Mario Pais
Ouvinte da CBN
Nasci na Santa Casa em 1968, mas São Paulo já estava acordada havia muito tempo. Naquele dia, segundo meu pai, estudantes do Mackenzie ocupavam a Rua Maria Antônia. A cidade aprendia cedo que protesto também faz parte do seu idioma.
Cresci em Taboão da Serra, mas São Paulo sempre deu um jeito de me criar. Aos sete anos, meu pai — motorista de ônibus da Santa Cecília — decidiu que era dia de folga e de futuro. Fomos à Galeria Pagé comprar meu primeiro videogame. O trânsito travou no Viaduto do Chá e descemos do ônibus ali mesmo, suspensos sobre a cidade. Nunca esqueci a cena: uma multidão frenética, barulho, pressa, vida. Para ele, era só mais um dia. Para mim, foi o momento em que São Paulo se apresentou.
Com 11 anos, comecei a trabalhar como entregador de pão na região dos Jardins. A padaria ficava na Rua Cunha Gago. Hoje, a Panificadora San Siro está na Rua Artur de Azevedo — o melhor pão italiano de São Paulo.
Virei office boy na Avenida 9 de Julho esquina com a João Cachoeira, e aprendi a cidade andando: Paulista, Trianon, Pamplona, o centro antigo, os cartórios em volta do Fórum João Mendes. São Paulo não se ensina — se percorre. E eu percorri.
Nos intervalos, havia cinema no Iguatemi — Superman na tela grande — sessões da meia-noite às sextas e fliperama no Call Center quando sobrava tempo. Comi feijoada no Bolinha, admirei o prédio da Dacon, estudei Turismo na UNIP da Paulista. Fiz amigos de todas as zonas, porque São Paulo mistura gente antes de misturar ideias.
Na universidade, a recompensa era a Vila Madalena: cheia, barulhenta, generosa. Bares que começavam a noite e terminavam histórias. A semana só fazia sentido quando chegava a sexta-feira.
Trabalhei em um hotel no Itaim Bibi, depois na São Luiz, vendendo passagens da Transbrasil. Morei no Bixiga, atravessei fronteiras e, em 2000, mudei para os Estados Unidos. Mas São Paulo não se muda da gente.
Em 2016, voltei e fui morar novamente na Vila Madalena. Vivi ali durante a Copa do Mundo de 2018 — um sonho coletivo — e cruzava a cidade todos os dias de trem e metrô até a Vila Olímpia.
No primeiro encontro com minha mulher, fomos ao Belvedere do Trianon. A cidade lá embaixo, nós dois acima do tempo. O primeiro beijo a gente nunca esquece — e São Paulo estava olhando.
Voltei aos Estados Unidos ainda em 2018. Hoje moro fora, mas a cidade continua aqui dentro. Minha filha alugou um apartamento na Paulista, na mesma quadra onde estudei. Quando volto de férias, não visito São Paulo — eu a reencontro.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Mario Pais é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
