Operação Casca de Ovo

 

Buraco na República

Por Devani Amâncio
ONG EducaSP

O polêmico buraco da Praça da República, tapado na terça-feira passada, 9 de fevereiro, está de volta. Veja o que disse o sorveteiro Arodi Garcia, mais conhecido na praça como Véio do Sorvete.

“Bem que o Pai de Santo que trabalha aqui, previu : ‘Véio, alguma coisa me diz que esse trabalho não ficou bem feito, depois de 6 meses encrencado. Você viu? Já está desmanchando. Isso não vai durar três dias. É bom você não ficar passando por cima disso não. No desespero, vão jogar a culpa no seu carrinho ’. Olha, conheço todos os buracos do centro, de todos os tamanhos… No Vale do Anhangabaú tem um na entrada da garagem do shopping Light, parece um poço. Aquele buraco vai engolir um caminhão logo logo… Num dia desses, por pouco um gari anãozinho não foi engolido. Debaixo do asfalto está tudo oco… Ando olhando para o chão… vejo um buraco aqui, desvio de um outro ali … vou manobrando. Esse buraco da República deu um bafafá! Saiu no rádio, no jornal, veio até uma televisão aqui. No outro dia apareceu cedo, um caminhão da Prefeitura cheio de gente. ‘Vai… Vai rápido’… Foi tapado só com cimento e areia, na grossura de uma casca de ovo. Está o maior bochicho na praça, o engraxate sabe de tudo… Estão falando que o serviço do buraco ficou em 2 mil”.

O Véio do Sorvete tem 63 anos e se orgulha em ter o Estatuto do Idoso, assinado pelo presidente da República em 2003.

N.B (Nota do Blogueiro): No dia 4 de fevereiro, postamos texto “Os Buracos da República” de Devanir Amâncio chamando atenção para o buraco que estava aberto na praça da República, um dia depois recebemos informação da prefeitura que o serviço seria providenciado. O conserto foi feito, mas o problema está de volta.

De estresse


Por Maria Lucia Solla

Ouça De estresse na voz da autora

São Paulo 31.12.2009

Olá,

estamos todos à beira de um ataque de nervos
homens mulheres crianças e animais
de todas as raças e classes sociais
correndo risco de perder o equilíbrio

a cada passo
o sabor de descompasso

Todos estressados.

Alguns não conseguem mais esconder, outros ainda andam na corda-bamba do esconde-esconde e de vez em quando dão bandeira, mas todos apresentamos sintomas do desequilíbrio que deixa esburacado e escorregadio o terreno onde pisamos. Que destrambelha saúde, trabalho, relacionamentos, e ainda sequestra o sono da gente.

O estresse, que leva a matar e a morrer, tem duas mãos e é invisível. Na hierarquia dos desequilíbrios, está acima dos males comuns. É causador e orquestrador dos mais diversos sub-desequilíbrios, mas estamos redondamente enganados ao considerarmos o estresse, vilão. Estresse não é vilão coisa nenhuma. Ele é consequência natural, lógica e automática da vida que levamos, das palavras que dizemos, dos nossos pensamentos e atos, e num grau elevadíssimo, de nossa omissão. Nossas escolhas e crenças – ou a falta delas – é que estão nos matando.

passamos a adorar a sociedade em que vivemos
mas nunca chegamos a alcançar o que dela queremos

pagamos uma fortuna por sapatos que deformam os pés
em oferenda à moda
para sermos amados
já que nossa definição de amor está doente
e escolhemos continuar enganados

Crianças desrespeitam seus pais, que exibem sorrisos amarelos e os chamam de meus amores e meus anjinhos.

filha xinga pai
filho mata mãe
ai

O estresse já começa no berço:

– Está na hora de mamar, acorda o bebê.
Como assim na hora de mamar! o pequerrucho está a nanar! você não vê?
– Mas…
– Não tem mas nem menos mas, e faça silêncio para o reizinho não acordar.

Aí o pequerrucho, que viveu nesse paraíso pirata, com essa liberdade de meia-tigela, tendo tudo o que queria, na hora que queria, cresce.

aí o reizinho quer um copo-d’água
não se mexa meu filho adorado
deixa que a mamãe pega o-que-você-quiser
para você a mamãe nunca está cansada

aí o reizinho cresce mais e se estressa no banco da escola
porque ninguém lhe passa quando quer a bola
porque colegas e professores não o cobrem de gentileza
ao não perceberem nele a suposta realeza

e entre frustração e mágoa
o estresse no adulto se instala
porque a relação do indivíduo com o meio
não passa de fingir-após-fingir no banco da sala

o ódio é hoje corrente oração
e a certeza nossa maior prisão

Somos todos um bando de crianças mimadas, nos jogamos no chão e esperneamos quando não temos o que queremos, quando o outro não se comporta, ou não diz o que queremos que diga.

nos consideramos vítimas
e nossas queixas legítimas

eu aqui do meu pedaço
vou driblando o meu do meu jeito
e você, o que tem feito?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicaçao e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung, o que eu espero não lhe cause nenhum estresse.


Kassab cassado e a espada de Dâmocles

 

adoteDâmocles era amigo do rei. E sentia inveja dele. Foi convidado a sentar no trono pelo próprio e sobre este pendia uma espada segura por um fio de crina de cavalo. Foi a maneira de Dionísio, tirano que havia se apoderado de Siracusa, em 405 a.C, ensiná-lo de que o poder é algo tão precário que pode ser perdido a qualquer momento.

A decisão de cassar o mandato do prefeito Gilberto Kassab (DEM), de São Paulo, por recebimento de doações consideradas ilegais na campanha de 2008, é provável, terá apenas o poder de colocar sobre a cabeça do administrador a espada de Dâmocles. A repercussão é negativa, o prefeito terá de dar explicações nos próximos dias, ouvirá críticas daqui e de acolá – menos da Câmara Municipal, onde a maioria dos partidos também responde pela mesma acusação -, mas dificilmente deixará o cargo. Não nos próximos meses, com certeza.

Assim que a decisão for publicada no Diário Oficial e Kassab for notificado terá três dias para recorrer. Como ocorreu com os 16 vereadores que foram cassados na primeira leva de denúncias, ainda no ano passado, ele também obterá liminar e permanecerá na função até que os recursos sejam julgados. No entanto, a partir de agora terá sobre si o risco de perder a “cabeça” não por uma espada mas por decisão da Justiça Eleitoral. E isto é sempre constrangedor, além de fragilizar a imagem de um político que tem sofrido constantes críticas por problemas que a cidade enfrenta.

O que a Justiça Eleitoral de São Paulo está fazendo ao apontar o dedo para as doações de campanha feitas pela Associação Imobiliária Brasileira e empreiteiras como Camargo Corrêa e OAS, acionistas de concessionárias de serviços públicos, é chamar atenção para um tema muito pouco discutido no Brasil, apesar de sempre criticado.

As campanhas eleitorais precisam ser financiadas. Seja por dinheiro público seja por privado. No Brasil, se decidiu que as empresas podem fazer doação a partidos e candidatos, desde que registrado em seus balanços e na prestação de contas na justiça eleitoral. No entanto, quem doa sempre recebe o olhar desconfiado do cidadão, mesmo que, tanto doar quanto receber esta doação, sejam atos legais, desde que registrados e atendendo o que está na lei.

O juiz da 1ª Zona Eleitoral, Aloísio Sérgio Resende Silveira, entendeu que Kassab e Alda Marco Antonio, sua vice, assim como 16 parlamentares, não agiram dentro da lei. Há mais 13 que também estão na mira dele. Em defesa dos acusados, há decisões anteriores que inocentaram a participação na campanha de associações como a AIB e de empreiteiras acionistas de concessionárias de serviço público.

A espada de Dâmocles, porém, foi pendurada.

Leia aqui a reportagem completa do Jornal da Tarde que antecipou a decisão da Justiça Eleitoral de São Paulo e cita outros nomes envolvidos na acusação

Leia aqui o texto “Veradores & Construtoras” escrito em novembro de 2008 por Carlos Magno Gibrail sobre a cassação dos parlamentares paulistano e a doação para as campanhas eleitorais

Avalanche Tricolor: Um time se constrói

 


Grêmio 4 x 1 Inter SM
Gaúcho – Olímpico Monumental

Foram 13 finalizações, quatro gols marcados, somente dois chutes contra e apenas cinco minutos para decidir o jogo e se habilitar a primeira final da temporada, domingo que vem, quando estará em disputa o 1º turno do Campeonato Gaúcho. Estes são os números que resumem a história de mais uma vitória do Imortal Tricolor diante de sua torcida e embaixo de um insuportável calor que fez o time impor ritmo despretensioso no segundo tempo.

Mesmo assim haverá críticas ao fato de, em mais uma partida, termos tomado um gol, o décimo-quarto em 11 disputadas neste ano. Lembrarão que em praticamente todas o time saiu em desvantagem(e virou o placar na maioria, mas isto não parece ser levado em consideração). E, claro, alguém colocará em dúvida a capacidade do técnico Silas comandar o Grêmio (até concordo que ainda terá que mostrar muito mais até convencer a todos).

No jogo dos números se esquece de olhar a alma de uma equipe, o movimento de seus jogadores, o esforço medido de acordo com a necessidade de cada momento e o olhar cúmplice de colegas que estão juntos há pouco mais de um mês. Não aparece o carrinho para buscar a bola que escorrega pela lateral, a dividida com o adversário que arrisca a própria integridade física para não perder a jogada e coloca em risco a sequência no campeonato ou a troca de passe qualificada, com velocidade e para frente.

Foram nessas cenas que apareceram isoladas nos 90 e poucos minutos da partida – a maioria jamais será reprisada na transmissão da televisão – que a história de um time se constrói. E foram elas que me chamaram atenção nesta noite infernal (34º) no estádio Olímpico em que os torcedores cantaram e aplaudiram quase o tempo todo, pois identificaram – assim como eu – que algo de muito bom está para acontecer neste ano.

Os gols de Rafael Marques, Borges (11 em 11 jogos), Fábio Rochemback e Hugo apenas ilustraram o que o Grêmio fez em campo, serviram para abrir os olhos de quem comenta com o preconceito e a desconfiança – estes sentimentos que, historicamente, encaramos e somos obrigados a superar a todo momento.

Domingo que vem – pouco me interessa quem será o adversário – estaremos em campo mais uma vez para mostrar que há um amadurecimento e estamos a caminho de um grande conquista. Que pode ocorrer daqui uma semana ou no decorrer do ano, mas que irá ocorrer. Temos um time.

No desfile digital, quem senta na primeira fila é você

 

Por Dora Estevam

Marc Jacobs at New York Fashion Week February 2010 from istoica on Vimeo.

O que antes era visto por poucos agora está à mostra para muitos. Falo dos famosos desfiles da poderosa Semana de Moda de Nova York. A última edição, encerrada nessa quinta-feira (18.02), mostrou a coleção de inverno 2010/2011 e foi transmitida pela internet. A tecnologia colocando ao alcance das pessoas imagens que antes só eram vistas por uma seleta lista de convidados.

Ao mesmo tempo em que marcas como Alexander Wang, Rodarte, Calvin Klein e Marc Jacobs, entre muitas outras que se pronunciaram, apresentavam suas peças nos desfiles em Nova York, pessoas do mundo inteiro acompanhavam, simultaneamente, no conforto de seus computadores. É o fim de uma era complexa. Por ser um evento fechado e muito encantador o assédio é enorme.

Coordenador do Curso de Moda da FAAP-SP, Ivan Bismara, acredita que essa é uma transformação mundial por causa do comércio eletrônico. O glamour de estar presente vai continuar esteja você na sala de desfile ou de casa. Exemplo citado pelo professor Bismara: a Victoria Secret que investiu na ideia do desfile digital há pelo menos três anos; o sítio dela é totalmente e-comerce; a marca é popular e conhecida no mundo inteiro.

Apresentar um desfile em uma passarela como de NY custa caro, então algumas marcas optaram por desfilar apenas na internet: Temperly London e Rem Acra.

“É o que vai acontecer no futuro: os desfiles vão ser dentro de uma sala fechada com transmissão on-line para as pessoas assistirem de dentro de suas casas, nas grandes telas e fazer o que quiser com a imagem: congelar, ver de perto os detalhes”, explica Bismara.Todas as marcas que optaram pela transmissão on line estão dando um grande passo para o futuro, não apenas por estarem na internet, mas pela comunicação direta com o público, o varejo que consome este produto. Estas com toda certeza não vão morrer tão cedo. Quem se esconder ou deixar de acompanhar o que o público pede, morre. O professor lembra da Zoomp que já foi das maiores no setor de jeans: quem sabe não estaria viva até hoje ?

“O grande problema que tem no mercado brasileiro é a falta do marketing, da comunicação … Os estilistas aprendem a fazer roupas e esquecem de fazer marketing”. Exemplo a seguir: Lá fora tem a Carolina Herrera que consegue fazer tudo, vende no mundo inteiro.

Como em NY ainda vive momento de dificuldade na economia, a opção de transmitir pela internet, além de gerar um clima de otimismo, teve objetivo de impulsionar as vendas. Lojas de departamentos querem desovar seus estoques a preços cheio, sem esperar a liquidação para vender. O varejo é rotativo, o movimento é muito grande, as peças saem rapidamente, o que permite saber o que está vendendo ou não, o que estão comprando. A transmissão pode virar um termômetro do varejo.

A moda exige mudanças assim como todos nós mudamos. É a leitura do comportamento das pessoas. Quanto mais a marca for verdadeira e transparente com o seu público mais vai ganhar.

Em destaque, o desfile de Alexander Wang foi projetado no mega-telão da loja American Eagle Outfitters, ícone da Times Square. O resultado foi surpreendente, a reação do público, um espetáculo à parte. Professor Bismara aposta que se o próximo evento de moda brasileiro SPFW fizer isto, os estilistas vão ganhar dimensão mundial. Esta forma de comunicação fará com que o maior público possível possa ver como se faz a moda. “É uma revolução tecnológica que muda a postura do estilista: eu faço roupa e preciso que as pessoas vejam; eu faço roupas e preciso que as pessoas comprem.”

Aguarde o próximo desfile, ligue o computador e sente na primeira fila.

Dora Estevam é jornalista, escreve sobre moda e estilo aos sábados no Blog do Mílton Jung e está convidada a assistir os mais importantes desfiles do mundo pela internet.

Quarenta dias sem carne, vai encarar !?

 

Por Rosana Jatobá

O jejum já durava nove meses, tempo em que praticou ioga e se aventurou pela filosofia budista. Mas numa tarde fria do inverno novaiorquino, foi possuído por um impulso atávico, e correu para o Plataforma Grill, pondo fim à sua abstinência. A faca deslizou sem esforço cortando o bife de picanha. Dourada, macia e suculenta, a carne exalava o aroma característico e abrigava o tempero discreto que realça o sabor incomparável. Pediu o segundo pedaço e o terceiro. Voltou pra casa a passos lentos, saciado e feliz.

O meu amigo Hélio me contou esta experiência, indignado com o poder da memória da carne.
– Pra mim, que sou gaúcho, é mais que uma questão cultural. Tá no DNA. Não pude resistir por mais tempo…..

Pra mim, que sou baiana, talvez seja mais fácil.

Resisto à carne vermelha há um ano e cinco meses porque a considero indigesta. Mantive-me firme diante da tentação quando percebi que havia me livrado das cólicas menstruais.

Não sou de apregoar os malefícios da ingestão de carne, como aumento da incidência de câncer ou de doenças cardiovasculares. Tampouco condeno os carnívoros. Mas enfrento bravamente a enxurrada de críticas pelo meu jejum.

-“Você vai ficar fraca e doente.” , diz minha mãe. “A carne é a principal fonte de proteínas, além de ser rica em ferro, minerais e vitaminas. A abstinência pode causar anemia, deficiência de vitaminas do complexo B e de zinco”.

– Por enquanto, os exames anuais mostram que minha saúde é de ferro. Ferro do brócolis, beterraba, couve-flor, agrião, feijão, grão-de-bico, ervilha, lentilha, nozes e castanhas…

Recentemente revi dados sobre o desastre ecológico provocado pela criação de gado no Brasil, o que reforçou a minha convicção .

Nos orgulhamos de ter o maior rebanho do mundo, de sermos os maiores exportadores de carne vermelha, mas fazemos um comércio burro e predador. Hoje temos na Amazônia duas cabeças de gado pra cada morador da região, às custas da destruição do nosso mais precioso bem. Qual será o valor da biodiversidade perdida pelo desmatamento? E o do aumento das emissões de CO2 para transformar floresta em pasto? Quem paga o preço da emissão de metano – gás vinte vezes mais poderoso que o dióxido de carbono – oriundo dos arrotos e flatulências do boi? Se somarmos à conta o desperdício de água contaminada pela pecuária, lá se vão 16 mil litros pra cada quilo de carne produzida.

-Num mundo com um bilhão de famintos, você vem questionar se o pum do boi agride a atmosfera?

– Mas é justamente a criação de gado em grande escala que ameaça a segurança alimentar!

A questão da crueldade com os animais selou de vez a minha privação.

Para que a carne de vitela chegue à mesa com a maciez característica, o bezerro, ainda não desmamado, vai para um lugar escuro e é acorrentado, a fim de que não se mexa e não desenvolva músculos. É alimentado apenas com leite para que fique anêmico e a carne adquira uma cor branca. Não consegue nem andar até o corredor do abate, onde é alvo de uma pistola pneumática que o paralisa antes de ser sangrado, ainda vivo. Este é a cadeia produtiva do baby- beef!!

Mas a compaixão do homem só beneficia alguns poucos escolhidos: os bichos que adentram as fronteiras da casa e se tornam dignos de estimação.

Do contrário, prevalece o exclusivo traço do ser humano de subjugar o animal, tornando-o coisa, reduzida a seu bel prazer para atender a uma futilidade do paladar .

No início do ano visitei um dos “pueblos” do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Ao ouvir a sugestão do guia de turismo – aqui vende-se carne de lhama, tenra e saborosa!- , meu marido não hesitou. Correu ao encontro do churrasqueiro ali mesmo na pracinha e pediu o famoso espetinho de lhama com cebola.

Eu reagi:
– Amor, você não pode comer a lhama. Ontem mesmo tiramos várias fotos desse bichinho simpático e você inclusive comentou o quanto ele parecia afetuoso. Não tem pena?

O meu apelo foi em vão.
– Pena? Aqui todo mundo come lhama.

E depois de uma mordida, prosseguiu:
– Hum.. você não imagina que delícia essa carne!

De volta ao Brasil comentei o fato com a minha irmã, que também tinha uma história gastronômica exótica pra contar.
– No periodo em que morei na Austrália, me ofereceram um jantar com carne de canguru. Comi, pensando na viagem que tinha feito no dia anterior para vê-lo de pertinho. O tempo passou, mas até hoje não digeri bem a idéia do canguru na panela.

Voltar no tempo pode ser milagroso quando temos o importante desafio de escolher o alimento.

Na idade média, o povo raramente comia carne vermelha. A iguaria era consumida só em banquetes, nas côrtes e nas residências dos nobres. Eram as orgias chamadas “carnevale”, símbolo da gula, associada ao pecado. É daí que vem o nosso carnaval.

Se é tempo de quaresma , de reflexões e renovações, que tal um jejum de carne vermelha como gesto de conversão? Vamos pedir perdão à natureza, ao corpo e à alma. Vamos converter sangue em sumo. O meu amigo Hélio resistiu à tentação por 240 dias. Você é capaz de pelo menos se abster até a Páscoa?


Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade – e gastronomia, também.

Subprefeitura da Sé e mais 3 não limpam bueiros

 

Ao menos quatro subprefeituras de São Paulo não realizaram nenhum dos serviços de limpeza de bueiro programados para os dias 14, 15, 16 e 17 de fevereiro. De acordo com os dados publicados pela prefeitura na internet, o pior desempenho é o da Subprefeitura da Sé que atende área que sofreu sérios alagamentos nesta semana. Havia 58 ordens de serviço mas nenhum bueiro foi limpo no prazo estabelecido.

A limpeza também não foi feita pelas subprefeituras de Itaquera, zona leste, Pirituba, norte, e Capela do Socorro, sul, para as quais havia 105 solicitações e onde há bairros atingidos por enchentes. Em mais sete subprefeituras, no máximo a metade das ordens de serviço foi realizada. A capital tem 31 subprefeituras.

Nesta quinta-feira, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (DEM) insistiu na tese de que a administração municipal está realizando os trabalhos de combate as enchentes com qualidade e transparência. Lembrou que agora a população pode acompanhar como está sendo feita a limpeza de bueiros pela internet no serviço “Zelando Pela Cidade” disponível no portal da prefeitura.

No post anterior você tem publicada a entrevista do prefeito feita pela repórter Cátia Toffoletto que registrou imagem de um fiscal da CET desobstruindo bocas de lobo da avenida Eusébio Matoso, na zona oeste, onde ponto de alagamento prejudicava o trânsito pela manhã. Não há no portal da prefeitura nenhuma informação de que o serviço tenha sido realizado naquele trecho da avenida. Aliás, a solicitação para limpeza de bueiro feita pela prefeitura à empresa terceirizada mais próxima do local – na esquina da Rebouças com a Capitão Rosa – não havia sido atendida até 17 de fevereiro, apesar de o prazo ter se encerrado três dias antes.

Pouco adianta a prefeitura alardear que os dados estão disponíves na internet se a limpeza de bueiro não é realizada. Não é preciso acessar o computador para saber disto, basta tentar sair pela cidade em dia de chuva.

Agora o outro lado
(publicado em 19.02, às 20h)

Resposta da Coordenadoria das Subprefeituras de São Paulo:

“Nesta fase de testes, os técnicos das Subprefeituras ainda estão se adaptando à nova ferramenta, o que pode gerar atraso na alimentação das informações sobre os serviços executados. Em tempo, a Subprefeitura Sé informa que todos os serviços de limpeza de bocas-de-lobo programados foram executados”

Canto da Cátia: Ponto de desrespeito

 

Chuva na cidade de São Paulo

A Patrícia Madeira da Climatempo abriu a conversa ressaltando o número de pontos de alagamento na cidade, na quarta-feira (17.02). Teriam sido 92 segundo dados do Centro de Gerenciamento de Emergência da capital. Fiquei curioso para saber se este é um dado relevante para a avaliação feita pelos meteorologistas e ela explicou que a quantidade desses pontos dá a dimensão do temporal e a capacidade da cidade absorver a água da chuva. Estamos mal, segundo estes números.

Pelas ruas, a Cátia Toffoletto assistiu na quarta às ondas que se formavam na avenida Dom Pedro VI no bairro da Lapa, zona oeste da capital. E, hoje, encontrou o fiscal da CET se esforçando para impedir que novos pontos de alagamento se formem na avenida Eusébio Mattoso, próximo da Marginal Pinheiros.


Ouça a reportagem da Cátia Toffoletto que registrou a ação do fiscal da CET e após foi falar com o prefeito Gilberto Kassab que insiste na ideia de que a população reconhece o esforço dele para resolver os problemas.
(publicado às 19h30)

Da estupidez da enchente à gentileza do banheiro

 

Por Abigail Costa

– Moço qual é o próximo voo?
– Para onde senhora?
O moço elegante e engomado da companhia área parecia surpreso.
– Destino? Qualquer um, desde que a chuva não pare a cidade.

Esse diálogo só aconteceu na minha cabeça, tamanho o desespero de ficar três horas e 10 minutos para percorrer 23 quilômetros do trabalho para casa.

Deu fome e pra encher o estômago água. A água engana mas enche a bexiga, logo…
O negócio começou a apertar.

No rádio, o Eros Ramazzotti cantava “Unica come sei”. E eu respondia: única e sem saída. Assim que encontrei uma, tive que decidir: entre a Marginal congestionada e a avenida lotada. Optei pela avenida. Pelo menos tinha a chance de encontrar um boteco – meu interesse imediato era um banheiro.

Nada de restaurantes, bares.
Um posto no meio do caminho, no meio do caminho um posto.
Aleluia !

Já não tinha mais vontade de nada. Sentia dores. Na bexiga? Nem sei dizer, já estava generalizada, sem exageros. Parei o carro, desci meio curvada tentando me equilibrar no salto alto (tão elegante sempre, e tão ridículo naquele momento).

Meu primeiro olhar encontrou a placa SANITÁRIO. Foi tipo paixão à primeira vista. Ela piscou pra mim. Antes precisava localizar o frentista. Estava na cara que a porta estava trancada. Imaginei uma linha reta e mirei o rapaz gordo de boné vermelho.

– Posso usar o banheiro?
Ele sem nenhum pudor:
Vai trocar o óleo, hein?
Não entendi a brincadeira, ou não quis. Queria sim um banheiro.

Sorridente, ele saca um galão de óleo vazio que servia para segurar uma pequena chave. Agarrei o galão como um troféu e me mandei. Claro que a caminha ao meu destino não foi fácil. Passar entre os carros com aquele negócio nos braços, chamava a atenção. E muito.

Alguns motoristas sabiam exatamente onde eu ia. Certamente muitos já teriam passado por isso. Mirei a setinha enquanto pensava: Mesmo que não tenha papel já tô no lucro. Quando abri a porta, estava num oásis. Limpeza, papel higiênico, papel toalha e sabonete líquido. Nem acreditei.

Passada mesmo fiquei quando li na parede:

“Senhores clientes, caso não encontre o recinto limpo, sem papel ou com problemas de iluminação, aperte a campanhia e avise a gerência”.

Como assim? Estou fora de São Paulo ?

Aquilo me fez engolir a vergonha que estava sentindo em ser paulistana e sentir orgulho das pessoas que tentam fazer desta cidade um pouco melhor. Evidentemente, fui agradecer ao frentista. Ele ficou até meio sem graça. Talvez como eu, não esteja acostumado a gentilezas.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung e teve de encarar com altivez o temporal de ontem na cidade de São Paulo