Com que roupa?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Se depender da opinião de Roberto Chadad, presidente da ABRAVEST Associação Brasileira do Vestuário, as roupas serão chinesas. Nestes dias em que a Tecelagem Renaux, pioneira em Brusque no ano de 1892, é notícia pela autofalência, o episódio vivido na FIESP há alguns anos, com a visita da Ministra Comercial da China veio à memória. Nessa ocasião, Chadad indagou como a China conseguia vender uma calça de jeans por US$ 7,50, ao que a ministra respondeu que era por causa dos impostos e, portanto, um problema para o Brasil, pois os tinha muito altos.

 

Na realidade, a verdade é mais ampla, pois em 1990 com a abertura no governo Collor foi estabelecida uma graduação de desagravo nas importações de têxteis e confecções. Não houve um entendimento ideal entre os agentes nacionais que fabricavam bens de capital, tecidos e roupas, como também não ocorreu a modernização necessária. Ao mesmo tempo os impostos subiram e os agravos de importação nos tecidos e nas roupas não inibiram a entrada no mercado brasileiro de tecidos e roupas importadas, enquanto o produto nativo brasileiro é hoje tributado de 38% a 41% na loja.

 

A partir daí começamos a entender o drama da Renaux, se incluir outras eventuais falhas de gestão, que certamente impediram de traçar estratégias de escape que funcionassem. Por exemplo, a da Hering ou da Santa Constância, com caminhos diferentes. Uma pela escala e posterior entrada no varejo, outra pela escolha de um nicho de moda.

 

Para chegar à verdade inteira é preciso considerar as condições oferecidas à mão de obra asiática comparativamente com a brasileira, bem como a tributação ao produto nacional. Vamos concluir que este é realmente um “negócio da China” como se dizia no tempo de Noel Rosa. Só que hoje o “negócio da China”, é para a China.

 

PS: Para ouvir a música de Noel Rosa cantada pelo próprio clique aqui. Para ouvir na voz de Nelson Rodrigues acesse por aqui.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

FGV calcula que R$ 0,50 na gasolina reduziriam ônibus para R$ 1,80

 

Texto escrito originalmente para o Blog Adote São Paulo

 

 

“Nossa Senhora” balbuciou o prefeito Fernando Haddad ao ouvir que de cada dez pacientes que estão em leitos hospitalares, em São Paulo, quatro são vítimas de acidentes de trânsito. A estatística fez parte da apresentação do coordenador da Rede Nossa São Paulo, Oded Grajew, que organizou, em parceria com a Frente Nacional dos Prefeitos, o evento “Alternativas para o financiamento do transporte público”, na manhã desta terça-feira, no Sesc Consolação, na capital. Coube a mim, no papel de mediador, sentar ao lado de Haddad, em uma mesa da qual participaram economistas, médicos, ambientalistas e gestores públicos. Pela posição em que estava me transformei em interlocutor do prefeito sempre que ele era surpreendido com um novo dado sobre os impactos da mobilidade urbana na qualidade de vida do cidadão.

 

Também provocou expressões de espanto por parte do prefeito, o resultado parcial de estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas/SP que ofereceu fortes argumentos para a defesa da mudança na cobrança e distribuicão da CIDE-Combustíveis (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico incidente sobre as operações realizadas com combustíveis). De acordo com Samuel Abreu Pessoa, do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia, R$0,50 a mais no litro da gasolina podem representar até R$1,20 a menos na passagem de ônibus e uma redução de 0,03 ponto percentual na inflação. Ou seja, se o Governo Federal aceitar a ideia de transferir o que for recolhido pela CIDE para os municípios investirem no transporte de passageiros, a tarifa na capital paulista cairia dos atuais R$3,00 para R$1,80. “Pelo Amor de Deus”, deve ter pensado você ao ver esta conta.

 

Haddad, mesmo parecendo satisfeito com os números que sustentam a tese que será defendida nacionalmente, sabe e falou ao pé do ouvido: “não vai ser fácil”. Apesar dos benefícios que poderiam gerar nem todos são a favor da ideia. Hoje mesmo entrevistei o presidente da Frente Nacional de Prefeitos, José Fortunatti, que comanda a cidade de Porto Alegre, a primeira a assistir aos protestos contra o aumento no preço da passagem de ônibus, este ano. Assim que se encerrou a conversa, na qual Fortunatti defendeu o aumento e a municipalização da CIDE – atualmente, com alíquota zero -, uma sequência de mensagens chegou no meu e-mail e Twitter. Eram cidadãos incomodados com a possibilidade de ter mais tributo a pagar, além daquela quantia enorme que o Governo já saca da nossa conta todos os dias. Eram, principalmente, motoristas de carros que passariam a subsidiar o transporte público com a mudança proposta. Muitos pedindo que antes de aumentar imposto, os gestores segurassem os gastos públicos, controlassem a ineficiência do sistema e acabassem com a corrupção.

 

Para os motoristas preocupados com o peso da gasolina no bolso, prefeitos e defensores da mudança dizem que o incentivo para o transporte coletivo vai ter impactos positivos para toda economia, aumentando a circulação das pessoas, diminuindo os congestionamentos, reduzindo o custo de vida, melhorando a qualidade do ar e levando menos pessoas aos hospitais. Mas além de parcela da opinião pública terão de convencer, principalmente, o Governo Federal que, até agora, tem preferido incentivos ao transporte individual, com retenção do preço da gasolina, isenção de impostos às montadoras e incentivo para a compra de carro. A diferença de tratamento é tão absurda que análise feita por Carlos Henrique Carvalho, do IPEA, mostrou que nos últimos 12 anos, o preço da gasolina reajustou em menos de 100% enquanto o das tarifas de ônibus quase bateu a casa dos 200%. Sobre isso Haddad nada disse, pois já havia ido embora para encontro com o presidente do Tribunal de Contas do Município, na sede da prefeitura. Estava atrasado para o compromisso, como sempre estão os paulistanos.

Vamos engrossar o caldo político

 

 

O antigo mobiliário do auditório do Pateo do Colégio estava devidamente organizado e lustrado para receber o grupo de cidadãos comprometido com a ideia do Adote um Vereador. A louza branca pendurada na parede do fundo do palco não era a única a destoar naquele cenário formado por um piano de cauda, balcão enorme e cadeiras de encosto alto, ambos de madeira escura, refletindo a antiguidade. Muitos de nós, acostumados aos encontros que ocorrem todo segundo sábado do mês no bar do Pateo, regado a café, água e descontração, parecíamos constrangidos em meio a pompa e circunstância do ambiente. Além disso, o sol e a temperatura de sábado estavam mais convidativos para passear pelas ruas e praças do centro de São Paulo. Mesmo assim preferimos caminhar até lá e nos sentar para assistir à palestra do cientista social Humberto Dantas, convidado especial desse encontro.

 

Dantas é jovem e entusiasmado como a maioria de nós que participa do Adote um Vereador (ok, eu sou mais entusiasmado do que jovem), com a vantagem que estudou e estuda as coisas que movem a sociedade, enquanto nós somos espécies de autodidatas da política. Aprendemos na marra, assistindo aos políticos fazerem sua política, cobrando deles posturas que consideramos ser as mais apropriadas para o cargo que ocupam e cidade que representam. Por isso, prestamos muito atenção em cada história contada pelo professor que dominou o público com extrema habilidade, mesmo nos momentos mais tensos do debate que, algumas vezes, foi interrompido pela ansiedade da audiência em opinar.

 

Em quase duas horas, demonstrou seu descrédito com as reformas políticas propostas nestes anos todos no país e questionou a necessidade de mudanças nas leis, novamente. Lembrou que desde a redemocratização nunca disputamos uma eleição com as mesmas regras da anterior, o que não significa que tenhamos evoluído no processo. A impressão que tive é que acredita menos nos sistemas e mais no poder dos homens em mudar comportamentos. Se estiver enganado, me corrija, professor.

 

Dantas contou histórias curiosas sobre a forma de agir de vereadores. Um dos casos mais curiosos é o da câmara municipal que funciona no mesmo prédio da secretaria de assistência social da cidade. Quando o morador vai até lá para pedir ajuda à prefeitura, os funcionários pedem para eles descerem até os gabinetes e pegarem com os vereadores papeletas coloridas que são como senhas para autorizar a prestação de serviços em áreas distintas como entrega de cesta básica, gratuidade no transporte e compra de remédios. Em outra, são os vereadores que providenciam o enterro e velório dos mortos, oferecendo serviço supostamente de graça para ajudar os familiares em hora tão difícil. Detalhe: todos os serviços são, por lei, fornecidos pelo município. Ou seja, não havia necessidade da interferência do político.

 

Para o sociólogo, as faltas de conhecimento e de consciência da sociedade brasileira permitem que os políticos se comportem de maneira clientelista e se aproveitem do poder e dinheiro públicos. Com a experiência de visita que fez na Europa, Dantas mostra o caminho das pedras para melhorar a política no Brasil. Na Alemanha, se surpreendeu quando viu um grupo de alunos, de sete e oito anos, assistindo à aula de valores – isto mesmo, valores: ética, moral, bom comportamento, etc. Uma garotada que, a partir daquela discussão, assumiria compromissos de melhoria da sua cidade.

 

Terminou sua fala, antes de intensa sessão de perguntas e respostas, recomendando que continuemos a pressionar nossos representantes, a fiscalizar as ações no poder legislativo e a interferir na política local. E ratificou nossa luta no Adote um Vereador, iniciada em 2008, assim como de todos os demais que atuam em organizações sociais ou individualmente – alguns presentes no encontro – nos convidando a “engrossar o caldo da cultura política, no Brasil”.

 

O Adote um Vereador agradece a gentileza de Humberto Dantas de nos ajudar a pensar um pouco mais profundamente sobre a política – assim como agradecemos a disposição do Pateo do Colégio de nos abrir espaço tão nobre na casa para esta pensata. E deixa ao professor a garantia de que saímos de lá dispostos a colocar ainda mais farinha neste pirão.

"Meio passo à frente", diz Voto Consciente sobre Mesa Diretora

Por Danilo Barboza
Diretor Geral do Movimento Voto Consciente

 

Soube pelo jornalista Milton Jung, da CBN, que a reunião da Mesa Diretora da Câmara de São Paulo, realizada na última terça-feira 8 de agosto, foi aberta ao público. Pela mesma fonte, soube que não foi transmitida pela internet. Meio passo à frente, então. Soube ainda que a Web Rádio da Câmara estranhou o não comparecimento de organizações da sociedade civil àquela reunião. Fui à página da Rádio, e sob o título Vereadores se reúnem para tratar de assuntos administrativos, escrito por Jean Silva, encontrei “As reuniões da Mesa Diretora são abertas para a participação das organizações da sociedade civil, mas apesar disso nenhuma compareceu.”

 

Não conheço Jean Silva, mas ele com certeza entrou este mês para a Câmara. Se estivesse lá há mais tempo, saberia que as reuniões da Mesa eram abertas na legislatura passada, e foram fechadas por todo o primeiro semestre deste ano por decisão da Mesa Diretora empossada nesta. Saberia também que o motivo alegado para tal fechamento foi que nas reuniões se discutiam licitações públicas, e sua análise em reuniões abertas poderia prejudicar o processo licitatório. Talvez soubesse ainda das contestações que fizemos, nós do Movimento Voto Consciente, a esta decisão, inclusive mostrando-a falaciosa, pois as decisões sobre compras eram e são tomadas pela Comissão de Licitação, e meramente homologadas ou rejeitadas pela Mesa.

 

Note-se que, na matéria mencionada, foi relatado que entre os temas discutidos na reunião estavam várias aquisições e substituições de equipamento, todas elas necessariamente assunto de licitações, presentes ou futuras. Ora, ou o motivo alegado não era real – e quando do fechamento da primeira reunião do ano, a que as organizações estavam presentes, o motivo oferecido foi outro – ou os membros da Mesa mudaram seu entendimento sobre o sigilo da discussão das licitações.

 

O que Jean Silva não poderia no entanto saber é que, na reunião de instalação da CPI dos transportes, o Presidente da Casa nos prometeu verbalmente que as reuniões passariam a ser abertas no segundo semestre, e que ele avisaria a sociedade desta mudança. No Movimento Voto Consciente, não recebemos qualquer aviso.
Finalmente nós e as outras organizações da sociedade civil dependemos da agenda da Câmara para saber o que acontecerá na Casa a cada dia. Na terça-feira dia 8 não havia menção de reunião da Mesa Diretora.

 

O importante disto tudo, no entanto, é que as reuniões serão abertas doravante, e por esta mudança damos parabéns aos vereadores. Tentaremos estar presentes a cada uma, mas talvez seja necessário optar por assistir à alguma pela internet, em cujo caso esperamos que a transmissão das reuniões também seja aberta.

Avalanche Tricolor: com a cara e a coragem

 

Bahia 0 x 3 Grêmio
Brasileiro – Arena Fonte Nova

 

 

A bola acabara de se chocar no travessão, após oportunista cabeceada de Elano, parecendo que mais uma vez se perderia no gramado como fez em boa parte do jogo quando foi passada sem destino e chutada sem direção. Mesmo os jogadores adversários davam sinais de alívio ao perceberem aquela bola indo embora após um dos poucos ataques gremistas. Foi quando com a cara e a coragem um dos nossos gringos se atirou em direção a ela em uma tentativa desesperada e audaciosa. A chuteira do marcador lhe acertou o rosto, o corpo caiu estendido na pequena área enquanto a nuca se chocava na grama. A bola tomava a direção da linha de fundo, mas, talvez agradecida pelo sacrifício, desviou em direção ao gol que já estava vazio. Riveros não teve chance sequer de comemorar a abertura do placar, e poucos dos seus colegas, também, pois estavam preocupados com a condição do colega que deixou o campo na maca. Assim se iniciou a primeira conquista do Grêmio fora de casa neste campeonato.

 

Mesmo sem a excelência do futebol que esperamos, conseguimos uma importante vitória que se completou com um gol de chiripa, como costumam dizer lá na minha terra, marcado por outro gringo que estava em campo, Maxi Rodrigues, e com a troca de passe entre os irmãos Biteco, concluída pelo mais velho da família, Guilherme. Relevando a ausência de vários titulares e acrescentando o fato de o placar ter sido clássico e os três pontos fundamentais, o jogo jogado pela nossa equipe ainda está distante do desejado. Hoje, porém, tudo isso pouco me importa, pois ao menos nos aproximamos do G-4 e provamos nossa capacidade de entrar na disputa pelo título do Campeonato Brasileiro, com o jeito de ser do Grêmio: com a cara e a coragem.

De viver a vida

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Não vejo a pintura no quadro, mas o quadro que vejo é bonito. Na sacada de um prédio da redondeza, além do cavalete de metal, há plantas. Poucas, mas suficientes para colorir de verde e vermelho o espaço aprisionado entre espaços aprisionados. E sua criadora se estica até o lado superior esquerdo da tela. Se contorce, afasta o olhar, se afastando, até onde o muro da sacada permite, e continua o trabalho, na busca pela luz do sol, que ela quer aprisionar na tela.

 

Foi o que vi outro dia durante o meu encontro rápido com ele, o sol, na sacada do quarto. Não tenho mais sua luz, o dia todo invadindo o apartamento, mas agora temos uma agenda. Quando me dou conta de que ele está chegando, corro pegar a caminha da Valentina e seu cobertor cor de rosa, e acomodo tudo no lugar de honra. Depois me encaixo e vou mudando de lugar, enquanto ele segue o caminho de iluminar.

 

Fico ali curtindo o calor na pele, jogando meu olhar para cá e para lá, aproveitando cada pouco da sua visita, até a grade da varanda do sexto andar me mostrar que há limite.

 

E por falar em limite, voltei a reforçar minha crença na impossibilidade de pensar grande ignorando o pequeno pensamento. Em que não vale a pena ter a perspectiva aumentada se perdermos no processo o detalhe. Ovo não nasce na caixinha, gasolina não nasce da bomba mais próxima da tua casa e nem da minha, e a fonte da água dita potável não é o encanamento das nossas casas, no momento em que queremos um banho quente.

 

Sonhos grandiosos crescem com a rega da minúcia de passos, olhos nas estrelas e pés no chão, e muita gratidão pela oportunidade da vida, preenchendo cada canto do coração.

 

Viva a vida!
De bem com ela, mesmo que doa.
Boa semana.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: tudo que marca constrói a marca

 

A marca é uma espécie de esponja de todas as provocações e experiências que a empresa causa, desde o discurso do presidente a postura do motoboy que entrega a encomenda. A definição é do estrategista de marcas Arthur Bender, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, que lançou o livro “Paixao e Significado da Marca – Ponto de virada e transformação de marcas corporativas, marcas pessoais e de organizações”, lançado pela editora Integrare Business. Bender fala, entre outros temas, sobre o poder das redes sociais e, principalmente, das mulheres na reputação de uma marca: “perca uma, perca todas”.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.