Por Beatriz Breves
A dor costuma ser compreendida como um sintoma. Seja física ou emocional, ela é geralmente vista como um sinal de que algo não vai bem no organismo ou na vida psíquica. Entretanto, sob a perspectiva da Ciência do Sentir, a dor não é somente um sintoma. Como todo sentir, ela constitui uma forma de expressão da própria existência.
Ao longo da história da ciência, diferentes paradigmas moldaram a forma como compreendemos o ser humano. Até o fim do século XIX, predominava a visão mecanicista, inspirada na física newtoniana, segundo a qual a natureza funcionaria como uma grande máquina regida por leis determinísticas. Nesse contexto, o corpo humano passou a ser concebido como um mecanismo composto por partes, cujas funções poderiam ser analisadas isoladamente.
No século XX, entretanto, essa visão mostrou-se insuficiente para explicar diversos fenômenos da realidade. A Teoria da Relatividade introduziu a noção de um espaço-tempo dinâmico e dependente do observador. Pouco depois, a Física Quântica revelou que a relação entre observador e fenômeno observado não pode ser completamente dissociada. Mais do que novas teorias físicas, esses desenvolvimentos inauguraram uma forma de compreender a realidade, marcada pela interdependência, pela complexidade e pela superação das separações rígidas.
Inspirada por essa ampliação de perspectiva, a Ciência do Sentir propõe que o ser humano não seja compreendido como uma soma de partes independentes — corpo de um lado e mente de outro —, mas como uma unidade organizada de experiência.
Nesse contexto, a dor física e a dor emocional não constituem fenômenos separados que posteriormente interagem entre si. São diferentes formas pelas quais uma mesma organização existencial se manifesta. O que chamamos de corpo e o que chamamos de psiquismo correspondem a níveis distintos de expressão de uma mesma realidade vivida.
Um exemplo ilustrativo é o caso de Martinha (Breves, 2015). Após o desaparecimento do filho, ela passou anos convivendo com dores abdominais que se intensificaram progressivamente e foram acompanhadas por hipertensão arterial, culminando na necessidade de uma cirurgia de vesícula.
Diferentes perspectivas poderiam interpretar essa situação de maneiras distintas:
- Na visão organicista tradicional, a dor seria compreendida exclusivamente como consequência da doença física, entendida como resultado de alterações biológicas localizadas no organismo.
- Na visão psicológica clássica, a dor física seria considerada uma manifestação indireta do sofrimento emocional provocado pelo desaparecimento do filho, assumindo-se uma primazia do psicológico sobre o corporal.
- Na psicossomática contemporânea, corpo e psiquismo seriam vistos como sistemas distintos, porém interdependentes, cuja interação contribuiria para o aparecimento tanto dos sintomas físicos quanto do sofrimento emocional.
- Na perspectiva da Ciência do Sentir, não se trata de estabelecer uma relação causal entre corpo e mente, mas de reconhecer que ambos expressam uma mesma organização vivencial. A dor física e a dor psíquica constituem modos distintos de manifestação de uma experiência existencial profundamente marcada pela perda.
A notícia do desaparecimento do filho não produz somente sofrimento psicológico nem somente alterações corporais. Ela reorganiza a totalidade da experiência da pessoa. Essa reorganização pode manifestar-se simultaneamente como sofrimento emocional, alterações fisiológicas, mudanças relacionais, transformações identitárias e diversos outros desdobramentos.
A dor, portanto, deixa de ser compreendida somente como um sinal de disfunção. Ela passa a ser reconhecida como uma forma de expressão do viver. Não é algo que simplesmente acontece ao indivíduo; é uma experiência que emerge da maneira singular como sua existência se organiza diante das circunstâncias da vida.
Sob essa perspectiva, saúde, doença e sofrimento deixam de ser fenômenos isolados para serem compreendidos como diferentes configurações da experiência humana. A dor torna-se, assim, uma linguagem do existir — uma linguagem que, embora frequentemente associada ao sofrimento, também revela a profundidade dos vínculos, das perdas, dos conflitos e dos processos de transformação que constituem a vida humana.
Referência bibliográfica
BREVES, Beatriz. A fronteira do adoecer — Por que você adoece? 2. ed. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
