Conte Sua História de SP: Vanzolini, da música à ciência

 

Paulo Vanzolini

Mestre da música brasileira e dos mais respeitados cientistas ligados à zoologia no mundo, Paulo Vanzolini é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Ele nasceu em 1924 na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, filho de pai engenheiro e professor da Poli-USP e mãe dona de casa. Cresceu entre a Alameda Tietê e a rua Atlântica, nos Jardins, um bairro bem diferente nos anos30. Este e outros momentos foram registrados no depoimento de Vanzolini, gravado pelo Museu da Pessoa:

Ouça o depoimento de Paulo Vanzolini, ao Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio.

Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no CBN SP.

Deslizando na arrogância

 

Esqui

Esquiar sempre foi considerado tarefa impossível para mim. Imaginava minha falta de habilidade e a neve lisa conspirando contra meu orgulho. Exceção feita ao surfe, que ao menos servia para tomar banho após a rebentação, os esportes radicais nunca foram meu forte. Lá em casa – entenda-se por Porto Alegre – quem era adepto às práticas mais arriscadas sempre foi o caçula, meu irmão Christian. Desde dirigir Kombi até andar de skate. Causava-me inveja vê-lo sair com os amigos para o Parque Marinha do Brasil, onde havia uma pista daquelas que mais se parecem com uma gigantesca e tortuosa piscina de cimento. Minha preferência era pelos esportes com bola, o futebol e o basquete, especialmente – apesar de que encarar alguns grandalhões no garrafão bem que poderia ser caracterizado como algo bastante radical.

Dito isso, fica claro que jamais pensei ser capaz de ficar em pé sobre aqueles dois pedaços de prancha usados para deslizar na neve, quanto mais deslizar na neve com os dois pedaços de prancha. Por isso, a viagem a uma estação de esqui, no Chile, estava sendo encarada como um desafio. Afinal, se você não esquia o que fazer por lá? Comer, rezar e amar. E beber, claro.

No primeiro dia de aula, a companhia dos dois filhos tornou a tarefa ainda mais constrangedora. Enquanto eles já sinalizavam habilidade natural, eu mais parecia um bebê cambaleante em seus primeiros passos. Pior, o olhar deles não era de solidariedade. Era de pena. Não abandonei meu propósito porque tirar as botas de esqui seria ainda mais complicado. Não sei se você já teve oportunidade de calçá-las, se não, pense que são ideais para presos em liberdade condicional. Impossível ir muito longe com aquilo nos pés.

Algumas horas depois, unhas do pé ardendo e uma comichão subindo as pernas comecei a me entusiasmar, apesar da insistência do treinador em franzir a testa e sacudir a cabeça enquanto me assistia. Aos berros de “cunha, paralelos, cunha, paralelos” ele tentava me convencer de que era possível fazer certo. Estar em pé e descer as primeiras rampas sem despencar para mim era suficientemente certo.

Foram oito horas de aula divididas em três dias. O suficiente para superar parte de meus medos, andar para um lado e outro da pista e ter a ideia de que esquiar era possível. Nem mesmo calçar as botas era mais problema, apesar da unha do pé dar sinais de que a situação ficaria preta, literalmente. Convidado por amigos aceitei ir mais alto, usar uma pista um pouco mais desafiadora para minha (in)experiência. Foi incrível a sensação proporcionada pelo domínio do equipamento, o controle da velocidade – “cunha, cunha” -, a possibilidade de mudar de direção conforme a posição das pernas e meu desejo. E de repente: um tombo espetacular deixa meu braço fora de seu lugar de origem e com uma dor que só foi maior no orgulho perdido.

Poucos dias de esqui são suficientes apenas para você aprender que a prepotência jamais será perdoada. Na primeira ilusão de que você domina alguma habilidade, a realidade o desmente. O tombo é inevitável, a dúvida é a dimensão dele. Quanto maior a soberba, maior o prejuízo. O que, convenhamos, não é preciso arriscar-se na montanha de neve para descobrir. Basta viver.

A polêmica da Santa Cracolândia

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Santa Cracolândia

Usuários de crack reagiram com indignação ao serem informados sobre o apoio do cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, à obra ” Nossa Senhora do Crack”, do fotógrafo Zarella Neto. A imagem foi erguida na sexta-feira, 22/7, na parede de uma casa abandonada na rua Apa, Santa Cecília, e destruída no sábado de manhã por uma legião de viciados.

A intenção do artista era chamar atenção das autoridades para o ‘campo de concentração da Cracolândia’.

Germano Gerson,de 38 anos, o “Brasília”, viciado em crack há cinco anos, enquanto mostrava os cacos do que sobrou da imagem de gesso da Virgem Maria, acusou os envolvidos no caso da santa de zombar de Deus e da miséria humana. “Sou uma alma penada, como esta ao meu lado – enrolada num cobertor.”

A usuária Tati, 25, uma das mais exaltadas, pretende denunciar dom Odilo ao Vaticano por incentivo à profanação: “Ah, o bispo apoia .. vou na Lan House durante a semana… faço uma carta e envio por email ao Papa-, pode pegar a cópia do documento comigo… Se ele consagrou a ‘santa do crack’, ele (dom Odilo) deve ser enquadrado … Aqui não tem nenhum bobo, tem muita gente de cultura, que quer sair dessa. O pessoal está precisando é de clínica de tratamento e não de santa, e no mais, aqui tem seguidores de todas as religiões, tem até ateu… Respeito é bom! Eles esquecem que na Cracolândia vem professor, advogado, enfermeiro, jogador de futebol… em busca de crack. Eu não vendo, sou vítima, consumidora… como muita gente importante é. Fala pro bispo que a palavra… o apoio dele chegou tarde de mais, o diabo tomou conta de tudo… e o crack chega de bandeja.”

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

No assado

Aqueles ali na frente se arrastam na inundação; uns perdem tudo, outros perdem todos. Os do lado esquerdo morrem do calor que mata gente, mata bicho e planta. Tudo morre, ou chega perto. Os da direita se debatem na neve. Tem vulcão enfurecido, e tem mar dando mostra do que é capaz de fazer. Gente da polícia mata criança e ladrão merreca ataca com arma de brinquedo. Ladrão merreca e meia vai de fuzil e dinamite, e ladrão merrecão, com cheque quente no talão, com pinta e título falso de doutor, ataca de celular e caneta. Tudo covarde. Uma merrecada só; boa de botar numa gaiola bem grande e jogar no mar, já que o rei das águas está acostumado a receber, de nós, o lixo.

E tem mais isso e tem mais aquilo, e nem vale a pena desfiar o rosário inteiro. É um tal de como vai? tá difícil! é… aqui também; ela está doente, ele em depressão; ele mente, ela trai. O pai de um tem Alzheimer, a mãe do outro também. E você quer saber? A epidemia de Alzheimer faz sentido. Ninguém está mais a fim de lembrar de tudo. Tem coisa boa, é claro, mas é tão pouca que a gente marca um par de dias por ano para fazer festa, acender velinha, bater palma e ficar contente.

Agora, honestamente? Não é culpa do povo do lado de cá nem do lado de lá, não é ele e nem é ela, somos nós, é o teu pensamento negativo e o meu, tua soberba e a minha que desembestam feito besta de dente afiado, e depois voltam para nós, seus amos e senhores. Portanto, não adianta pôr a culpa em Plutão e Saturno, os duros na queda, não adianta pedir clemência divina, buscando fora o que está dentro, que se chama consciência e que nunca se desligou da origem. Não nos servem mais as profecias, que só chegam até ali na esquina, porque a continuação da nossa história é responsabilidade nossa. Podemos rasgar os dogmas porque é aqui, neste ponto da existência, que nossa raça chega ao ponto central, de fim e de início, de morte e de vida. Ou resgata e desperta a consciência, ou não.

Confesso que tenho vivido uma luta de foice no escuro atrás da outra. Aprendo um pouco, subo um degrau e escorrego três para trás. E dá-lhe lambada! mas quem é teimosa sobrevive. O encontro com a gente mesmo, quando a gente se olha como olha o outro, não é fácil, mas quem disse que a vida é fácil? e quem prometeu um jardim de rosas? Portanto, força aí que eu vou me segurando aqui, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

O resort da moda

 

Por Dora Estevam


 
O calendário da moda no Hemisfério Norte não para, já foram apresentadas e estão prontas as coleções intituladas Resort-Cruseiro. Isso significa que as grandes marcas internacionais de luxo que costumam apresentar-se duas vezes por ano já prepararam o aperitivo comercial.

Maio e julho são os meses que estas marcas costumam dar uma prévia e preencher as prateleiras com novidades. Assim as vendas são reforçadas e as clientes poderosas financeiramente, que viajam nesta época do ano, têm algo a mais para fazer nas férias: gastar, gastar e gastar com  roupas.
 
A coleção “resort” é uma estratégia que foi desenvolvida pelas marcas de luxo para ter quinzenalmente peças novas e, assim, não sair perdendo para os grandes magazines. O nome resort já diz tudo, refúgio destinado aos endinheirados. Pessoas com uma situação econômica privilegiada que durante a primavera fazem cruzeiros marítimos e se hospedam em luxuosos hotéis para aproveitar as férias – incluem-se no grupo, lógico, as celebridades.
 
O resort na prática sempre existiu, só que antes eram coleções de biquinis,  maiôs e roupas de festa para as consumidoras que viajavam para o Caribe, em especial, e outros países onde pudessem fugir do frio.
 
Agora, a pressão é maior, tanto dos grandes magazines quanto do consumidor. As coleções vão além dos biquinis e as peças já estão prontas na lojas sem necessidade de se passar pelo show room (local para pedidos de peças).
 
O resultado são coleções mais comerciais, sem fantasias, nas quais os estilistas misturam tecidos e fazem contrastes modestos, mas não menos feminino.

Confira os vídeos que selecionei para você:

Desfile da Chanel resort 2012

Desfile da MiuMiu
 

Inspire-se, também, no talento da coleção de Alexandre McQueen em destaque na foto de abertura deste post.

Sábado que vem tem mais.

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida , aos sábados, no Blog do Mílton Jung.

 

Mundo Corporativo: Seja um estrategista

 

André Coutinho é designer de inovação, professor de empreendedorismo, sócio da Symnetics e um dos autores do livro O ATIVISTA DA ESTRATÉGIA, lançado pela editora Campus Neste Mundo Corporativo falamos sobre quem é e quais as habilidade que deve ter o profissional responsável pelo planejamento estratégico dentro de uma empresa. Além disso, vamos saber como aplicar algumas dessas regras em pequenas e micro-empresas.


Veja aqui quais são as nove competências do estrategista

O Mundo Corporativo vai ao ar toda quarta-feira, ao vivo, às 11 horas da manhã, no site da Rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo Twitter @jornaldacbn ou pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br. Aos sábados, você ouve a reprodução no Jornal da CBN.

Jardins ganhará coleta de lixo em contêiner

 

Lixo na porta do prédio

A cidade não terá os resíduos e material reciclável sugados por encanamento, como o sistema que funciona em cidades americanas e europeias, mostrado neste blog, semana passada. Pelo menos, não por enquanto. Mas um grupo de moradores passará por uma experiência que pode mudar a forma como encaramos a produção, coleta e sepração de lixo (ou o que teimamos chamar assim). Em no máximo três meses, prédios e casas da região dos Jardins receberão contêineres de plástico que serão usados para o depósito do lixo domiciliar, dentro de um projeto piloto a ser realizado pela Loga, uma das duas concessionárias que atuam em São Paulo.

Os resíduos sólidos serão depositados nestas “latas de plástico” que devem ter capacidade de até 1,2m³ em lugar dos malfadados sacos que se amontoam nas calçadas e costumam ser apontados como responsáveis pelo entupimento de bueiros e bocas de lobo, no período de chuva. Os contêineres ficarão sob responsabilidade dos moradores que receberão dois por unidade habitacional: um para resíduos secos e outro para orgânicos. Em alguns locais em que houver maior densidade populacional e espaço serão usados compactadores estacionários de 20m³. Caminhões da Loga retirarão o material através de sistema mecanizado.


Leia a informação completa no Blog Adote São Paulo, da Época SP

Conte Sua História de SP: A elegância do meu centro

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte-internauta Yolanda Cintra:

Ouça este texto, sonorizado por Cláudio Antônio

Tenho visto e lido muitas referências sobre memórias de São Paulo, dos anos 50 e 60, mas eu quero escrever sobre os anos 20 e 30, anos de minha infância e adolescência. São Paulo não teria talvez, nem 1 milhão de habitantes, mas já era cidade mais importante do país.

Lembro-me bem do centro da cidade: a Praça da Sé – Marco 0, onde a Catedral ainda estava em construção, a Praça do Patriarca, com a Igreja de Santo Antonio onde as mocinhas iam fazer “ trezena “ para arranjar namorado… a casa São Nicolau, loja especializada em artigos para cavaleiros, quando em 1932, da janela do 2º andar, Ibrahim Nobre fez aquele magnífico discurso, incitando o povo a levantar-se contra a ditadura de Getúlio Vargas, exigindo a constituição, e o prédio do Masppin Store que fazia esquina, e de um lado com a Rua Quitanda e do outro com a Rua Direita com suas grandes lojas, Casa Alemã, Casa Sloper, Casa Birle ( de jóias e objetos para presentes ). O Mundo Elegante e Au Bon Petit Diable, (para meninos ) e o cinema Alhamba, onde mas matinés de domingo a casa era dos jovens.

Na Rua São Bento víamos a antigas Botica ao Veado de Ouro, sempre cheia, com as receitas de remédios manipulados.No final da rua, chegamos ao Largo de São Bento, com seu maravilhoso Mosteiro, um dos mais antigos de São Paulo, o único que, aos domingos havia Missa ao meio dia.

Na Rua Líbero Badaró, quase chegando ao Viaduto do Chá, um prédio onde se achava o Automóvel Clube do Brasil ( clube masculino ) que ofereceu um baile ás mais belas do mundo. O concurso foi em São Paulo e as moças estavam hospedadas no Hotel Esplanada e, aconteceu que eleita foi uma brasileira- Yolanda Pereira – do Rio Grande do Sul…. Atravessando o Viaduto, o que chamava a atenção era o Teatro Municipal. Como quase não tínhamos casas de espetáculos, tudo era passado no Municipal: operas, teatros de revista, companhias estrangeiras, conferências etc.

A Rua Barão de Itapetininga, rua elegante da época, com duas confeitarias – a Vienense e a Seleta- onde as damas da Alta Sociedade tomavam chá, ouvindo música deliciando-se com sua Torta de Maçã. Do lado de cá outra vez, o Largo de São Francisco com as 02 igrejas Franciscanas, a Escola do Comércio Álvaro Penteado e a centenária Faculdade de Direito ( Arcados ) de onde, em 1932, partiu para a luta pró constituição, o Primeiro Batalhão de Milícia Civil, comandado pelo Coronel Romão Gomes, mas o que as crianças gostavam mesmo era da Casa Fuchs e da casa Lebre, onde extasiadas e vibrantes observão os brinquedos a maioria importados.

Essa é o São Paulo dessa tempo, que me lembro.

De lexigrama

 

Por Maria Lucia Solla

Lexiograma

Através do lexigrama eu mergulho no mistério das palavras. Não existe nome ou título que resista, e eu me esbaldo.

Hoje resolvi mergulhar no mistério de duas palavras que não querem largar de mim, e das quais não faço o mínimo esforço para me soltar.

Tudo começou há uns dois dias, quando eu assistia à novela das seis. Linda. Quando dá, assisto e me regalo; mas um personagem disse uma frase que sequestrou um pedaço de mim. Ele disse: A cerca que protege é a mesma que aprisiona.

Senti uma folia no plexo solar, mas continuei a assistir e a curtir a magia da arte que se consegue orquestrar num simples capítulo de novela. Eu não conseguia prestar atenção na trama porque ficava pensando na frase que já se reduzira, para mim, a proteção/prisão.

Vai dia vem dia, e me veio de lexigramar o que andava martelando na minha cabeça, fazendo meu corpo vibrar, exigindo minha atenção. Proteção/prisão. E é um pouco da viagem que fiz, nesse binômio de aparência paradoxal, que vou revelar a você.

Lexigrama é a técnica de encontrar no nome, frase, título, tantas palavras quantas se conseguir, combinando suas letras e se deixando maravilhar por revelações ávidas por se oferecer.

Em Proteção e Prisão encontro todo tipo de palavra, mas percebo que além do verbo no infinitivo, como castrar e casar, encontro muitos verbos na primeira pessoa do singular como rocei e pastei, ou aposto e arrisco, e entendo que esse binômio mostra a importância da responsabilidade na ação, palavra que também encontro ali.

encontro acerto e erro
presa e preso
porta e portão
mas não encontro
o fecho nem o desfecho

dou de cara com aposto e arrisco
ator e arisco
razão e reação
oração creio e Cristo

encontro traição e tropeço
corpo e procê
tesão parceiro e pato
mas para encontrar coração
falta o cê

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung. Este texto foi escrito durante as férias do Blog e por isso está sendo publicado somente agora

Ao olhar para aquele gramado

 

Milton Ferretti Jung

Lembrei-me do meu avô por parte de pai ao olhar para aquele gramado (?) no qual a seleção brasileira perdeu, nos pênaltis, para a paraguaia. Derrota, seja no tempo regulamentar, na prorrogação ou numa série de penalidades máximas, ainda mais quando o perdedor é o time do nosso coração ou a seleção nacional, sempre é algo profundamente desagradável.

O amigo, que porventura leu o início desta postagem, deve estar se perguntando por que me recordei do vô Adolfo Pedro Jung e o liguei ao gramado da nossa desdita futebolística na Copa América. A questão, se levantada, é pertinente. Meu avô, que eu saiba, não dava a mínima atenção para o futebol. Ocorre, porém, ter sido ele, com seus dotes de carpinteiro, o fabricante dos mais queridos brinquedos da minha infância: um carrinho em que me empurravam; um indestrutível caminhãozinho de madeira, que tirava pedaços dos de meus amigos em todas as colisões; e uma mesa em que jogávamos futebol de botões. Ficou nisso a ligação dele com este esporte ou muito me engano.

A mesa, por incrível que pareça, ainda existe. Está aqui em casa. E resiste ao tempo. É perfeita. E tinha que ser. Até hoje guardo três times, mesmo sem ter com quem jogar. Os botões e a bolinha – e isso é fundamental neste tipo de jogo – deslizavam e ainda deslizam maravilhosamente, como se a mesa fosse nova em folha. Novos ou reformados são os estádios nos quais a Copa América está sendo disputada. Naquele em que alguns dos caríssimos jogadores da seleção brasileira desperdiçaram decisivos chutes da marca do pênalti, a grama deveria possibilitar que a bola não apenas deslizasse quando fosse esta a intenção de quem a passasse a um companheiro ou que, num chute em que a precisão é necessária – a cobrança de tiros da marca de 11 metros, por exemplo – tomasse rumos inesperados. O capricho do meu avô ao fazer a mesa de botão não foi, entretanto, o mesmo dos responsáveis pelo piso do estádio em que o Brasil perdeu para o Paraguai. Não estou tentando desculpar nossos desastrados representantes, mas não deixa de ser uma vergonha que, apenas no futebol, a cancha na qual este é praticado, não seja, como a minha mesa de botão, absolutamente perfeita.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).