De dor

 

Por Maria Lucia Solla

No assado

Aqueles ali na frente se arrastam na inundação; uns perdem tudo, outros perdem todos. Os do lado esquerdo morrem do calor que mata gente, mata bicho e planta. Tudo morre, ou chega perto. Os da direita se debatem na neve. Tem vulcão enfurecido, e tem mar dando mostra do que é capaz de fazer. Gente da polícia mata criança e ladrão merreca ataca com arma de brinquedo. Ladrão merreca e meia vai de fuzil e dinamite, e ladrão merrecão, com cheque quente no talão, com pinta e título falso de doutor, ataca de celular e caneta. Tudo covarde. Uma merrecada só; boa de botar numa gaiola bem grande e jogar no mar, já que o rei das águas está acostumado a receber, de nós, o lixo.

E tem mais isso e tem mais aquilo, e nem vale a pena desfiar o rosário inteiro. É um tal de como vai? tá difícil! é… aqui também; ela está doente, ele em depressão; ele mente, ela trai. O pai de um tem Alzheimer, a mãe do outro também. E você quer saber? A epidemia de Alzheimer faz sentido. Ninguém está mais a fim de lembrar de tudo. Tem coisa boa, é claro, mas é tão pouca que a gente marca um par de dias por ano para fazer festa, acender velinha, bater palma e ficar contente.

Agora, honestamente? Não é culpa do povo do lado de cá nem do lado de lá, não é ele e nem é ela, somos nós, é o teu pensamento negativo e o meu, tua soberba e a minha que desembestam feito besta de dente afiado, e depois voltam para nós, seus amos e senhores. Portanto, não adianta pôr a culpa em Plutão e Saturno, os duros na queda, não adianta pedir clemência divina, buscando fora o que está dentro, que se chama consciência e que nunca se desligou da origem. Não nos servem mais as profecias, que só chegam até ali na esquina, porque a continuação da nossa história é responsabilidade nossa. Podemos rasgar os dogmas porque é aqui, neste ponto da existência, que nossa raça chega ao ponto central, de fim e de início, de morte e de vida. Ou resgata e desperta a consciência, ou não.

Confesso que tenho vivido uma luta de foice no escuro atrás da outra. Aprendo um pouco, subo um degrau e escorrego três para trás. E dá-lhe lambada! mas quem é teimosa sobrevive. O encontro com a gente mesmo, quando a gente se olha como olha o outro, não é fácil, mas quem disse que a vida é fácil? e quem prometeu um jardim de rosas? Portanto, força aí que eu vou me segurando aqui, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

18 comentários sobre “De dor

  1. Nossa peleja, nossa guerra, nossa paz. Nossa técnica, nossa ignorância, nosso erro e nosso acerto.
    Nossa poesia e todas as mentiras juntas. Todo o lixo que produzimos e descartamos junto com todas as árvores desta terra.
    Tudo que conhecemos está confinado apenas aqui neste pequeno ponto que é a nossa única casa.
    Preciosa e pequena, única como somos cada um de nós. Ela de tanto que nos ama, não permite que siamos sem nos puxar de volta. Sabe que morreríamos fora daqui. As vezes caímos mas
    se nos segurarmos, pode que aconteça e ainda assim vamos nos levantar. Me segura? Nós te seguramos em retorno.

    http://news.softpedia.com/news/Earth-Seen-From-Saturn-35980.shtml

  2. Amiga penso que o homem está, mesmo, muito doente, e que esta passagem jamais foi um “jardim de infância” e, sim uma escola para evolução, que, infelizmente,não sabemos ou não queremos frequentar, então caímos de dor, de medo, de impotencia . Bjs , arre que não queria ter sido tão amarga, mas é real. Maryur

  3. Prezada Maria Lucia,
    Boa tarde.
    A vida é dura,temos que ser firmes e ultrapassar todos os obstáculos,para estarmos sempre buscando os nossos ideais de vida.
    Abraço e bom domingo,
    Farininha.

  4. Sérgio,

    vi a foto e li o texto.
    Somos mesmo muito pequenos em relação ao Universo, mas nossos problemas têm a mesma proporção. O resto do Universo poderia “se lixar” pra nós, mas é o que temos, como dor e como remédio.

    Vamos nos segurando, né?

    Obrigada, sempre, e boa semana.

    beijo,
    ml

  5. Farina,

    Sinto como se hoje não tivéssemos tempo de buscar nada. São as coisas que nos buscam e a gente se esconde ou se mostra, segundo o alerta de perigo: mais forte ou mais fraco.

    beijo e boa semana,
    ml

  6. Mama,
    Galho em galho o macaco passa apuro o dia todo… e de uns tempos prá cá, nem o mar mais está pra peixes… nem gêmeos, nem touro nem nada. Cada um com seu cada um… como diria dona Maria!
    E pra encontrar o caminho do meio, só de bússola e carbureto… que o Norte já está mudando de lugar e o breu tomou conta.

    Só nos resta “cheirar cola” como diz a Malu, ou “usar o colírio alucinógeno” do Macaco Simão… mas que tá buemba… isso tá!

  7. filho meu,

    mestre que me escolheu como mãe, lá do céu onde ficam reunidos os bebês, mesmo percebendo, de lá, que eu tinha e tenho uma pancada de defeitos.

    Tá puxado, sim! Acabo de voltar do hospital (o Anjo Carla me levou) por uma tendinite no ombro esquerdo, recheada de um tipo de calcificação. De morrer de dor. Uma super hiper mega blaster injeção e mais um comprimido antinflamatório e já tô bem melhor, e grogue.
    E a gente vai indo assim, resolvendo as emergências primeiro, depois uma das pendências e no gás que sobra, as responsabilidades do dia.

    Força aí que eu me seguro daqui.

    Amo você,
    mm

  8. DISCORDANDO DO EXISTENCIALISMO : " A VIDA NÃO É UMA PAIXÃO INÚTIL " SARTRE VIVEU SEMPRE COM MUITA PAIXÃO E ENTUSIASMO , MESMO SENDO ATEU.
    O MOMENTO REQUER CORAGEM E ANCORADOS NA PAZ ESCUTAREMOS A MUSICA DA VIDA E SUAS DISSONÂNCIAS DEIXAREMOS PARA OS DEPRESSIVOS QUE FAREMOS DE TUDO PARA ALIVIAR.
    QUANDO ENCHEMOS A VIDA DE AMOR O VAZIO É INSIGNIFICANTE .
    SE É ISTO A VIDA ; VAMOS A ELA 😉 ” A ALEGRIA É A FORÇA DO ESPIRITO , ELA ROMPE BARREIRAS NEGATIVAS “

  9. Rolar de dor, prender a respiração nesta montanha russa do viver. Soltar um urro de tanto em tanto.Aliviar.
    Como João Bobo do brinquedo, pendendo pra todo lado sem nunca parar deitado. Braço esplêndido.De dor em dor a garantir muito amor.Maravilha de texto! Valeu!

  10. Suely,

    estamos na mesma dança de roda.
    Também sou fã do João Bobo! A fantasia imitando a vida.

    Mas estou literalmente rolando de dor. Eita – como diria o Armando Ítalo – tendinite desalmada!

    Obrigada por estar por perto.
    beijo,
    ml

  11. Alpha India,

    Esquecer como?
    Tive uma professora de latim que aconselhava as meninas a não escreverem bilhetes para os namoradinhos – isto foi no Primário. Ela dizia: Parolae volent; scriptae manent! Palavras voam; o escrito permanece.

    Tá sorryado, por mim e pelos folks.

    beijo,
    ml
    PS: abraço pro Tico e pro Teco.

  12. Malu, realmente, a nossa energia tem poder! Vivemos no limbo, gostamos de assistir programas que mostram tragédias, nos ligamos nas desgraças dos outros. Notícia boa, geralmente não dá ibope. Mas acho também que o mundo está naturalmente seguindo seu curso, as coisas caminham como têm que caminhar para nosso aprendizado, para a evolução. Nossa visão é muito curta e não percebe a grandeza que está por tras de cada coisa que acontece, por mínima ou gigante que seja. Achamos na nossa arrogância que somos responsáveis por tudo que ocorre até na natureza. Pode ser que sejamos um tanto responsáveis, mas não totalmente. Existem muitas outras coisas no Universo e na Terra além do ser humano.

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