Conte Sua História de São Paulo 472 anos: para quem domina idiomas e aceita ganhar pouco

Evandro Gimenez

Ouvinte da CBN

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Cheguei a São Paulo em 2003. Vim sem ter onde morar. Contei com a ajuda de um amigo do meu irmão, que vivia na Santa Cecília, na Rua Major Sertório. Ele praticamente morava com a namorada e me emprestou o quarto onde dormia.

O “quarto” era uma dispensa de 2,5 metros quadrados. Um colchão no chão, um armário embutido e pouco espaço para eu me deitar — só na diagonal. Ali moravam mais três rapazes, cada um com seu quarto. Fiquei cerca de três meses até encontrar outro lugar para dividir, dessa vez com pessoas que eu nunca tinha visto.

Logo me acostumei ao caos da cidade. O cheiro de gás nas ruas. Metrô e ônibus lotados. Desci do lado errado incontáveis vezes, errei ponto, comi em padarias perto do Minhocão e esperei ônibus no Terminal Princesa Isabel. Hoje rio disso tudo.

São Paulo me ensinou a confiar em mim. Eu não conhecia ninguém. Meus pais ficaram em Jales e eram contra minha vinda. Mandavam 300 reais por mês, só para o básico. Consegui subempregos, lavei banheiro, dormi três horas por noite durante meses. Chegava às 11 da noite e acordava às 4h40. Pela formação em tradução, fazia trabalhos indicados por amigos do interior. Isso ajudava a pagar aluguel, comida e transporte. Trabalhei muitas vezes de segunda a segunda.

Nesse caminho, conheci pessoas que me abriram portas. Comecei a dar aulas de inglês, francês e italiano. Foi assim que surgiu uma proposta inesperada: trabalhar em Alphaville, num ambiente corporativo. “A empresa precisa de alguém jovem, que fale vários idiomas e aceite ganhar mal”, disseram, rindo. Fiz a entrevista. Um mês depois, entrei como assistente de vendas, pegando ônibus intermunicipal pela Castelo Branco.

Nessa época eu morava em Pinheiros, na Teodoro Sampaio, perto da Benedito Calixto. O bairro tinha outro clima: gente despojada, feirinha de antiguidades, jazz saindo das escolas de música. Depois, por necessidade, fui morar sozinho numa quitinete na Rua Castro Alves, em frente ao Hospital do Servidor Municipal. Pagava 300 reais. Era o que dava.

Aos poucos, fui crescendo. Mudando de emprego. Errando e acertando. Discuti com chefes por convicções, fui demitido, consegui trabalhos melhores. Fiz amigos, vivi amores e desamores. Hoje empreendo, unindo música, tecnologia e design.

São Paulo me deu trabalho, profissão, renda e amigos que viraram família. Sou quem sou porque decidi sair do interior e enfrentar a cidade. Apesar de tudo o que dizem, São Paulo me fez mais feliz e mais realizado.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Evandro Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Um comentário sobre “Conte Sua História de São Paulo 472 anos: para quem domina idiomas e aceita ganhar pouco

  1. Adoro as histórias e como são contadas, dando um toque de romantismo….

    Milton, conte a sua história com São Paulo….afinal você é gaúcho, queremos saber como foi acolhido ….

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