A fúria de Maicon contra o árbitro, logo após o gol adversário, se justifica, por mais que os comentaristas tentem dizer que nada de errado havia ocorrido para uma reclamação tão acintosa. Diego Souza, em uma inusitada cena na qual tirou o cartão amarelo das mãos do atrapalhado assoprador de apito, estava certo em revelar sua indignação —- e somente alguém sem nenhuma autoridade em campo assistiria a tudo aquilo e não o expulsaria.
Maicon e Diego Souza expressaram no gramado da Arena a raiva de quem se sente roubado a cada partida disputada pelo Grêmio, nesta temporada. São dois jogadores que fizeram parte de um elenco de excelência que construímos nos últimos anos e contribuíram na construção da história recente de títulos — em especial nosso eterno capitão, que levantou todas as principais taças que disputamos nos últimos tempos. Sabem pela experiência que têm do nosso potencial e, principalmente, do que já representamos ao futebol brasileiro. E por terem consciência de nosso passado recente, se indignam em campo pelas sequência de roubos cometidos.
E antes que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, imagine que aqui estou a escrever um texto que tenha como alvo principal o espevitado Ricardo Marques Ribeiro, saiba que minhas referências a ele se encerraram no primeiro parágrafo. Por mais atabalhoado que seja, o resultado de hoje não passou pelas decisões equivocadas que tomou.
Fomos roubados, sim.
Não pelo árbitro.
Roubaram o toque de bola que encantou o Brasil.
Levaram embora o futebol de transição que desnorteava os marcadores.
Surrupiaram a movimentação que aproximava jogadores, promovia triangulações e permitia a fluidez do jogo bem jogado.
Afanaram na safadeza a intensidade que impedia a evolução dos adversários.
Tiraram na mão grande o futebol que protagonizou um dos gols coletivos mais lindos que já assistimos —- aquele contra o Atlético Mineiro, em um 13 de agosto de 2015, que foi marcado por Douglas e teve a participação de sete jogadores, que deram 23 toques rápidos de bola, em apenas 23 segundos. Lembra? Eu não esqueço.
Saquearam os talentos que nos deram a Copa do Brasil, a Libertadores e outros tantos troféus que disputamos nesses anos todos.
E, finalmente, pilharam nosso orgulho.
Sim, Maicon e Diego Souza têm razão. Fomos roubados!!!
Foto de Mariana Tarkan, ouvinte da CBN/Flickr CBNSP
Cheguei a São Paulo em uma madrugada de sábado, com três bagagens e nenhum saber sobre o futuro. Era o ano de 1999. Era o meu ano 26 de vida. Vim de Salvador para morar com um amigo de infância que havia passado em concurso público. A ideia era alugarmos um apartamento de dois quartos. O que ele encontrou foi lugar em um enorme condomínio de prédios, no Parque Dom Pedro.
Tentava me convencer de que seria legal. Teríamos a liberdade de dois jovens, na maior metrópole do país, para crescer profissionalmente. E fazer farras homéricas. Eu vinha, tal qual Caetano, de “outro sonhe feliz de cidade” e os meses seguintes me ensinariam “a chamar-te (São Paulo) de realidade.
Minha bolha social de filho classe média privilegiada se rompia naquele janeiro chuvoso. Não tinha mais carro emprestado do pai para a farra ou a praia; não tinha mais jantares na casa de parentes; ou festas nos amigos. Tinha pouco dinheiro no maior centro financeiro do Brasil. A cidade não sabia quem eu era. Não queria saber.
As semanas passavam na mesma velocidade da vida paulistana. Pegava metrô, descia na estação Dom Pedro, baldeava na Sé e seguia até a São João. Trabalhava no escritório de uma empresa na Maestro Cardin. Os fins de semana faziam pouco sentido para um amante da praia obrigado a andar a esmo no parque do Ibirapuera. As farras e ficantes, nos forrós universitários, traziam um pouco do meu mundo de volta.
O jeito com que alguns se relacionavam comigo me devolvia à realidade. Sentia-me “a gente feia e os ignorantes”, cantados pelo Ira. Sentia a xenofobia dos grandes centros do sudeste quando lidam com nordestinos. A cada alfinetada, o refrão se repetia:
“Não quero ver mais essa gente feia
não quero ver mais os ignorantes
Eu quero ver gente da minha terra
Eu quero ver gente do meu sangue”.
Pobre Paulista, IRA
O nordestino, é antes de tudo, um forte —- e reescrevo assim frase de Euclides da Cunha, em Os Sertões, a despeito de sua segunda parte ser outro exemplo de racismo. A perseverança em desconsiderar insultos, a maioria velados, e seguir na construção de um carreira começou a render frutos. A compra do primeiro carro com meu próprio dinheiro foi um marco. Depois, a mudança para um apartamento alugado, no Campo Belo. Ainda assim, eu me sentia como um homem que virou suco. Tinha sido esmagado e todo meu sumo tirado pela selva urbana e sua impessoalidade.
No dia do meu aniversário, bebendo uma cerveja no Borracharia Bar, na Vila Madalena, decidi ir embora. Deixei São Paulo! A cidade nunca me deixou partir por completo. Desde a primeira metade da década de 2000, volto a trabalho, quase que semanalmente, e aprendo a ver São Paulo por uma ótica mais leve.
Se por um lado surge uma chama de pequenas dores vivenciadas, por outro sobra o reconhecimento que viver na cidade me ajudou a amadurecer. São Paulo me abriu caminhos para ser o profissional que sou e confrontou muitas certezas e a soberba da juventude para me tornar mais humano. Quando a cidade tirou meu mundo de privilégios, me retribuiu, ensinando a ver as dores e as dificuldades alheias, criando em mim um olhar mais inclusivo.
“Obedecer com cuidado os dois ensinamentos de Dawar e Bagga não é fácil, mas gera muito mais vantagem competitiva”
Cecília Russo
Charlie Watts é único, singular. Baterista da maior banda de rock de todos os tempos —- perdão, caro e cada vez mais raro amigo leitor deste blog que insiste em admirar os Beatles, mas Rolling Stones é maior —-, morreu aos 80 anos, nesta semana, e motivou uma série de análises e olhares para justificar o sucesso que fazia ao ser contraponto de Mick Jagger e sua trupe. Comedido nos atos, elegante no agir e genial no controle das baquetas, Watts deixa um legado inigualável e lições que podem ser aprendidas em diferentes ciências. Aqui neste espaço, por óbvio que seja, vamos conversar de uma em especial: o branding.
Ao ser a maior das bandas —- e aqui conta a opinião do redator —, Rolling Stones personificou dois conceitos essenciais para o sucesso entre as marcas: centralidade e diferenciação —- assunto de Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Nossos especialista em branding lembram que, em artigo publicado na Harvard Business Review, em 2015, os indianos Niraj Dawar e Charan K. Bagga apresentam os desafios dos profissionais de marketing que precisam posicionar suas marcas nessas duas dimensões. Para que a marca se sobressaia no mercado e tenha sucesso —- como sucesso têm os Rolling Stones — é preciso ser central em sua categoria de produtos, o que a leva ter maior market share, e ao menos tempo ser distinta, para diferenciar-se da concorrência.
Para explicar essa estratégia, Jaime traz o assunto para mais próximo da gente:
“Você vai a uma festa onde quer conversar com algumas pessoas e quer que elas saibam que você está lá. A primeira coisa que precisa fazer é se vestir de uma forma que se adapte àquela festa; mas para não ser apenas mais um, terá de se apresentar e se comportar de uma forma um pouco especial para ser visto além da multidão”
Jaime Troiano
De volta às marcas: o conceito da centralidade pede que você seja percebido como uma marca que opera dentro de uma categoria de produtos — e isso tem de ser feito de forma muito clara. Com isso a marca está em condições de disputar espaço com as concorrentes do mesmo segmento. De acordo com os autores indianos, porém, isso só não basta. É preciso acrescentar alguma coisa, que o faça se destacar naquele grupo.
“Os Stones, de Charlie Watts, respeitam rigorosamente esses dois conceitos. Têm centralidade: nunca ninguém pôs em dúvida a existência dos Rolling Stones como uma banda que disputa esse mercado há muitas décadas. Mas eles têm ingredientes de diferenciação que os faz engolirem as outras bandas nos grandes shows”
Cecília Russo
Muitas marcas entram no mercado para disputar espaço, usam os códigos e o estilo da categoria a que pertecem mas são apenas um copycat, uma imitação das que chegaram antes. Falta a elas diferenciação. Há outras que querem se diferenciar a todo custo e rompem com os códigos e estilo da categoria e ficam deslocadas.
Se no início desta conversa ilustramos a importância de saber trabalhar a marca nas duas dimensões, centralidade e diferenciação, com os Rollings Stones e seu baterista Charlie Watts — que mesmo sendo um Stones como os outros, era diferente —, vamos encerrar nosso papo com uma lembrança bem nacional de Jaime Troiano, que decidiu recitar Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Morais:
“olha que coisa mais linda
mais cheia de graça
que vem que passa
num doce balanço
a caminho do mar”
A letra de Garota de Ipanema fez Jaime lembrar que de tantas mulheres lindas e cheia de graça que passavam pela praia, uma delas em especial chamou a atenção dos dois compositores brasileiros: uma que tinha um “doce balanço” que a diferenciava das demais:
“É isso que a gente espera das grandes marcas. Que estejam passeando pela praia, que sejam bonitas, atraentes, mas que tenham uma coisa a mais, também: pode ser um sorriso, um jeito de andar, um olhar e assim por diante. Não basta estar na categoria, precisa ser diferente dos outros”
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo:
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. A sonorização é do Paschoal Junior.
“Mais e mais empresas estão priorizando, focando, colocando pessoas no centro de suas decisões. Ou seja, para tomar decisão, eu preciso pensar em primeiro lugar nas pessoas. Isso foi inclusive ressaltado pela pandemia”
Ruy Shiosawa, GPTW
Imagine a satisfação de você, estar ao lado da sua família, e receber o comunicado, de viva-voz, do próprio presidente da empresa, de que foi promovido. Foi o que aconteceu com uma colaboradora do GPTW, consultoria que estuda ambientes de trabalho, com atuação aqui no Brasil, há 25 anos. A cena só se realizou porque o anúncio foi feito durante uma videoconferência, da qual ela participou a partir de sua casa, onde está trabalhando desde que se iniciou a pandemia. E onde estavam, também, sua mãe e sua avó. As três comemoraram juntas com o presidente a boa notícia. Um dos protagonistas desse momento foi Ruy Shiosawa, CEO do Great Place To Work, que compartilhou a história com os ouvintes do Mundo Corporativo.
O caso contado por Ruy serve tanto como exemplo quanto como alerta aos líderes. Com parte ou todas as equipes trabalhando em home office, da mesma maneira que se pode usar essa condição para tornar a boa nova uma celebração em família, pode-se gerar situações constrangedoras e desrespeitosas:
“Todo dia quando se faz uma reunião de trabalho, esse líder, esse gestor, entra dentro da casa das pessoas. É como se nós tivéssemos todos os dias, antes de iniciar uma reunião, que pedir licença para entrar dentro do ambiente familiar … Essa proximidade do mundo do trabalho com o mundo pessoal e familiar é muito maior, mudando as características de liderança”.
Ao contrário da maioria das empresas com quem temos falado no Mundo Corporativo, o Great Place to Work não pretende voltar ao modelo presencial — a não ser em alguns encontros ao longo do ano que serão organizados para gerar um relacionamento mais intenso entre os colaboradores. Decisão adotada por dois motivos, em especial. Um deles, o fato de que algumas equipes de trabalho foram formadas durante a pandemia com profissionais contratados em regiões diferentes do país, e não faria sentido abrir mão desses talentos. O outro, ainda mais concreto: o GPTW não tem mais uma sede. No inicio da pandemia, ao assistir à queda em 70% dos seus negócios, a consultoria reuniu todos os colaboradores e juntos decidiram que somente haveria demissão se não houvesse mais alternativas. Fazer o quê, então?
“Uma das decisões que nós tomamos foi a de demitir o prédio em vez de demitir as pessoas. Porque sem as pessoas, o GPTW não existiria mais. Sem o prédio, a gente continua funcionando. E, como eu falei: este ano batemos o recorde de participação de empresas na nossa pesquisa”.
É da pesquisa de ambiente de trabalho que vêm boa parte do faturamento da consultoria e dela que surge a maioria das soluções propostas às empresas. Um estudo que alcançou 4 mil organizações, neste ano de 2021, depois do sumiço da maior parte dos parceiros no primeiro ano da pandemia. Muita gente temia medir o nível de satisfação de seus colaboradores diante da situação que todos enfrentávamos. O resultado não deixou dúvidas: as empresas que demonstraram interesse em perguntar o que estava acontecendo com os seus profissionais, se preocuparam com a saúde mental deles e os trouxeram para o centro das decisões, tiveram suas médias melhoradas, na pesquisa.
Uma pergunta que muitos se faziam é como ficaria a cultura da empresa com os funcionários à distância. Rituais que fazem parte do cotidiano da organização deixaram de ser realizados. Para superar essas barreiras, as empresas que melhor gerenciaram a crise intensificaram e aumentaram a frequência dos contatos de cada líder com sua equipe. Contatos em grupo e individuais —- e aqui um destaque em especial, porque a pandemia expressou as individualidades e a necessidade de os casos serem tratados de maneira diferenciada.
Escutar o outro é tema que tem frequentado as rodas de conversa (online) de gestores e, invariavelmente, é prática comentada por entrevistados do Mundo Corporativo. Não seria diferente com Ruy Shiosawa. Para o CEO do GPTW, é preciso fazer esse exercício para que se encontre a resposta que muitos líderes buscam diante do desafio da retomada das atividades no pós-pandemia:
“A gente tem uma mania de achar que o líder, o presidente tem de saber tudo e decidir o que é melhor para a empresa, para as pessoas. Não! Faz ao contrário! Pergunte para as pessoas o que é que elas acham. Quando você toma decisão sabendo o que está contemplando, o que você vai resolver e o que você vai complicar, você já pode pensar nos desdobramentos para isso”.
Foi escutando pessoas que algumas empresas perceberam a necessidade de se criar ações de controle da saúde mental dos colaboradores. Algo que já aparecia em anos anteriores da pesquisa de ambiente organizacional do GPTW e teve crescimento exponencial na pandemia, com o isolamento agravando algumas situações. Os dados globais são preocupantes: uma em cada cinco pessoas terão ao longo da sua carreira alguma questão envolvendo sua saúde mental e 75% desses casos não serão detectados. Ou seja, a pessoa tem um sintoma de ansiedade leve que não é percebido e não é tratado. Esse sintoma se torna moderado e segue sem tratamento. Daí se transforma em intenso e quando menos se espera, a crise já explodiu.
Ruy defende que as empresas tenham profissionais especializados em saúde mental — no corpo de colaboradores ou terceirizados —- para que se faça uma análise científica das soluções a serem implantadas. No GPTW, os primeiros passos foram contratar os serviços de um equipe médica e fazer uma variação na pesquisa anual para identificar o tamanho desse problema de saúde mental. Uma das soluções foi criar uma semana de cuidado da saúde, escolhida pelo próprio colaborador, período em que ele ficará afastado da empresa sob o compromisso que dedicará aquele dias para realização de exames e outros cuidados com a sua saúde.
“Uma semana de férias a mais para cada pessoa? Minha empresa não pode ficar sem ela, uma semana, dirão alguns empresários. E eu respondo: se entrar em crise, você ficará sem ela um mês ou até mais. Se já não fosse prejuízo suficiente ter um profissional com a saúde comprometida”.
Assista à entrevista completa com Ruy Shiosawa, do GPTW, no Mundo Corporativo
Este episódio do Mundo Corporativo teve a colaboração de Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves. O programa pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site da rádio. O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN. E aos domingos, às 10 horas da noite, em horário alternativo.
Minha cadeira azul fica ali ao lado da tela da televisão, onde assisto a todos os jogos de meu time. É o lugar que encontrei para jamais esquecer o Grêmio que já fomos. O metal frio do assento ondulado e do encosto curvado teve sua cor recuperada; o número que a identificava no anel superior do Olímpico Monumental, também: J-104 aparece na cor branca sobre o fundo preto. Quando a recebi de presente —- generosidade de meu irmão, Christian —- logo pensei nos milhares de torcedores que a usaram ao longo de sua vida útil no saudoso estádio. Quem sabe até eu tenha sentado nela em um domingo qualquer de futebol.
Foi em cadeiras azuis como essa que forjei minha paixão pelo Grêmio. E você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem ideia de como ela moldou minha personalidade e meu caráter. De quantas vezes saltei sobre ela com os dois pés para comemorar o gol impossível e a virada improvável. De quantas vezes, me ajoelhei diante dela para não ver o desastre que se avizinhava. De quantas vezes, escondi minha cabeça sobre o assento para que meus colegas não me vissem chorando a derrota sofrida.
Foi em uma dessas cadeiras azuis e de ferro frio que suportei anos a fio sem um título estadual. Foi nela que, ao lado de meu pai, vibrei como nunca com o gol de André Catimba, naquele Gre-Nal histórico de 1977. Dela presenciei a conquista da América na batalha final contra o Peñarol. Foram elas, as centenas e centenas de cadeiras que ornavam de azul o setor das cativas do velho estádio, que me uniram a amigos, serviram de assento para conversas animadas e aninharam alguns amores platônicos que minha timidez impedia de revelar àquelas torcedoras que vestiam a camisa tricolor.
Hoje, foi para a cadeira azul, ao lado da televisão, que olhei, ao fim da partida. Em silêncio, enquanto absorvia o que acabara de acontecer no gramado de Humaitá, perguntava a ela onde está o meu Grêmio, aquele que não temia qualquer adversário por mais forte que fosse; que mesmo quando o futebol não se expressava pela qualidade, se superava na força e na coragem? O que aconteceu com a nossa Imortalidade, que um dia nos permitiu ascender de divisão com apenas sete jogadores em campo? Que já nos fez virar placares de forma inimagináveis? Que me fez ter orgulho de meu time mesmo em momentos de derrota?
Com a frieza típica do ferro, que se tornava mais penetrante ainda quando exposto ao inverno do Rio Grande do Sul, a cadeira azul nada me disse. Porque nada há para dizer em um momento como esse. E o melhor que ela pode fazer é ficar ali, parada, servindo-me como uma memória do que fomos, lembrando-me que, a despeito de já termos passado por momentos dramáticos, encontramos forças para nos recuperar. E soubemos reescrever a história.
Outro dia, mexendo na estante de casa, deparei com o livro de Calvin Tomkins, intitulado “Viver bem é a melhor vingança”. Apesar de a obra ter como protagonista um casal rico que saiu dos Estados Unidos e foi viver em Paris, nos anos 1920, o título trouxe à tona reflexões sobre diversas situações que envolvem mágoas, humilhações e traições —- e a maneira como muitas pessoas conseguem ser mais indulgentes.
Robert Enright, psicólogo e professor da Universidade de Wisconsin, foi um dos pioneiros nos estudos científicos sobre o perdão, demonstrando que perdoar pode melhorar significativamente o bem-estar psicológico e a saúde física, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e estresse.
O ato de perdoar consiste em avaliar, de forma realista, o prejuízo causado, reconhecer a responsabilidade do autor, e decidir, de maneira voluntária, pela ausência de vingança ou punição.
Imagine que você tenha uma nota promissória assinada e no dia do vencimento você resolva cancelar essa dívida, rasgando esse documento. Ao cancelar a dívida, há um cancelamento das emoções negativas, pois há uma superação do ressentimento e da raiva, sobrepostos por uma atitude, permitindo um deslocamento do papel de vítima para o papel de autor.
Para Enright, um dos mecanismos mais importantes do perdão consiste em desvencilhar-se da raiva tóxica, aquela raiva profunda e duradoura que ocorre após o episódio que nos machucou, e que pode perdurar anos a fio.
A vantagem de se livrar dessas emoções negativas foi demonstrada num estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology,em 2009, que após analisar diversos trabalhos científicos, identificou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a um maior risco de doenças cardíacas.
Como as demais características humanas, algumas pessoas podem ter habilidades que favoreçam ser mais indulgentes, como empatia, resiliência e maior tolerância. Por outro lado, pessoas com tendência à ruminação, apresentam maior dificuldade em perdoar, pois são mais propensas a guardar rancores e mágoas.
A boa notícia é que como muitas das habilidades, perdoar pode ser treinado, promovendo consequências positivas, como aumento do relaxamento muscular, redução da ansiedade, mais energia e fortalecimento do sistema imunológico.
Perdoar por vezes parece coisa de gente privilegiada, evoluída. Parece difícil demais de realizar. Porém, a atitude de perdoar não significa que você aprova, esquece ou nega a dor causada. Significa que você reconhece que erros e imperfeições acontecem, e que sempre é possível a gente fazer diferente —- a gente fazer diferença num mundo marcado por tantos conflitos. Porque o perdão envolve povos e nações. Envolve relacionamentos. Consiste em perdoar a si mesmo.
Por vezes, ficamos tão machucados que o coração resta em pedaços. Tão fragmentado que quase não nos reconhecemos. Falta inteireza. Sobram cacos. Ficam feridas.
Curar um coração ferido leva tempo.
Quanto tempo?
Vai depender da nossa disposição para lançar mão desse bálsamo cicatrizante chamado perdão. Vai depender da nossa decisão de cancelar as emoções negativas que pesam em nós.
O resultado: viver bem, viver melhor, viver em paz. Essa é a vingança!
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
O cético exige evidências robustas para corroborar um fato ou um achado científico. O negacionista nega os fatos e o achado científico sem oferecer evidências robustas.
Bem mais do que um jogo de palavras, as duas frases que iniciam este texto estabelecem de forma definitiva o campo de ação de cada um desses comportamentos; e os coloca em lados extremamente opostos. Fazer essa diferença é fundamental porque há um enorme esforço de parcela da sociedade —- menos mal que não é tal parcela significativa —- em negar a verdade apenas porque ela não lhe convém; e chama isso de ceticismo. Não o é. Tem nome próprio: negacionismo. E negacionismo prejudica, deseduca, desinforma e mata.
Exemplos não nos faltam nem exigem voltar ao tempo: quantos morreram porque não acreditaram na existência de que estávamos em uma pandemia; quantos foram mortos porque líderes políticos e gestores públicos negaram as evidências que a ciência havia encontrado desde o surgimento dos primeiros focos de contaminação pelo SarsCov-2; quantos lerão essa história lá na frente, quando nós não estaremos mais por aqui, e dirão que aquela suposta tragédia humana dos anos 2020 foi uma estratégia de governos dominadores em conspiração com laboratórios de ciência que teriam ficado de joelhos diante do império chinês que se estabelecia —- e não me peça para explicar a lógica desta frase porque ela só existe na mente de negacionistas.
Essa conversa que tenho com você agora, se iniciou hoje cedo na “Conversa de Primeira”, que faço todas as terças-feiras com uma cética que trava batalha diária contra o negacionismo. Cética e com orgulho como ressaltou a doutora Natália Pasternak, que não requer crachá nem apresentações; mas que faço questão de registrar ser a primeira brasileira com nome inscrito no Comitê para a Investigação Cética, criada pelo astrônomo Carl Sagan, nos anos de 1970. Ela está lançando com o jornalista científico (e marido) Carlos Orsi, o livro “Contra a realidade — a negação da ciência, suas causas e consequências” (Papirus 7 Mares).
“É um tema que a gente vem explorando há muito tempo por causa do nosso trabalho no Instituto Questão de Ciências. Principalmente por causa do negacionismo em ciência e que durante a pandemia a gente presenciou de camarote — vimos acontecer no Brasil de uma maneira que é difícil de acreditar. Mas não apenas em ciências”.
Eis aí na explicação de Natália outro fato incontestável. O negacionismo ataca a verdade construída pela ciência, mas não se contenta em atuar apenas nessa área. Vai além. Vai para a história quando nega a existência do holocausto, a despeito da robustez de registros e testemunhos. Uma teoria que se torna ainda mais absurda quando se tem a exposição da verdade diante dos nossos olhos em locais como o United States Holocaust Memorial Museum, em Washington DC, que, por coincidência ou não, foi visitado pela doutora Natália e a filha dela, nesta semana. Um programa que só a fez ratificar a ideia de que enfrentar o negacionismo é fundamental para evitarmos erros históricos que podem se transformar em novas tragédias humanas.
No livro, são identificados alguns aspectos que movem esses grupos a atrapalhar o desenvolvimento humano, com campanhas contrárias a vacinação ou rejeição à tese de que a ação do homem impacta o ambiente e leva ao aquecimento global. Para Natália e Carlos deve-se considerar o fato de que ao aceitar algumas dessas ideias, mesmo que tenham comprovação científica, precisamos necessariamente mudar nossos comportamentos—- algo nem sempre muito fácil. Em um dos capítulos, somos lembrados da negação aos malefícios do tabaco:
“Se eu aceito que tabaco dá câncer, eu tenho de parar de fumar. Se eu aceito que o aquecimento global é real e prejudica o meio ambiente, tenho de mudar meu estilo de vida. Para não mudar o meu comportamento, eu nego essa realidade porque é mais confortável”.
O negacionismo se constrói em diversas dimensões e inspirado por diferentes motivações — ideológicas, sem dúvida. Basicamente, é uma atitude de negar fatos estabelecidos ou consensos científicos, a despeito das evidências. E pode vir combinado com outros métodos, tais como o ilusionismo —- com o devido respeito aos profissionais da área.
Foi isso, por exemplo, que assistimos na “batalha da cloroquina”, liderada pelo chefe supremo da nação. As crenças de que uma droga para a doença viral transmitida por mosquitos teria eficácia em tratamentos precoces da Covid-19 e sua distribuição em rede pública conteria o avanço da doença eram manipulações, alterações da realidade, para escamotear a incompetência de se gerir uma crise. Chamei isso de ilusionismo? A CPI da Covid, parece, preferir batizar de charlatanismo. Que seja!
Negar a eficácia da cloroquina, da hidroxicloroquina ou da ivermectina no tratamento da Covid-19 não é negacionismo? Não. É ceticismo! Porque céticos fazem questionamentos saudáveis, como nos ensina Natália Pasternak:
“(ceticismo) é exigir evidências para então aceitar um consenso ou um fato. Exigir evidências de que a cloroquina funciona para a Covid-19 é ceticismo. Opa, essa afirmação que você esta fazendo tem de ser baseada em evidências científicas. Onde estão as evidências, as provas? Me mostra as evidências que aí a gente pode conversar”.
Para saber como podemos colaborar com a ciência e o conhecimento combatendo os negacionistas, leia o livro “Contra a realidade — a negação da ciência, suas causas e consequências” e ouça a nossa conversa — minha e da Marcella Lourenzetto — com a doutora Natália Pasternak, no quadro “A Hora da Ciência”, do Jornal da CBN.
Diego Souza e Lucas Silva em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Publico o mais rápido que posso essa Avalanche. Porque há instantes na vida que não se desperdiça. Aproveita-se cada segundo. Cada frame. Especialmente nestes tempos em que o relógio não avança e o ano marca passo diante de tantas dificuldades e sofrimentos. Sei que essa frase serve tanto para o que todos estamos experimentando desde o início de 2020 quanto para o que os gremistas estamos vivenciando em 2021. Como esse espaço é dedicado as minhas angústias e alegrias futebolísticas, é evidente que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, sabe que a frase se refere ao que tem acontecido lá pelos lados de Humaitá.
Hoje, alcançamos pela primeira vez a segunda vitória consecutiva no Campeonato Brasileiro. A primeira por diferença de mais de um gol e a quarta desde que a competição se iniciou, há 16 rodadas (nós temos um jogo atrasado ainda). Sabe-se lá quando isso se repetirá novamente. Então, comemoremos com a mesma alegria que nossos dois centroavantes festejaram os gols marcados.
Borja, ops, São Borja concluiu uma só jogada em gol em toda a partida. E dentro do gol. De cabeça. Em um cruzamento do outro lado da área, em que ele soube se posicionar por trás do zagueiro e saltar mais alto do que qualquer marcador para concluir nas redes. É o terceiro gol em quatro partidas em que vestiu a camisa do Grêmio.
O goleador gremista no Brasileiro foi substituído nos minutos finais pelo goleador gremista na temporada, Diego Souza, que depois de sofrer com a Covid, por duas vezes, voltar com claras dificuldades físicas, ainda teve lesão que o afastou por bom tempo do elenco. Em poucos minutos, Diego mostrou sua força. Na primeira, a bola lhe escapou do pé diante do goleiro. Na segunda, ele lutou por ela, desbravou o campo recheado de marcadores e com a determinação de quem sabe que precisa brigar pela posição — aos trancos e barrancos —- venceu na força todos seus adversário e concluiu nas redes.
Dentre tantas raridades desta noite de sábado, preciso registrar a performance de Lucas Silva, um leão na frente da área, que fez uma das suas melhores partidas desde que chegou ao Grêmio. E a intensidade do jogo de Douglas Costa que ensaiou dribles, colocou os companheiros em condições de chutar, brigou pela bola e lutou o quanto pode pela camisa que fez questão de vestir.
Paro por aqui meu relato e o publico o mais breve que posso para aproveitar este momento de ascensão no campeonato, a despeito de ainda estar naquela-zona-que-não-pode-ser-nomeada.
E se lá no começo disse que aquela frase sobre o tempo difícil que vivemos se referia ao futebol gremista, fecho esta nossa conversa lembrando que a lição que pratico hoje no futebol —- celebrar o momento, mesmo que fugaz — deve ser aplicada na vida. É o que tenho feito em família, ao lado de quem amo e respeito, porque nunca sabemos quando isso pode acabar. Se o futebol é imprevisível. A vida, ainda mais.
“Há muitas décadas personagens vêm sendo criados para ajudar marcas a se posicionar e criar vínculos com pessoas, segue sendo um recurso valioso mas é preciso saber usá-lo para que seja aliado e não inimigo”
Jaime Troiano
Quando a Galinha Azul aparecer na sua televisão é possível que seus filhos a confundam com a Galinha Pintadinha, mas você, certamente, vai ter sua memória refrescada com aquela personagens que fez sucesso nos anos de 1980 e 1990. Em tempo: é possível que seu filho nem veja a Galinha Azul na televisão, vai deparar com ela na tela do celular —- mais um sinal das mudanças de comportamento e referências. Aliás, mais um grande desafio, também, aos criadores e desenvolvedores de marcas que resgatam essas figuras icônicas e precisam remodelá-las para conquistar os novos públicos.
No caso da Galinha Azul, a Maggi resgata seu desenho e oferece ao público no modelo 3D e com traços mais modernos. Para a empresa, a “pop star” —- é assim que o Jaime se referiu à moça — é muito mais do que uma personagem, “é um ícone que desperta consumidores uma memória afetiva cheia de carinho”, explicou Samara Ferrara, gerente de marketing da Maggi, em entrevista ao Meio e Mensagem.
“Claro, ela volta repaginada, numa versão 3D, mas segue tendo sua função básica inalterada, que é a de criar vínculos mais emocionais com as pessoas, indo além do caráter mais tangível dos produtos Maggi”
Jaime Troiano
Ao falar da Galinha Azul, meus colegas de quadro logo lembraram de outros personagens: o Chester, da marca Cheetos; o Zé Gotinha, das campanhas de vacinação; e o Lequetreque, o frango da Sadia. Nossos ouvintes, também. E o primeiro nome que surgiu no e-mail marcasdesucesso@cbn.com.br foi o do Sujismundo, criado por Ruy Perotti, que se transformou em ícone da campanha “povo desenvolvido é povo limpo”, que foi usado até para convencer as pessoas a tomarem vacina.
“O personagem traz um sinal de reconhecimento forte para a marca proprietária; as pessoas fazem uma associação imediata ao ver o personagem. Ouvimos consumidores falando: olha lá o frango da Sadia! Podem nem saber o nome do personagem mas fazem a relação correta com a marca que usa o personagem”
Cecília Russo
Apenas criar mascotes, modernizar seu desenho e torná-lo público, não é suficiente. Jaime e Cecília alertam oscriadores de marcas para o risco de usarem essa estratégia de forma excessiva:
“O risco de as marcas usarem personagens é elas se tornarem reféns dessas criações, ou até do personagem ser mais protagonista do que a marca e abafá-la, isso não pode acontecer. Por isso, é importante saber dosar seu uso, estudando onde vale a pena e onde é dispensável usá-lo”
Cecília Russo
Ouça o Sua Marca Vai Ser Sucesso e relembre alguns dos personagens da publicidade que ganham “voz” na edição feita pelo Paschoal Júnior — que é fã da Galinha Azul tanto quando da Galinha Pintadinha. Sim, o Paschoal é um cara bastante diverso (e criativo):
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã.
Ainda no ano dourado de 1965, éramos 17 adolescentes cursando o terceiro ano clássico (TAC) num tradicional colégio para meninas, em São Paulo. Unidas nos sonhos, brincadeiras, projeções para o futuro, com muito estudo, disciplina e severa vigilância das freiras — o que não nos impediu de paquerar os rapazes da faculdade em frente.
Formadas, cada uma seguiu seu caminho. Tornamo-nos profissionais de respeito, esposas, mães e, mais tarde, avós e aposentadas. Algumas mantiveram contato entre si através de encontros casuais e cartas mas não nos vimos mais.
Em agosto de 2019, uma delas, com um esforço digno de detetive profissional, investigou o paradeiro de cada uma e conseguiu reunir onze através do celular: São Paulo, Ubatuba, Recife , Rio de Janeiro, até Nova Zelândia!
Com a pandemia ficamos mais unidas, numa comunicação diária sempre ansiada, preocupadas umas com as outras, dando força na tristeza, risos nas conquistas, flores virtuais, receitas, fotos de família e pequenos mimos guardados com cheiro de lembranças.
Hoje, somos senhoras de 73 anos ou mais. Nos apelidamos de “joaninhas”. Nos unimos numa folha para salvar aquela que está em perigo. Rimos e choramos juntas, sem perspectiva de nos encontrarmos novamente, ao menos por enquanto.
É um alento nesses tempos de reclusão e solidão contarmos umas com as outras todos os dias graças ao meio virtual, sem nos vermos há 55 anos, com muitas saudades. É muito tempo.
Quem sabe um dia?
Que delícia viver e reviver!
Rosiléne da Costa Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.