Mundo Corporativo: empresas tem de ser onipresentes na jornada do consumidor, diz Lyana Bittencourt

Foto de Mikhail Nilov no Pexels

“Nesse mundo atual, ninguém sabe tudo, ele é colaborativo, ele é integrado, ele é co-criado. E isso Isso muda. Isso muda as empresas”

Lyana Bittencourt

Ao entregar um cartão de visita é comum a empresária Lyana Bittencourt, CEO do grupo que leva o nome da família, ouvir seus interlocutores perguntando se foi o pai quem fundou a organização. “Foi a mãe”, responde com orgulho. Sim, foi Dona Cláudia quem, há 36 anos, abriu a empresa que presta serviço, orientação, conhecimento e estratégia de atuação para redes de negócios. E abriu, também, caminho para Lyana dar sequência ao trabalho que hoje atende cerca de dois mil clientes:

“Minha mãe deve ter vivido (essa situação) mais ainda, mas eu, quando eu ia para as reuniões, não tinha uma mulher disputando comigo, eram só empresas lideradas por homens. Meus principais competidos são liderados por homens. A nossa é a única feminina. E feminina em espírito”.

A despeito disso, ser uma referência como liderança feminina não é o seu propósito. Ao menos não é essa a intenção quando acorda pela manhã. Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Lyana disse que o que busca é fazer o seu melhor trabalho, ter uma empresa admirada e ajudar os clientes a realizarem seus sonhos. Entende que ser líder é consequência de um bom trabalho. Como sugestão às mulheres – e homens, também – que pretendem assumir o comando dos seus próprios negócios, recomenda:

“Esse foi um aprendizado que tive com a minha mãe desde muito cedo. Ame aquilo que você faz, descubra algo que te faça acordar; e seja verdadeiro no que você faz. O mundo não tolera mais o fake, o disfarçado”. 

E por falar em mundo … o desafio do momento é entender quais cenários permanecerão em pé depois da experiência que vivenciamos nesta pandemia. Lyana Bittencourt, que realiza consultoria especializada no desenvolvimento, gestão e expansão de redes, enxerga que as empresas terão de ser mais líquidas, flexíveis e adaptáveis. Terão de interpretar as demandas do consumidor omnichannel, que quer ser atendido da maneira que deseja, no local em que estiver e pelo meio que lhe convier.  Ou seja, nem só físico nem só digital: figital. 

“E se as empresas não estiverem atentas a serem essa solução completa que o consumidor deseja, elas vão perder para outras empresas que estão mais completas e mais onipresentes na jornada. Então, eu quero ser uma marca onipresente. Eu tenho que estar no celular do consumidor. Eu tenho que ter a loja. Eu tenho que ter o meu e-commerce. Eu tenho de ter meu market place”. 

Assista ao Mundo Corporativo com Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, que fala de outras estratégias necessárias para as empresas estarem sintonizadas com o momento atual.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: sonhava ser o motorista do “Papa Fila”

Ismael Medeiros

ismaelmedeitos@outlook.com

Nasci em 13 de julho de 1946, no Hospital Umberto Primo, o Matarazzo, próximo de onde meus pais moravam, na rua Herculano de Freitas, na Bela Vista. Aos dois anos mudamos para São Miguel Paulista, onde a economia girava em torno da Nitro Química, fábrica da Votorantim.  Meus avós maternos seguiram morando nos velhos sobrados da Nove de Julho, ao lado do túnel — o que nos levava a visitar frequentes ao Bexiga.

Sair dos limites da zona leste era uma saga. Pegávamos um ônibus até a Penha. Era o ônibus do Toninho, seu proprietário. Depois de passar pela curva da morte, na Ponte Rasa, desembarcávamos na praça Sete de Setembro para, em seguida, subirmos no bonde —  ou o Camarão,  de cor alaranjada, ou o aberto. Na Praça Clóvis Beviláqua, saltávamos de um bonde para outro, para chegar na rua Manoel Dutra, próximo a praça 14 Bis.

Nos bondes, havia propaganda de produtos no alto. Uma das que não esquece tinha um careca correndo atrás do macaquinho que lhe roubara o vidro da loção capilar: “vem cá Simão! Traga a minha loção”.

O ouvinte Ismael é o menino menor desta foto feita na Praça 14 Bis em 1948

Na praça 14 Bis tinha um jardim que seguia até o túnel, com espaços onde andava de bicicleta com o primo Joãozinho. Havia bancos de assentos para apreciar o movimento de carros, geralmente Ford e Chevrolet. Eu e ele apostávamos se passariam mais carros verdes ou pretos. Ainda por lá, ao lado do túnel, tinham dois chafarizes que davam uma vontade louca de mergulhar. 

Ainda lembro do retorno a São Miguel, no fim da tarde, início da noite, quando a cidade virava uma festa de luminosos, colorindo e encantando as pessoas. O meu preferido era o Elmo do Banco Auxiliar de São Paulo que eu avistava do ponto de ônibus, no parque Dom Pedro II – já era época em que os bondes começavam a ser substituídos. Do lançamento do ônibus ‘Papa Fila’,  uma espécie de carreta da CMTC, guardo a lembrança do motorista que ficava isolado no cavalo mecânico, enquanto os passageiros vinham na parte articulada de trás. 

Sonhava ser o motorista daquele ônibus. Fazia do contorno do assento meu voltante. Com a boca, imitava o ronco do motor. Trocava marchas imaginárias. E seguia conduzindo meus passageiros pela Rangel Pestana, Celso Garcia, Penha e de volta a São Miguel Paulista. 

Ismael Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: um pecado

Atlético MG 2×1 Grêmio

Brasileiro – Mineirão, Belo Horizonte/MG

Campaz comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Um pecado” falou Rafinha em entrevista ainda ao lado do gramado em que o Grêmio acabara de fazer uma de suas melhores partidas neste campeonato. Foi como o lateral gremista definiu o que aconteceu nesta noite em que enfrentamos o líder e virtual campeão do Brasileiro, um estádio estupidamente (no pior sentido da palavra) lotado — a despeito da pandemia que ainda vivenciamos — e a saga de azar que a temporada 2021 nos reserva.

Um pecado Borja perder o gol ainda no início do jogo em contra-ataque que parou no poste adversário. Um pecado saber que o gol que ele marcou na sequência foi anulado por um traço milimétrico e digital do VAR. O mesmo serviço auxiliar do árbitro que foi atento em ver irregularidade de Campaz ao se proteger de uma bola na barreira, mas foi incapaz de identificar a irregularidade na posição do jogador adversário que não respeitou o metro de distância da mesma barreira. Um pecado Chapecó ser tão preciso no lado em que saltou para defender o pênalti mas nem isso ter sido suficiente para alcançar a bola. 

O gol que não entra, o pênalti que é marcado, o gol que não evitamos … os pecados que o Grêmio está pagando por erros que não estão à altura da punição que recebemos. Até quando? Não sei. A noite de hoje, nos sinalizou mudanças de postura e de performance, que se reproduzidas nas demais partidas pode nos tirar deste sufoco que enfrentamos. 

É só não cometermos novos pecados … 

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos…

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts. 

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: quando a marca deve fazer uma harmonização facial

Colégio Bandeirantes ganhou novo logotipo (foto: divulgação)

“Ao longo da história de uma marca é preciso fazer mudanças para preservá-la”

Jaime Troiano

Tá na manchete do site de fofoca. Tá em destaque na televisão. Tá nas páginas de saúde e bem-estar. Harmonização facial é o tema da moda quando o assunto é beleza. É a combinação de uma série de procedimentos estéticos — dizem que suaves e sem cirugia — para corrigir a simetria e a proporcionalidade do rosto. Aplica-se botox, faz-se preenchimento facial, dá-se uma enxugada na papada e um reforço na elasticidade da pele. Bem feito, o resultado é ótimo. E tem quem diga, recupera a auto-estima. Quando dá errado … esquece!

Assim como as pessoas, as marcas também podem passar por uma espécie de harmonização facial, com retoques aqui e ali, capazes de oferecer uma imagem melhor, mais simétrica e moderna. São mudanças que vêm para preservar a marca, explica Jaime Troiano:

“Marcas antigas, tradicionais, algumas com décadas e outras centenárias, não precisam ficar com cara de velha. Devem fazer atualizações e renovações. dentro de certos limites. Por outro lado, não podem, simplesmente, levar uma vida acompanhando a modinha”.

O risco de fazer a harmonização facial da marca sem critério é perder o seu diferencial e ficar com a mesma cara da concorrência, a mesma linguagem e o mesmo conteúdo. A solução é bem parecida com aquela proposta por Jaime e Cecília, quando falamos de inovação das marcas: muda-se sem perder a essência. 

Um bom exemplo, usado pela Cecília Russo para ilustrar o tema, foi a “harmonização facial” do tradicional Colégio Bandeirantes, de São Paulo, fundado em 1944. Há três anos, a escola iniciou uma série de mudanças que passaram pelo nome, logotipo e comunicação com a intenção de expressar melhor a proposta da escola de “olhar à frente”. O colégio assumiu o nome Band, forma como seus alunos se referiam à instituição, e tirou a letra B, símbolo da escola, de dentro de um logotipo quadrado, para dar ideia de flexibilidade. 

“Acho que isso é um bom exemplo de fazer uma renovação: preservar o essencial, e mostrar que essa dualidade, ser tradicional e inovador ao mesmo tempo, é possível”

Cecília Russo

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo, e sonorização de Paschoal Junior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã. Os ouvintes podem participar com mensagens enviadas para marcasdesucesso@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: que vergonha!

Grêmio 1×3 Palmeiras

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A tabela de classificação já não era favorável na noite de sábado, quando sentei diante do computador para planejar o domingo futebolístico. Confesso que, pela primeira vez, o abatimento se expressou no coração deste torcedor (quase) sempre crente nas conquistas impossíveis do tricolor. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe da minha tese — diante do desespero que assistimos nesta temporada — de que estamos disputando uma Batalha dos Aflitos estendida, em que os aflitos somos nós próprios. E haveremos de vencer, mesmo que tudo aponte no sentido contrário.

O que era ruim, pior ficou.

Tomamos uma virada ainda no primeiro tempo, o VAR apitou mais do que o árbitro – acertou nos dois lances cruciais, registre-se – e o azar deu às mãos à intranquilidade e passeou pelo gramado da Arena. Com cada vez menos rodada para se recuperar e a dificuldade de o treinador e o time enxergarem soluções a curto prazo, a esperança de uma reviravolta se esvaía.

Foi, então, que, ao fim da partida, ouvi as palavras de Geromel, que voltou ao time dois meses depois de se recuperar de uma lesão no pé e fez um jogo quase impecável, a despeito da falta de ritmo:  

“Temos de trabalhar. Não podemos desistir. Só juntos sairemos desta situação. Sabemos que é uma situação incomoda. Faltam 11 jogos e precisamos de seis vitórias. Temos que sair desta situação”. 

A afirmação de nosso zagueiro e capitão mexeu com meu ânimo. Tudo que estava prestes a desmoronar, me pareceu novamente possível — ao alcance de um time que,  com um chacoalhão e a inclusão dos jovens que deram mais ritmo no segundo tempo, se revelará imortal, como dito em seu hino e história. Estava prestes a levantar do sofá, sacudir a poeira e fazer minha reverência à camisa autografada por Geromel que está estendida em um quadro no memorial que mantenho em casa. Mas as cenas que vieram em seguida, me abateram de vez. 

Os alucinados torcedores invadindo o gramado da Arena, quebrando o que viam pela frente, vandalizando o VAR e correndo como baratas tontas (e covardes) me levaram ao fatídico ano de 2004 quando fomos rebaixados. Uma época em que o clube estava destruído, ao contrário de hoje; tínhamos um time muito inferior ao atual; e a sequência de violência nas arquibancadas do Olímpico nos tirou o direito de jogar em casa e com torcida quando mais precisávamos deste apoio. Uma atitude que praticamente definiu nosso destino.

Os torcedores que assim agiram neste fim de domingo, em Porto Alegre, me fazem sentir muito mais vergonha do que o rebaixamento que nos ameaça de forma mais intensa a cada fim de rodada. 

Mundo Corporativo: César Souza apresenta 5 lições que temos de aprender com o sucesso da Magalu

“O líder, hoje, tem que estar ligado com essas palavras, que são bonitas, mas tem que ser praticadas: compaixão e amor. Tem que entender a dificuldade dos outros e buscar soluções para a dificuldade dos outros”

César Souza

Se quiser copiar e colar a frase acima e publicar nas suas redes sociais, sem problema. Agradeço de coração! Agora, se for para copiar e colar fórmulas aplicadas por empresas de sucesso, muito cuidado. O alerta é de César Souza, empreendedor de nascença, consultor por profissão e um fã das boas práticas de gestão. Essa é uma das lições que aprendeu ao longo da carreira e compartilhou com os ouvintes, em entrevista ao Mundo Corporativo, quando falou do seu último livro “O jeito de ser Magalu”, o primeiro de uma série em que analisa a história, a estratégia e o desempenho de algumas das principais empresas brasileiras, que podem inspirar os empreendedores:

“Deve servir de inspiração para cada um olhar para sua realidade, e ver o que é que pode fazer dentro da sua própria realidade; e não, simplesmente, aquela ideia, já desbotada, do benchmark, que muita gente vai atrás para ver como é que funciona uma outra empresa para trazer, para copiar, na minha empresa. Eu acho que copiar não funciona”.

Magazine Luiza surge quando o casal Luiza Trajano e Pelegrino José Donato compra a Loja Cristaleira, em Franca, no interior de São Paulo, em 1957. Antes mesmo de inaugurar o novo negócio, Luiza revela uma característica que marcaria o grupo ao longo de sua trajetória: foi a uma rádio local e lançou concurso para que os ouvintes escolhessem o nome da loja. Essa prática está dentro do conceito que César Souza identifica como o da clientividade, que é “colocar o cliente no centro do seu modelo mental, no centro do seu coração, no centro das suas decisões” 

Da ação no fim dos anos 1950 à expansão da rede, da loja do interior paulistano que se transformou em marca nacional à transformação digital, a Magazine Luiza passou por três sucessões —- o que, por si só, já é um tremendo desafio poucas vezes vencido pelas organizações, no Brasil. A fundadora Luiza Trajano entregou o comando para a sobrinha, Luiza Helena. Por um período, a empresa esteve nas mãos de um profissional de mercado, fora da família, Marcelo Silva, que fez a transição para Frederico Trajano, filho de Luiza Helena, e responsável pelo avanço tecnológico que levou a empresa a um outro patamar.

A sucessão exemplar é a primeira de cinco lições elencadas por César Souza que se deve aprender ao analisar a história da Magazine Luiza.  Outra — e já falamos dela — é colocar o cliente no centro do negócio. A lista se completa com a paixão pelas pessoas e equipes, a tecnologia humanizada e o senso de propósito:  

“A Magalu não é uma empresa grande é uma grande empresa. É uma neo empresa … as verdadeiras empresas do século 21. Porque ainda vemos empresas grandes aqui no Brasil que estão no século 20. A Magalu está em 2030. E tem capacidade de servir de exemplo para muitos empreendedores que estão começando os seus negócios”.

Para aprender com as lições ensinadas pela Magalu — sem precisas apenas copiar e colar —-, ouça a entrevista completa com César Souza, no Mundo Corporativo:

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo Edinho, o Macalé

Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

O menino trajava calça curta azul-marinho, camisa branca e, nos pés, exibia um conga — esse talvez novinho. Avistei-o na empoeirada ladeira da antiga Estrada 4, numa manhã de fevereiro de 1964. O período letivo estava começando e nos encontrávamos na estrada que, anos depois, deixaria de ser número e passaria a se chamar Avenida José Joaquim Seabra, no Rio Pequeno, na região do Butantã, em São Paulo.

Aproximei-me e fiz ao menino a mais óbvia de todas as perguntas naquelas circunstâncias: — Você está indo para a escola? De imediato, ele respondeu sim, reforçando a fala com o movimento da cabeça. Depois dessa “densa e longa” conversa, fizemos em silêncio o restante do caminho. Aquele era meu segundo ano na escola e, como se repetiria em todo início de período, estava na expectativa de fazer novos amigos entre a turma da classe — era assim que a gente chamava a sala de aula. As instalações do grupo escolar resumiam-se a dois galpões de madeira, que um dia tinham recebido uma demão de tinta azulada, com vidraças quebradas, tetos sem forro e buracos nas telhas de amianto, por onde entrava a luz matinal. Por coincidência, o garoto que eu acabara de conhecer fazia parte da nova turma.

Nesse breve espaço de tempo teve início uma amizade que perdurou até os dias atuais. Foi também nessa mesma ocasião que descobrimos que apenas algumas quadras separavam nossas casas, e isso contribuiu para que nos tornássemos amigos quase inseparáveis. Edson — nome com o qual eu o conheci — era um menino esperto e se tornou companheiro de incontáveis jornadas. Um dos primeiros talentos que nele percebi e parecia lhe ser inato era a habilidade com a bola de futebol. Enquanto ele a tratava com intimidade, eu só tentava jogar. À dupla original, se juntaram outros garotos da vizinhança — nessa época, era comum que os pais conhecessem quase todos nossos amigos, mesmo que as famílias não se relacionassem ou sequer se vissem. Dos familiares do Edinho — diminutivo pelo qual todos o tratavam — carrego boas recordações do Sr. Antônio, o pai, das feijoadas da Dona Raimunda, a mãe, e das irmãs Cidinha, Lili e Edna, além dos primos Dudu e Carlinhos.

Dele, uma das lembranças frescas em minha memória é sua quase indestrutível farda de bombeiro — enquanto coube em seu corpo, foi usada como fantasia de diversos carnavais. Com o Edson, o Tute — assim eu era conhecido pelos amigos — cursou o primário e o ginasial. Nesse período, exploramos terrenos baldios onde jogávamos futebol e disputávamos partidas de taco e nos aventurarmos a ir mais longe, como nas partidas de futebol aos domingos à tarde no Morumbi, estádio então recentemente concluído.

Aos sábados de manhã, era com ele que eu e outros amigos nos dirigíamos a uma feira livre no Itaim-Bibi para fazer carretos. Ainda nem éramos exatamente adolescentes quando tivemos que abrir mão das brincadeiras de crianças e encarar o batente. Agora era trabalho de dia e estudo à noite. Mesmo assim, continuávamos próximos e juntos concluímos o antigo ginasial e ingressamos no ensino técnico em administração no Colégio Fernão Dias, em Osasco. Nesse período, nos víamos quase que apenas em sala de aula: cada um saía do trabalho direto para a escola.

Edinho estava trabalhando numa empresa do ramo alimentício. Já com mais de 18 anos, a empresa havia colocado um carro à sua disposição. Foi nesse fusca branco que, por vezes, eu e o Keko — outro amigo do bairro — pegávamos carona para voltar pra casa.  O fusca foi também testemunha de nosso primeiro “enquadro”. Numa dessas noites, quando voltávamos da escola, uma viatura da Rota — divisão da Polícia Militar do Estado de São Paulo que já na época era reconhecida pela truculência — nos abordou na Avenida Rio Pequeno, — esquina da Avenida Corifeu de Azevedo Marques. “Delicadamente”, com a arma — uma calibre 12 — engatilhada e apontada para a cabeça do Edinho, o policial gritou: — Parou, parou! Mãos na cabeça, negão! Eu disse as duas mãos.

Enquanto isso, outros dois soldados apontavam suas escopetas para os caronas. Saímos do carro com as mãos levantadas. Grosseiro como só os policiais sabem ser, o trio nos empurrou de cara para o muro e passou a nos revistar. Da minha bolsa, retiraram a marmita, abriram, constataram que estava vazia e, aos risos, abandonaram-na no chão da calçada.

—  Negão, de quem é esse carro e cadê os documentos? — indagou um dos soldados. Calmamente, Edinho entregou os documentos e, de imediato, foi questionado pela “autoridade”: —  Quem me garante que o fusca não é roubado? Sem exibir qualquer traço de nervosismo, Edinho mostrou sua carteira funcional.  Terminada a abordagem, os policiais entraram na viatura e arrancaram sem esboçar um mero pedido de desculpas.

A humilhação de ter a marmita exposta foi até insignificante diante das evidências de racismo praticado pelos militares ao abordar o motorista e tratá-lo sem nenhum respeito. Percebi certo constrangimento na expressão do Edinho. O ato preconceituoso tornou-se marcante em minha vida, pois, se, de um lado, revelou como a polícia tratava jovens da periferia, de outro mostrou a dignidade de meu amigo.

Algumas vezes eu e o Edson saímos juntos à procura de emprego. Em uma dessas jornadas, acabamos indo parar na zona norte de São Paulo. Ali a fome bateu e decidimos almoçar num boteco da Rua Voluntários da Pátria, que tinha no cardápio um prato chamado feijoada. Não tínhamos ideia da qualidade e do que pudesse ser, assim mesmo resolvemos experimentar. A novidade era tão ruim que, ao fim do almoço, meu amigo observou que o melhor daquela feijoada fora o pãozinho, para, em seguida, soltar uma tremenda gargalhada.

Concluído o colegial, seguimos caminhos diferentes e acabamos nos afastando. Nunca, porém, deixamos de nos encontrar. Faculdade, trabalho, casamento e filhos nos tornaram ainda mais responsáveis do que éramos nos distantes anos de nossa infância e juventude. Nos últimos anos, algumas vezes conseguimos almoçar e tomar café juntos. Dele, preservo diversas e boas lembranças — só o fato de me apresentar Billy Paul, mostra o quanto o cara era conhecedor de boa música. Infelizmente, vitimado pelo Covid, Edinho partiu, mas deixou muitas recordações. Ao menos três coisas com ele não consegui aprender: jogar futebol, sambar e tratá-lo por Macalé.

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler o texto completo desta lembrança dele com o amigo Macalé, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie o seu texto também: contesuahistoira@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: sofrer é preciso e acreditar é nosso delírio

Atlético Goianense 2×0 Grêmio

Brasileiro – Castelo do Dragão, Goiania/GO

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“A única certeza, pai, é que, esteja onde estiver, estarei torcendo pelo Grêmio”. 

Foi o que me disse, em tom de consolo, ao fim de mais uma derrota, o filho mais velho, que, nesta segunda (toc-toc-toc), completou 25 anos de vida. Gregório forjou-se gremista na insistência do pai, na Batalha dos Aflitos, nas Copas conquistadas, nas goleadas sofridas, nas imagens do passado e nas histórias contadas pelo avô.

Por mais gremista que seja, tenho sempre a impressão de que se senta ao meu lado para assistir aos jogos por solidariedade. A despeito do que esteja acontecendo, segue firme nesta missão de acompanhar o pai. Pode ser no cimento do Canindé, aqui em São Paulo, no calor de Humaitá, lá em Porto Alegre, ou nas cadeiras do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Esteve quase sempre comigo – quando não pode, pediu desculpas, como se isso fosse necessário.

Ao certificar-me de seu pensamento, imagino, é como se ele quisesse me dizer que, aconteça o que acontecer, eu não ficarei sozinho. Terei um companheiro para segurar na mão e a me oferecer o ombro, se for o caso de chorar – razões não faltam. Uma forma de amenizar a tristeza que assistir ao Grêmio em campo tem nos causado nesta temporada — exceção a um ou outro lampejo, e ao campeonato gaúcho, onde seremos hegemônico enquanto nossa hegemonia durar.

Há duas ou três rodadas, Gregório tem ensaiado esse discurso. E mesmo que faltem apenas 12 para encerrar o campeonato, não pense — caro e raro leitor desta Avalanche — que ele jogou a toalha. Isso nunca acontecerá porque sabe que sofrer é preciso, e acreditar é o nosso delírio. Está sintonizando com a ilusão que construi recentemente de que estamos fadados a disputar, neste fim de ano, uma espécie de batalha dos Aflitos estendida. 

Queria ter podido lhe dar essa vitória de presente. Mas, infelizmente, isso estava fora do meu controle e, pelo que assistimos, do nosso time, também. Consola-me saber que lhe dei um legado maior do que os três pontos que poderíamos ter conquistado nesta noite. O legado de ser um gremista de verdade — como revela a crença que expôs ao fim do jogo.

Sua Marca: não seja refém da inovação

Jodie Comer em ‘O Último Duelo’Imagem: 20th Century Studios

“Houve alguma época na  História que não ocorreram inovações?”

Jaime Troinao

A história é real. Se passou no século XIV. Foi descrita em romance do escritor americano Eric Jagger. E popularizada na tela do cinema por Ridley Scott. The Last Duel ou o Último Duelo, a despeito de valorizar o combate entre dois homens e torná-los protagonistas em um duelo mortal, nos interessa mesmo pela coragem de Marguerite de Carrouges, uma nobre francesa, que desafiou os costumes medievais e denunciou o homem que a estuprou. Marguerite foi corajosa tanto quanto inovadora.

É isso! E já respondendo a pergunta feita pelo Jaime Troiano na abertura deste texto… mesmo na Idade Média, considerado um período obscuro, os inovadores eram capazes de se expressar.  O Renascimento, que surge logo em seguida, por sua vez, foi uma orgia de inovações, nas artes, nas ciências, na cultura em geral. E estamos falando do século XV e XVI. Ou seja, apesar de hoje nos surpreendermos com o nível de inovação que existe nas mais diversas áreas, a história tem vários capítulos e momentos em que a genialidade humana se apresentou. 

“A febre de inovação atual de que tanto falamos é apenas fruto do enorme impulso  da engenharia digital em nossas vidas. Mas é apenas mais uma de milhares de  ondas inovadoras na história de nossa espécie”

Jaime Troiano

Jaime e Cecília Russo trouxeram essa reflexão para o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso para alertar gestores de marcas de que, apesar do entusiasmo e da própria pressão que existe sobre o tema, é preciso cuidado para não serem reféns dessa onda:

“Esta nova era tecnológica criou muitas armadilhas para marcas que começaram a inovar de forma precipitada e acabaram pondo em risco o que de essencial elas têm. Ou seja, aquilo que fica escondido sob a “poeira digital” 

Cecília Russo

Muitas vezes, a inovação precipitada rompe os laços com a história da marca, na percepção do consumidor. E quando essas mudanças atropelam o consumidor, “joga-se fora o bebê junto com a água de banho” — ditado que não tem nada de novo, e segue sendo essencial para se planejar as mudanças necessárias.

“O melhor conselho de branding para o empresário, o empreendedor, pequeno, médio, é o seguinte: preserve o essencial na busca do novo. É um caminho mais  difícil, mas obrigatório”. 

Jaime Troiano

Um exemplo de renovação que respeitou as regras do branding foi a realizada, recentemente, pelo jornal O Estado de São Paulo, que deixou seu tamanho original para ser impresso em modelo ‘berliner’, bem menor do que aquele que seus leitores estavam acostumados. Foram feitas mudanças internamente, também: no tamanho da letra, na divisão das editoriais …mas a essência, essa não mudou.  

“Em momento algum cederam à tentação de trocar suas características essenciais de linha editorial, por aventura moderninha que escondesse seu pensamento, que tem uma história de mais de 100 anos: 146 anos, para ser mais precisa”.

Cecília Russo

Outra boa referência foi a inovação feita pelo grupo de varejo Magazine Luiza. Para Jaime e Cecília, segue sendo uma empresa atenta às relações pessoais com o mercado, a começar pela própria líder Luiza Trajano. Nos últimos anos, a empresa ganhou uma dimensão digital, muito mais intensa, estendeu seus ‘tentáculos, para novas áreas, mas sua alma humana continua muito presente. 

“Sim, as marcas têm coisas que são definitivas, inegociáveis. O quê? Sua alma, seu propósito, sua razão de ser. Não troque sua alma por alguns gimmicks ou algumas brincadeiras digitais”

Jaime Troiano

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com sonorização de Paschoal Júnior;