Os estudantes e o exame da OAB

 

Por Milton Ferretti Jung

Quando fui estudante, e idêntica experiência viveram também os meus três filhos, precisávamos enfrentar, antes de chegar à faculdade, os cursos primário, ginasial e o clássico ou científico. Neste, se inscreviam os que pretendiam estudar, por exemplo, medicina. Naquele, os que desejavam ser advogados. Já naquela, no meu caso especialmente, distante época, o que diferenciava o clássico do científico, era o latim, materiazinha bem difícil. Quem o cursava, necessitava, igualmente, lidar com matemática, química e física, meus espantalhos, digo de passagem. Fosse pelo desejo paterno, eu teria enfrentado uma faculdade de Direito. Lamento não ter podido satisfazer o sonho do meu pai, mas o veículo Rádio me conquistou, de maneira irremediável,antes mesmo de eu concluir o clássico no Colégio Nossa Senhora do Rosário. Creio que papai se conformou com a minha opção.

Se eu tivesse seguido o seu desejo, somente seria licencidado para exercer a profissão depois de fazer o exame aplicado pela Ordem dos Advogados do Brasil. Este é o meu assunto de hoje, embora a tal prova não me afete de modo algum, seja ela mantida ou não. Nenhum dos meus filhos pensou em ser advogado. É verdade que ainda não perguntei aos meus netos o que pretendem fazer. Confesso que, já estive entre os que estranhavam a exigência da OAB, mas não porque imaginasse tratar-se de medida visando à reserva de mercado, conforme diz o bacharel João Antônio Volante, autor de recurso apresentado ao STF. Mudei de idéia, ao ver provas que um colega, que era professor de Direito, levava para corrigir na rádio, tamanhas as asneiras escritas pela maioria dos seus alunos, todos no quinto ano. Só lendo para crer. Oxalá isto seja levado em conta pelo Supremo Tribunal de Justiça quando julgar o recurso do bacharel gaúcho.

Os números demonstram que o exame exigido pela OAB têm razão de ser. Notem que na última avaliação realizada em dezembro pela OAB, somente 9,7 por cento dos candidatos de todo o país obtiverram aprovação. Que me desculpe o Dr.Volante, mas não vejo inconstitucionalidade na lei que prevê a realização do polêmico exame. Ele encontra amparo no inciso XIII do artigo 5ºda Constituição Federal, segundo o qual existe liberdade do exercício profissional desde que atendidas as qualificações estabelecidas em lei. Gente baixamente alfabetizada não pode ser considerada apta para exercer a advocacia. As faculdades de Direito do Brasil, com excessões ,claro (como boa parte das de Jornalismo), não garantem boa qualificação profissional.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílto Jung (o filho dele)

Foto-ouvinte: Fumar (nas alturas) pode matar

 

Fumar é perigoso

Fumar é muito perigoso, principalmente se isto for feito no parapeito de um prédio, como nesta foto tirada no bairro de Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Este mesmo local costuma ser usa do pelas empregadas domésticas para falar ao celular. Outra tarefa arriscada, ainda mais no 11º andar do edifício

Avalanche Tricolor: Até a lojinha fechou

 

Ceará 3 x 0 Grêmio
Brasileiro – Presidente Vargas (CE)

Foi um choque, confesso. Ao subir a escada rolante, pouco antes de chegar ao topo no primeiro andar, olhei ansioso para a única vitrina que me chamara a atenção nos últimos tempos. Era meu ponto de apoio, motivo de orgulho e certeza de que nossa história havia conquistado seu espaço merecido, houvesse o que houvesse nos gramados. Era lá, no meio dos meus passeios prediletos, que avistava a camisa do Imortal Tricolor em destaque, vestida por um manequim inanimado, sem cabeça, mas com o escudo do meu time no coração. Pouco tempo atrás havia escrito sobre isso neste mesmo blog (leia aqui, se tiver paciência)

Olhei e não a encontrei. Aquela camisa predominantemente azul-celeste com duas faixas em preto e branco na vertical e horizontal havia desaparecido. O cartaz ao fundo com Renato em destaque, Vitor, Rochemback e Gabriel como coadjuvantes, também. Pior, muito pior. A loja, a única loja em São Paulo a oferecer como seu produto principal o manto tricolor estava fechada. Para sempre. Substituída por um tapume com anúncio de um novo ponto comercial dedicado a sandálias.

Um prenúncio ? Sinal do que me aguardava ? Texto subliminar do destino traçado ao Grêmio na temporada de 2011 ? Detesto pensar que mensagens aleatórios sejam enviadas para anunciar o nosso futuro. Desagrada-me a ideia de que Deus ou qualquer força superior estejam metidos nesta coisa que é o futebol e interfira no passe, no deslocamento, no cruzamento, no chute ao gol e no placar da partida. Prefiro olhar para os fatos concretos, as ações e decisões tomadas aqui e agora que definem os resultados que buscamos. E estes não tem colaborado com meu ânimo e, menos ainda, com o resultado das partidas.

Antes mesmo de o jogo se iniciar nesta noite, notei que aquela camisa que era destaque na loja do shoping estava em campo. Quando a bola começou a rolar, me dei conta que a alma daquela turba que a vestia era tão viva quanto a do manequim da vitrina. Sequer pareciam jogadores de um time marcado pela imortalidade. Estavam distante do que representaram meus heróis. Afastados da imagem que sempre construí nesta Avalanche e em meus sonhos infantis. Pareciam um bando de ninguém.

O Grêmio esqueceu o que é ser o Grêmio. E eu não tenho mais a lojinha para ludibriar minha dor.

Jânio, Dilma, corrupção e impostos

 

Por Carlos Magno Gibrail

Neste cinquentenário da renúncia de Jânio Quadros, eleito para “varrer” a corrupção, mas não cumprindo o prometido, assistimos à Dilma iniciando inédita varredura. Esperamos que os punidos do PR e do PMDB ajam com sensatez e não obstruam os trabalhos legislativos. Caminho que não beneficiará ninguém, nem mesmo aos do “lixo”. Mesmo porque a presidenta depois de Erenice e Palocci está mais rápida no gatilho.

De outro lado, continua surpreendendo. Beneficia o setor produtivo ao desonerar a folha de pagamento das empresas. É o sábio, mas árido princípio do abaixar os impostos para aumentar a arrecadação.
Além disso, inicia um justo processo de diferenciar as pequenas empresas na tributação. A Itália, exemplo padrão de país que deve grande parte da pujança econômica à legislação favorável à pequena empresa, apresenta dados convidativos para que os países entrem neste sistema. Inventado pelos alemães, e que também o pratica com eficiência.

“Pensem primeiro nos pequenos. Quando pensamos primeiro nos pequenos, pensamos num mundo em que várias pessoas têm oportunidade”, justificou Dilma Rousseff ao preconizar o acordo à Frente Parlamentar Mista das Micro e Pequenas Empresas. O acordo atualiza a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, evitando o congelamento e estimulando a entrada de novas empresas.

A correção dos limites de enquadramento no Simples e na classificação de micro empreendedor individual deverá beneficiar 3,9 milhões de empresas e 1,4 milhões de empreendedores individuais. Para faturamento de até R$ 360mil anual, imposto de 4%, para até R$ 1,8milhão, imposto de 9,12%, para até R$ 3,6milhão, imposto de 11,6%. Até R$ 60mil ficará como micro empreendedor individual.
Estas mudanças trarão de imediato R$ 4,84bilhões de queda de recolhimento de impostos, entretanto conforme a previsão de Mantega haverá no futuro expansão dos negócios que compensarão esta diminuição de arrecadação.

“Não queremos diminuir a importância dos demais segmentos; queremos é ter um novo olhar para os menores” – Dilma Rousseff ao finalizar o encaminhamento da proposta a ser implantada em 2012.
Para um observador descomprometido partidariamente e sem fanatismo, são medidas excepcionais, que deveriam receber da mídia em geral o mesmo espaço e apoio que as denúncias de corrupção tem tido.

Oposicionistas atentos como o Estadão tem editorialmente aplaudido tanto as punições quanto as novas regras relativas às empresas. Arnaldo Jabor ontem pela manhã no programa do Milton Jung pela CBN elogiou as ações da presidenta Dilma, ao mesmo tempo em que chamou atenção ao movimento positivo encabeçado por Pedro Simon, Clistovão Buarque e Jarbas Vasconcelos, propondo a criação de uma bancada de apoio à limpeza. E, não tem dúvida que a oposição é “burra” ao propor uma CPI, que irá tumultuar, favorecendo apenas a turma expelida.

Por Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quintas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Limpeza ética começa no voto

 

O discurso de um grupo de senadores em favor do combate à corrupção acendeu a esperança de alguns setores de que é possível estancar o desvio de dinheiro público. A reação não surpreende em um país que costuma seguir sempre o mesmo roteiro em momentos como esse quando uma série de irregularidades surge no noticiário: denuncia-se, afasta-se, promete-se, indigna-se, e se esquece, para algum tempo depois cumprirmos novamente o mesmo circuito sem fim. Ninguém é efetivamente punido, menos ainda o dinheiro retorna. Este cenário me levou a comentar, hoje, no bate-papo com a Ceci Mello, no CBN Primeiras Notícias, de que estava na hora de alguém pensar “fora da caixinha”.

Logo após minha fala, recebi mensagem do deputado federal do PSOL-RJ Chico Alencar ressaltando que há quem queira agir “fora da caixinha”. E ele se coloca nesta lista. O roteiro que ele propõe:

Votação de pacote de projetos que garantam transparência nos negócios públicos e rigor contra autores das irregularidades.
. CPI Mista da Corrupção
. Ação rápida e eficiente de órgãos de controle e investigação, como CGU, MP e PF
. Responsabilizar parlamentares quanto às suas emendas individuais ao Orçamento
. Mobilização da cidadania pela limpeza ética

Na mesma mensagem, o deputado informa que apesar de algumas dessas iniciativas terem sido tomadas os resultados foram restritos. Por exemplo, as CPIs não saem por falta de apoio da base aliada e o presidente da Câmara Marco Maia (PT) não mostrou interesse em discutir os projetos anticorrupção.

Para mim, estas mudanças somente ocorrerão quando a sociedade estiver convencida de que o seu voto é o primeiro passo para combater a corrupção. Valorizar a escolha do seu representante (ler, pensar e julgar – como proposto em post abaixo) passa a ser fundamental para a melhora do parlamento e a verdadeira limpeza ética

Exercite sua cidadania, pense e julgue

 

Adote um Vereador
Danilo, Cláudio e Sonia participaram do encontro do Adote um Vereador

 

Ler, pensar e julgar. São exercícios aparentemente banais mas que diferenciam o cidadão. Na academia da vida, a sociedade se fortalece quando se capacita a desenvolver estas habilidades e somente não avança mais porque as subestima. Pensei nisto, sábado, durante encontro mensal do Adote um Vereador, no café do Pátio do Colégio. Nossa colega de agitação cidadã, Sonia Barboza, nos convidou a avaliar os 50 primeiros projetos de lei apresentados pelos vereadores de São Paulo, em 2011, com a intenção de identificar o apuro com que o Movimento Voto Consciente analisa as ações no parlamento.

O desafio era entrar no site da Câmara Municipal, identificar os projetos, ler o texto e a justificativa apresentada pelos vereadores e dar uma nota sobre o impacto da lei proposta na cidade, conforme os critérios do Voto Consciente – ONG que não exige apresentação, ao menos para você caro e raro leitor deste Blog. Ressalte-se, ao avaliar o impacto, dentro das normas do VC, não se está dizendo se somos contra ou a favor do projeto de lei, apenas o quanto aquela ideia, se aprovada, pode se refletir na cidade.

As notas e critérios para esta avaliação são as seguintes:

10 – política públicas para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos ou estimular a transparência da administração e a prestação de contas

9 – Amplo alcance sobre um setor da administração pública, como saúde, educação e outros, buscando uma regulamentação mais ou menos ampla deles

7 – Regulam problemas de uma determinada zona geográfica e que se referem a temas de imapcto territorial

5 – Projetos feitos para atender demandas e exigências de grupos com carcaterísticas similiares ou reunidos em torno de um interesse comum, que pode ser de uma associaçao, comunitário, reivindicatório, etc

3 – Projetos de menor impacto

0,5 – Projetos para melhorar a gestão, o funcionamento interno ou a dinâmica das sessões da Câmara, ou outros projetos menores

0 – Homenagem, denominação de logradouros, datas, eventos, etc, não foram considerados.

Ao navegar no site, abrindo projeto de lei por projeto de lei, a primeira tentação foi dar notas de acordo com meu gosto (ou desgosto) pela ideia proposta. Apesar de esse ser um ótimo exercício, que deveria ser frequente para cada cidadão, não era o meu papel naquele momento. Tinha de identificar apenas se a pretensão registrada pelo vereador teria capacidade de atingir toda a cidade, uma área temática ou geográfica, um grupo de pessoas apenas ou, simplesmente, não servia para nada.

Em seguida, percebi que continuamos a desperdiçar o tempo do parlamento com assuntos de pouco interesse, alguns dos quais, se aprovados, não mexerão uma palha na vida do cidadão. Ao mesmo tempo, há assuntos que merecem discussão mais profunda e podem colaborar com a melhoria da qualidade de vida na cidade, se não de todos ao menos de uma parcela da população.

Tive dúvidas em muitos casos sobre que nota seria a mais justa, mesmo que discordasse do projeto de lei. Fui obrigado a ler, reler e compreender a intenção do parlamentar nem sempre clara no texto de justificativa, marcado pela burocracia. Em lugar dos artigos e citações de lei, ficaria mais satisfeito se encontrasse uma descrição sincera e transparente, do tipo: “quero aprovar este projeto porque vai ajudar o pessoal que me ajudou a eleger.

Apesar da dimensão do trabalho, avaliar o impacto do projeto dos vereadores não requer prática nem habilidade – como costumava dizer minha mãe. É necessário um pouco de sensibilidade cidadã, apenas. Paciência, também, para procurar as informações.

Se você tiver a mesma paciência que eu tenho, leia o roteiro que preparei; caso contrário, pule para o parágrafo seguinte:

Na relação que está do lado esquerdo da tela, procure “ATIVIDADE LEGISLATIVA”; em seguida clique em “PROJETOS”; procure em “TIPO DE PROJETO” o nome “PROJETO DE LEI”; coloque o “NÚMERO DO PROJETO” (no caso de 1 a 50) e o “ANO” (2011); e clique em “PESQUISAR”; vai abrir a tela com a ementa ou o resumo do projeto de lei e, caso você queira mais detalhes, clique no link que aparecerá com o número e a data do PL; lá dentro haverá uma série de informações disponíveis, sendo as mais importantes o texto completo do PL e a justificativa.

Dos muitos colegas que participaram do encontro não sei quantos terão tempo suficiente para atender ao pedido feito pela Sonia, mesmo porque o prazo que ela nos impôs era curto. Minha lista mandei nesta segunda-feira mesmo. Tenho certeza, porém, de que todos saíram de lá com mais uma lição das muitas que aprendemos desde que nos iniciamos no Adote um Vereador. O olhar criterioso sob as ideias apresentadas pelos vereadores é bem interessante e nos ajuda a entender melhor o que pensam nossos representantes, qualificando nossas escolhas e votos.

Se boa parte dos cidadãos se desse ao trabalho de “ler, pensar e julgar” sobre os atos de cada um dos vereadores, usando o critério que lhe convier, finalmente conseguiríamos construir uma Câmara Municipal mais apropriada para a dimensão e importância da cidade de São Paulo.

Avalanche Tricolor: Lá vem a Avalanche !

 

Grêmio 2 x 1 Fluminense
Brasileiro – Olímpico Monumental

Uma vitória, finalmente. Necessária, imprescindível e para a sobrevivência. Era a sensação ao fim de mais uma partida sofrível pelo resultado, desempenho e temperatura nesta noite de Porto Alegre. A chuva bateu forte e o frio, também. Da arquibancada ainda se ouviu muita reclamação e no campo ainda havia muita gente atrapalhada. De um lado ou de outro, porém, o som e o suor tinham uma meta: encontrar um novo horizonte.

Os três pontos vieram pela virada e pelos pés de Marquinhos (teremos, enfim, um bom batedor de faltas?). Nosso meia, ao comemorar o primeiro gol, chamou a torcida para dentro de campo em legítimo sinal de que somente com esta simbiose será possível avançar no ritmo da nossa Avalanche. Ao fim da partida, Adílson (teremos descoberto um novo lateral?) falou e Victor (vai ser grande como sempre foi?) ratificou: era preciso vencer, de qualquer jeito. E assim fizemos.

A partir de agora, em meio a todas as dúvidas que ainda temos, é respirar, suspirar e expressar nosso desejo pela recuperação a qualquer custo. Impor nossa história e voltar a superar um adversário atrás do outro como fizemos no ano passado quando chegou Renato. No banco, não temos mais o ex-craque, mas Celso Roth um técnico com capacidade para enxergar o jogo estrategicamente e entender o que o Grêmio representa à sua torcida.

Que o futebol bem jogado volte na esteira desta vitória. E que venha mais uma Avalanche !

Dois heróis: Meu pai e Eurico Lara

 


Por Airton Gontow
Jornalista e gremista

Nunca tive qualquer empatia por esses super-heróis dos desenhos – fortes, destemidos e invencíveis. Ao contrário, lembro-me de que desde a minha infância minha mente e meu coração só tinham espaço para os personagens reais que habitam ou não o cotidiano da gente.

Herói era meu pai. Juntos fomos a todos os jogos do Grêmio no Rio Grande do Sul durante sete anos. Quando a gente voltava pela estrada, ia em uma espécie de comboio, com vários carros de torcedores e, no meio de nós, o ônibus dos jogadores e o ônibus da TV Gaúcha trazendo o vídeo-taipe do jogo, já que naquele tempo o “via-satélite” mal existia!!!! Fazia geralmente muito frio e quando entrávamos na cidade, o ônibus da Gaúcha seguia em direção ao morro Santa Tereza e nosso carro percorria a neblina porto-alegrense até o porto seguro de nosso apartamento lá na av. Protásio Alves. E aí eu ficava assistindo ao jogo do Grêmio que a TV Gaúcha (Canal 12) estava começando a exibir….aquele mesmo que eu havia visto quatro horas antes.

Meu pai ia até meu quarto, fazia minha cama e depois se deitava, com aquele corpo grande de pai da gente, e derrotava a frieza dos lençóis e, depois, eu o via surgindo, cada vez maior, até que me pegava no colo e me conduzia pelo corredor até o meu quarto e me deitava naquela cama mágica e já aquecida pelo calor do pai. Talvez por isso, mesmo quando meu pai fez um monte de bobagens na vida e a vida fez graça de mau humorista com a gente, eu não consegui nunca deixar meu coração amargurado e a alma sem esperanças, porque eu sabia que ele era meu herói e os heróis não são necessariamente vencedores, mas são aqueles que sempre acalentam a alma da gente!!!!

Heróis, Heróis, Heróis; sim, tenho meus heróis! Alguns da vida cotidiana. Outros como Eurico Lara, grande nome da história do Grêmio! De Eurico Lara, eu aprendi a história ao lado de seu túmulo, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, segurando na mão de meu pai, como acontece com muitos e muitos gremistas. Era um goleiro fantástico e gremista apaixonado (como todos os gremistas devem ser). É o único jogador da centenária história gremista citado por Lupicínio Rodrigues. Sim, o autor de “Nervos de Aço” e “Felicidade foi se embora” fez o belo o hino do Grêmio – “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

Mas eu falava sobre Eurico Lara, que era apaixonado e gremista e, veja só, estava no quarto de um hospital, com turberculose e doente do coração, no dia da final do campeonato gaúcho, contra o inimigo Internacional, no chamado clássico Gre-Nal. Lara fugiu do hospital para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Grêmio, que estava com um ponto a mais na competição. Mas, faltando três minutos, o juiz marcou um pênalti para o Inter. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe próxima. Foi neste momento que Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado: “abre”. E quando entrou em campo foi tirando a camisa, as calças…estava de uniforme por baixo e, pasme, de chuteiras. O estádio explodiu de espanto e alegria, mas logo depois, aconteceu um silêncio absoluto, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse vozes, pássaros…vento no mundo

O atacante do Inter ajeitou a bola. Parecia um touro, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção à bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Lara, meu herói Eurico Lara (cantado por Lupicínio como “o craque imortal”) saltou como um gato e encaixou a bola no peito e com ela continuou agarrado quando caiu no chão. A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol.

No estádio, uma chuva de chapéus, como nunca mais foi vista, nem mesmo nas comemorações pela vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Lara continuava agarrado com a bola no chão. Sim, era sua, não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabara de acontecer. Lara estava morto. Com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus eram como flores homenageando aquele deus do futebol.

Na verdade, a primeira história, sobre meu pai, é verídica, mas esta segunda não aconteceu exatamente assim. No dia 22 de setembro de 1935, contrariando as recomendações médicas para que não atuasse mais, Lara entrou em campo para o jogo decisivo – um Gre-Nal! – do campeonato da cidade, naquele ano chamado de “Campeonato Farroupilha”, por ser o período das comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. O Grêmio precisa vencer para conquistar o título. Foi uma das maiores atuações de sua vida, decisiva para a vitória gremista por 2 a 0. Nunca mais atuou. Faleceu em 6 de novembro, 45 dias após o Gre-Nal – e dizem os médicos que a morte foi apressada pelos meses em que, mesmo doente, jogou pelo Grêmio.

Mas vou contar ao meu filho exatamente como o meu pai me contou: segurando em sua mãozinha de gremista, ao lado do túmulo do inesquecível Eurico Lara, aquele que morreu defendendo um pênalti, com tuberculose e doente do coração, dando o título de campeão ao Grêmio….