Morte em duas rodas

 

Por Milton Ferretti Jung

O jornal gaúcho Zero Hora em sua edição de 30 de outubro do corrente ano destacou, na sua página inicial, duas notícias, uma falando sobre os exames que detectaram câncer no ex-presidente Lula, outra ressaltando as 39 vítimas de outubro, chamada para a matéria que ocupou cinco páginas e na qual reconstituiu todos os acidentes fatais sofridos por motociclistas (não me agrada a palavra motoqueiro) ou caroneiros. No topo da página 29 lia-se “A Guerra em duas rodas” e, abaixo da primeira serie de fotos das 39 vítimas, mais uma manchete forte: “Outubro sangrento”. Dessas, onze se acidentaram durante a madrugada, seis pela manhã, sete à tarde e 15 à noite. Contribuíram para a composição dessa terrível estatística 24 municípios do Rio Grande do Sul.

Lembro-me que relatei, numa dessas quintas-feiras, meu dia de escrever no blog do Mílton, passeio que fiz para uma cidade serrana e os sustos que levei no retorno a Porto Alegre ao ver motos potentes ultrapassarem em altíssima velocidade o Peugeot dirigido pelo meu cunhado. Ao olhar os jovens malucos que as pilotavam fiquei imaginando quantos deles chegariam à minha idade. Quem sabe alguns não apareceram nas fotografias publicadas por Zero Hora. Não é, porém, apenas nas estradas que alucinados motociclistas correm com seus veículos colocando em perigo não somente a própria vida, mas a de motoristas e pedestres. Nossas vias urbanas estão cada vez mais cheias de motoboys e de quem usa motocicleta para os mais diversos fins. E a maioria comete loucuras no trânsito citadino, misturando-se perigosamente a motoristas que também não lhes ficam atrás.

O Código de Trânsito Brasileiro não permite, mas ao mesmo tempo não proíbe que os motociclistas ziguezagueiem entre os veículos maiores ou os ultrapassem pela direita, geralmente em alta velocidade. Por outro lado, as lombadas eletrônicas e os radares não registram em suas câmeras a velocidade das motos. E seus pilotos se aproveitam dessa falha. Por mais rigoroso que ainda venha a ser o CTB muito pouco conseguirá mudar no comportamento dos motociclistas se não se investir para valer em educá-los, na criação de cursos de direção defensiva, em processo de habilitação que exija mais do candidatos a dirigir motos e numa fiscalização mais presente. Enquanto isso não for feito, não apenas os outubros, mas todos os meses do ano serão sangrentos.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Museu da Pessoa, há 20 anos registrando história

 

O Museu da Pessoa é parceiro da Rádio CBN no programa Conte Sua História de São Paulo, há dois anos. A instituição que tem o maior acervo de histórias pessoais do país registra depoimentos de cidadãos em áudio e vídeo, além de desenvolver uma série de projetos voltado a memória das pessoas que, em seu conjunto, contam a nossa história. O Museu, assim como a CBN, completa 20 anos de existência.

Para participar do Conte Sua História de São Paulo você pode mandar um texto para milton@cbn.com.br ou agendar uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa.

Foto-ouvinte: Arte no tapume mostra história da Paulista

 

Tapumes com arte

Os tapumes de um empreendimento na Paulista se transformaram em telas gigantes para desenhistas da cidade que estão reproduzindo cenas dos 120 anos da história da avenida. Entre as ruas Pamplona e São Carlos do Pinhal é possível ver parte do trabalho realizado pelos artistas da ONG Revolucionarte que contará com a imagem de bondes e veículos do passado, silhuetas de pessoas pintadas em cores, além do Masp, estações do Metrô e outros marcos do local. Lek, um dos instrutores do projeto, destaca que os tapumes estão oferecendo visibilidade para o talento de vários desses artistas da ONG, que tem como objetivo oferecer cursos profissionalizantes de pintura artística para jovens de comunidades carentes. Eles aplicam a técnica da aerografia com o uso de tinta e compressores de ar, o que exige precisão e habilidade nos traços. A iniciativa é da CCDI e Cyrela, responsáveis pela construção da torre comercial na avenida Paulista

As motos de São Paulo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Cidade das motos

Há 10 anos o guitarrista dos Titãs, Marcelo Fromer morreu atropelado por uma moto. Hoje, isto é repetido a cada três dias, e numa recíproca macabra, diariamente, mais de um cidadão motociclista morre na cidade de São Paulo. A partir daí só a certeza de que as 900mil motos, das quais 200mil de profissionais, crescerão numericamente enquanto diminuirão os espaços. E, por sua vez, a adrenalina acionada levantará as velocidades e as atrocidades de manobras extremas.

A simplista solução restringindo o condutor ou a motocicleta, embora sugerida por alguns, evidentemente não é o caminho sustentável. É preciso ir à causa, já que o efeito é conhecido. E, não é difícil perceber, a falta do transporte coletivo de qualidade e em quantidade é o principal vilão da tragédia urbana paulistana.
Enquanto não chegam os kms de metrô, trens e demais coletivos necessários, é preciso facilitar a vida das motos. Protegê-las e normatizá-las. Não é possível manter também aqui a hegemonia do automóvel.

As faixas exclusivas e o controle de velocidade, acenadas como impraticáveis, precisam ser examinadas e desenvolvidas.

Sabemos que a tecnologia pode tudo quando quer. A faixa exclusiva foi indeferida porque o STF entendeu que a União não pode legislar nacionalmente no trânsito local.

Discriminar as motos trará aumento do problema pela inevitabilidade, pois seu preço acessível tornará cada vez mais atrativa sua utilização, quer para transporte, quer para negócio. Se quisermos voltar a dirigir autos sem o sobressalto atual dos ataques de motoqueiros alucinados e, também, sem o preconceito de motoristas assustados, é bom adiantarmos as soluções.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Pressão faz vereadores de Vila Velha rever aumento de salário

 

Quando insistimos com a ideia de que a pressão da opinião pública pode mudar a política brasileira tem quem seja descrente. E há muitos fatos que justificam este comportamento. De vez em quando, porém, somos surpreendidos com atitudes que nos incentivam a seguir defendendo a presença do cidadão no Legislativo. Em Vila Velha, no Espírito Santo, os vereadores decidiram recuar no aumento de salário e de vagas que haviam aprovado há algumas semanas depois da repercussão negativa na sociedade e na mídia.

A Câmara Municipal de Vila Velha havia reajustado o salário dos vereadores de R$ 7.430 para R$ 12 mil, valor que seria pago a partir de 2013. A nova legislatura também contaria com 21 vereadores em lugar dos atuais 17, em aumento permitido por lei aprovado no Congresso Nacional que levou os legislativo municipais de todo o Brasil a recalcular o número de parlamentares. Nesta semana, o presidente da Câmara, Ivan Carlini (PR), teve de explicar as duas decisões em entrevista ao jornalista Mário Bonella, do Bom Dia Espírito Santo, da TV Globo, e protagonizou uma das performances mais caricatas que já vi nestes últimos tempos.

A imagem dos vereadores da cidade capixaba não anda muito bem desde que tiveram seus nomes envolvidos no Escândalo da Moqueca, no qual auditoria do Tribunal de Contas do Estado identificou gastos irregulares de R$ 1,1 milhão com as verbas de gabinete, em 2009. Parte do dinheiro comprou moqueca, casquinha de siri e doces. O presidente da Casa, por exemplo, pagou R$ 466 em bombons, dinheiro que, segundo ele defendeu na entrevista ao Bom Dia Espírito Santo, foi muito bem gasto, pois as guloseimas serviam para atender melhor o povo que vai até o gabinete – e os jornalistas e auditories do TCE, também.

Não deixe de assistir a reportagem que você acessa neste link

Inúmeras reclamações levaram o prefeito Neucimar Vargas a se reunir com um grupo de vereadores, nessa segunda-feira. De lá, os parlamentares saíram convencidos de que o melhor era recuar e cancelar o reajuste de 61,8% nos vencimentos e o aumento no número de vagas, na Câmara. De acordo com Neucimar foi possível mostrar aos parlamentares de que a cidade não teria condições financeiras para arcar com o custo que as duas mudanças provocariam. A decisão deve ser ratificada em sessão, quinta-feira, na Câmara.

Mesmo quando voltam atrás, os vereadores de Vila Velha revelam um traço comum e triste de parte dos Legislativos, no Brasil, que é a forte relação que mantém com o Executivo, apesar de serem poderes que deveriam atuar de maneira independente. Destaco que isto não é privilégio da cidade capixaba, nas capitais brasileiras e no Distrito Federal o cenário é muito semelhante.

Há uma semana, a indignação do eleitor fez com que surgisse o primeiro vereador “adotado” em Vila Velha. A iniciativa foi do ouvinte-internauta Jonas Lorenzini que decidiu acompanhar e fiscalizar o trabalho do vereador Almir Neres (PSD), também citado no Escândalo da Moqueca.

Que novos cidadãos sigam esta ideia.

Conte Sua História de SP: Nasce Cidade Tiradentes

 

No Conte Sua História de São Paulo, Márcia Cristina de Oliveira. Ela nasceu em 1975 e, nos primeiros anos da década de 1980, se mudou para a Cidade Tiradentes. O hoje famoso bairro da zona leste de São Paulo era, então, apenas um conjunto habitacional em construção, com poucas crianças para Márcia e seu irmão brincarem. Mas logo ela ganhou dois grandes companheiros para a aventura de testemunhar o nascimento de um bairro. História que Márcia contou ao Museu da Pessoa em maio de 2008:

Ouça o texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo

Eu tinha 7 anos quando vi um bairro nascer. O bairro em questão é a Cidade Tiradentes, uma Cohab que virou bairro. Mudei-me para a Cidade Tiradentes aos 7 anos. Quando cheguei, não tinha nada. Nenhum tipo de comércio ou escola e até por causa disso eu perdi um ano de estudos.

O que mais me deixava contente em morar nesta Cohab era a promessa que meu pai fez, a mim e ao meu irmão: assim que tivéssemos nossa casa, ele nos daria um cachorro e duas bicicletas de corrida. Então, morar em um lugar onde não havia muitas criança para brincar, somente mato por todos os lados, me deixava muito contente. Meu pai cumpriu sua palavra e nos deu nosso primeiro cachorro, chamado Buner. Ele era lindo.

Alguns meses depois, ganhamos as duas bicicletas. Já era Natal nessa época. Com o passar do tempo, a Cohab, que começou com poucos moradores, virou um bairro da zona leste de São Paulo. E, por incrível que pareça, tirando minha casa, eu vi cada prédio, cada loja, cada escola ser construída, tijolo por tijolo. É muito emocionante poder dizer que eu vi o nascimento de um novo bairro.

Marcia Cristina de Oliveira, personagem do Conte Sua Historia de SP. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você tambem mais um capitulo da nossa cidade. Vá ao site do Museu Pessoa, http://www.museudapessoa.net, publicque seu texto ou agende uma entrevista. Se você quiser ler e ouvir outras histórias de SP visite o meu Blog, o Blog do Milton Jung, sábado que vem tem mais.

Divulgação de mandato não é propaganda

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

Aproxima-se o processo eleitoral e com ele as inevitáveis confusões de interpretação sobre temas comuns do cotidiano. No entanto, é preciso lembrar que algumas relações são mais claras do que o óbvio. Neste aspecto, uma paranóia que ocorre com freqüência está na divulgação das atividades do mandato.

É essencial lembrar aos mais afoitos ou críticos pela crítica que se vive num país democrático cuja regra básica das atividades públicas é – ou deveria ser – a transparência. Por outra, também é necessário ter presente que os políticos não são todos iguais. Na condição de mandatários, os representantes eleitos tem não o direito mas dever de prestar contas das suas atividades e ações políticas.

De acordo com a legislação eleitoral, os parlamentares no exercício do mandato podem divulgar os seus atos públicos sem que isto caracterize propaganda antecipada ou abuso, desde que não se mencione a possível candidatura ou se faça pedido de votos ou de apoio eleitoral. Neste cenário, a modalidade mais difundida é dos boletins impressos ou eletrônicos. Se o informativo, ainda que ilustrado por fotografias, declarações ou opiniões de terceiros não fizer referência sobre o pleito que se anuncia, se não mencionar candidaturas e não desenvolver apologias de votos ou apoios, requisitos tidos como indispensáveis para a caracterização da propaganda eleitoral, não há que se falar em punição. Somente os excessos e desvios de finalidade é que estão submetidos à repressão da Justiça Eleitoral.

Também a manutenção de site pessoal na internet ou perfil biográfico hospedado no endereço eletrônico do Executivo ou Legislativo contendo o currículo do mandatário não caracteriza propaganda vedada. Segundo inúmeras decisões do Tribunal Superior Eleitoral, “entende-se como ato de propaganda eleitoral aquele que leva ao conhecimento geral, embora de forma dissimulada, a candidatura, mesmo apenas postulada, e a ação política que se pretende desenvolver ou razões que induzam a concluir que o beneficiário é o mais apto ao exercício de função pública. Sem tais características, poderá haver mera promoção pessoal – apta, em determinadas circunstâncias, a configurar abuso de poder econômico – mas não propaganda eleitoral”.

Por outra e sempre tendo em vista o regime democrático, é incontroverso que ao divulgar as suas atividades, projetos ou similares, o parlamentar está se promovendo. Mais: é evidente que a propagação de seus trabalhos e atuação estão diretamente ligados a sua pessoa. Portanto, é inexorável ocorrer a projeção pessoal do protagonista. Contudo, não há que se confundir propaganda pessoal com propaganda eleitoral.

Sendo de relevo crescente a exigência da sociedade por transparência nas ações dos agentes políticos e dada a disseminação e inequívoca utilidade dos endereços eletrônicos dos Parlamentos na internet, este serviço não caracteriza publicidade institucional e tampouco propaganda eleitoral antecipada.

Assim, ainda que possa haver dificuldade de entendimento ou aceitação por alguns, o TSE, num voto proferido pelo Ministro Gilmar Mendes, já decidiu que “Um político que não possa dizer que está engajado em uma determinada atividade ou que defende certas idéias, sem dúvida, não é digno dessa atividade”.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor dos livros “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age) e “Vereança e Câmaras Municipais – questões legais e constitucionais” (Editora Verbo Jurídico). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: Um craque, sem dúvida

 

Grêmio 4 x 2 Flamengo
Brasileiro – Olímpico Monumental

Ao Grêmio restavam duas decisões nestas rodadas finais, a primeira dela nesta tarde incrível de Porto Alegre, em um Olímpico completamente tomado por seus torcedores (ok, ok, havia um espaço destinado à torcida adversária). Por todas as circunstâncias bem conhecidas, caro e raro leitor, que os locutores de TV fizeram questão de repetir, irritantemente, a cada minuto de partida (ok, ok, hoje estou um pouco exagerado, não foi nesta frequência), vencer era definitivo para a temporada quase perdida de 2011. E vencemos. E de virada. E de goleada (me convence do contrário).

Dito isso, é preciso abrir aqui um parêntese. Mais um, aliás, neste texto cheio deles. Resignados, temos de admitir que o Cara é um craque. Quando não é covardemente agredido pelas costas – quantas faltas sofreu na partida de hoje -, sempre que consegue receber a bola, transforma-se. Tem um toque rápido para o colega que se aproxima, consegue se movimentar de maneira a chamar atenção da defesa inimiga, mete a bola entre as pernas do marcador, sem contar a precisão do chute. Sim, é um guerreiro, também. Isto sabíamos, faz parte da índole de quem passou pelo Olímpico Monumental. Tromba com o adversário e não se incomoda se este está no caminho do gol. O supera. Hoje, não foi diferente. No primeiro, trombou e marcou. No segundo, com talento, driblou o zagueiro e colocou no canto esquerdo do goleiro.

Evidentemente que o parágrafo (ou seria entre parênteses?) acima é dedicado a André Lima, o Guerreiro Imortal. Sei que deveria oferecer algumas linhas a outras craques que apareceram em campo, como Vítor que, aos três minutos, salvou a lavoura com uma defesa incrível ou a Gilberto Silva que anulou os atacantes no segundo tempo ou Douglas que jogou como poucos e fez o gol da virada ou a Miralles que matou o jogo com apenas uma jogada. Mas é preciso dar o braço a torcer, nas duas últimas partidas foi André quem decidiu com quatro gols e foi dele o mais bonito da tarde. Merece o título de craque nem que seja por alguns instantes.

O quê? Se não vou escrever nada sobre um outro craque? Perdão, não vi mais nenhum jogando hoje no Olímpico Monumental.

De certeza

 

Por Maria Lucia Solla

Sei que me sentir contente depende de mim, que a gente é o que pensa, que é o que come, que é o que diz, que dá o que contém; e sei que, de tudo isso, você sabe também. Então se a gente sabe, por que tanto esforço, tanta neura? Para onde vai o que se aprende? Para cantos diferentes do cérebro, arquivado por assunto, quando nossa vida deveria fluir naturalmente, como os rios? E a gente vai sendo contido e se represando, policiando o mundo e se policiando. Então o viver vira um jogo, com todo mundo se desequilibrando no tabuleiro, buscando o céu, com os pés apoiados no inferno. A gente vive de rédea curta para mal e mal se equilibrar no fio da navalha, na lei da época, seguindo regra da cartilha que alguém nos deu, aquela que você segue e a que sigo eu. Regra que vive mudando ao sabor da pesquisa, a cada lei divina que o homem inventa… ah! mas tem alguma coisa muito simples escondida por aqui; a gente é que ainda não vê. Tem insatisfação para todo lado. O sono é mais curto do que o corpo inquieto, o doce é pouco para a fome de afeto. O natural virou moda. O que é da terra ficou caro porque a gente se afasta tanto da gente que valoriza o que deixa para trás, lá, atrás, sempre.

Lá em casa era meu pai que orquestrava a minha alimentação, e caprichava. Era suco de tomate docinho de manhã, era gema crua na colher, numa caminha de azeite de oliva, duas vezes por semana, se bem que as galinhas eram criadas pela minha tia. Enfim, a comida era colorida, como sempre foi no Mediterrâneo, de onde tantos, viemos. A gente comia o que tinha cabeça e o que não tinha, com escama e sem escama, com casca, sem casca, cozido, assado, no vapor, na grelha, na churrasqueira e frito, com perdão da palavra. Comia com ou sem sal, pimenta de cheiro ou canela de pau.

Por que é que a gente hoje gosta do que não pode, ou pode muito pouco do que gosta? Quem foi que introduziu o leite condensado na papinha de fruta, a comida mineira e o churrasco gordo nas nossas vidas? O magnata da indústria de alimentos que encheu as telinhas da nossa TV com imagens do pecado, embrulhadas em papel dourado? A mamãe que deu refrigerante na mamadeira do bebê? O papai que distribuiu sacos de salgadinho para sossegar a gurizada?

Arrisco dizer que a culpa não é de ninguém, e que a gente simplesmente ainda tropeça às cegas, cada hora se agarrando a uma crença diferente, mas… sei não, melhor não arriscar. O que sei mesmo! é que hoje fujo da certeza porque sei, em todas as minhas células, que ela é minha maior prisão. E você, arrisca dizer o quê?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung