“Você nunca deve tentar trazer a informação para onde está a autoridade. Eu sempre prefiro tentar levar autoridade para onde está a informação.”
Com aproximadamente mil funcionários no Brasil e uma rede que chega a quase 500 parceiros e representantes, a Philips reúne profissionais de vendas, tecnologia, finanças, operações e saúde. Fazer essas áreas trabalharem na mesma direção exige que a liderança compartilhe os objetivos e os desafios do negócio, sem tentar controlar cada decisão. A gestão de equipes multidisciplinares foi tema de entrevista com André Duprat, diretor-geral da Philips no Brasil, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
Duprat define seu modelo de gestão como uma liderança pelo contexto. Em vez de dizer detalhadamente o que cada profissional deve fazer, o líder apresenta a situação, indica a direção da empresa e oferece as informações necessárias para que as pessoas encontrem as próprias soluções.
“Meu papel, eu entendo que é dar muito contexto”, afirmou. Segundo ele, profissionais qualificados respondem com mais autonomia quando compreendem para onde a organização pretende seguir e quais obstáculos precisam ser enfrentados.
Essa forma de liderar não significa abandonar a equipe à própria sorte. O contexto funciona como uma espécie de mapa. Mostra o destino, os limites e as condições da viagem. A decisão sobre o melhor caminho pode ser tomada por quem conhece o terreno.
A autonomia depende da capacidade do líder de conhecer as competências e as motivações de cada integrante da equipe. Duprat afirma que esse conhecimento exige interesse verdadeiro pelas pessoas e não uma conversa protocolar mantida apenas até chegar ao relatório ou à tarefa do dia.
Há profissionais mobilizados principalmente pelos resultados financeiros. Outros respondem melhor quando entendem o impacto social de um projeto. Na indústria da saúde, por exemplo, mostrar quantas pessoas podem ser beneficiadas por determinada solução ajuda a dar sentido ao trabalho.
Para manter esse contato, Duprat diz que procura conversar com as equipes, acompanhar o trabalho fora do escritório e viajar pelo país. A intenção é entender o mercado e ouvir quem está na fronteira entre a organização e os clientes.
Levar a autoridade até a informação
As pessoas que atendem clientes, acompanham equipamentos ou negociam produtos costumam identificar os problemas antes dos executivos. Elas conhecem demandas, dificuldades de uso e necessidades de manutenção. Nem sempre, porém, têm autorização para resolver a situação.
Duprat considera que a responsabilidade da liderança é fornecer contexto e ampliar o espaço de decisão desses profissionais.
“Se você consegue fazer uma pessoa que tem a informação da ponta tomar decisão com autoridade, a sua empresa fica muito mais ágil”, disse. O resultado, segundo ele, aparece também na experiência do cliente, que recebe uma resposta mais rápida.
A descentralização só funciona quando as pessoas entendem os efeitos de suas escolhas sobre toda a organização. Uma decisão pode aumentar as vendas e, ao mesmo tempo, reduzir a rentabilidade. A ampliação do portfólio pode alcançar mais clientes, mas também elevar custos. Compartilhar essa visão diminui resistências e permite que as soluções encontradas na ponta sejam viáveis para o conjunto da empresa.
Quando os números ganham uma história
A compreensão do negócio também passa pelo conhecimento de receitas, custos, despesas e lucro. Duprat afirma que assumir responsabilidade pelo resultado completo da empresa mudou sua maneira de avaliar as decisões.
Os números ganham outro significado quando são ligados às pessoas afetadas. Ele citou o apoio da Fundação Philips a uma iniciativa de ultrassonografia a distância. A tecnologia pode evitar que uma mulher que mora em uma região remota viaje durante horas para fazer um exame.
Quando um profissional conhece uma história como essa, consegue perceber que o produto não representa apenas uma meta comercial. Ele passa a compreender o impacto provocado pela tecnologia e pode explicar melhor seu valor aos clientes.
A empresa também mantém em Varginha, em Minas Gerais, uma estrutura que reúne fábrica, centro de serviços compartilhados e desenvolvimento de produtos para o Brasil e outros países. Entre as iniciativas mencionadas estão equipamentos com inteligência artificial, algoritmos voltados à identificação de lesões pulmonares e projetos desenvolvidos com hospitais.
O desafio é sustentar os investimentos de longo prazo sem descuidar dos resultados imediatos. Duprat compara o lucro ao oxigênio: sem ele, a empresa não permanece viva para colher os frutos dos projetos que plantou.
Para quem deseja chegar à direção de uma empresa, Duprat recomenda que o aprendizado financeiro comece no início da carreira. Não é necessário dominar imediatamente todos os detalhes de um balanço. É possível começar pela administração das finanças pessoais e avançar para conceitos como receita, despesa fixa, despesa variável, margem e rentabilidade.
Ignorar os números pode limitar o desenvolvimento profissional ou tornar o gestor excessivamente dependente de outra pessoa para compreender as consequências de suas decisões.
A trajetória de Duprat não foi construída a partir da busca por um cargo específico. Ele conta que procurava melhorar o trabalho sob sua responsabilidade. Quando percebia que o resultado dependia de outra área, aproximava as equipes e ampliava sua participação. As novas funções surgiram como consequência desse movimento.
Para resumir uma característica valorizada em profissionais de diferentes níveis hierárquicos, usou duas palavras: “deixa comigo”. A expressão precisa vir acompanhada da capacidade de assumir o problema e entregar uma solução.
“Se começar a construir esse hábito desde cedo, vai levar longe”, afirmou.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
