Dez Por Cento Mais: Mari Milazzotto alerta que a dor durante o sexo não deve ser normalizada

“Existe solução, muitas das vezes ela é rápida, não é um tratamento que perdura.”

A dor durante a relação sexual atinge entre 40% e 45% das mulheres, mas ainda é tratada como algo comum ou inevitável. Esse entendimento equivocado atrasa diagnósticos, compromete relacionamentos e afeta a saúde mental. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Mari Milazzotto, fisioterapeuta especializada em saúde da mulher, afirma que a origem do problema está, em grande parte, na falta de informação e no silêncio que cerca o assunto. “As pessoas acham que tudo isso é normal e não é normal”, disse. Segundo ela, o tabu começa cedo, ainda na infância e adolescência, quando o tema não é abordado de forma aberta dentro das famílias ou nas escolas.

Quando a dor deixa de ser exceção e vira rotina

A dor durante o sexo pode ter diferentes causas e manifestações. Mari explica que existem condições específicas, como a dispareunia e o vaginismo. A primeira é caracterizada pela dor durante a relação, que pode ser superficial ou profunda. Já o vaginismo envolve uma contração involuntária da musculatura pélvica, que pode impedir a penetração.

“Quando eu falo uma contração involuntária, significa que a pessoa não está querendo que ela aconteça. Ela está acontecendo sem eu querer”, explicou.

Um dos principais problemas, segundo a especialista, é que muitas mulheres não relatam o que sentem. Parte disso vem da crença de que a dor é normal. Outra parte está no constrangimento de falar sobre o tema, inclusive em consultas médicas. “Eu acho normal o que eu estou sentindo. O meu médico não me perguntou. Por que que eu vou falar?”, questionou.

O resultado é um ciclo de silêncio que prolonga o sofrimento e impede o tratamento adequado.

Impactos que vão além da vida sexual

A dor persistente afeta o momento da relação e pode, ainda, gerar ansiedade, frustração, queda de autoestima e afastamento afetivo. “Você está deixando de ter prazer, está deixando de ter intimidade”, afirmou Mari.

Ela também chama atenção para o comportamento de muitas mulheres que passam a evitar situações que possam levar à relação sexual. “Você começa a querer impedir o contato, começa a ter medo de se relacionar”, disse.

Outro ponto destacado é o impacto nos relacionamentos. A falta de diálogo pode aumentar a sensação de isolamento. Por isso, a especialista defende que parceiros e parceiras participem do processo. “A gente está junto, a gente vai resolver, porque ambos precisam sentir prazer nessa relação.”

Diagnóstico e tratamento exigem abordagem integrada

Para que a dor seja considerada um problema clínico, é necessário que ela seja persistente por mais de seis meses. A partir daí, o tratamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar.

Mari destaca três frentes principais: acompanhamento médico, fisioterapia pélvica e apoio psicológico. A fisioterapia atua diretamente na musculatura do assoalho pélvico, ensinando, sobretudo, o relaxamento — e não apenas o fortalecimento, como muitos imaginam.

“Consciência corporal é você conseguir perceber o seu corpo no espaço”, explicou. Esse processo permite que a mulher reconheça tensões involuntárias e aprenda a controlá-las no dia a dia.

O uso de técnicas como biofeedback e eletroestimulação também pode ajudar no tratamento. No entanto, a especialista reforça que o acompanhamento profissional é importante, especialmente para quem não tem familiaridade com o tema.

Informação e diálogo como ponto de partida

Para Mari Milazzotto, o primeiro passo é romper o silêncio. Falar sobre o assunto permite identificar o problema e buscar ajuda. “A gente precisa falar desse assunto para conseguir receber ajuda”, afirmou.

Ela também destaca o papel da educação e da conversa desde cedo, como forma de reduzir o tabu e facilitar o acesso à informação. “Conhecer o próprio corpo é muito importante”, disse.

A especialista encerra com um convite à reflexão: “Vamos ser mais acolhedores para conseguir, com um pouco mais de humanidade, receber a informação, falar do assunto e permitir que esse cuidado seja buscado.”

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