aprendido muito mais dentro da redação do que na academia. Minha missão foi falar da vivência ao lado de colegas de profissão e de como uma série de fonoaudiólogas foi fundamental para minha formação. 

 

Para marcar o Dia Mundial da Voz, comemorado no dia 16 de abril, que neste ano tem como tema “Em tempos de distanciamento físico, a voz nos aproxima”, começo hoje a reproduzir, aqui no Blog, o capítulo de minha autoria “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

Milton1

Milton F Jung, o pai, foi a voz do Rio Grande e apresentou o Correspondente Renner

 

 

“Aqui fala o Correspondente Renner …”. Durante 42 anos, esta frase marcou uma das mais tradicionais sínteses noticiosas do rádio brasileira. Uma corneta estridente, com toque militar, era a característica musical que identificava o programa de notícias da Rádio Guaíba, de Porto Alegre. Já nos seus primeiros acordes, o ouvinte se ajeitava na cadeira, o motorista levantava o som do rádio no carro, as crianças tinham de fazer silêncio. E nos restautaurantes em que o serviço de alto-falante retransmitia a emissora, o barulho diminuir, como testemunhou, certa vez, Claudionor Bayard, garçom de uma churrascaria de Carazinho, cidade do interior do Rio Grande do Sul.

 

“Aqui no restaurante acontece uma coisa engraçada. O serviço de alto-falante funciona na Guaíba o dia inteiro. Quando chega a uma da tarde toca aquela corneta do Rener. O ruído ambiente baixa para mais da metade. As pessoas começam a falar mais baixo e até o barulho dos talheres diminui. Todos prestam atenção no Correspondente Renner”

 

Claro que estou falando de um tempo em que na sala da casa ou no salão do restaurante, o rádio predominava. Os aparelhos de televisão ainda não haviam encontrado seu lugar definitivo nem tinham tamanho suficiente para se sustentarem pendurados nas paredes. Época em que as sínteses noticiosas eram a principal e mais confiante fonte de informação. Naqueles tempos, em Santa Rosa, outra cidade gaúcha, as casas que tinham janelas de frente para a calçada permaneciam abertas. Não havia a necessidade das grades e muros que fazem parte da arquitetura atual. Lá de dentro era possível ouvir o som do rádio que ecoava pelos corredores de madeira e vazava para a rua. Lembro sempre de uma história que ouvi do jornalista Eridison Lemos, que após deixar o interior do Estado, fez sucesso nas redações das rádios Guaíba e Gaúcha.

 

“Quando eu trabalhava numa estação de rádio, em Santa Rosa, meu horário de saudade era a uma da tarde. Morava a uns 500 metros da emissora e ao me dirigir para casa ía ouvindo o Correspondente Renner sem levar nenhum rádio comigo. Eu ouvia pelo rádio dos vizinhos, pois em cada rua ou quadra havia pelo menos uma pessoa ouvindo a Guaíba”

 

Síntese noticiosa é um programa radiofônico em que os principais fatos são apresentados em textos curtos e diretos, com duração que varia de cinco a dez minutos. A locução é feita com velocidade, passando a sensação da urgência dos fatos ali noticiados. A fórmula foi consagrada pelo Repórter Esso que começou a ser transmitido pelas rádios Nacional, do Rio de Janeiro, e Record, em São Paulo, em agosto de 1941. Dezesseis anos depois, em maior de 1957, no Sul do País entrava no ar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que tinha como destaque na sua programação o Correspondente Renner. O noticiário, que começou com quatro edições diárias, em pouco tempo se transformou na principal fonte de informação do público gaúcho.

 

O Correspondente Renner teve quatro apresentadores em toda sua história, que se encerrou em 1999 quanto a empresa patrocinadora que emprestava o nome à síntese não renovou contrato com a Guaíba. Atualmente o patrocinador é a Portocred. A mudança foi apenas no nome já que a emissora manteve as demais características do programa. A começar pelo apresentador Milton ferrete Jung que durante 35 anos foi reconhecido como a “voz do Renner”. fato que lhe garante desde então um recorde. É o locutor que há mais tempo apresenta um mesmo noticiário no Brasil.

 

Aqui, caro leitor, peço licença para uma pausa nesta conversa. Há necessidade de alguns esclarecimentos urgentes antes que você desista desta leitura e pule logo par ao próximo capítulo.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, mesma produção deste que lhe escreve. É natural do Rio Grande do Sul, assim como o autor deste texto. Trabalha na Rádio Guaíba, de Porto Alegre, como já fiz no início da minha carreira, lá pelos anos 80. Narra futebol, como já tentei certa vez em televisão. Se não bastasse tem o mesmo nome do acima assinado. Não se espante. Apesar das coincidências não sou eu, não. Mesmo porque ainda não fui contaminado pelo vírus que toma conta de alguns jogadores de futebol que costumam falar deles próprios na terceira pessoa: “O Zé Bedeu chega para somar”, o “o Zé Bedeu promete que vai jogar com muita raça e determinação”. E dê-lhe Zé Bedeu pra lá e pra cá na entrevista do próprio. As nossas semelhanças não são mera coincidência. O Milton, personagem desta história, além de ser tudo aquilo que já descrevi, é meu pai. Posso garantir, contudo, que a presença dele neste texto tem razões bem mais lógicas do que somente os laços familiares, como você verá mas adiante.

 

Esclarecimentos à parte, vamos em frente.

 

Seja pelas questões familiares, seja pelo costume de boa parte dos gaúchos, ouvir o Correspondente Renner era uma obrigação em casa. Quantas vezes minha mãe não abusou de nossa ingenuidade para garantir silêncio e respeito na sala logo que o noticiário começava: “vamos ficar quieto, crianças, se não o pai de vocês vai acabar ouvindo esta bagunça”. Anos depois, mesmo sem ainda ter lido os ensaios de Marsahl McLuhan, percebi que aquela caixa de madeira de onde saía o som da voz de meu pai não tinha ouvidos. Não demorou muito para outros fatos bem mais relevantes naquela transmissão me chamarem atenção.

 

TUDO ESTAVA CARO DE MAIS

 

José Sarney era o presidente da República. Na política, o Brasil ainda aprendia a viver no regime democrático. Na economia, um caos. A inflação era galopante. o preço da gasolina, ainda sob controle “rígido” do governo, subia a cada semana. E no Correspondente Renner, Milto Ferretti Jung traduzia a indignação do cidadão apenas com o recurso da voz. A mudança de tom que beirava a ironia, a quebra de ritmo na frase e a articulação mais precisa da palavra ao informar o novo valor do livro da gasolina expressavam um sentimento que aproximava o radialista do seu público. Tornava-o cúmplice do ouvinte, propiciando a identificação do receptor com aquilo que era transmitido.

 

Foi naquele período que, pela primeira vez, percebi o poder que o locutor de notícias tinha de persuadir o público através da expressividade da voz. Uma lição marcante para quem começava a sonhar com a oportunidade de se transformar em jornalista e colocar em prática aquilo que aprendera dentro de casa. Mais Importante ainda porque esta ferramenta me soava inusitado para a época, principalmente se o assunto era a síntese noticiosa. Imperava no rádio o padrão impostado quase monocórdio. Mas valia o “vozeirão” do que a expressão.

 

O incômodo popular com as constantes mudanças de preços naqueles tempos de inflação draconiana — nós já vivemos épocas assim, não lembra mais? — era reporduzido na ênfase da narração de Milton Ferretti Jung. Daquela forma, o locutor conspirava, consciente ou não, contra a retórica objetiva do rádio na qual a linguagem usada na construção do discurso era direta e reta. Sem espaço a interpretações, imaginavam os autores da tese.

 

Poucos locutores arriscavam novas fórmulas na apresentação das notícias mesmo porque ainda havia os mitos da imparcialidade e da objetividade da informação. Como se a simples seleção dos fatos transmitidos e a própria ordem com que estes são apresentados já não expressassem uma ideia. Até hoje, manuais de radiojornalismo de algumas emissoras reforçam a necessidade de se manter estes dois componentes na edição de um programa. Confundem imparcialidade com isenção e objetividade com correção.

 

Mostrem-me um jornalista imparcial e eu lhe apontarei uma mentida. Este só existe na teoria acadêmica. Você nasce, vive, convive, aprende, entende e pensa. Em cada etapa deste processo sofre influência. Cria suas próprias teses. Desenvolve suas ideias ou as copia. O jornalista — parafraseando aquele ministro do Trabalho —- também é ser humano. Tem seus valores e a partir deles toma partido, às vezes tem partido. Quase sempre torce para este ou aquele. Vibra com seu time de futebol, reza nesta ou ora naquela religião. Preza alguns, desgosta de outros e odeia mais tantos. Onde está a imparcialidade?

 

A meta tem de ser outra. Ao jornalista cabe a isenção ao executar se trabalho. Esta é possível. Aliás, é necessária. Deve ter respeito com o entrevistado, esteja este na seção dos que preza, desgosta ou odeia (se houver problema com este último, tome um Engov antes e outro depois que passa). Não há jornalismo sem o contraditório. Os diferentes pontos de vista devem ser apresentados para que o público tenha a sua própria opinião. É na busca da isenção que se afasta o risco de os meios de comunicação transformarem-se em doutrinários, instrumentos de grupos econômicos, políticos e religiosos.

 

Amanhã, leia a segunda parte do capítulo Santo de casa não faz milagre mas tem expressão, do livro “Expressividade, da teoria à prática”

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