Conte Sua História de SP: Nos tempos da rádio-patrulha

 

Um tempo em que quebrar as vidraças das casas vizinhas era travessura dos meninos do bairro, crime suficiente para que as autoridades policiais fossem chamadas e surgissem a bordo da rádio-patrulha, um Ford 46 pintado de preto e branco. É desta época as lembranças do ouvinte Domingos Sérgio Baroni, natural de São Paulo, nascido em 1933 e morador da rua Fortunato, no bairro de Santa Cecília.

 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com depoimento de Domingos Sérgio Baroni.

 

O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa e sonorizado pelo Cláudio Antônio. Você também pode contar o seu capítulo da nossa cidade, enviando um texto para milton@cbn.com.br ou marcando uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no programa CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã.

Avalanche Triciolor: Em família, feliz e na Libertadores

 

Grêmio 2 x 1 São Paulo
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

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Sozinho, sofredor e sempre acreditando, começo a assistir à decisão deste domingo emocionado com o estádio Olímpico tomado de gremistas. É das últimas vezes que veremos estas imagens do Monumental sacudindo com o pulo e grito dos torcedores, que, por merececimento, teriam de vir acompanhadas de uma excelente apresentação e a vitória, lógico. Como esperar tudo isso, porém, com quatro dos principais jogadores afastados, dois deles fundamentais para o time, casos de Elano e Kleber, e contra uma equipe que, foi o que ouvi durante toda a semana dos entendidos em futebol, tem feito atuações fabulosas? O revés no primeiro tempo, no instante em que o time apresentava-se melhor, resultado de dupla falha de Saimon, um dos que deixaram o estaleiro para formar a defesa, reforçava o ceticismo, sem apagar a esperança.

 

Aos poucos meu isolamento no sofá foi sendo substituído pela companhia da mulher, a primeira a se aproximar. Fez para me ver feliz, pois, mesmo tendo trabalhado com futebol por muitos anos, nunca admirou muito as partidas. Os meninos, como sempre, começaram o jogo diante do computador, apesar de que, com a habilidade que desenvolveram desde pequeno, são capazes de compartilhar a diversão digital com as emoções do jogo na TV. O resultado ruim em campo os fez se aproximar, talvez pelo mesmo sentimento que moveu a mãe, solidariedade. Sabiam quanto uma derrota naquelas condições, com aquela expectativa, com a chance desperdiçada de alcançar a passagem direta para a Libertadores iria calar fundo.

 

O menor se espremeu entre os pais. O mais velho chegou em seguida e se sentou no chão a frente do sofá. Para todos estarem ali em volta era porque percebiam que o momento exigia concentração total. Eram necessários mais do que os 45 mil torcedores que estavam no Olímpico. As tentativas de gol eram festejadas e as excelentes jogadas de Zé Roberto aplaudidas. Olhavam-me com piedade nas bolas perdidas e tentavam entender minha reclamação contra o árbitro mesmo quando ele acertava. O apoio deles me trouxe força e preocupação. Não gostaria de tê-los ali para compartilhar uma derrota. Seria marcante comemorarmos juntos uma virada que começou a se desenhar com a excelente – ou seria fabulosa? – apresentação do segundo tempo. Era outro time, outros jogadores, um futebol com mais personalidade.

 

Veio o primeiro gol do Guerreiro e a certeza de que o segundo se avizinhava. Veio o segundo com Moreno e a garantia de que nada mais poderia nos deter. Os torcedores gritaram “Fica Luxemburgo” e tive de explicar o por quê. Pediram “Fica Zé Roberto”e eu expliquei, também. Deram olé, foram superiores e comemoraram a vitória como se tivessem levado o título. E eu não precisei dizer mais nada. Apenas nos abraçamos, pois estávamos de volta à Libertadores no melhor estilo do Imortal Tricolor.

De sangue, xixi e cocô

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Semana passada fiquei boa parte da tarde num dia, e boa parte da tarde dois dias depois, num laboratório de análises clínicas, desses que têm equipamento para ver do avesso e de frente para trás, passando por um processador de gente que me fez esperar por mais de hora e meia, atendida por meias-indicações enquanto pedem para que o paciente – e haja paciência – chegue com meia hora de antecedência ao local, em jejum, etc e etc. Tortura também foi preencher um questionário minucioso e esperar, esperar, esperar, depois de efetuar o pagamento, é claro. Por pagar também fui penalizada. Tive que subir dois lances de escada porque as máquinas para pagamento com cartão ficam bem acomodadas dois lances de escada acima, e é o paciente quem tem que se mexer. Dois dias e mais um grave aborrecimento e meio depois, voltei para retirar o resultado de uma ressonância magnética. Antes de mais nada era necessário que eu ao menos reportasse comportamento anti-ético, agressivo e desrespeitoso de uma das atendentes técnicas. Foi quando fiquei sabendo que, para isso, deveria me dirigir à sala vip do laboratório, para conversar com a responsável pelo setor. Sala vip? Nem sabia que existia uma aqui. Sim, era uma sala enorme e triste que estava às moscas. Rica e vazia. Gelada, como toda sala vip, e impessoal. Uma sala reservada a pacientes pagantes, independentes ou carentes de plano de saúde. Indiscriminadamente, daí para frente.Você é pagante? Então não pega senha e não espera na fila. É só pagar sem acionar o plano de saúde. Na sala vip do Diners você é premiado por ter um cartão. Ali, por não ter. Enigmas da vida.

 

Agora, vamos combinar que quem chega a um lugar como esse, onde você vai ter o braço furado, onde vão literalmente tirar teu sangue, examinar teu xixi e teu cocô, tem maior probabilidade de estar sofrendo do que de estar feliz. Para cada anúncio da chegada de um nenê desejado, quanto fígado, quanto pulmão, quanto cérebro, hormônio e osso e músculo e sangue e rim e pele em desequilíbrio, botando em risco não a ida a uma festa, a compra de um vestido ou uma unha quebrada, mas ameaçando a continuidade da vida. Para cada anúncio de está tudo bem, quanta notícia de desesperança, de dor e de solidão. Não é uma sala onde abunda energia de alegria. O ambiente é pesado e, por falar nisso, toda a decoração, cor, iluminação, é tudo triste e te convida a sair dali o mais depressa possível.

 

E foi o que fiz. Saí dali o mais rapidamente que consegui, mas já me sentindo tão desesperançada, tão triste que nem sei dizer. Aquele é um lugar que só existe porque tem gente doente que precisa de ajuda, de acolhimento de atenção, de compaixão, sem falar em respeito e consideração, qualidades que são fáceis de reconhecer no primeiro olhar, no sorriso da chegada, não só no cabelo uniformizadamente puxado para trás e as unhas feitas. É preciso nos refazermos. Todos.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

José Marton, o arquiteto da moda brasileira

 

Por Dora Estevam

 

 

José Marton é arquiteto, designer e cenógrafo brasileiro, renomado no mundo das artes. Você já deve ter visto obras e ambientes deste artista inconfundível. Na arquitetura de varejo, fez projetos para as lojas da Luiggi Bertolli, Cori, Barbara Strauss, Lool, VR, Eudora, entre tantas outras. Informação que o fará lembrar dele, sempre que for a um shopping. Na cenografia já executou cenários para o Fantástico, SPFW e Instituto Italiano, apenas para lembrar alguns dos muitos trabalhos. Em moda, tem suas ideias desfilando em passarelas para marcas conhecidas como Animale, Cantão, Cris Barros, Blue Man, Colcci, Fórum e Alexandre Herchcovitch. Além de todas estas atividades, Marton também é um colecionador de obras de arte incrível. Neste bate papo, ele nos conta como enfrentar os desafios de cada cliente, entre outras curiosidades da profissão.

 

Como tudo começou?

 

O escritório foi fundado em 2004 e de uma forma muito tímida. A partir daí, fui buscando conhecimento no desenvolvimento do negócio e de profissionais – mesclo arquitetos que tenham experiência em varejo, designers, artistas, light designers. Hoje nosso foco é a arquitetura de varejo. Um diferencial da Marton + Marton é a forma com a qual apresentamos o projeto para o cliente, fazemos maquetes artísticas muito próximas do projeto real e conseguimos encantá-los.

 

Como surgiu a ideia de ser arquiteto?

 

Eu acredito que nascemos arquitetos. Passei minha infância arquitetando coisas. Eu criava meus brinquedos e entrava em casas em construção para saber como funcionava uma obra desde o alicerce até o acabamento, sempre subvertendo a ordem para encontrar a arte.

 

Com relação aos projetos executados mudaria alguma coisa neles?

 

Parte dos projetos a gente sempre atualiza. Mas um bom briefing e uma boa pesquisa é muito importante antes de fazer ou mudar algum deles.

 

De todos os seus projetos existe algum que é uma paixão, que mereça um mérito especial?

 

Tenho 3 cases de sucesso, cada um com um objetivo diferente. Um projeto que foi bastante desafiador e que me fez aprender muito foi o da Luigi Bertolli. Foi nessa loja que consegui entender como um projeto precisa ser flexível e ao mesmo tempo passar a identidade da marca. Um bastante assertivo foi o da Barbara Stauss. Trabalhamos o reposicionamento da marca por meio de uma extensa pesquisa atrelada ao planejamento estratégico. E tem também a Eudora, no qual exercitamos criar uma marca do zero.

 

 

São muitas lojas criadas por você, como funciona o processo de identificação da marca com o designer?

 

Quando criamos um projeto o que buscamos é a identidade da marca, ou seja a Marton+Marton é uma ferramenta para a marca atingir o objetivo. A minha essência que permeia todas as lojas, é apenas um toque de brasilidade, que pode estar aparente ou de uma maneira mais subjetiva.

 

Como você trabalha a sustentabilidade no processo de criação?

 

Sustentabilidade virou um jargão, muito se fala e pouco se faz. Buscamos fazer projetos mais duradouros, que sejam flexíveis, fazendo com que não sejam necessários muitos descartes e reformas a cada estação do ano. Há uma preocupação em minimizar impactos da construção civil, nos apropriando de matérias-primas que tenham vida longa. Outra coisa bastante importante é a iluminação, por isso procuro mesclar lâmpadas frias com lâmpadas quentes, para que no decorrer do ano haja uma economia de eletricidade.

 

Nas viagens você busca inspiração, o que mais lhe atrai?

Eu procuro observar como as marcas se comportam em cada país, já que são povos e culturas diferentes. Busco me inspirar na essência de cada marca para criar algo completamente novo aqui.

 

Quais são suas principais fontes de referência?

 

Londres pela liberdade e pela singularidade, e Nova Iorque pela agilidade. Os americanos são especialistas em varejo, tanto que as grandes pesquisas sobre o tema surgiram lá. Às vezes, andando pelas ruas dessas duas cidades, vejo a ingenuidade de pequenas lojinhas, que em seus projetos trazem soluções incríveis, que uma empresa grande não se permite ousar.

 

A moda busca referências nas décadas passadas, funciona assim também na Marton?

 

Não buscamos o passado, mas sim um ponto no presente e o olhar no futuro. A loja precisa expressar a identidade da marca e, se estiver de acordo com o projeto, ter algumas referências de décadas passadas, sem cair no erro de nascer datada.

 

Nos cenários de moda, quais as principais preocupações na hora do desenvolvimento?

 

Sempre me baseio em algumas premissas. O tema – passar a essência do desfile. O comportamento do cenário com o público, nas fotos e nos vídeos – é importante que o cenógrafo consiga passar nesses poucos minutos a essência do desfile e deixe registrado boas imagens para que a grife consiga trabalhar nos próximos seis meses. E a iluminação que é importante e determinante

 

O que é moda na arte hoje?

 

Existe uma modinha na arte, que é a da “gambiarra”, da coisa mal feita, mal acabada … Esse é um modismo que me incomoda.

Para conhecer um pouco mais do trabalho de José Marton visite o site da Marton+Marton

 

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

Mundo Corporativo: quais são os ativos intangíveis da sua empresa

 

“A marca, evidentemente, é o ativo intangível mais conhecido, mais comentado. A marca, na verdade, não existe como ativo porque a marca existe na mente do consumidor. Cada consumidor vê a marca de uma maneira diferente … então elas são ativos porque pertencem a uma determinada empresa e porque se comunicam adequadamente com determinados segmentos da população que gostam dessas marcas “. A afirmação é de José Roberto Martins, presidente da Global Brands Consultoria, empresa especializada em gestão de marcas e avaliação de ativos intangíveis. Nesta entrevista ao programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, Martins apresenta algumas práticas para avaliar ativos intangíveis de uma empresa. Ele é autor do livro Capital Intangível, editado pela Intregare.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br ou pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN

 

A viagem

 


Por Sérgio Mendes

 

Quando entramos no carro para o teste, este também já era o início da aventura. Percebemos a obviedade que não caberíamos todos ali dentro, não comodamente. O espaço que naturalmente já seria apertado sem a caixa na traseira, ficou ainda menor com ela. Por sorte, a atmosfera lá dentro estava bem espessa com toda a comoção da despedida. E isso junto do pequeno bico de minha mãe, brigada com o meu pai, dava cabo de qualquer ameaça aos meus planos. À exceção da minha irmã mais nova, Zangada, permanecemos todos sem perceber a caixa ou se alguém percebeu, foi só um pouquinho!

 

Ao encostarmos no banco, os ombros pegavam-se de maneira tal que bastava pensar em mover o braço e o outro o levantava o seu. As cabeças das duas pobres criaturas do meio, Zangada e Meio-zangada, inclinadas. Enquanto Helenita e eu nos dois extremos até podíamos nos encostar, mas caber de verdade não cabia.

 

Conversando com a minha irmã do meio que agora tem ela própria dois filhos com pouco menos idade que tínhamos nós naquele tempo, chegamos a entender aproximadamente a quantidade de coisas que deveriam passar pela cabeça dos nossos pais cientes do tamanho da jornada que iniciavam com quatro crianças e um carro velho, sob os cuidados unicamente dos dois.

 

O bairro inteiro era de terra batida, e as primeiras ruas que venceríamos antes de chegar no asfalto eram as que mais conhecíamos em nossa curta existência. Da frente da casa de vovó, em linha reta passando pelo grupo escolar onde a minha mãe trabalhou, até a esquina da rua da minha tia, e depois pela frente da casa dela. Naquele ponto acenamos para os parentes que nos assistiam passar da varanda no segundo andar.

 

O carro seguia devagar, até porque mais rápido e não daria tempo de enxergarmos ninguém. Sacolejava suavemente como se estivesse dançando uma música do toca-fitas que não tínhamos.
Os parentes foram ficando ao fundo, e nós no banco detrás de ombros grudados e com os olhos vidrados na aventura. A mesma que devia fervilhar a cabeça dos meus pais, mas do nada, o quase silêncio foi interrompido por um estouro forte.

 

Pow !

 

Correu um frio pela minha espinha! O barulho foi feio mas o carro seguiu sua marcha lenta e nos embalava qual molejo de colchão como se não tivesse sido com ele.

 

Era o primeiro susto pra todos os demais, e o segundo pra mim, que de olhos vidrados, agora pareciam querer trincar.

 

Mais alguns metros e chegaríamos ao nosso primeiro obstáculo. A pista asfaltada da rodovia que cortava a cidade, e que era também a saída do bairro, ficava em desnível, e o carro teria que subi-la. Olhei pela primeira vez os rostos de todo mundo ali dentro e não percebi preocupação. O único parecia ser só eu mesmo.

 

Meu pai engatou a marcha mais forte e zaz! O carro subiu sem maiores dificuldades, mas não sem um outro estouro um pouco menor que o primeiro. Paramos logo em seguida.

 

Os olhos vidrados das meninas e os meus rachados um pouco mais pela segunda flatulência do pobre carro, se desmancharam qual musica de vitrola quando o disco diminui a rotação até silenciar por completo, mas a parada não foi por nada mais grave. Foi o desapontamento da minha mãe com o meu pai que se manifestou. Ela o fizera parar e desceu pra que trocássemos nós dois de lugar. Assumi o seu posto de co-piloto no banco da frente e ela foi para onde eu estava, o que apertou ainda mais as meninas.

 

Folgado como fiquei, me ative a um livro qualquer que me propus a ler. Costumava ser fiel aos meus propósitos, lembram? Mas a leitura não rendia com tanta coisa acontecendo. Todo aquele mato ao lado e não raro na própria rodovia…

 

Vezes só o barulho do motor, vezes alguma conversa, vezes um rebuliço da excitação de informar minha tia da cidade nova e vezes a minha leitura que teimava em não render. Prosseguimos nossa marcha e rodamos por mais de três horas ininterruptas, absolutamente excitantes, e portanto as atenções foram desviadas dos incômodos que sentíamos.

 

Na hora do primeiro almoço na estrada, ainda pudemos saborear a comidinha de vovó. Ela nos entregou embalada em uma lata para comermos ali mesmo no carro. Paramos num posto de beira de estrada para comer e esticar as pernas com tão somente algumas horas de toada a bordo do corcel amarelo. Cada um se deliciou com o cheiro e sabor da farofa e do arroz de viagem.

 

Enchemos o buxo e lambemos os beiços! Ainda tivemos tempo de nos lavarmos enquanto meu pai abastecia o carro e trocava alguma conversa com um dos frentistas. Parecia que o bico da minha mãe tinha diminuído um pouco, e ela até ensaiava alguns comentários com as meninas e comigo.
Pressenti que o meu posto folgado de co-piloto igualmente estava a beira de acabar, mas ele ainda durou por toda aquela tarde.

 

À noite paramos para descansar conforme nossos planos e dormimos em uma pensão.

 

As horas correram, as cidades e os estados também. Os dias anteriores foram mais ou menos da mesma maneira, comigo de volta ao banco detrás e meus pais outra vez reconciliados.
Três deles depois e já corríamos por mais de 1500Km desde a partida e portanto a Bahía também já ficara para trás. Até alí o carro comportara-se bem, exceto se a velocidade ultrapassasse os 80Km. Era como se o pobre nos alertasse que todo o conjunto daquela obra era instável demais. Ele entrava em um frenesi de tremores, nos chacoalhando a todos. E tão somente com isso, apesar de estendermos os dias e as curvas obrigadas nos nossos corpos, prosseguíamos nos aproximando de casa.

 

Foi só em algum lugar de Goiás que a minha irmã ‘Zangada’, irritada pelos dias de pescoço e ombros para frente, decidiu soltar a sua fúria sobre mim e sobre aquela caixa! Instantaneamente meu livro escorregou das minhas mãos e as pestanas derriçaram-se sobre os meus olhos no sono mais profundo e mais providencial que já tivera na vida.

 

Ela berrava o que todo mundo queria dizer de tanto incomodo e aperto. Queria parar, queria parar!
Ninguém, exceto a minha mãe, costumava dar muita bola para os reclamos dela naquele tom já muito comuns a pessoa zangada como ela. Mas desta vez a pobre estava acompanhada inclusive por D. Fátima que provara por alguns quilômetros daquela sensação de ter a cabeça pendurada para frente como peça de alcatra. Iniciou-se um motim a bordo do muar! Todos falavam ao mesmo tempo, exceto eu que fingia dormir, farsante como só. De nada adiantou.

 

Então esta era a hora da vírgula. A hora da vírgula! Eu pensei fingindo mesmo que sonhava, com balãozinho de nuvem e tudo.

 

Aline reclamava a dor nas costas. Helenita uma outra dor qualquer, minha mãe me falava apontando pra minha caixinha de nada, coitada, e o meu pai fechava o senho de maneira que eu interpretei ficaríamos a caixa e eu na estrada.

 

A hora da virgula, do entrevero, do acerto de contas, chegara.
Eu desesperado, mas de olhos semi-cerrados só apontava pro meu balãozinho de nuvem sinalizando que dormia…
Mas óbvio, junto com balão, ninguém acreditava!
Era tanto o barulho que o pobre carro não conseguiu se fazer ouvido no seu lamento.
Tremeu, tremeu e estrebuchou!
Neste instante, o do estrebucho, ouviu-se o único som mais forte que aquela humanidade ouvira desde antes de entrarmos no asfalto.

 

Bum!

 

E uma enorme língua de faíscas de metal cinzelando se viu no nosso rastro.
Quando olhei pra trás o tempo parou tudo dentro do carro e só voltou em quadros. Um por um.
Fez-se um silêncio ensurdecedor. Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo. Muito menos eu, que até pouco antes daquele instante, sustentava a minha farsa.

 

Quando o tempo voltou a correr, o carro já estava parado por completo, e então ouvimos a minha mãe:

 

Todos estão bem? Perguntou assustada.
Sim, sim, sim, sim. E eu, com o meu balão de nuvens nas mãos disse por último, sim.
Estava acabada a farsa. A parte detrás do carro inclinara-se no asfalto e víamos os meus pais de baixo para cima num angulo esquisito. Mas estávamos de verdade todos bem.

 

O balão com meu sonho de gibi escorregou das minhas mãos e murchou no assoalho, por sobre o meu livro, bem no vão dos meus pés.

 


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Foto-ouvinte: o tempo parou em São Paulo

Relógio parado

 

Os relógios e termômetros de rua estão abandonados há muito tempo, na cidade de São Paulo. Sem que a prefeitura resolva o problema – a licitação para decidir as empresas que vão explorar o serviço saiu recentemente -, manifestante anônimos decidiram protestar colando cartazes com os dizeres “Aqui o tempo parou”. A foto foi feita pelo ouvinte-internauta Anderson Santos e enviada pelo Twitter @pedroaugutoli

Acesse nossos APPs e compartilhe suas ideias na CBN

 

Duas mãos, muitas palavras e a música no ritmo da notícia que você ouve na CBN. Estas são marcas do vídeo que incentiva os ouvintes-internautas a acessar os novos aplicativos para Android, Iphone e Ipad. A campanha abre espaço para você compartilhar conosco palavras e mensagens que representam o que sente, deseja ou sonha. Escreva no seu corpo, fotografe, grave e mande para cá: milton@cbn.com.br. Vou adorar dividir estas emoções com toda a comunidade que acompanha a rádio CBN.