A maior rede pública de ensino dos Estados Unidos decidiu restringir o uso da inteligência artificial nas escolas. Em Nova Iorque alunos da educação infantil ao oitavo ano não poderão usar essas ferramentas. No ensino médio, o acesso será limitado, com programas selecionados e supervisão dos professores.
A decisão alcança cerca de 600 mil estudantes e levanta uma pergunta para os pais aqui no Brasil: qual seria a sua reação se medida semelhante fosse adotada na escola do seu filho?
O Brasil já restringiu o uso de celulares nas escolas públicas e particulares. A regra procura reduzir distrações, melhorar a concentração e recuperar a convivência entre os estudantes. O aparelho pode ser utilizado em atividades pedagógicas autorizadas pelo professor e em situações específicas.
O celular, porém, é um objeto. Pode ser guardado na mochila. A inteligência artificial é mais difícil de trancar no armário.
Ela já está presente em mecanismos de busca, editores de texto, aplicativos de estudo, programas de tradução e plataformas educacionais. Proibir a IA por completo seria como tentar fechar uma porta enquanto a tecnologia entra pelas janelas, pelo telhado e, provavelmente, pela própria lousa digital.
Há motivos legítimos para preocupação. Um estudante pode pedir à máquina que escreva a redação, resolva o exercício ou resuma um livro que não leu. Se entregar à inteligência artificial todo o esforço de pensar, corre o risco de economizar justamente aquilo que deveria desenvolver.
Crianças menores também precisam de proteção. Elas ainda estão formando o vocabulário, aprendendo a organizar ideias, conviver com dúvidas, errar e tentar novamente. Nenhum aplicativo deve substituir esse processo nem ocupar o lugar dos professores e dos colegas.
A proibição absoluta, porém, pode ser um pouco demais?
A escola não tem apenas a tarefa de proteger os alunos da tecnologia. Precisa ensiná-los a conviver com ela. Isso inclui saber fazer perguntas, conferir informações, identificar erros, reconhecer preconceitos reproduzidos pelos sistemas e entender por que uma resposta convincente pode estar completamente errada.
Talvez a discussão não deva ser simplesmente entre liberar e proibir. A questão é definir com que idade, para qual finalidade, durante quanto tempo e sob a orientação de quem a inteligência artificial pode ser utilizada.
Pais e professores precisam participar dessa escolha.
Se uma proibição como a de Nova Iorque fosse proposta no Brasil, você seria favorável? Consideraria a medida uma proteção necessária ou entenderia que a escola estaria afastando os alunos de uma ferramenta que eles precisarão aprender a usar?
Proibir pode parecer uma resposta simples. Educar para o uso responsável dá mais trabalho. E talvez seja exatamente esse trabalho que não possa ser terceirizado para uma máquina.
