Avalanche Tricolor: Roger voltou; que saudade!

União Frederiquense 3×1 Grêmio

Gaúcho – Frederico Westphalen, RS

Elias comemora gol de pênalti, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Ele era a esperança de que estávamos diante de um outro olhar sobre o futebol. Fez-me acreditar que seríamos capazes de implantar um modelo inteligente de atuar. Cheguei a imaginar que a política interna do clube seria insuficiente para influenciar o trabalho dele. Que conseguiríamos desenvolver um planejamento de longo prazo, como fazem as grandes equipes do futebol mundial. Que formaríamos um time de dar orgulho pela maneira de jogar e, claro, em breve, nos desse também os títulos que tanto almejamos”

Por favor, sem julgamento prévio, caro e raro leitor desta Avalanche. O parágrafo acima nada tem a ver com o momento atual do Grêmio e Vagner Mancini, demitido na segunda-feira, um dia após empatar contra o penúltimo colocado do Campeonato Gaúcho. Mancini tem seus méritos próprios, seus limites e dificuldades. Pegou o time em situação complicada no ano passado, com moral baixo e futebol idem. Pouco conseguiu tirar dos jogadores e elenco que tinha à disposição, todos contaminados pela sequência ruim de resultados e em meio a um desorganizar injustificável. Trouxe para 2022 o ranço do torcedor incomodado com o rebaixamento do ano anterior. E pagou com o emprego no primeiro resultado capenga na competição. Sem convicção, a diretoria que bancou sua presença na virada do ano, não resistiu ao grito da arquibancada. Negou sua própria aposta, e depois de ter feito os investimentos que o técnico pediu, entregou a cabeça dele aos torcedores. Não estou aqui a defender a qualidade do treinador que saiu, mas a ressaltar a incoerência dos dirigentes que permanecem. 

Dito isso, voltemos ao primeiro parágrafo desta Avalanche. Nele reproduzi parte do texto publicado com o título “Avalanche Tricolor: é uma pena, Roger não volta mais”, em 15 de setembro de 2016, por coincidência aniversário do Grêmio. Na noite anterior, havíamos sido derrotados por 3 a 0 pela Ponte Preta, em Campinas, em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro. Sim, lamentava a demissão de Roger que era pressionado pelos resultados que não chegavam na competição nacional, apesar de ter vencido a primeira partida das oitavas-de-final da Copa do Brasil, fora de casa, contra o Athletico Paranaense.

Em tempo: Copa do Brasil de 2016 que o Grêmio haveria de conquistar, depois de perder o segundo jogo contra os paranaenses, na Arena, e garantir a vaga na decisão de pênaltis. Já sem Roger.

Se lastimava a saída de Roger, o fazia por entender que o treinador havia levado ao Grêmio o que tínhamos de mais moderno na forma de olhar e jogar o futebol naquele momento. Mesmo ainda um novato no comando técnico, precisando amadurecer, soube montar o time e deixar um legado que foi muito bem aproveitado por Renato Portaluppi na sequência de títulos que conquistamos, até chegarmos a Libertadores, em 2017. 

Nunca escondi, em uma só linha desta Avalanche, o quanto admirei as ideias de Roger e a maneira como montou nosso time, promovendo a aproximação de seus jogadores, a precisão do toque de bola e o deslocamento rápido no gramado. Dava gosto de ver o jogo jogado pelo Grêmio. Mesmo com as derrotas que ocorriam, havia a esperança de dias melhores e de um futebol disposto a nos conquistar.

Ao contrário do que escrevi naquela Avalanche de setembro de 2016, em meio a tristeza de sua demissão, Roger haveria de voltar um dia. E voltou!

Que com ele volte o futebol bem jogado. Estou morrendo de saudade!

Avalanche Tricolor: tem de ter paciência

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Nicolas comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Paciência foi a palavra usada, ao fim da partida, pelo novo lateral direito do Grêmio, Nicolas, emprestado pelo Atlético Paranaense, depois de jogar no Goianense, ano passado. Foi o pedido dele ao torcedor que desde sempre sabe que algumas soluções que Vagner Mancini insiste em manter deram errado, em 2021, a começar pela posição que Nicolas ocupará como titular. E disso ninguém tem dúvida, sequer o técnico que, registre-se, foi quem indiciou o jogador que está com 24 anos. 

Claramente, Mancini decidiu-se por apostar na paciência com algumas alternativas e iniciar mudanças a medida que os fatos falem mais alto e a necessidade seja premente. Com os resultados alcançados até aqui no campeonato, a liderança isolada e conquistada de forma invicta, o treinador ganhou tempo para fazer as transformações, que os impacientes querem de imediato. 

Na lateral direita já percebeu que apostar em Rodriguez pode ser um caminho mais produtivo – apesar de esta não ser uma mudança que deva ocorrer imediatamente. Vai depender muito de Orejuela, que ainda deve o futebol qualificado que promete. Na esquerda, depois de ver sua indicação dar duas assistências para gol, no jogo anterior, e marcar o gol de empate desta noite de domingo, parece que a troca é inevitável – a não ser que a paciência do técnico seja muito maior do que eu imagino.

No meio de campo, Mancini entende que precisará ter jogadores mais leves, sem a necessidade de manter a estrutura pesada tanto quanto indispensável em meio a crise de 2021. As substituições vão ocorrer a medida que os momentos decisivos exigirem. Mas o torcedor ainda terá de aguardar um pouco mais antes de ver o time jogar sem dois volantes fortes como Thiago Santos e Lucas Silva. O medo do ano passado ainda é presente.

No ataque não tem muito o que fazer, mesmo que Elias seja sempre uma pressão sobre Diego Souza, que, gostem ou não, seguirá sendo o centroavante preferido porque não desiste de perseguir e marcar gols. Janderson à direita e Ferreira à esquerda são as garantias de que o time vai seguir arriscando dribles para cima do adversário. 

A propósito, vaiar a troca de Ferreirinha por imaginar que o treinador o fazia por questões técnicas é bem o sinal da falta de confiança do torcedor com Mancini. Precisou o jogador sinalizar lesão ou dor na virilha para que os impacientes entendessem a substituição que, aliás, foi bem escolhida: Gabriel Silva é um excelente investimento da base . Não vejo hora de comemorar um gol do guri. Em todas as partidas, ele ameaça marcar. Chegará a sua hora. É só ter paciência.

Sim, futebol também é um jogo de paciência! Do jogador, do treinador e de nós, torcedores. Haja paciência, em 2022!

Avalanche Tricolor: a dança do Tonhão na terra de Padre Reus

Aimoré 1×2 Grêmio

Gaúcho – estádio Cristo Rei, São Leopoldo-RS

Rodrigues comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

São Leopoldo fica logo ali. Coisa de meia hora, ou um pouco mais, de Porto Alegre. Cidade de Padre Reus, o quase santo de quem somos devoto por parte de pai. Todo ano, visitávamos em família o santuário onde o corpo de João Batista Reus está enterrado. Forma de agradecer pelas graças alcançadas.

Foi lá a partida desta noite pelo Campeonato Gaúcho. Não no santuário, é claro. No Cristo Rei, estádio do time da cidade, em que cabem cerca de 14 mil torcedores. Local acanhado como costumam ser os estádios em que são disputados os jogos no Rio Grande do Sul. De gramado descuidado e esburacado, incapaz de aceitar que a bola role de forma natural. 

Para este cenário, o Grêmio levou tive misto. Para não dizer reserva. Deixou alguns titulares no banco, que poderiam ser chamados em situação de emergência. A emergência se fez depois de tomar o primeiro gol. Bastou colocá-los em campo e o talento superou a marcação pesada e o gramado impróprio para jogo.

O primeiro gol foi de uma perfeição rara. Benitez, com qualidade no passe e visão de jogo, colocou a bola entre os marcadores e ao alcance de Nicolas, o lateral esquerdo, que foi à linha de fundo e cruzou na cabeça de Villasanti. Nosso volante paraguaio estava dentro da área. Teve o trabalho precioso de cumprimentar e fazer o gol.

O segundo gol veio novamente pela esquerda. Mais uma vez pelos pés de Nicolas, que cruzou para aproveitar a presença de Diego Souza. Nosso goleador não tocou na bola, mas foi fundamental ao levar com ele a marcação de dois adversários, abrindo caminho para Rodrigues dominar e marcar. 

Sim, Rodrigues, o zagueiro temido por muitos e acreditado por Vagner Mancini, que decidiu aproveitá-lo pela lateral direita, posição em que pode impor seus prazer de chegar ao ataque. Cá entre nós, nunca vi um zagueiro que gosta tanto de atacar como ele. Vamos lembrar que foi de Rodrigues, o gol que nos classificou na fase de grupos da Libertadores de 2020. 

Contra o Aimoré, é o segundo jogo em que Rodrigues é escalado nessa posição. Hoje, saiu jogando como zagueiro e portando a braçadeira de capitão. Não é pouca coisa. No segundo tempo, Mancini o deslocou para a direita e Tonhão, ops, Rodrigues não decepcionou. Já havia aparecido dentro da área outras vezes. Aos 41 minutos, quando Nicolas cruzou e Diego Souza arrastou os marcadores, foi ele quem surgiu para fazer o gol da vitória  e convidou o torcedor a dançar a dança do Tonhão.

Avalanche Tricolor: gracias, Benítez!

Grêmio 2×0 Guarany 

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Benitez é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O lançamento de Thiago Santos, que provocou a trapalhada da defesa adversária e o gol de Janderson, aos três minutos, foi primoroso e merecia mais destaque da crítica esportiva – e me refiro apenas aqueles que tive oportunidade de ouvir falando da partida do Grêmio, neste domingo à noite. Talvez haja os que souberam apreciar o passe de longa distância assim como eu, apenas não os ouvi. Temo que alguns torcedores que torcem o nariz para Thiago também não tenham percebido a qualidade da jogada. Foi o caminho para desconsertar o sistema defensivo que já se desenhava fechado e aguerrido. 

A velocidade de Janderson e o esforço para alcançar a bola até confirmar que ela estaria dentro do gol também foram importantes para facilitar os trabalhos e nos confirmar na liderança do Campeonato Gaúcho. O guri de 22 anos, emprestado do Corinthians e que estava no Atlético Goianense, aposta de Vagner Mancini, já havia se destacado na partida anterior, na estreia do time principal na temporada. Com físico e tatuagem que lembram Everton Cebolinha, Janderson, além do gol, aproveitou bem as bolas esticadas pela ponta direita. Havia pensando em dedicar a ele, os parcos parágrafos desta Avalanche. Mas aí apareceu Benitez.

Com a lesão de Campaz, ainda no primeiro tempo, o argentino de 27 anos que esteve no São Paulo, ano passado, entrou em campo e logo mostrou seu cartão de visita para a torcida, especialmente àqueles que desconfiavam de sua consistência física: dividiu uma bola na intermediária, sem dó nem perdão de quem colocasse o pé do outro lado. Era só o início de sua participação no Grêmio. O que veio na sequência foi um repertório de passes rápidos e precisos. Com o lado de fora do pé, de calcanhar, de cavadinha e de primeira, colocou seus companheiros em condições de dar sequência para a jogada e no caminho do gol.

Foi por ele que a bola passou, no segundo e decisivo gol. Após receber um chute rasteiro que veio da defesa, com apenas um toque deslocou o marcador e encontrou Fernando Henrique livre na intermediária. O guri de 20 anos, que recém-havia entrado,  ajeitou a bola e o corpo, e meteu no pé de Diego Souza quase na entrada da área. Bem, aí Diego fez o que lhe cabe fazer. Carregou a bola, deixou o zagueiro de lado e estufou a rede, mais uma vez. A segunda em dois jogos dele na temporada.

O jogo em si não foi grande coisa. Ao Grêmio ainda serão necessárias algumas partidas para se saber o que teremos neste  2022. De qualquer forma, é bom sentir o sabor da liderança isolada nesta competição que vencemos nos últimos três anos. 

Avalanche Tricolor: caras e carecas novas, e um goleador sobrevivente!

Grêmio 2×1 São José

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego comemora o primeiro da temporada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É feriado em Porto Alegre, nesta quarta-feira. Dia de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade. Tradição que vem dos Açores, de onde partiram os casais portugueses que aportaram mais ao sul do Brasil. Vieram de terras distantes e paupérrimas, de solo infértil, atendendo a demanda da Coroa Portuguesa, que buscava povoar regiões consideradas estratégicas. Tiveram o desafio de atravessar os mares, enfrentar as tempestades e se protegerem das pestes que atacavam os passageiros que se atreviam em viagens longas de navio. Sobreviventes!

Por coincidência e apenas por isso, 2 de fevereiro foi a data escolhida pelo Grêmio para levar a campo, pela primeira vez, o grupo de jogadores que acredita ser o ideal, até o momento, para encarar a travessia tempestuosa que nos aguarda, nesta temporada de 2022.

Faltam nomes ainda; tem gente lesionada e sem fôlego; é preciso ajustar o pé, os passes e as peças em campo. A partida dessa tarde, foi apenas o início da longa viagem que jamais quisemos navegar, mas para a qual fomos levados devido a improdutividade nos gramados por onde passamos no último ano.

Havia caras novas: Bruno Alves, Janderson, Nicolas e Orejuela – esse último uma cara meio nova, pois já esteve entre nós. Havia carecas novos, também (todos vítimas de trotes dos veteranos): Rildo, destaque no time de transição, e Gabriel Silva, guri de 19 anos, no qual se aposta alto – pelos dribles e chute no travessão que deu logo após entrar no time, no segundo tempo, uma aposta que pode dar ótimo resultado. Aguardemos!

Os outros eram velhos conhecidos. Alguns nem tão velhos assim, como Gabriel Gandro, que até agora não se sabe se será titular. Campaz, que fez um golaço de falta, abrindo os trabalhos na temporada, além de ter dado boa dinâmica ao ataque.  E Ferreirinha, o camisa 10 que esbanja talento pelo lado esquerdo e inicia o ano mais maduro, após tantos percalços dentro e fora de campo. 

Geromel, um ponto de exclamação para 2022; Thiago Santos e Lucas Silva, que tendem ser a dupla para enfrentar a dureza dos gramados e adversários que encontraremos pelo caminho; e Diogo Barbosa.

Deixei por último nesta lista Diego Souza. Não por acaso. Merece um parágrafo à parte (ou dois). Esteve fora dos planos no fim do ano. E de tanto procurar e não achar, a diretoria entendeu que ele ainda era a melhor solução para o comando do ataque. Foi o goleador do Brasil, em 2020. Foi goleador do Grêmio nas duas últimas temporadas. Foi goleador do Campeonato Gaúcho, nos dois últimos anos. E começou com o pé direito 2022, literalmente. Com a precisão e o aproveitamento de sempre, fez o gol que deu a vitória na estreia do time principal na competição estadual. 

Mesmo que não pareça, Diego demonstra ter fôlego para mais essa travessia no nosso barco. Após o gol, a televisão flagrou Vagner Mancini perguntando se ele queria ser substituído, como se já tivesse cumprido o papel para o qual foi mantido no grupo: marcar os gols da vitória. O goleador pediu para ficar em campo. Diego Souza é um sobrevivente!

Avalanche Tricolor: a Elias o que é de Elias

Brasil 1×1 Grêmio

Gaúcho – Estádio Bento Freitas, Pelotas/RS

Elias cobrando pênalti. Foto de Victor Lanner | Grêmio FBPA

Coube a Elias mais uma vez marcar o gol do Grêmio na segunda rodada do Campeonato Gaúcho. Havia feito os dois, na estreia, um deles de pênalti. Da mesma forma que no primeiro jogo, sofreu o pênalti ao receber a bola em velocidade dentro da área e provocar a falta do adversário. Também cobrou com segurança e colocou a bola no fundo do poço. Fez mais: demonstrou ter repertório variado na cobrança. No meio da semana bateu forte, no alto e do lado direito do goleiro; desta vez usou a força, chutou rasteiro e do lado esquerdo. 

Elias é destaque da base há algumas temporadas. Chegou a Porto Alegre em 2018, depois de surgir no Guarani de Campinas, cidade em que nasceu. Começou jogando pela ponta, aproveitando-se da força e velocidade. Passou a ser usado no meio da área. Foi goleador e campeão brasileiro de aspirantes, em 2021. A fama chegou aos olhos do torcedor que passou a pedir a presença dele na equipe principal. Teve poucas chances. Jogou nove partidas no ano passado e marcou dois gols. 

Internamente, a avaliação era que o atacante oscilava na qualidade de suas apresentações. Nos dois jogos, em que marcou os três gols gremistas, demonstrou que ainda precisa aprimorar o passe. É melhor recebendo a bola do que devolvendo-a aos colegas. Revela boa visão dos companheiros mas tem de melhorar na execução. A despeito disso, tem o faro do gol, como se dizia em um tempo em que Elias sequer havia nascido. O guri acabou de fazer 20 anos. É de novembro de 2001.

Está pedindo passagem. E, certamente, será mais bem aproveitado por Vagner Mancini. Talvez não saia como titular, mas tem tudo para ser esta a temporada da consagração de seu futebol. 

Avalanche Tricolor: a alegria de volta

Grêmio 2×1 Caxias

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Elias comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O drible de Rildo com a bola migrando de um pé para o outro e deixando os marcadores para trás foi de uma felicidade que só vendo. Tanto quanto o passe que encontrou Elias na cara do gol para fazer aquilo para o qual nasceu. Foram eles os protagonistas do lance que ofereceu ao torcedor gremista nossa primeira alegria do ano. 

O mesmo Elias foi responsável por arrancar nosso segundo sorriso na noite de estreia do Campeonato Gaúcho. Com força e talento, cavou e converteu o pênalti que garantiu a primeira vitória na competição, conquistada com uma equipe totalmente formada de guris bons de bola. 

Na comemoração de cada um dos gols, o entusiasmo da garotada foi contagiante. 

Começo por uma cena que me marcou ainda no primeiro gol. Guilherme Guedes – o lateral esquerdo para o qual se tem depositado confiança há algum tempo, mesmo que ainda jovem, com apenas 22 anos – foi flagrado pela câmera, de joelhos, com os olhos fechados, punhos cerrados, socando o gramado, em uma explosão de alegria; revelando a satisfação de ver seu time mais uma vez no caminho da vitória.

No segundo, Elias, após estufar a rede, correu em direção a linha de fundo, socou o ar e foi encoberto por todos os jogadores do elenco. A turma do banco não se conteve. Correu serelepe em direção ao atacante expressando o contentamento que o futebol é capaz de nos oferecer. Um amontoado de guris se divertindo com o ‘trabalho’ que se propuseram fazer: dar alegria ao torcedor. 

Será uma temporada difícil essa que se inicia. O desafio é conhecido por todos nós. Os riscos são enormes. A cobrança maior ainda. Sabe-se lá o que vai acontecer na próxima rodada, ao fim dessa competição ou nos demais campeonatos que farão parte desta jornada. Seja o que for, serão coisas do futebol, este esporte que escolhi para sofrer e sorrir. 

Nesta quarta-feira, quando o futebol voltou, a mim foi reservado o direito de sorrir. 

Avalanche Tricolor: de crenças e maldições

Grêmio 4×3 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Chamei o pai que está no céu. Pelo santo do pai que não é santo também clamei. A imagem do Padre Reus que o acompanhou em vida esteve na minha mão durante toda a partida. E a vela na mesa permaneceu acesa até o fim. Ao lado dela esteve a imagem encardida de São Judas Tadeu, o das causas impossíveis – generosidade da esposa que se gremista não o é, torce pelo marido ou para que este não sofra como sofreu. Ao lado direito esteve o filho mais velho que nunca me abandonou. Que aprendeu o que é ser gremista quando ressuscitamos na Batalha dos Aflitos. Que soube o que é ser feliz quanto assistiu ao seu time campeão.

Nem o pai redivivo nem o santo aclamado nem a vela acendida nem o filho solidário são capazes de se sobrepor aos fatos. Por mais crenças que tenhamos e depositemos nesta ou naquela figura consagrada, a realidade se impõe aos nossos desejos e se sobrepõem às nossas crenças. Assim como nossa mística é insuficiente para nos fazer vencedores, nossas convicções se revelam incapazes de substituir a inanição e a prepotência que nos contaminaram ao longo da temporada.

O Grêmio está na condição que se encontra por sua conta e risco. 

De nada adianta maldizer os que pouco fizeram por nós. Terceirizar a responsabilidade da desgraça alcançada é trilhar pelo caminho que nos levou a esta condição. 

Se aqui chegamos é porque nos atrevemos a desafiar maldições – e estas não perdoam. Das maiores que acreditamos que venceríamos, está a do terceiro mandato. Fomos mordidos pela mosca azul, aquela de asas de ouro e granada, que se deslumbra e passa a  sonhar com poder e riqueza – assim descrita em poema de Machado de Assis. Que picou nosso presidente, Romildo Bolzan, e todos que acreditamos que mantê-lo no comando  seria o melhor que tínhamos a fazer naquele momento. 

Assim como a maldição da mosca azul definhou a fama e o poder de presidentes que se atreveram a se reeleger na República do Brasil, consumiu a capacidade de o Grêmio consagrar-se no sobrenatural, porque comprometeu nossa sanidade e senso de realidade. Pagamos. E pagamos muito mais caro do que merecíamos por acreditarmos sermos superiores à maldição do terceiro mandato. Não merecíamos todo este mal, a despeito de sermos os únicos responsáveis por irmos em busca dele.

Se chegamos onde chegamos por nossa culpa, nossa tão grande culpa, que sejamos capazes de respeitar o poder da imortalidade que nos notabilizou. E entender que só o alcançamos porque jamais desistimos de lutar. Uma luta que se inicia no amanhã e terá de ser brava ao longo de todo o ano de 2022. Afinal, como aprendemos no poema anônimo; 

“se um dia o mundo acabasse numa tragédia bravia

o mar, e os homens, e as feras, 

tudo, tudo terminasse, 

depois de ter passado um dia 

na fenda de alguma rocha 

onde uma flor desabrocha 

o Grêmio renasceria’

Renasceremos!

Avalanche Tricolor: se é para morrer, que seja de aflição

Corinthians 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena de Itaquera, SP/SP

Geromel, Gigante, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O locutor da TV falou em rebaixamento virtual. Confesso que não sei bem o que isso significa. Fosse no esporte eletrônico, faria algum sentido. No futebol de verdade – este disputado no gramado, com suor e inspiração; no qual vencer as bolas divididas é preciso; em que lutar é essencial e driblar é fazer a diferença – os fatos só se concretizam no apito final. 

No dicionário, virtual é o que existe apenas em potência. É o que poderá vir a ser, existir, acontecer ou praticar-se. Virtual era a derrocada gremista, em 2005. E o que assistimos foi a maior de todas as conquistas, porque foi a superação do inacreditável, do inimaginável. 

Quem imaginaria um time com essa campanha jogar o fino da bola como temos feito em muitos desses últimos jogos que disputamos. Jogos como o de hoje, em que uma torcida inteira se armou para nos vencer e teve de sair de seu estádio comemorando um pífio e insuficiente empate conquistado com um gol mágico, na bacia das almas. 

Confesso: sempre que vejo reações como essas no adversário – e estou aqui lembrando dos encardidos que nos venceram uma vez e festejaram como se fosse o título que não ganharam em toda uma temporada -, só me sinto ainda maior, a despeito da pequenez de nosso desempenho na maior parte da temporada. E se me sinto assim é porque acredito na ideia que um clube não é grande pelo resultado de uma partida ou temporada. O é por sua história. E a nossa é enorme. Isso ninguém é capaz de negar. 

O capítulo final do Campeonato Brasileiro de 2021 ainda não foi escrito. Disseram-me que para reverter a tragédia, precisaremos vencer o último jogo e esperar que dois times que estão na parte baixa da tabela não marquem um só ponto nos dois jogos – a começar pelos que disputarão nessa segunda-feira. Enquanto não o fizerem, estamos na disputa. Aflitos, mas na batalha. E se é para morrer, que seja de aflição, como em 2005.

Avalanche Tricolor: Imortalidade posta à prova

Grêmio 3×0 São Paulo

Brasileiro – Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

Thiago marca seu gol, em foto de Lucas UebelGrêmio FBPA

O gol desperdiçado por Thiago Santos, com a goleira escancarada, no momento em que o Grêmio dominava o adversário, oferecia aos descrentes a prova provada de que nosso destino já estava traçado, neste 2021. Apenas mais um dos muitos indícios de uma jornada fadada à desgraça. Antes disso, bem antes disso, a performance no campeonato e os jogos perdidos, mesmo quando o time dava alguns sinais de reação, somavam-se a pênaltis não sinalizados, ao VAR enviesado, às derrotas improváveis e aos jogadores desorientados. A mensagem era clara: entregue os pontos, beije a lona e aceite a derrota. 

Thiago não aceitou. Lamentou, esbravejou e voltou à luta. Resignou-se a marcar pressão, forçar a roubada de bola e reiniciar a retomada para o ataque. Com ele, havia ao menos mais dez em campo e um tanto mais no banco. Uma gente disposta a mostrar para si mesmo que se havia uma só chance por esta chance batalhariam em cada pedaço do gramado. Independentemente do que viesse acontecer, desistir não era verbo a ser conjugado.

Coube ao próprio Thiago provar de sua força. Apareceu mais uma vez na cara do gol, onde se reencontrou com a bola, lançada por Diogo Barbosa, e de cabeça começou a reescrever a história. Colocou o Grêmio à frente no placar e conduziu o time à vitória necessária, diante de sua torcida. Verdade que a bola seguiu tentando nos pregar surpresas. Nos levar à descrença. Desviou em um poste. Chocou-se com o outro. Foi para fora, mesmo após ter sido tratada com o talento e a generosidade de Ferreira.

Foi, então, que o improvável voltou a se impor. Diogo, criticado pela torcida, escanteado do time, que deu assistência para Thiago no primeiro gol, assistiu a si mesmo, no segundo. Driblou com o pé esquerdo e serviu ao direito, que fez a bola tomar uma trajetória circular e se aconchegar no ângulo. Nem mesmo a dupla vantagem parecia tranquilizar os incrédulos que tinham na memória os empates cedidos e as derrotas entregues, em resultados que nos levaram a atual condição. Foi, então, que a perspicácia e precisão de Jonathan Robert enterrou a desesperança em um golaço marcado do meio de campo e por cobertura. 

O que assistimos na noite desta quinta-feira, que se desenhava trágica, pode não ser suficiente para nos manter vivos na primeira divisão. Temos de vencer as duas últimas partidas e esperar que a combinação dos resultados nos tire deste martírio. Uma tarefa mais complicada do que a outra, considerado a condição de nossos próximos adversários e a inconstância de nossa sorte (e futebo. Mas, com certeza, mostramos a incrédulos e crentes de que estamos dispostos, mais uma vez, a colocar a Imortalidade à prova.