É um pecado querer fiéis de joelho nas Igrejas diante de um vírus que mata

Foto Pexel

Sou católico. Praticante. De ir a missa no domingo (sábado à noite para ser mais preciso). De fazer o sinal da cruz. Rezar para fortalecer os pedidos de quem me pede. Ler a palavra. Ouvir a homilia. Não sou crente, não. O que não significa que seja descrente. Apenas que tenho dúvidas e tento resolvê-las na intimidade das conversas que tenho com minha consciência. A religião quase sempre esteve presente na minha vida. Fiz o passo a passo da cartilha, a começar pelo batismo, seguindo na primeira comunhão, crisma e casamento com véu, grinalda e aliança abençoada. Comecei estudando em colégio de freira e conclui no colégio dos irmãos maristas, em Porto Alegre.

De frequentador assíduo na missa da Igreja do Menino Deus, lá no fim da Getúlio Vargas, à presença frequente na capela da Imaculada Conceição, na esquina aqui de casa, tive longos momentos de ausência. Confesso. Só voltei a genuflectir diante do altar quando deparei com o desespero da vida. Dúvidas sobre minha existência. Busca de respostas para meu comportamento. Medo do que seria capaz de fazer com minha vida — não se assuste, nunca pensei em dar um ponto final, apenas não sabia o que viria depois das reticências. 

A pandemia me afastou da igreja. Jamais da reza. Ao contrário. Nunca me apoiei tanto na palavra de Deus como nesses tempos de incerteza

Está aqui na tela do computador, a reprodução de um dos trechos do Livro de Salmos:

Eu olho sempre para o Senhor

pois ele me livra do perigo

Livra o meu coração

de todas as aflições”

E se peço que Ele me salve —- assim como a todos que estão em meu entorno e em meu coração —-, faço a minha parte. Em respeito ao que prezo na religião, que é a fortaleza pela vida, nunca mais voltei às missas presenciais. E assim me manterei forte até encontrarmos uma solução para essa desgraça que vivemos.

Foi com alegria que ouvi a voz do Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, no Domingo de Páscoa:

“… a nossa recomendação de celebrar sem a presença do povo nas igrejas não veio de uma proibição: nossa posição vem da preocupação pela situação da pandemia, que está muito grave, com muitos doentes e mortos”

Lamentei que suas palavras não ecoaram de absides à gárgulas de capelas, igrejas, catedrais e abadias. Em muitos locais o que se ouviu foram falas pedindo pela ocupação das naves; e indignação aos limites que governos e autoridades políticas impuseram; foram padres e asseclas reclamando da ausência de fiéis, comparando nosso esforço em nos mantermos em confinamento a cristãos sepultados em catacumbas. Lamentável!

Em uma das missas online que assisti, no Domingo de Páscoa, o padre, jocoso em sua analogia, questionou a proibição às missa e cultos. Perguntou a si mesmo se o vírus, por católico que fosse, só conspiraria contra os fiéis. E renunciaria à contaminação dos passageiros que são transportados aos montes em trens e ônibus. Antes fosse essa uma verdade. Pois bastaria impedir de vez a presença de pessoas nas igrejas e deixá-las circular livremente pelas cidades no transporte público para contermos o assassinato em massa que estamos assistindo no Brasil.

É claro que qualquer um de nós, obrigados a embarcar em um ônibus ou trem lotado, corremos sério risco de contaminação. Infelizmente, como parar por completo a dinâmica de uma cidade parece ser impossível, interromper o transporte público é inconcebível. Mas temos medidas que podem salvar vidas. Impedir aglomerações, rogar para que empresas aceitem a ideia de ter trabalhadores remotos e incentivar o confinamento àqueles que têm essa alternativa, são algumas medidas que estão a nosso alcance.  

Proibir reuniões religiosas —- assim como políticas, sociais e esportivas, apenas como exemplo —- é saudável neste momento em que vivemos. Nossos compromissos com Deus podem ser cumpridos à distância. Nossa presença em uma edificação santa é simbólica, necessária quando possível, mas não é essencial. Basta lembrar, meu amigo padre, Coríntios 3:16:

“Acaso não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós”

5 comentários sobre “É um pecado querer fiéis de joelho nas Igrejas diante de um vírus que mata

  1. Olá Milton
    Tudo bem?
    Permita-me respeitosamente comentar sobre o seu post?
    Primeiramente, Quero deixar claro que respeito sua opinião, bem como muitos que concordam com você.
    Já fui católico, e desde 1997, passei a frequentar a uma igreja evangélica. mudei para outra em 1999, onde permaneço desde então.
    Mais importante do que a igreja ou a religião, e entendermos o motivo pelo qual buscamos exercer a nossa fé. Tenho muitos amigos queridos, que são católicos, e quando possível convivemos harmoniosamente, pois não é um templo, um sacerdote ou uma doutrina que nos separa, mas nos une naquilo que nos converge, que é o amor a Deus.
    Sobre o texto, de I Coríntios 3:16, não estaria fora do contexto? A bíblia neste texto diz que se somos templo do Espírito Santo, devemos cuidar do nosso corpo como um templo sagrado a ser usado pelo Espirito Santo de Deus. Remete a não termos exageros com nossa alimentação nem condutas que possam violar nosso corpo. Cuidar em tempo de pandemia é obrigação de todos também, mas não necessariamente, fechar os templos religiosos, se enquadra neste contexto, pois de fato temos diversos lugares abertos que podem contribuir com a propagação do vírus.
    O que entendo que não foi observado pelas autoridades são alguns pontos:
    1- Por que as pessoas vão as igrejas?
    Para exercerem sua fé, buscarem refugio espiritual neste momento tão difícil.
    2- Qual o papel das igrejas na sociedade?
    A igreja tem um papel fundamental de “servir” a sociedade, e não de ser servida. Ai é que vem o cuidado.
    Acolher aqueles que procuram um alento espiritual em momentos difíceis.
    Submeter se as autoridades.
    Orar por aqueles que ali buscam por suas famílias pela comunidade local, cidade, pais, etc.
    3- Quantas pessoas foram salvas pelas igrejas, pela sua função social, e até evitaram outros problemas como crimes, mortes por assassinato, suicídio, entre outras?
    Para muitas pessoas, o exercício da fé é a única forma de obter esperança, de modo que sem ela, poderão além de perder a esperança, intentar contra a própria vida. Muitos que defendem o fechamento das igrejas, não sabem ou nunca presenciaram situações em que pessoas bateram nas portas das igrejas como ultimo recurso antes do suicídio, e ali encontraram guarida. O que faremos com estes? Dizemos, esperem a pandemia passar e não cometam nenhum ato antes disso?
    Nos 2 anos que antecederam a pandemia, nossa igreja pode encher uma carreta com 35 toneladas de alimentos, roupas, e uma pessoa subsidiou a construção de 7 casas na cidade de Guaribas – PI, 6a cidade mais pobre do Brasil. Ficamos felizes em poder abençoar aquela região, e hoje vive um casal com um filho que aceitou seu chamado para servir naquele lugar. O que eles dirão ao povo local? A igreja esta fechada?
    A igreja deve sim dar o exemplo e se submeter as autoridades. Isto é um fato. Entretanto as autoridades devem ver as igrejas como uma extensão de suas ações, e não como uma resistência.
    É a igreja por meio de seus membros, que tem por função orar por aqueles que estão na linha de frente neste momento tão difícil, os profissionais da saúde e suas famílias, que indiretamente também sofrem com o risco em que seus entes estão lidando diretamente. Respeitar os limites e regras é fundamental, e reitera o compromisso e apoio as autoridades.
    Por fim, a bíblia também fala que para proferirmos nossa fé conforme abaixo:
    Salmo 122:1 – Alegrei-me quando me disseram: vamos a casa do senhor
    Salmo 84: Quão amáveis são teus tabernáculos: O pardal encontrou casa, a Andorinha ninho, e eu os teus altares
    Hebreus: 10-25 Não deixemos de congregar-nos
    .
    É apenas uma opinião diferente. Respeito as demais.
    Que Deus abençoe e proteja você, sua família e a todos ao seu redor
    Um abraço

  2. Milton, olá!
    Respeito sua opinião. Mas é certo que a Igreja é um lugar repleto de protocolos e que os fiéis cumprem todas as regras. Elas deveriam permanecer abertas para aqueles que desejam, sim, receber o pão da Vida nesse momento em que o espírito precisa tanto de alimento. Os que não se sentem seguros, podem e devem permanecer em suas casas. Penso que se hoje temos acesso a Palavra de Deus e a Eucaristia é porque muitos, muitos cristãos enfrentaram diversos percalços para que essa Igreja permanecesse Viva para nós! Somos tempo do Espírito Santo sim! E devemos cuidar bem da nossa saúde. Ficar em casa sem o Pao da Vida está longe de ser um cuidado com esse Tempo. Além do mais, deveríamos ser um luzeiro, um farol para essa sociedade que está tao abatida e cheia de tristeza. E a luz deve estar em cima dos telhados e não debaixo da cama ou da mesa. Igreja fechada é luz apagada. E não foi isso que o Nosso Senhor pediu a nós! Nao foi por isso que ele morreu e ressuscitou!

  3. Pingback: “O exercício da religião é fundamental nesse momento” | Mílton Jung

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