De princípio da vibração

 

Por Maria Lucia Solla

 

Texto escrito originalmente em 20/11/2011

 

 

Ouça “De princípio da vibração” na voz e sonorizado pela autora

 

Ando preocupada comigo; será que estou caindo no buraco da depressão? Não tenho procurado amigos, e quando a gente não está nadando na alegria e nem em condições de entreter, o mundo se afasta de você. Ando muito mais quieta do que sempre fui, saio pouco, tenho me fechado. Basta o sol se esconder por meio dia, e eu murcho. Tudo bem que a vida anda difícil para todos os que têm que viver sozinhos e do próprio sustento. Tudo bem que os relacionamentos vão se equilibrando no tênue fio do ritmo da vida e do interesse de cada um. Tudo bem que o dia amanhece às vezes nos dando tranco sem aviso, sem preparo, e leva embora certezas que, teimosos, insistimos em manter, apegados que somos. Mas tá puxado!

 

Os estrangeiros que estudam a língua portuguesa se surpreendem com os dois verbos que traduzem o verbo to be e o verbo être. Temos ser e estar, que apontam, um para o permanente – ser, e o outro para o transitório – estar. Não sei você, mas sinto que sou cada vez menos e estou cada vez mais, o que é inevitável, me parece, pois pelo princípio da vibração nada está parado, tudo muda, tudo vibra. Além disso o filme da vida tem passado em velocidade assustadora, e tem dias que nem me lembro de mim. Tudo muda em mim o tempo todo. Muda o paladar, o ouvido musical, o modo de ver e de viver a vida, o modo de lembrar e o modo de sonhar, o modo de lembrar e de não ser lembrada. E como a memória traz sabor mais agradável que a solidão, me farto.

 

muda o tipo e a medida
do amor
da expectativa
da dor
muda tudo
sempre
dentro e fora

 

De novo, não sei você, mas às vezes me sinto um bicho acuado, e noutras uma leoa faminta. Quando a gente não toma antidepressivo – o que hoje em dia é como andar na montanha russa sem cinto de segurança – percebe a gente e o mundo, nus e crus. Como obturar um dente sem anestesia. Por outro lado há um quê de paz em mim que não existia antes. Algo como: então tá! e um quê de agressividade na medida para me defender antes de cair no buraco já que nunca falta quem tente puxar ou empurrar. Vai ver tudo isso é só uma veia criativa com tons de depressão, ou vice-versa, que tanto faz.

 

só percebo com clareza
que não caí na depressão
quando olho para a mesa de vidro
no lugar daquela de madeira
que morreu
e babo com a beleza das rosas brancas
que alçam voo do vaso
de vidro também
onde eu as arranjei

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Rosana Jatobá: “a Terra sobreviverá, mas nós estaremos vivos?”

 

Por Dora Estevam

 

A elegância não está apenas na roupa que veste ou nos gestos que marcam sua fala. Rosana Jatobá é refinada no conteúdo, também, que vai muito além daquele que a maior parte do Brasil ainda se lembra, e com saudade, quando apresentava a previsão do tempo no Jornal Nacional, na TV Globo, onde trabalhou por 12 anos. Dedica-se agora ao tema da sustentabilidade, sem dúvida resultado do mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais feito na USP, mas que também pode ser explicado pelo destino que o nome de família lhe proporcionou. Jatobá é a árvore que mais sequestra carbono do ar, espécie de faxineira do ar. E Rosana busca ajudar o planeta com o recurso que desenvolveu no jornalismo: a comunicação. Atualmente, apresenta o programa “Tempo Bom, Mundo Melhor” na Rádio Globo, está escrevendo as últimas páginas de um livro e se preparando para lançar o site “Universo Jatobá”. A unir todos os projetos, o desejo de viver em uma sociedade mais justa e sustentável, o que já revelava em crônicas escritas no Blog do Mílton Jung, em 2010 (leia os artigos aqui). E a certeza de que o exemplo começa em casa, como demonstra nesta entrevista que fiz com a ela:

 

Quais as ações de sustentabilidade que você pratica, atualmente?

 

– Coleta seletiva do lixo e destinação correta, levando os resíduos ao posto de coleta do Pão de Açucar; economia de água e de energia; aparelhos eletrônicos com selo de efeciência energética e desligados (fora da tomada) quando não utilizados; uso de bicicleta para pequenos percursos; uso de ecobags; horta doméstica e ioga.

 

Onde você busca inspiração para os seus projetos? Quais são as suas referências?

 

– Minha maior referência é a literatura. Procuro me inspirar em grandes escritores sobre o tema, como Tim Flannery, James Lovelock, Nicolas Stern, José Goldembreg, Washington Novaes, Leonardo Boff, Echart Tolle, etc… Gosto também de ressaltar atitudes sustentáveis de pessoas famosas, pois é um chamariz eficiente de convencimento. Os exemplos mais factuais eu pesquiso em sites como EcoD, Planeta Sustentável, Treehugger e os cadernos de Sustentabilidade do Valor Econômico e do Estadão. Fico de olho tambem em documentarios e podcasts.

 

O consumo, de maneira geral, é um vilão da economia de sustentabilidade?

 

– O consumo é benéfico. Traz conforto e é a mola propulsora da economia. O erro é o consumismo, a prática exagerada do consumo, que resulta em exploração demasiada dos recursos naturais e no descarte inadequado. Temos que migrar de uma sociedade descartável para uma sociedade de bens duráveis. E temos que aprender a nos contentar com uma vida mais frugal, ligada a natureza, a qualidade dos relacionamentos e a espiritualidade, evitando buscar recompensas psicológicas por meio do materialismo. A economia da consciência vai predominar neste século e as inovações da tecnologia vão nos permitir uso mais racional da energia e da matéria-prima.

 

Quais as maiores dúvidas das pessoas com relação as questões ambientais?

 

A duvida conceitual: o mito de que o planeta vai acabar em água ou em fogo! Mas a verdade é que a Terra, por mais explorada e aviltada, sobrevivera, como ocorreu em outras eras. O que temos que atentar é para a sobrevivência da espécie humana e de muitas outras que, como sabemos, estão interligadas neste equilibrio ambiental. A duvida prática: como posso ser sustentável sem abrir mão do conforto material?

 

Já podemos dizer que o Brasil tem um forte apego a sustentabilidade?

 

Podemos dizer que o Brasil tem uma forte vocação e um potencial magnífico para ser sustentável. Temos a matriz energética quase toda limpa, uma das maiores e mais ricas florestas do mundo em biodiversidade, água em abundância, embora com problemas de escassez e distribuição; e um povo que gosta de natureza e é receptivo às mudanças necessárias. Quando a educação for prioridade, daremos as ferramentas para nosso povo fazer as escolhas corretas e lutar por uma sociedade mais justa e ambientalmente correta.

 

Quem você gostaria de ver falando sobre este assunto com você?

 

A minha maior conquista profissional é poder dividir o palco com a nossa Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira em diversos eventos relacionados ao tema. Os últimos foram o lançamento da “Rede de mulheres líderes pela sustentabilidade” e a premiação do ” Champions of the Earth, da ONU”. Sou parceira do Ministério. Um dos projetos é engajar pessoas famosas como atores e jornalistas, a fim de formar opinião voltada para a preservação ambinetal e a responsabilidade social. Agora, se juntar o Brad Pitt, o Leonardo de Caprio e o Al Gore….não reclamo, não! rsrsrsrs

 

Como convencer o consumidor a ter percepção forte sobre o consumo alternativo?

 

Acho que dar bronca, censurando atitudes, não dá certo. Ao contrário. Você passa a ser encarado como ecochato. Tem que tentar engajar pela emoção, mostrando que o futuro dos nossos filhos está comprometido. E evitar um discurso catastrófico. Mostrar o lado bom de mudar.

 

Quando anda nas ruas da cidade o que mais chama sua atenção e você gostaria de mudar?

 

O que me comove e constrange é a desigualdade social, embora o Brasil seja, pela primeira vez na história, um país de classe média. Mas o fato é que há muita disparidade e uma sociedade desigual gera muitos conflitos. Como convencer um cidadão a fazer separar o lixo, se na porta dele passa o esgoto e a família não tem acesso à água potável?

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: crie um futuro diferente para sua empresa

 

“Estratégia é você surpreender os outros criando um futuro diferente para a sua empresa, posicionando-a de forma diferente no mercado. Isso impõe você pensar de forma inovadora e criativa. Usar a imaginação e não só a análise e a razão. Essa foi a razão que me levou a buscar como é que eu estimulo as pessoas a criarem o futuro e não ficarem analisando o passado ou trabalhando em cima de uma planilha Excel como se aquilo fosse solucionar o problema da empresa.” As dicas são de Moisés Fry Sznifer, professor dos programas de mestrado e doutorado da FGV e professor visitante da UC Berkeley, nos Estados Unidos, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da CBN. Sznifer fala sobre o comportamento dos novos CEOs que devem saber trabalhar com as emoções, com as suas e de seus comandados. Ele deixa também um recado para você que reclama de ter um chefe que não sorri: ele não vai durar muito tempo.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN.

A Viagem ( final)

 

Por Sérgio Mendes

 

Leia aqui o 1º capítulo de “A Viagem”

 

Leia aqui o 2º capítulo de “A Viagem”

Leia aqui o 3º capítulo de “A Viagem”

 

Naquela posição, ninguém ainda tinha percebido direito o que acabara de acontecer e a sensação de que meu pai daria outra vez a partida e continuaríamos, persistiu até que ele saiu do carro. Após submergir de nossas vistas na janela, emergiu com aquela cara de ‘hum, hum’ que eu nunca mais me esqueci. O eixo traseiro estava partido em dois, e as rodas dobraram se sobre ele fazendo a traseira do carro abrir as pernas fora do asfalto. Nós e o corcel amarelo em pleno Cerrado, frente e verso traspassados pela estrada a perder de vista dos dois lados. Então, saímos todos do carro e nos reunimos numa sessão do conselho diretor para discutir o que faríamos.A conclusão foi que um dos adultos seguiria de carona até a próxima cidade para buscar socorro, e os demais montariam guarda na estrada pra assegurar que o tal socorro tivesse a quem socorrer na chegada.

 

Assim se fez e assim aconteceu!

 

As horas a partir de então, foram uma sucessão de generosidade anônimas e o esvaziamento total das reservas familiares. Por causa disso, a viagem se completou com suas ultimas 24h a bordo da nave da mamãe.

 

O socorro chegou com o socorrista que depois de um exame minucioso na fratura exposta, igualmente emergiu a nossas vistas do outro lado do carro, com a cara de ‘hum, hum’ escondida detrás dos óculos de fundo de garrafa. Não conseguiu nos assustar por que a cara já tínhamos visto! Conversa vai, conversa vem, e nós em silêncio acompanhando o ping-pong. Hora olhando para um lado, hora para o outro.

 

Depois de muita exclamação e de cada um dos três partícipes naquela negociação dar umas duas ou três coçadinhas na própria cabeleira, chegaram a um acordo: o mecânico rebocaria o nosso corcel, providenciaria outro osso igualzinho e ainda faria o implante a troca de todos os centavos que nos restasse naquela altura do campeonato!

 

Demos o ping-pong por encerrado.

 

O socorrista, com ares de sabe-tudo e muito boa vontade, amarrou bem amarrado o eixo do nosso corcel e nos montou a todos, exceto o meu pai, na garoupa do seu próprio pangaré e fomos rebocados até o seu hospital de pangarés na entrada da cidade mais próxima. Meu pai ficara no nosso carro, apenas manobrando.

 

Ao chegar, apearam o paciente e entraram com ele para a mesa de operação. Do lado de fora da janela do CTI, quatro pares de olhos pequenos, arregalados, não perdiam uma só cena daquele capítulo final. Estávamos esticados e de pé, cada um esticado como era possível, é claro, obedecendo as curvas na coluna impostas pelos últimos dias.

 

Uma senhora que acompanhara nosso drama desde a chegada do comboio( pangaré partido e pangaré resgate) nos ofereceu sua casa para o pouso enquanto providenciavam outro eixo de outro pangaré partido em algum outro lugar. Dormiríamos aquela noite na casa dela.

 

No dia seguinte pela manhã, a peça chegou e o implante foi completado. Depois de um café com pão, leite e muito amor, estávamos de volta ao asfalto ou o que se pudesse chamar aquilo sob o carro, nas ultimas horas da nossa aventura. Prosseguimos nossa viagem pelo restante de estrada que faltava. A maior parte do tempo em silencio.

 

Nem mais a caixa do meu piano, nem as dores no corpo, nem as tensões pelo esgotamento quase completo de todo dinheiro disponível eram maiores que a vontade de chegar. À noite daquele último dia, passamos em um outro posto de combustível junto de uma porção de caminhões e seus caminhoneiros a quem meu pai contou a nossa história. Logo estávamos outra vez cercados do apoio de gente nossa, no meio de um mar de caminhões. Dormimos no carro.

 

Pela manhã, mais café com pão e estrada.
Então, já dentro do Mato Grosso.
Chegar em casa agora, era uma questão de horas.

 

Por volta das 16h, eu entre acordado e dormido e com meu pescoço curvado, por castigo sentado no meio do banco, avistei as luzes da nossa cidade. Lembro de tentar acordar minha tia e que ela me respondeu com um sopapo como se pensasse aquilo ser só mais uma brincadeira de mau gosto.

 

Me deixa dormir! Ela resmungou sem acreditar que a viagem chegara ao final. Mas logo as luzes invadiram o carro e todos os ainda dormidos despertaram. Como era boa aquela sensação!

 

As ruas que faltavam até o fim, eram bem conhecidas e mais um par de curvas, avistamos a praça da vila militar. Foi minha mãe quem abriu o portão e recolhemos o carro. Ninguém nem tocou e nada dentro dele. Só queríamos sair e reencontrar a casa.

 

Na manhã seguinte a nossa chegada, antes que os demais acordassem, fui eu quem me encarreguei de desmontar a cangalha. Não tive impulsos de dirigir o corcel e desmontei os fardos colocando as coisas no chão. Tudo tão indispensável que em uma noite, ninguém precisou de nada guardado dentro dele.

 

Pra que fique bem gravado na memória:

 

‘Nunca subestime nossa capacidade de acumular tranqueiras.’
Ao abri-lo, a fechadura respondeu bem e destravou a porta.

 

Soube depois que o corcel transplantado ainda carregou a família por mais algum tempo, antes de se estrelar num muro em uma balada etílica, a 50km/h, acordando um velhinho no meio da madrugada. Mas eu já não morava mais com meus pais. Naquele mesmo ano iria para um internato militar e igualmente não toquei mais no meu piano que até hoje segue embalado em sua caixa, em algum lugar de nossa casa. Não toquei nem quando retornava por alguns dias nas férias.

 

Isso aconteceu na ultima vez que viajamos todos juntos. Seis dias de carro, um corcel amarelo.

 

Ps: A fechadura colada com chicletes nunca foi descoberta. Nem depois que ele passou para outras mãos. Pelo menos não que eu tenha ficado sabendo.

Avalanche Tricolor: A Imortalidade contamina

 

Millionarios 3 x 1 Grêmio
Sul-Americana – Bogotá (COL)

 

Há um espírito que cerca nossa camisa, que nos capacita a superar os mais incríveis desafios e nos fez entrar para a história. Vencemos partidas inimagináveis e conquistamos campeonatos que poucos acreditavam ser possível. Muitas vezes, entramos em campo desacreditados e fomos avaliados com desprezo. Nossa garra era confundida com violência, nosso desejo de ser campeão visto com maus olhos. No entanto, fomos muito maior do que todos estes e fomos além. Foi assim nos campeonatos estaduais, nas Copas do Brasil, no Brasileiro. Em todas as competições internacionais das quais participamos. Muitos lembrarão aqui a inacreditável Batalha dos Aflitos e eu não esqueço a forma como chegamos ao título Mundial.

 

Esta força que consagrou nossa Imortalidade, às vezes, emana de nossa alma para contaminar clubes e seleções em outros rincões. Nosso autor preferido, por gremista alucinado que é, Eduardo Bueno, lembra bem da façanha tricolor travestida de Uruguai, na final da Copa de 50, entre tantas outras descritas no livro “Nada Pode Ser Maior”, que deveria ser leitura obrigatória para cada atleta que se atrevesse vestir nossa camisa. Nesta noite de quinta-feira não foi diferente. A Imortalidade estava em campo, de azul, também, lutando pelo impossível. Pena que do outro lado.

Tecnologia demais é graça de menos no futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

 

“Quando você sabe que está derrotado, aceite a derrota com dignidade”. Ao ler essa frase no romance ‘As Trilhas da Glória’, de Jeffrey Archer, escritor inglês, que a colocou na boca do tutor de George Leigh Mallory, protagonista desse seu livro, me lembrei do conselho dado por Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, à direção do clube, ao saber que o presidente Tyrone pretendia obter a anulação do jogo de seu ex-time contra o Inter. Em outras palavras, Marcos praticamente repetiu a frase usada por Archer. Os que acompanham o Brasileirão sabem que Barcos, centroavante palmeirense, marcou um gol com a mão, gesto não flagrado pelo árbitro Francisco Carlos Nascimento. A alegação palmeirense, não aceita pelo STJD, foi que o delegado do jogo, avisado por um repórter, soprara para Jean Pierre, o quarto árbitro, que a televisão havia mostrado o toque. A legislação não permite que sejam usados recursos televisivos para definir lances de jogos. Mas a causa do Palmeiras não prosperou. Não houve como provar que a informação passada para o juiz fosse fruto do que a televisão mostrara.

 

Passou-se,então a discutir, mais uma vez, à luz do ocorrido, a validade do uso de recursos tecnológicos – imagens de TV – para esclarecer lances polêmicos. Se o assunto fosse colocado em votação, com certeza, a maioria da mídia esportiva seria favorável ao sistema. Eu, porém, não gostaria de vê-lo vigorar. Entendo que uma das graças do futebol – a de permitir que tudo o que acontece neste jogo seja discutido à saciedade, especialmente a atuação do árbitro e de seus auxiliares – tem de permanecer imutável. Duvido que a tecnologia possa ser posta em prática em todas as competições futebolísticas, eis que encareceria, por exemplo, os campeonatos estaduais. Afinal, todos as partidas teriam de ser filmadas e seria preciso que os árbitros fossem imediatamente avisados sobre irregularidades imperceptíveis para os seus olhos e os de seus auxiliares. Sei que juízes e assessores se comunicam entre si, mas apenas com o uso de transmissores de voz. Para mim, isso fica no limite do que é possível. Esses novos assistentes, que ficam de olho no que ocorre no fundo dos gramados, já se constituem em acréscimo desnecessário. O que dizer, então, de estragar o futebol de todos nós com a utilização de tecnologia.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Não sou uma pomba, mas sou da paz

Texto publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

Bom dia, Revista Època,

Sr. Milton Jung será que o senhor não tinha nada mais útil à sociedade para escrever do que relatar essa sua perseguição as pombas???? Será mesmo que o problema são elas, ou você que em seu texto transborda ódio e raiva dos animais????? Sinceramente se elas o perseguem por toda parte, o senhor deve ter feito alguma coisa para tal reação da vida contra o senhor. De fato os animais podem causar doenças, mas garanto que usar cola para espantar o bando não é a atitude mais digna de um ser racional. Com certeza elas, sim, sim o símbolo da PAZ, talvez bem mais que sua atitude egoísta de escrever numa revista uma situação particular, ao invés de se preocupar com assuntos bem mais importantes, que com certeza a cidade de São Paulo tem. Boa sorte ao SENHOR, espero que como jornalista dê o exemplo às pessoas para que trate os animais bem , pois já vivemos num clima de violência incomensurável, bons exemplos sempre são bem vindos. Use seu espaço para tentar ajudar mais seu próximo,sua cidade,etc. garanto que a vida lhe será mais grata, até os pombos te libertaram de tal perseguição.

Sônia Pirrongelli

 

Minha coluna na Época São Paulo, de novembro, quando dediquei a última página da edição aos problemas que os pombos me causam – e à cidade, também -, provocou protestos da cara leitora Sônia Pirrongelli, a quem agradeço pela mensagem eletrônica enviada a sessão de cartas da revista (perdoe-me, inicialmente, por chamar assim este espaço dedicado aos leitores que há muito, imagino, não perdem tempo escrevendo missivas às redações quando podem, facilmente, enviar um e-mail). A bronca da leitora a este “perseguidor de pombas” me permite, no mínimo, retomar o assunto que se estendeu ao programa que apresento na rádio CBN. Os ouvintes-internautas, aliás, foram muito mais solidários a minha causa, o que, por si só, já desmonta o argumento de que o tema não tem importância para os cidadãos paulistanos. Imagine que no Centro de Zoonose existe um departamento especializado em combater as tais aves. Calma lá, combater não é a melhor palavra. Vamos dizer que os funcionários públicos têm o desafio de conter a proliferação de pombos.

 

O problema não se restringe a minha casa ou a cidade onde moro. Do Rio, soube que a prefeitura demonstrou preocupação com a superpopulação de pombos, enquanto do Paraná chegou alerta para a necessidade de aplicar com estas aves os mesmos conceitos de combate a pragas na agricultura. Algumas cidades do interior do Brasil lançaram campanha para que os moradores não deem comida aos pombos e espalham pílulas anticoncepcionais para as mocinhas de asa na esperança de que os estragos a prédios públicos e à saúde da população diminuam. Aproveito para informar que de nada adiantará o senhor ou a senhora que me lê comprar uma cartela na farmácia e espalhar pílulas pelo telhado ou pátio da casa. Para a prática dar resultado seria necessário que as pombas ingerissem uma quantidade inimaginável de anticoncepcional e durante um tempo muito longo.

 

Aliás, não me faltaram sugestões para espantar as pombas que me cercam. Falaram em um apito que causaria incômodo, sugeriram a contratação de gaviões e até mesmo que me mudasse de casa – o que está fora de cogitação. Não a abandonei nem quando foi ocupada por bandidos, imagine se me renderei aos invasores alados. A dica mais bem humorada enviada por um dos ouvintes, ao qual peço desculpas por não ter registrado o nome, foi pintar o telhado de verde. Como? A pomba vai pensar que é do Palmeiras e abandonar o lugar com medo de cair junto – disse ele.

 

Para Dona Sônia, autora da revoltada carta enviada à revista, quero dizer que apesar de não gostar das pombas nunca aceitei que fizessem maldade com elas. A tal cola citada no meu artigo na Época SP, é, na realidade, um gel que não causa qualquer dano, apenas deixa desconfortável o local ocupado. Tem mais ou menos o mesmo o efeito da rede de proteção que coloquei em parte do meu telhado (e que ainda não deu resultado). Um amigo que apareceu com arma de pressão foi mandado embora. O veneno recomendado, sequer levei em consideração. Não sou uma pomba, mas sou da paz.

 

Qualquer dúvida sobre como trato os animais, pergunte ao Eros, ao Ramazzotti e ao Boccelli – o labrador, o shitzu e o persa que moram na minha casa há uns bons anos. Pensando bem, é melhor deixar o Ramazzotti fora dessa, pois ontem, por recomendação médica, tive de castrar o baixinho, e creio que a opinião dele sobre minha pessoa, neste momento, não deve ser das melhores.

Travestir na Oi e rebolar no Walmart

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A Oi foi condenada a pagar R$ 14 mil de indenização a um funcionário que se sentiu humilhado pela obrigação de se vestir de mulher em evento da empresa. A ação de 2009 foi julgada em 31 de outubro pelo TST, quando o relator, ministro Emanoel Pereira, afirmou que é dever do empregador: “primar pela adoção de regras que incentivem o empregado de forma positiva, com premiações, jamais de forma negativa ou depreciativa, expondo o trabalhador a situações vexatórias, como no caso, onde o autor foi obrigado a se vestir de mulher”.

 

Em fevereiro de 2011 a Walmart teve que pagar R$ 140 mil a um ex-diretor que se sentiu humilhado por ter que rebolar na hora do grito de guerra criado por Sam Walton, fundador da rede. A sentença do Juiz de Barueri consta: “o ato do Walmart é medieval. Mudos e calados, os funcionários, tratados como bonecos e servos da gleba, devem se submeter a todo tipo de ordens e caprichos de seu dono”.

 

As sentenças, embasadas sob o aspecto jurídico e, também, diante do conhecimento técnico referente à teoria administrativa e psicológica da motivação, expõem duas grandes corporações como praticantes de métodos anteriores ao século XX.

 

Elton Mayo, de Harvard, em 1927, contratado pelo National Research Council e pela Western Electric Company de Chicago, no bairro de Hawthorn, realizou experiência que originou a Escola de Relações Humanas. Um grupo foi submetido a diferenças de conforto. Independentemente de melhora ou piora, a produtividade sempre aumentou. A participação na pesquisa motivou. Surgia então o “homem social” diante do “homem econômico” da Escola de Administração Científica de Taylor. A partir daí vieram várias teorias como a hierarquia das necessidades de Maslow, a teoria de Herzberg com os fatores higiênicos e motivacionais, McGregor com a teoria X e Y, dividindo o homem em negativo e positivo, Herbert Simon e a Teoria Comportamentalista assinalando que para a eficiência não basta a satisfação no trabalho e a Escola Cognitivista de Jean Piaget onde o homem e o mundo interagem e se desenvolvem. E o homem passou de econômico, social, organizacional, para funcional. Nenhum destes e nenhuma das teorias de motivação receitariam travestir ou rebolar.

 

Há, entretanto controvérsias.

 

No Walmart, a cultura implantada por Sam nas bizarrices públicas, inclusive a sua aparição em Wall Street dançando a hula (na foto), levam alguns observadores a atribuir estas esquisitices ao sucesso mundial alcançado. Não acredito, pois o que Sam Walton possuía verdadeiramente de forma exponencial era uma visão estratégica genial aliada a um imenso espírito empreendedor. A Walmart é hoje a maior do varejo mundial faturando US$ 450 bilhões e a terceira do ranking geral. Gritos de guerra e bullying nos palcos da empresa e nas aberturas das jornadas devem servir apenas para afastar alguns novos talentos que não estão dispostos a estas práticas.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

 

Quando nem Freud explica, tente a poesia!

 

Por Julio Tannus

 

Ao procurar um livro na minha biblioteca desarrumada, reencontrei a poesia. Compartilho aqui algumas delas:

 

Sigmund Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”.

 

Bertolt Brecht: “Fôssemos infinitos / Tudo mudaria / Como somos finitos / Muito permanece”

 

Raimundo Gadelha: “E a tristeza maior é a certeza: nas multidões de todas as estatísticas eu, tão só, não estou só”.

 

Patativa do Assaré: Povão Sofrido

 


“Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasí fica mió;
Mas o Brasí continua
Na cantiga da perua:
Que é: – pió, pió, pió…”

 

Mário Quintana: Da Sabedoria dos Livros

“Não penses compreender a vida nos autores.
Nenhum disto é capaz.
Mas, à medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderás.”

 

Mário Quintana: Da Condição Humana

 

Custa o rico a entrar no Céu
(afirma o povo e não erra)
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra…

 

Nicolino Limongi: O Livro

 

“Fechado, é como um sol em potencial,
relicário de amor e de saber;
aberto, é verdadeiro manancial
de inspiração, de luz e de prazer.
Mestre amigo, incansável e cordial,
sempre pronto a servir e a esclarecer,
não protesta, não fala, não diz mal
daqueles que o não sabem compreender.
Se acaso jaz perdido, abandonado
sobre um móvel qualquer, velho empoeirado,
guarda em silêncio o bem que armazenou.
Se o espírito que o fere vem, sedento,
ao seio farto haurir conhecimento, ei-lo servindo à mão que o desdenhou.”

 

Olavo Bilac: Língua Portuguesa

 

“Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma”.

 

T.S. Eliot: Poesia

 

Ninguém nos deu emprego
Com as mãos nos bolsos
E o rosto cabisbaixo
De pé no descampado estamos
A tremer de frio em quartos obscuros.
Somente o vento ainda se move
Nos campos desolados, improfícuos
Onde o arado jaz inerte, em ângulo
Com os sulcos. Nesta terra
Um cigarro haverá para dois homens,
Para duas mulheres apenas um quartilho
De cerveja amarga. Nesta terra
Ninguém nos deu emprego.
Nossa vida é inoportuna, nossa morte,
Jamais anunciada pelo “Times”.

 

Arthur Rimbaud: Uma Temporada no Inferno

 

“Sim, a hora nova é a menos severa.

 

Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes, as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam. Meus últimos remorsos se retiram, – invejas pelos mendigos, os facínoras, os amigos da morte, os retardados de toda espécie. – Condenados, se eu me vingasse!

 

É preciso ser absolutamente moderno.

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Vai encarar !

 

Não sei se foi a crônica na Época SP, os comentários no Jornal da CBN ou minhas tentativas frustradas de afastar os pombos dos arredores da minha casa. O que provocou não sei, mas pela cara do moço, aí embaixo, o melhor é não arriscar. Quem sabe um armistício?