Por Maria Lucia Solla
Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora
Tenhamos compaixão; a dor de viver é igual em todos nós!
Criticamos o outro porque achamos risível a dor que não é nossa. Dizemos que fulana faz tudo errado, que um é metido, o outro é babaca. Uma é gracinha, a outra oferecida. Meu filho é esperto, inteligente. O teu? Um traste.
Não sei se fomos feitos assim, desconjuntados, para aos poucos aprendermos o que é certo e juntarmos os pedaços – se é que existe o certo – ou tanto faz, ou se fomos feitos direitinho na receita perfeita, no equilíbrio confortável, e aos poucos fomos perdendo o bom-senso pelo caminho da vida. Mas isso não importa agora. O certo é que cada um tem lá as suas crenças, e muitos se subjugam a elas e acabam vazios de busca. Cheios de si. Agarram-se a certezas que fortalecem a intolerância que se alimenta do que ainda resta de tolerância.
Queremos consertar a vida do outro. Dizemos que não entendemos como isso ou aquilo pode ser, na vida do outro. Na nossa é fatalidade; na do outro, burrice.
Honestamente, ninguém tem as coordenadas para o caminho certo. Se tivéssemos, ele já teria se mostrado e se instalado no teu programa e no meu, na tua vida e na minha, e nossos barcos hoje singrariam mares calmos, com lindos nasceres e pores do sol, com brisa suave e sempre alguém ali, na tua frente, para te olhar profunda e docemente nos olhos e te fazer sentir vivo.
Quantos são os ingredientes que nos levam a sermos mais ou menos tolerantes? Muitos, seguramente, mas um deles é doido de perigoso: o medo. Ele é o combustível de guerra, guerrilha, assassinato, violência dentro e fora de casa, bullying, suicídio. Tudo bem que não é o único, mas quem precisa de mais?
Se não tivéssemos medo, não passaríamos um tempo precioso com quem amamos, falando de quão errado está o mundo. E por que fazemos isso? Por medo. Medo de que descubram que não estamos certos porque, na verdade, não temos certeza de nada. Medo que engatilha a intolerância, mãe da dor. Na verdade nos consideramos pouco, pequenos, ineptos, assim rebaixamos o resto do mundo para tentarmos nos destacar.
Triste, não é? Quando alguém vocifera e olha o outro de cima, olha bem para ele, olha bem para ela, não está dominado pela força, pela nobreza, mas pela fraqueza, pela covardia. Pelo medo que exala em cada alento. É assim que eu vejo; e você?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Seu Francisco vai mudar de endereço. Ele está sempre de mudança. Morava em casa, foi para a rua, consegue, vez em quando, um albergue. Chegou a vez do albergue se mudar de um número para outro na mesma Cardeal Arcoverde, rua de Pinheiros, primeiro bairro em que busquei abrigo quando cheguei em São Paulo. Ao contrário de Francisco, carroceiro, não precisei mudar muito de casa nem vivo na rua ou passo fome. Menos ainda sofri preconceito como ele e todos os que usam as dependências do albergue para serem acolhidos pela dignidade. Moradores do entorno os querem bem distantes dali, pois vão afugentar clientes, sujar o ambiente urbano e desvalorizar o patrimônio. Deveriam valorizar mais suas próprias vidas e privilégios conquistados -imagino, a duras penas – entendendo que nem todos têm os mesmos direitos e oportunidades.



A denúncia de que deputados estaduais vendem emendas parlamentares na Assembleia paulista expôs outra faceta da falta de transparência, no Estado de São Paulo. De repente se descobre que as informações sobre liberação de dinheiro público para atender os pedidos dos deputados não são públicas. Foi necessário surgir o interesse dos jornalistas em identificar para onde seguia o dinheiro das emendas para o Governo reagir, mesmo assim de forma parcial. 