“Eu posso tentar passar o meu conhecimento para alguém, mas se essa pessoa não estiver aberta para aprender, ouvir, questionar, fazer perguntas, ter uma escuta ativa, não funciona.”
A Eldorado Brasil Celulose reúne cerca de 6 mil funcionários e aproximadamente 800 deles ocupam posições de liderança. São profissionais responsáveis não apenas por resultados e eficiência, mas também pelo desenvolvimento das equipes em um ambiente que reúne até cinco gerações, incorpora novas tecnologias e exige atualização permanente. Preparar essas pessoas para liderar e, ao mesmo tempo, estimular cada funcionário a assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento foi tema da entrevista de Elcio Trajano Júnior, diretor de Recursos Humanos, Sustentabilidade e Comunicação da Eldorado Brasil Celulose, ao Mundo Corporativo, da CBN.
A empresa criou uma Academia da Liderança que reúne diferentes programas de formação. Há iniciativas destinadas a quem se prepara para assumir pela primeira vez a gestão de uma equipe, ações para quem já toma decisões como líder e programas voltados à sucessão e à preparação de futuros executivos. A cada ano, entre 100 e 200 pessoas participam das formações e atualizações.
A estrutura inclui ainda mentoria interna, compartilhamento de experiências entre gestores e uma avaliação de comportamento feita em 360 graus. Nesse processo, o profissional avalia a si próprio e recebe a percepção do chefe, dos colegas e da equipe. Mais de 850 líderes passaram por essa avaliação, que serve de base para conversas de feedback e planos de desenvolvimento.
Saber fazer não significa saber liderar
Um dos riscos identificados na gestão de carreira é transformar automaticamente o profissional de bom desempenho técnico em gestor. Para Elcio, as duas competências não devem ser confundidas.
“Às vezes uma pessoa que tem um excelente resultado não quer dizer que ela vai ser uma excelente gestora de pessoas. E tudo bem, não há problema nenhum”, afirmou.
A empresa procura trabalhar com alternativas de carreira. Um profissional pode avançar como especialista sem necessariamente assumir a responsabilidade por uma equipe. Quando alguém chega à gestão e percebe que não se adapta à função, a primeira alternativa é desenvolver as competências necessárias. Se isso não funcionar, a trajetória pode ser revista para permitir a volta a uma função de especialista.
Esse cuidado ganha importância porque liderar se tornou mais complexo. Elcio chama a atenção para a convivência de quatro ou cinco gerações dentro da mesma empresa. São pessoas em diferentes momentos da vida, com expectativas distintas sobre carreira, velocidade para tomar decisões e maneiras de se comunicar.
Por isso, uma competência aparece repetidamente na conversa: saber ouvir. Tecnologia e ferramentas de gestão ajudam a organizar informações e processos, mas não substituem o tempo dedicado à conversa com a equipe e à compreensão das diferenças individuais.
“Porque aquela frase que ‘sempre foi assim’ não funciona mais para os dias de hoje. A frase que sempre deu certo não funciona mais para os dias de hoje. A gente tem que aprender muito com as pessoas de todas as gerações e isso se torna desafiador para liderança.”
“Atitude de dono” exige autonomia e espaço para errar
Entre os valores adotados pela Eldorado está a “atitude de dono”. Na definição de Elcio, a expressão significa olhar além das próprias tarefas e compreender o funcionamento da empresa como um todo.
Ele usa a própria função como exemplo. Embora seja responsável pelas áreas de Recursos Humanos, Sustentabilidade e Comunicação, entende que precisa acompanhar vendas, mercado de celulose, produção industrial, clima e outros fatores capazes de afetar os resultados. Não se trata de dominar tecnicamente todas as áreas, mas de compreender como a própria atividade se relaciona com o restante da organização.
Essa expectativa traz uma contrapartida. Se a empresa deseja que o funcionário tenha iniciativa e assuma responsabilidades, precisa oferecer autonomia e admitir a possibilidade de erros.
“Acho que o errar não é o problema, o persistir no erro que possa ser um problema”, disse Elcio.
Nesse processo, cabe ao líder transformar a falha em aprendizado: entender o que aconteceu, conversar com o profissional, identificar o que será feito de maneira diferente e evitar a repetição do mesmo problema.
Inteligência artificial aumenta a responsabilidade do líder
A incorporação da inteligência artificial e da automação não reduz, na avaliação de Elcio, a importância da liderança. O efeito tende a ser o contrário. A tecnologia pode aumentar agilidade, eficiência e produtividade, mas depende de profissionais preparados para utilizá-la e avaliar seus resultados.
Na Eldorado, aplicações de inteligência artificial já aparecem em diferentes atividades. Recursos Humanos utiliza People Analytics, análise de dados sobre pessoas e gestão, e passou a contar com uma assistente interna para responder dúvidas dos funcionários. Na operação florestal, há drones e sistemas de monitoramento do clima e do meio ambiente. Na indústria, ferramentas acompanham etapas da produção de celulose. Caminhões também dispõem de sistemas capazes de monitorar sinais de fadiga dos motoristas.
A tecnologia começa a ser usada também para repensar a capacitação. A intenção é tornar as trilhas de aprendizagem menos padronizadas, considerando que profissionais em posições semelhantes podem ter necessidades e interesses diferentes.
Para Elcio, esse movimento exige disposição para aprender. Informação e conteúdo estão amplamente disponíveis. O diferencial passa a ser a atitude diante do conhecimento.
“Mas o querer aprender coisas novas é fundamental. Então a atitude é algo importantíssimo.”
Comunicação também é competência de liderança
A diversidade das operações da Eldorado acrescenta outro desafio. Há profissionais em escritórios, fábricas, áreas florestais e unidades fora do Brasil. Isso obriga a empresa a combinar canais digitais com meios tradicionais, como murais, folhetos e comunicação durante o transporte das equipes. Parte do conteúdo interno passou também a ser produzida em dois idiomas para alcançar funcionários no exterior.
Para o líder, comunicar não significa apenas transmitir informação. É preciso considerar quem está ouvindo, adaptar a linguagem e verificar se a mensagem foi compreendida por públicos com diferentes níveis de formação e experiência.
“O líder que não saiba se comunicar, ele tem dificuldade de liderar”, afirmou.
A empresa pode criar cursos, avaliações, mentorias e oportunidades de carreira. Nenhuma dessas iniciativas garante que o funcionário queira aproveitá-las.
Elcio defende que o crescimento depende do encontro entre duas condições: existir uma oportunidade e o profissional estar preparado quando ela surgir. Se houver qualificação sem oportunidade, pode aparecer frustração. Se surgir uma vaga e a pessoa não estiver preparada, a promoção também pode se transformar em problema.
A recomendação, portanto, é não esperar que a empresa conduza sozinha a carreira. Isso inclui buscar conhecimentos além da função atual e observar oportunidades em outras áreas.
“Não se descuidem de se desenvolver … As oportunidades não necessariamente têm que ser na sua área, ela pode estar em outra área.”
A mensagem fecha o círculo da conversa: empresas precisam investir na formação de seus líderes, líderes precisam dedicar tempo ao desenvolvimento das pessoas e profissionais precisam assumir responsabilidade pela própria aprendizagem. Num ambiente em que máquinas aprendem cada vez mais depressa, a disposição humana para continuar aprendendo também passou a fazer parte do trabalho.
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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
