Por Beatriz Breves
Uma das coisas mais importantes que aprendi no cotidiano da vida foi que, para achar algo, é preciso que esse algo esteja perdido. Caso contrário, não há nada a achar. Levando esse aprendizado para a vida, descobri que, se nos dispomos a procurar além do que já possuímos, precisamos também estar dispostos a nos perder. Perder as referências habituais, as respostas prontas, a segurança de acreditar que já sabemos. Só assim temos a chance de encontrar aquilo que ainda desconhecemos.
Mas como aceitar esse movimento se aprendemos a valorizar tanto a certeza, o controle e a capacidade de antecipar o que virá? Como nos permitir não saber em um mundo que exige respostas imediatas?
Nesse nível de compreensão, enquanto seres vivos, parece que andamos na contramão cósmica: queremos conservar, fixar e assegurar, embora a própria vida nos coloque continuamente diante de transformações. Desejamos permanecer, mas vivemos mudando. Queremos ganhar sem perder, chegar sem atravessar e conhecer sem experimentar a inquietação do desconhecido.
O ser humano, em meio aos conflitos impostos pela civilização, talvez se assuste com tudo o que transformou desde que seus ancestrais habitavam as cavernas. Criou instrumentos, cidades, máquinas e tecnologias; ampliou suas possibilidades de agir sobre o mundo. Entretanto, nem sempre consegue assimilar as mudanças que ele próprio produz.
Vivendo no labirinto de sua angústia existencial, agarra-se, quem sabe, ao imediatismo como forma de existir e de não se perder. Tudo precisa acontecer depressa: a resposta, a satisfação, o resultado, a solução. Até o sofrimento parece ter prazo para terminar.
Mas perde-se cada vez mais!
Já não se trata de perder-se na procura que abre caminhos para o conhecimento. Trata-se de perder o contato consigo, com o outro e com o sentido do que está vivendo. Na pressa de encontrar uma saída, pode deixar de perceber por onde está passando.
Talvez isso aconteça por não conseguir assumir o paradoxo de que cada tempo ganho é, simultaneamente, um tempo perdido. Quando escolhemos dedicar nosso tempo a alguma coisa, deixamos de dedicá-lo a tantas outras. Não podemos viver todas as possibilidades. A escolha faz parte da vida, assim como a renúncia que a acompanha.
A dificuldade de escolher e assimilar o que vivemos se amplia diante da globalização, da racionalidade, da incerteza, da onipotência, da impotência, do real virtual e do virtual real; da engenharia genética, da fome, da miséria, do preconceito, das guerras; do progresso e do retrocesso. Um bombardeio de informações e experiências se multiplica em tantos antes e tantos depois que o ser humano, sobrecarregado, não consegue elaborar tudo o que vivencia.
Receber informações, porém, não significa necessariamente construir conhecimento. Podemos acumular notícias, explicações e opiniões sem encontrar tempo para pensar no que elas significam e no modo como nos afetam.
A ida para o conhecimento exige disponibilidade para permanecer diante de uma pergunta, rever uma convicção e reconhecer os limites do que sabemos. Exige também tempo para que aquilo que encontramos possa ganhar sentido em nossa experiência.
Talvez um dos principais obstáculos a essa caminhada seja o medo de nos perdermos. Afinal, abandonar uma certeza pode nos deixar, por algum tempo, sem saber onde apoiar os pés.
Mas como encontrar um novo caminho se só nos permitimos percorrer aqueles que já conhecemos?
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
