Até com o Citroën do meu pai

 

Por Milton Ferretti Jung

Estamos longe, em Porto Alegre, de assemelharmo-nos a São Paulo em matéria de trânsito. Mesmo assim, acredito que um de nossos conterrâneos poderia entrar no Guiness Book na condição de maior atropelador de ciclistas do mundo. No momento, ele está sendo castigado. Foi recolhido a um presídio, depois de passar algum tempo hospitalizado, com a desculpa de ter problemas mentais. Na semana passada, outro sujeito atropelou dois ciclistas. Esse nem sequer possuía carteira de habilitação. Foi identificado ,mas está (ou estava) foragido.

Não se imagina, porém, que todos os motoristas alimentem animosidade em relação a quem pedala por essas ruas da capital gaúcha, sem as sempre reclamadas ciclovias, embora muito prometidas. Seja lá como for, uma coisa é certa: bikes (apelido das bicicleta que é um modismo dos tantos que já andei criticando), não criam congestionamentos, pelo menos, nas cidades de nosso país.

Quando abordo assuntos que envolvem trânsito, sinto muita saudade dos tempos em que na minha cidade, nos domingos, bem cedo, especialmente (e até nos outros dias da semana), dirigia-se por e para qualquer bairro sem encontrar carros em profusão, situação bem diferente da experimentada hoje.

Lembro-me de que meu pai era proprietário de um Citroën 1947 ,importado da França. Esses automóveis (há pouquíssimos, agora, em mãos de colecionadores de carros antigos) tinham uma peculiaridade em relação à pintura com a qual desembarcavam por aqui (ao menos em Porto Alegre): vinham com apenas duas demãos de tinta, a básica e a outra de um preto fosco, e o revendedor possuía a que seria usada gratuitamentre, no acabamento. Isso nunca aconteceu. Afinal, na época, não se falava em “recall”.

Meu pai me emprestava o carrinho para que, nas manhãs dominicais, fosse com ele à igreja. Seria só para isso. Não era o que eu fazia. Saía a passear pela cidade e retornava no fim da missa. Apenas mentiras de políticos conseguem possuir pernas grandes. As nossas, simples mortais que somos, todos afirmam que são curtas. No meu caso, tratou-se de pura verdade.

Em um certo domingo, para emprestar veracidade à minha mentira, no fim da missa, passei pela igreja e dei carona para uma vizinha. Não pensem mal de mim, não. A vizinha era casada, mãe de meus amigos. Minha paróquia ficava – e ainda fica – no alto de uma colina. Foi nas festas que o pároco realizava visando a angariar dinheiro para completar o templo, que comecei a bancar o locutor. Depois deste parênteses, volto ao episódio dominical. Costumava descer a lomba da então igrejinha, em ponto-morto. Mas havia um cruzamento. Não percebi que um táxi (era um Mercury imenso), por ser grandão, nem ligou se estava ou não na via preferencial e bateu no pára-lama traseiro do Citroën. Não deu nem para discutir quem tinha razão. Até poderia ser eu, mas ainda não possuía carta de habilitação.

Ao parar com o carro na entrada da garagem lá de casa, meu pai, preocupado com minha demora, esperava-me na porta. Contei-lhe o acontecido… e passei um monte de tempo sem licença paterna para dirigir. Sem dúvida, não é necessário enfrentar o tráfego intenso dos nossos dias para a gente se meter num acidente de trânsito.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Pelo direito de opinar e escolher

 

A internet nos abriu inúmeras possibilidades e democratizou a transmissão de informação e opinião. Infelizmente, este espaço nem sempre é usado da melhor maneira possível e os abusos são frequentes em especial quando bárbaros se aproveitam do anonimato. É comum identificarmos na área destinada aos comentários ofensas pessoais, baixaria e despropósitos. Em muitos casos vira terra de ninguém ou de alguém que confunde aquilo com liberdade de expressão.

Foi muito dura a luta por este direito no Brasil. Por nascimento, minha geração já se apoderou quando boa parte da violência da ditadura havia passado. Peguei, na luta estudantil, apenas o fim deste processo e me orgulho daqueles que me antecederam e foram corajosos o suficiente para encarar a situação. Sei lá se eu teria tanta.

Por tudo isso, é justo o desejo de que os fóruns abertos para discussão pública fossem mais bem valorizados, explorados de forma a agregar valor à sociedade. Sempre foi esta a minha vontade. O que parece não foi assim entendido por alguns ouvintes-internautas que acompanharam o bate-papo com minha colega Ceci Melo que precede o Jornal da CBN – quatro escreveram reclamando, acusando-me de ser contra a liberdade de expressão.

O tema principal da conversa era a decisão da Justiça que condenou o rapaz que, por ciúmes e vingança, publicou na internet fotos nuas de sua ex-namorada e usou para isso o e-mail dela. Ceci ficou incomodada com o fato de que ao ler os comentários deixados em um site havia pessoas que defendiam a atitude do ex-namorado. Disse a ela para não perder tempo com estas mensagens. Não valem a pena.

E sustento esta posição. Precisamos selecionar o que lemos ( o que vemos e ouvimos, também). É um direito nosso (meu e seu, também). Deixei de ler comentários deixados em alguns sites e o faço apenas naqueles espaços que considero mais adequados, onde sejam publicados temas qualificados menos propensos a baixaria; blogs que apresentem argumentos coerentes mesmo que defendam posições diferentes das minhas; fóruns de discussão nos quais o moderador impede palavras de baixo calão e ofensas pessoais, por exemplo.

Diga-se, reproduzo este comportamento em relação a todas as mídias: livro, jornal, rádio e TV.

Nada disso, porém, pode ser confundido com algum interesse meu em cercear as opiniões alheias. Cada um escreve o que quiser, expõe sua personalidade como achar melhor, desnuda seu espírito nas palavras que publica, e assume a responsabilidade por seus atos (apesar de muitas vezes o fazer de maneira covarde); mas eu continuarei selecionando minhas fontes.

Neste blog que escrevo, os comentários têm moderação muito mais por uma questão de segurança do sistema, pois todas as opiniões são publicadas – exceção àquelas (raras) que contenham ataques pessoais a terceiros. Com frequência respondo a cada um que me dá a honra de usar este espaço para publicar sua opinião, hábito que mantenho desde quando a interação com o ouvinte-internauta era feita apenas por e-mail (começou em 1998, na CBN).

Faço este esclarecimento pois acredito na máxima de que comunicação não é o que digo mas o que você entende. E, pelo que li nas mensagens enviadas pelos ouvintes-internautas – duas no e-mail, uma no Twitter e uma neste blog -, não gostaria de que estes e outros mais que não se pronunciaram ficassem com a impressão de que defendo qualquer tipo de censura.

Convido-os, sim, a ajudarem a qualificar este espaço democrático conquistado pela sociedade, tomando-o para si e comentando com argumento e coerência – o que, me parece, já o fazem dada a qualidade das opiniões enviadas.

Leia-me ou devoro-te

 

Por Carlos Magno Gibrail

Reading Is Fundamental

O enigma da Esfinge indagava “Que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde e é mais fraco quando tem mais pernas?” Édipo, filho do rei de Tebas e assassino inconsciente de seu próprio pai, solucionou o mistério, respondendo: “o homem, pois ele engatinha quando pequeno, anda com as duas pernas quando é adulto e usa bengala na velhice.” Ao ver seu enigma solucionado a Esfinge suicidou-se, lançando-se num abismo, e Édipo, como prêmio, recebeu o Reino de Tebas e a mão da rainha enviuvada, sua própria mãe.

Lembrei desta interessante passagem da mitologia egípcia ao ler a recente pesquisa do PISA Programa Internacional de Avaliação de Alunos e fui buscar na internet o texto acima. O objetivo do PISA é apresentar indicadores comparativos entre 65 países buscando a melhoria dos sistemas educacionais. Provas trienais para alunos de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciências, de forma a enfatizar uma destas matérias a cada vez. Este ano foi a Leitura e o Brasil, 7ª Economia do mundo, ficou em 53º lugar.

É um alerta e tanto, principalmente se considerarmos a correlação demonstrada no estudo do PISA quando informa que as melhores performances estão com os estudantes que possuem mais livros em casa.

70% das residências nacionais apresentam menos de 20 livros. Entre aqueles países de casas com mais de 200 livros a Coréia tem 22,2%, o Brasil tem 1,9% , na frente apenas da Tunísia com 1,7%.

Pais e professores precisam entrar neste desafio e o Instituto Pró-Livro em sua última pesquisa mostrou que o gosto dos jovens pelos livros é oriundo da influência da mãe em 49%, das professoras 33% e dos pais 30%.

Não é tarefa difícil, é apenas questão de hábito que poderá ser ajudado pelos produtos informatizados, embora ainda na expectativa se aliado ou não da leitura de livros para os jovens brasileiros. As apostas, entretanto, são favoráveis.

É crucial para conseguirmos avanços econômicos, sociais e culturais. É fundamental para entender o mundo e não ser manipulado por ele, isto é, Estado, políticos, empresas, imprensa e até mesmo pelos que os cercam.

É o enigma do mundo moderno, leia-me ou devoro-te.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung às quartas-feiras


Foto da Galeria de Troy Holden, no Flickr

Muros de São Paulo pintados em defesa da natureza

 

Greenpincel de Eduardo Kobra

“Denunciar e combater artisticamente as várias formas de agressão do Homem à natureza”. Assim Eduardo Kobra, artista e grafiteiro, explica o primeiro de uma série de trabalhos que realizará nos muros e paredes da cidade de São Paulo. Na Domingos de Morais, em frente a estação do metrô, no bairro de Vila Mariana, zona sul da capital, o artista de renome internacional inicia a série “Greenpincel” alertando para a matança de baleias.

Na imagem acima, Kobra se distancia para enxergar melhor parte do trabalho que será entregue nessa quinta-feira, dia 17: “É uma obra crua e forte, baseada em uma cena da caça de uma baleia pelo navio Yushin Maru. Todas as tragédias naturais que têm acontecido em nosso planeta mostram que proteger os animais e a natureza como um todo é também uma forma de protegermos o ser humano. Particularmente, sou um apaixonado por plantas e animais. São temas que namoro há muito tempo e, por isso, decidi que já era hora de colocá-los também dentro do meu trabalho como artista”

Só cidadão para tirar Assembleia de SP do atraso

 

A Assembleia Legislativa de São Paulo está muito atrasada. Ao contrário dos demais parlamentos somente inicia seu trabalho nesta terça-feira, dia 15, enquanto a maioria já atua com a nova composição eleita em outubro do ano passado desde o início de fevereiro. E a maioria dos 94 deputados estaduais não parece preocupada com a situação, pois entraremos em mais um período legislativo sem que ninguém proponha mudanças no calendário.

Para a ONG Voto Consciente, que acompanha o trabalho da ALESP, além desta demora, perde-se muito tempo, também, na formação das comissões permanentes. A entidade cobra dos parlamentares que os partidos escolham logo – no máximo em duas semanas – os nomes, e as comissões comecem a discutir os temas de interesse do Estado, pois nenhum projeto chega no plenário para votar sem antes ter o aval destas instituições.

A vantagem deste ano é que foram reduzidos de 22 para 15 o número de comissões, uma proposição que havia sido feita pelos integrantes do Voto Consciente.

Os problemas na casa, porém, não se restringem a estas questões. Seria fundamental que a Assembleia Legislativa desse um grito de independência do Executivo, desafio quase impossível de ser superado dado o histórico deste e de outros parlamentos estaduais no Brasil. Os deputados tendem a votar apenas aquilo que interessa ao governador de plantão que não tem dificuldade em formar maioria.

Soma-se a isso a saída de deputados de boa votação para assumir cargos de secretário estadual, sinal de que a função é bem mais atrativa do ponto de vista das pretensões políticas do parlamentar. Em São Paulo, os dois mais votados não permanecerão na casa: Bruno Covas (PSDB), que teve 239.159 votos, é secretário de Meio Ambiente e Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), eleito com 215.061 votos, é secretário de Desenvolvimento Social. Mais dois eleitos também assumiram cargo no Governo: Edson Giriboni (PV) é secretário de Saneamento e Recursos Hídricos e Davi Zaia (PPS) é o titular da de Emprego e Relações do Trabalho.

O resultado deste comportamento de parlamentares que abrem mão de suas prerrogativas em troca de verbas e obras que lhe garantam a simpatia do reduto eleitoral ou buscam outras funções, diferentes daquelas para a qual foi escolhido pelo eleitor, é o enfraquecimento do legislativo e a diminuição de sua importância para o cidadão.

Sem contar que o presidente que deve ser reconduzido ao posto nesta terça-feira, deputado estadual Barros Munhoz (PSDB), foi acusado pelo Ministério Público de ter participado de desvio de R$ 3,1 milhões na época em que foi prefeito de Itapira, cidade do interior paulista.

Não por acaso, boa parte dos paulistas talvez nem lembre mais em quem votou no dia 3 de outubro. E isto só vai mudar quando este mesmo eleitor entender que seu papel não se restringe ao ato de votar, que tem o direito e o dever de cobrar do seu deputado comportamento independente e a altura do cargo para o qual foi eleito.

Uma boa oportunidade é este cidadão se unir as entidades não-governamentais que acompanham a ação legislativa, como é o caso do Voto Consciente, ou faça a fiscalização do seu deputado por conta própria integrando a rede de blogs do Adote um Vereador, que se iniciou em 2008 e abriu caminho para outras campanhas como o Adote um Deputado.

Controle os políticos antes que os políticos controlem você.

Foto-ouvinte: Buraco em Pirituba

 

Buraco em Pirituba

O bairro ganhou fama recentemente com as ameaças da prefeitura de construir lá o estádio da Copa de 2014. Está na pauta do dia, pois é lá que São Paulo pretende criar seu novo centro de convenções internacional para abrigar uma das mais importantes exposições sobre urbanismo do mundo, a Expo 2020.

Nada disso, porém, tem sido suficiente para chamar atenção da subprefeitura da região que desconsidera a reclamações dos moradores quanto a cratera que engole parte da pista da avenida Raimundo Pereira de Magalhães. A única providência foi colocar sinalização no local interditado. De acordo com o ouvinte-internauta Marcelo Ricardo Gomes por esta via chega-se ao Rodoanel, não bastasse servir de rota para ônibus e caminhões.

Reforma convincente:menos deputado,sem suplente …

 


Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

Não há mais possibilidade de contornar temas aflitivos que despertam indignação na própria “classe política”, além da sociedade. A sucessão de Comissões e adiamentos impulsiona uma sensação de que o desfecho pretendido jamais será alcançado. Se por um ângulo a constante exposição da matéria converteu a Reforma Política numa espécie de redenção ética de cunho salvacionista, a outro é leviano supor que a sua aprovação funcionará como um antídoto capaz de eliminar todas as mazelas políticas que vicejam no país.

Preocupante, no entanto, é a dualidade de Comissões a tratar do mesmo assunto. Câmara e Senado formaram grupos autônomos para debater a Reforma Política que todos difundem. Neste momento, sem algo novo, por conta da insuperável divergência entre parlamentares e blocos em alguns pontos, não se crê em modificação alguma a partir do proposto por ambas as Casas do Congresso. A oportunidade é de convergência e não de hegemonia entre as Casas do Congresso.

De rigor, para ser convincente, uma outra reforma deve brotar e se impor. Algo possível, dotado de razoabilidade. Chega de miopia e pirotecnia. É essencial que prevaleça lucidez na delimitação de temas que possam dar vitalidade à política como atividade pública respeitável. Lista fechada, voto distrital e financiamento público são temas importantes mas demasiadamente complexos para este momento-limite. Outras questões mais factíveis e nem por isso menos decisivas, todas com projetos formulados e tramitando, se credenciam como viáveis para atenuar os níveis de saturação que o sistema eleitoral e de representação manifestam.

Ampliação das atribuições de deputados estaduais e vereadores – A administração pública é compartilhada, em todas suas esferas. Não é razoável que iniciativas parlamentares sejam restringidas sob a alegação de interferência no Executivo. Projetos relevantes não podem ser repelidos por sua origem. Parlamentos são polpas vivas das comunidades e merecem real autonomia.

Eliminação do quociente eleitoral – A representação popular sofre desvirtuamento quando um candidato ao Legislativo, seja qual for este, amparado em votação retumbante, é preterido por outro de desempenho inferior. Conforme a PEC 54/07, os eleitores, além de não entenderem, desconfiam de um sistema eleitoral que admite a eleição de candidatos com pouca votação. O eleitorado brasileiro passou dos 2/3 da população e um sistema introduzido em 1932 já não se sustenta mais frente esta outra realidade.

Suplentes no recesso – Porque contrasta à realidade e ao bom senso, a efetivação de substitutos nos períodos de recesso é descartável vez que, na prática, sua finalidade se revela contraproducente. O parlamentar fica impossibilitado de apresentar projetos, participar de sessões, as Comissões não se reúnem. Esta anomalia desacredita o Parlamento perante o eleitor.

Transições pós-eleitorais – A PEC 60/2004, de autoria do ex-senador gaúcho Sérgio Zambiasi, preserva a continuidade administrativa e os serviços públicos, impedindo que mesquinharias paroquiais ou intrigas eleitoreiras desviem a finalidade e a rotina das instituições públicas em prejuízo do contribuinte. Tal como já ocorre no modelo federal, é preciso disciplinar uma relação organizada de responsabilidade entre o governante e o seu sucessor nos níveis estaduais e municipais.

Redução da Câmara dos Deputados – Inoperância pelo excesso de parlamentares, elevado custo público, sucessões de escândalos, apresentação de projetos inúteis ou bizarros, produção legislativa escassa ou irrelevante. É a indisfarçável ineficiência de uma estrutura acrítica justificando a sua diminuição.

Extinção dos suplentes de senador – Injustificável. Preenchida de forma indireta e confinada à homologação de nomes indicados por partidos ou coligações, a suplência, além de impopular, é destituída de respaldo pelo eleitor e vulnera a soberania popular que chancela as eleições para os demais cargos.

Redução do mandato dos senadores – A demasiada extensão do mandato senatorial (oito anos), a par de anacrônica e sem justificativa plausível, é fator impeditivo à renovação e fiscalização da Casa Legislativa e de seus membros. O cargo de Senador é relevante por suas atribuições e não pela sua duração.

“Janela” partidária – Não adianta impregnar o tema de ranço, generalizações e preconceitos. Uma troca de partido no curso do mandato não pode ser vedada de forma artificial e tampouco rotulada de injustificável. É imperativo atenuar o rigorismo vigente, decorrente de uma regra estabelecida pelo TSE e não pelo Congresso Nacional. No seio das agremiações ocorrem fatos que tornam a coexistência insuportável. O que deve ser reprimido são malícias e dissimulações.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

Jornalista vai caçar boas idéias para sua cidade

 

Cidades para Pessoas from Natália Garcia on Vimeo.

Viajar por 12 cidades à caça de boas ideias de planejamento urbano e contribuir para que São Paulo e outros municípios brasileiros se desenvolvam oferecendo qualidade de vida aos seus moradores. É a pretensão da jornalista Natália Garcia com o projeto Cidade para Pessoas, inspirado no trabalho do planejador urbano Jan Gehl, dinamarquês que há 50 anos redesenha cidades e bairros como em Melbourbe e Perth (Austrália), Estocolmo (Suécia), Lyon (França) e Copenhaguen (Dinamarca), onde tudo começou. Foi lá que ele convenceu os moradores e autoridades de que o espaço público não pode ser privilégio de automóveis.

A etapa mais complicada da viagem talvez seja aquela que Natália está encarando agora, antes mesmo de botar o pé na estrada ou no pedal – já que pretende andar de bicicleta e a pé pelos roteiros escolhidos. O projeto que vai durar um ano custará R$ 25 mil e o dinheiro está sendo arrecado pelo sistema de crowdfunding – uma ação colaborativa em que todo o cidadão pode contribuir com pequenas quantias, através da internet. Até aqui, Natália conseguiu arrecadar pouco mais de R$ 11 mil e tem mais sete dias para chegar ao total necessário.

Cada um das cidades visitadas por Natália (conheça a lista aqui) será traduzida em quatro grandes reportagens, vídeos e posts publicados no blog Cidade para Pessoas. Todo o material coletado será licenciado em Creative Commons by-sharealike com restrições comerciais – ou seja poderão ser reproduzidos e citados em redes, blogs e material de prestação de serviço, e usados por universidades e pelo poder público desde que não haja exploração comercial.

O projeto é apenas uma etapa para chegar ao que Natália realmente sonha que é colaborar para a construção de uma cidade para as pessoas:

Eu sei o que você vai dizer: não somos a Europa. E foi essa a reação que os jornais dinamarqueses tiveram quando o Jan Gehl quis transformar uma importante avenida de carros em um calçadão para pedestres. “Não somos italianos”, dizia o jornal, “nosso clima escandinavo não convida à vida nas ruas”. Segundo as publicações, ninguém toparia andar de bicicleta em Copenhagen e tirar os carros daquela avenida faria as casas de comércio falir. Elas não só não faliram como lucraram o dobro. E hoje Copenhagem é a cidade com o maior número de usuários de bicicletas no mundo.
Dá para fazer o mesmo por São Paulo. Mas vai ser preciso colocar as pessoas à frente dos carros (trecho do Blog Cidade para Pessoas).

A colaboração para o projeto pode ser a partir de R$ 20 e deve ser feita através do site Catarse, especializado neste sistema de arrecadação.

Foto-ouvinte: Tantos postes no meio do caminho

 

Poste no meio do caminho

A prefeitura foi zelosa com os moradores de Cambuci – sul de Minas – e reformou a avenida, mas o desenho dos seus engenheiros não combinava com o dos postes da companhia de energia elétrica. Resultado: ir do Jardim Américo para o bairro Santo Antonio pela velha estrada rural se transformou uma prova de obstáculos. Cleber Lambert, ouvinte-internauta que registrou o fato, diz além dos postes do meio do caminho, a avenida ficou inacabada e o calçamento está solto, um transtorno para carros, bicicletas, pedestres, carroças e calaveiros que passam por lá.

De diferença

 


Por Maria Lucia Solla


Ouça “De diferença” na voz e sonorizado pela autora

não somos todos iguais

a gente só sente
a sede da gente
a sede do outro
é indecente

O que a gente quer, do primeiro ao último dia de vida, é matar a sede e a fome; cada um a sua.

tem o que sai afoito atrás de qualquer tigela
qualquer cálice qualquer panela
e tem o que nem se atreve a cogitar
da própria sede aplacar

Tem o redondo, o quadrado, o triangular, o hexagonal e quantas forem as possibilidades de forma e receita, na prateleira do universo e do seu inverso, que cantamos e choramos em prosa e verso.

tem o agitado e o modorrento
o que corre pelo prado
e o que voa
no impulso do vento

E é aí que nós vivemos, tentando encontrar a nossa turma, a mais parecida e a mais diferente possível pra preencher a fome lícita e aquela proibida.

E na sofreguidão, morremos de inanição. Temos fome, temos sede e fazemos dieta de tudo. Que ironia. Uma regra nova a cada dia.

Um brinde ao fim da tirania do bom, do belo, do bem-estar, do vintém, do que não convém, da atenção e da falta dela. Abaixo as listas de bem-ou-mal isto e bem-ou-mal aquilo. Morte às listas de isso é brega e aquilo é chique. Tem coisa mais brega?!

Eu às vezes me desidrato; outras me afogo, mas cá ou lá, brilhando ou opaca, respostas não tenho; nem chego perto. Quando me aproximo de uma, saio correndo feito o diabo da cruz, e me entrego à incerteza, que é vizinha da loucura, da arte e da beleza.

incerteza abre espaço
pra possibilidade
que nos embarca nas asas da fantasia
transformando em realidade
o que antes era massa de sonho

E é onde quero estar, dia após dia, dos abrires aos fechares dos meus olhos,

ficar contente
despir no palco da vida
o personagem carente
será que não dá pra notar
que ser
é a única maneira de doar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expresão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung,