Por Beatriz Breves

Um equívoco recorrente consiste em imaginar que a transdisciplinaridade se resume a importar conceitos de uma área para outra. Esse procedimento ignora que cada campo do conhecimento possui objeto próprio e métodos específicos, o que pode gerar interpretações profundamente equivocadas. Em termos triviais, seria como afirmar que “a vida dá voltas” porque a Terra gira em torno do Sol. A física investiga matéria, energia e suas interações; a psique pertence a outro domínio de realidade, com dinâmicas e critérios próprios de investigação.
Foi justamente essa lacuna, somada à ausência de uma reflexão mais profunda sobre o sentir, que me levou, após três anos como psicóloga, a buscar, em 1986, a graduação em Física, para compreender a energia a partir daqueles que a têm como objeto formal de estudo.
Os sonhos no encontro entre psique e energia
A primeira articulação consistente entre essas duas áreas surgiu por volta de 1988, quando investigava a fenomenologia dos sonhos. Analisando relatos oníricos, especialmente os de pessoas com deficiência visual, foi possível estabelecer uma sequência de observações: se na natureza não existe cor sem ondas eletromagnéticas; se os sonhos apresentam cor em sua expressão fenomenológica; e se os olhos, receptores dessas ondas, durante os sonhos, apresentam o movimento REM; então os sonhos poderiam ser compreendidos como um fenômeno psíquico processado sob a forma de ondas eletromagnéticas, isto é, ondas que se propagam à velocidade da luz.
Em contrapartida, o estado de vigília se apresenta extremamente lento quando comparado à velocidade da luz, sugerindo que a psique humana poderia funcionar em duas velocidades distintas: uma próxima da luz e outra próxima de zero. E foi nesse contexto conceitual que o Inconsciente Relativístico ganhou forma.
Chamo de Inconsciente Relativístico porque se baseia na teoria da relatividade de Einstein quando propõe que, quando dois sistemas interagem, um estando próximo à velocidade da luz e outro próximo à velocidade zero, surgem os efeitos relativísticos como dilatação do tempo, contração do espaço e variação de massa. Assim, os sonhos, a psique em estado inconsciente, processados à velocidade da luz, ao interagir com a psique em vigília, processada à velocidade zero, produziriam efeitos relativísticos, o que ajudaria a compreender a lógica aparentemente absurda dos sonhos. Nesse sentido, o inconsciente possuiria tempo, mas um tempo dilatado em relação ao da consciência.
O ponto cego da neurociência tradicional
A neurociência tradicional, porém, questionaria essa hipótese, afirmando que os neurônios atuam por sinais eletroquímicos extremamente lentos quando comparados à velocidade da luz, o que inviabilizaria ondas eletromagnéticas como base do sonho. Contudo, posso questionar a neurociência ao descrever o que acontece no cérebro, mas não explicando por que isso gera uma experiência tão semelhante à percepção real, especialmente no que diz respeito à vivência da cor. E este seria, digamos, um ponto cego importante: a neurociência tende a confundir correlação com explicação. O fato de certas áreas cerebrais se ativarem durante o sonho não prova que essa ativação seja a causa da experiência, mas somente que ocorre simultaneamente.
A fenomenologia dos sonhos expõe uma lacuna entre o funcionamento neural e a experiência subjetiva. A vivência onírica possui qualidades luminosas, intensas e imediatas que não se encontram nos sinais lentos do cérebro, sugerindo que a experiência ocorre em um regime distinto daquele descrito pela neurociência. E, ainda, soma-se a essa questão o tempo subjetivo: nos sonhos, segundos podem parecer horas. O ritmo onírico não acompanha a temporalidade fisiológica, reforçando a hipótese de que a psique humana funciona em mais de um regime temporal.
Fato é que, se deixamos o paradigma estritamente materialista e migramos para o paradigma vibracional, no qual o universo quântico também se faz presente, uma nova interpretação se torna possível. No modelo materialista clássico, a psique é tratada como consequência do cérebro, e toda experiência subjetiva seria produto direto de interações eletroquímicas. Já no paradigma vibracional, a realidade não se limita à matéria densa, mas inclui padrões sutis de organização que interagem com princípios do universo quântico. Nessa visão, o “padrão quântico” deixa de ser metáfora e passa a se constituir como hipótese estrutural. Certos fenômenos subjetivos, especialmente os oníricos, parecem obedecer a dinâmicas temporais e qualitativas incompatíveis com o processamento neural.
O gato, a incerteza e a experiência psíquica
Foi dentro desse contexto que vivi uma experiência decisiva quando meu gato esteve gravemente doente e o veterinário avaliou que poderia sobreviver ou falecer naquela noite. Mesmo angustiada pela incerteza, acabei adormecendo e, quando acordei de madrugada, tomada por um receio profundo, não tive coragem imediata de verificar se ele estava vivo ou morto. Permaneci somente pensando e, quando imaginava que estava vivo, sentia alegria; quando imaginava que havia falecido, a tristeza me invadia. Continuei por alguns instantes entre esses dois sentimentos que, apesar de superpostos, eram completamente distintos, até finalmente criar coragem para ir vê-lo.
Essa vivência me remeteu imediatamente ao experimento mental do gato de Schröndinger. Enquanto não observava, a incerteza imperava. Foi quando percebi que o funcionamento da representação psíquica, enquanto não materializamos a experiência por meio da observação, se apresenta como um campo de possibilidades superpostas.
Não tenho elementos para afirmar que a representação psíquica em sua subjetividade seja literalmente um fenômeno quântico, mas posso afirmar que a dinâmica é análoga: antes da observação, coexistem estados possíveis; no instante em que interagimos diretamente, um deles se atualiza como a experiência. Essa analogia reforça a pertinência de incluir o padrão vibracional‑quântico como ferramenta conceitual para compreender modos de funcionamento da psique que escapam ao paradigma materialista estrito e apontam para a necessidade de modelos mais amplos, como o próprio Inconsciente Relativístico.
O Agora, o tempo e a contribuição da arte
Prosseguindo com Einstein, ele também demonstrou que espaço e tempo não são independentes, mas dimensões de um único contínuo espaço‑tempo, o que me impôs uma nova questão: se vivemos imersos no contínuo espaço‑tempo, como compreender o estado de consciência que nos fixa no Agora e sustenta nossa capacidade simbólica? Curiosamente, a resposta não veio da física, mas da arte.
Kandinsky afirmava ser um equívoco não conceber o tempo na pintura. Para ele, o ponto na pintura representava a forma mais concisa do tempo. Inspirada nessa proposição, percebi que o ser humano, por meio do sistema perceptivo, ocuparia um lugar equivalente ao do ponto na pintura, manifestando a sua forma mais concisa no tempo. Uma condição que possibilita a emergência do instante do Agora, a assimilação da natureza como realidade material tridimensional e o desenvolvimento da capacidade simbólica.
O que as plantas ensinam sobre psique
Contudo, a ideia de que o cérebro poderia ser o criador de todos os fenômenos da psique ainda persistia até que me deparei com os avanços da neurobiologia vegetal.
A neurobiologia vegetal vem demonstrando que as plantas, sem possuírem cérebro, se comunicam, se protegem, possuem formas de inteligência, paladar e tato, não iguais aos nossos, mas com funções equivalentes.
Enfim, os estudos sobre as plantas vêm para reforçar a ideia de que a psique não nasce do cérebro. Tal como as plantas, nós também somos sistemas vibracionais complexos, e o cérebro é somente uma das estruturas que modulam essa dinâmica.
Assim como também vem demonstrar que o estudo da psicologia, sustentado pelo paradigma cartesiano‑materialista, se apresenta limitado quando desconsidera a dimensão quântica da matéria humana, o que me levou a propor o conceito macromicro. Macromicro escrito como uma única palavra, expressão da unidade entre os níveis biológico e quântico de um ser humano compreendido como um complexo vibracional macromicro uno, inteiro e indivisível.
O sentir como expressão do que somos
Por essa visão, o Sentir ocupa um outro lugar ao deixar de ser uma reação ao mundo para retratar a expressão da vibração que somos e com a qual interagimos. Vibração que se manifesta em níveis de sentimentos, sensações e pensamentos, este entendido como as vibrações já organizadas e processadas. Para quem questiona a ideia de que o pensamento é uma expressão do sentir, uma pergunta simples: como você sabe que está pensando? A resposta: porque você sente o pensamento.
Foi então que comecei a catalogar sentimentos. Hoje, já identifiquei 610, dos quais 188 estão descritos em detalhes. Sentimentos que de fato são em números infinitos, pois, por exemplo, a esperança que sinto hoje não é a mesma que senti ontem, até porque entre ontem e hoje, alguma coisa em mim se modificou.
Sentimentos que, em sua dinâmica, funcionam, por uma analogia, como em uma orquestra, por vibrarem em grupos. Alguns permanecem em potencial, aguardando o momento em que o maestro, nós mesmos, pela via da ressonância com os acontecimentos da vida, irá ressoá‑los.
O Eu Fractal e os padrões que nos constituem
O aprofundamento na subjetividade dos sentimentos conduziu-me a compreender o Eu como o sentimento que a pessoa possui de si mesma. E, para fazer frente a essa compreensão, precisei recorrer à geometria fractal.
A natureza como fractal é uma realidade: ela se organiza por padrões que se repetem, se transformam e se reorganizam em diferentes escalas. Estudando a ciência da complexidade, o conceito de Eu fractal, um Eu que se constitui pela internalização dos padrões vibracionais das relações que vivemos, no qual o ser humano passa a ser compreendido como um sistema não linear, caótico e fractal, se fortaleceu. Compreensão que também permitiu esclarecer como, no instante do Agora, conseguimos reunir todas as experiências vividas ao longo de nossa história, incluindo os sentimentos, sensações e pensamentos.
Assim, compreendendo o Eu como fractal, tornou‑se inevitável rever a noção de consciência que, pelo paradigma vibracional, emerge desde a fecundação como uma representação espelhada da complexidade vibracional que somos.
Por essa perspectiva, a psique, não mais compreendida como sistemas inconsciente, pré-consciente e consciente, como formulado por Freud em sua primeira tópica, torna-se o que nomeei de Consciência Alfa, que desde a fecundação, já emerge e se desenvolve pela interação contínua com o meio, registrando-se em um amplo espectro inconsciente. Uma Consciência Alfa, na qual o estado consciente corresponde somente a um recorte dessa totalidade, ou seja, o ponto do Agora, o tempo conciso, possibilitando a organização simbólica em três dimensões.
Com esse conceito, na minha clínica, passei a observar como as pessoas se transformam quando reconhecem suas próprias vibrações internas, ao aprender a nomear os seus sentimentos e perceber os padrões que as estruturam. O passo seguinte foi estruturar essa compreensão como possibilidade de transformação pessoal, grupal e institucional.
Psicomplexidade: do autoconhecimento à transformação
Para isso, integrei ao Eu Fractal o Eco Empático, tal como proposto por Heinz Kohut na Psicologia Psicanalítica do Self, e o pensamento complexo, tal como proposto por Edgar Morin. Dessa articulação nasceu a Psicomplexidade, uma abordagem que oferece ferramentas para compreender o ser humano no campo do sentir, na identificação de padrões e no exercício de um pensamento complexo capaz de assimilar a complexidade de ser.
Podendo ser aplicada em empresas, em grupos e no contexto clínico, a Psicomplexidade se organiza em três etapas interdependentes:
- Eco Empático, condição que permite à pessoa sentir-se segura, valorizada e pertencente;
- Identificação de padrões, reconhecimento das estruturas recorrentes que modulam a vibração do Eu Fractal e orientam a vida psíquica;
- Pensamento complexo no qual a pessoa reaprende, exercitando o pensamento dialógico, holográfico e recursivo, a pensar em si e na própria vida, não de forma simplificada, mas no campo da complexidade.
Por fim, ao longo dessa trajetória, foram dez livros dedicados à construção da Ciência do Sentir. Um caminho que não se limitou à assimilação de saberes da física, mas que se abriu e se deixou atravessar por outras áreas do conhecimento. O objetivo pessoal que orientou essa caminhada, para além da elaboração teórica, foi o de buscar, através do Sentir, o resgate da humanidade que, pouco a pouco, vem se perdendo em uma sociedade que insiste em projetar um ideal cada vez mais robotizado para o ser humano.
Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.