Avalanche Tricolor: o necessário, somente o necessário …

 

Grêmio 1×0 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Luan comemora com Roger o gol da vitória (álbum Flickr do Grêmio Oficial)

Luan comemora com Roger o gol da vitória (álbum Flickr do Grêmio Oficial)

 

“Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais”

 

Via o Grêmio jogar, na noite desta quinta-feira, quando lembrei da letra de música que embalava os meninos aqui de casa sempre que assistíamos a um dos muitos DVDs da Disney, que faziam parte da coleção de entretenimento deles quando eram bem pequenos ainda. Hoje, os dois estão grandinhos e cada um fazendo das suas, mesmo assim a música voltou à memória, principalmente depois do gol gremista. Gol, aliás, resultado de uma tranquila cobrança de pênalti de Luan, pênalti bastante claro, registre-se, apesar de ter acabado de ver no Twitter que alguns colegas de jornalismo esportivo o chamaram de polêmico. Se houve polêmica, isto se deu porque o autor do pênalti, aquele que colocou a mão na bola, não foi punido com um cartão amarelo, o que resultaria em sua expulsão, pois já havia recebido um por uma falta no segundo tempo.

 

Lembrei da música porque percebi que, em campo, o Grêmio fazia o necessário, somente o necessário, para levar os três pontos nesta sua caminhada para o Tri da Liberadores – jamais devemos esquecer que este é o nosso objetivo maior. E quando digo que fazia o necessário, longe de mim desmerecer o que era feito. Pelo contrário. Marcava o suficiente para impedir a chegada do adversário, apesar de uma bobeada logo no início que quase atrapalhou nossos planos. E marcava a saída de bola como Roger gosta, sem dar muito espaço e retomando o domínio do jogo rapidamente. O necessário.

 

Assim que a bola estava nos pés gremistas, os jogadores se deslocavam no gramado sempre apresentando-se como opção de passe e assim faziam com que o passe tivesse maior precisão. Tanta movimentação acabava gerando lances de gols que, na maior parte do jogo, eram desperdiçadas pela insistência de sempre querer alguém mais bem colocado para concluir. Um mérito ou um defeito – dependendo do resultado final – deste time que não abre mão de jogar futebol com qualidade, porque qualidade no futebol é preciso.

 

Até que veio o pênalti. E Luan converteu com a tranquilidade de um veterano, que ele não é, mais uma vez fazendo o necessário. Sem paradinha, sem precisar de ginga, sem muitas delongas, apenas com precisão, a necessária precisão (e tranquilidade) dos cobradores de pênaltis.

 

O restante do jogo foi trocar bola de pé em pé, uma prática irritante para os adversários que sempre acaba em expulsão ou punição, quando o árbitro não se omite de sua responsabilidade – e hoje por mais de uma vez se omitiu, apesar de ter expulsado um deles aos 18 do segundo tempo. Sei que muitos dos torcedores devem ter temido algum revés, mas, convenhamos, a partida ficou sob controle. Os três pontos foram garantidos, a manutenção da vaga da Libertadores, também, e seguimos distantes dos que se engalfinham mais atrás.

 

Fizemos o necessário, apenas o necessário. O extraordinário … que venha no domingo!

Avalanche Tricolor: um resultado de tirar o sono dos outros, não o meu

 

Sport 1 x 0 Grêmio
Brasileiro – Ilha do Retiro/Recife

 

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A rodada do Campeonato Brasileiro reservou-me o Grêmio para fechar um fim de semana diversificado e divertido, que se iniciou no fim da tarde de sexta-feira com jantar em família. Os demais dias foram divididos entre sessões de filmes e seriados, realização de algumas tarefas profissionais pendentes e uma ótima experiência com um grupo de cidadãos dispostos a mudar a forma de se fazer política no Brasil, no evento Virada Política, que se realizou em São Paulo.

 

O caro e raro leitor deste blog pode achar estranho eu ter escrito no parágrafo acima que o fim de semana foi divertido, diante do resultado do meu último compromisso deste domingo. Claro que eu preferiria ir para a cama comemorando uma vitória, a medida que a conquista de mais três pontos nos daria chance de disputar o vice-campeonato e embolsar mais uns dois milhões de reais. Tivéssemos produzido ofensivamente um pouco mais, arriscado a gol um pouco mais e acertado o pé um pouco mais, principalmente na troca de passe final e no chute, era provável que saíssemos com resultado bem melhor.

 

Uma derrota como a deste domingo, porém, é incapaz de estragar os momentos que vivi no fim de semana ou mesmo a minha visão sobre o Grêmio – e olha que Heber Roberto Lopes se esforçou para tirar meu bom humor com sua arbitragem atrapalhada e displicente. Digo isso com tranquilidade porque teimo em não analisar o desempenho gremista por esta ou aquela partida, isoladamente. Hoje mesmo alguns jogadores que têm sido excepcionais em campo não conseguiram desenvolver o mesmo futebol. Seria injusto aproveitar o baixo rendimento para criticá-los.

 

Tenho insistido nesta Avalanche que precisamos olhar a campanha ao longo da temporada, as expectativas que tínhamos e a perspectiva que se abriu graças ao crescimento técnico e tático da equipe. Nossa evolução tem sido tal que a perda dos três pontos neste domingo é incapaz de mudar a trajetória vitoriosa que estamos trilhando na busca do Tri da Libertadores – esta sim uma obsessão gremista. Não há motivos de preocupação, o que não significa que tudo esteja resolvido. Roger sabe que precisa ajustar as peças, dar mais consistência para alguns jogadores e reforçar o elenco, mas tudo isto administrado com a tranquilidade, prudência e sabedoria que lhe são características.

 

Quem não deve dormir muito tranquilo neste domingo é aquela turma que viu mais um candidato chegar para a disputa da quarta vaga para a Libertadores.

 

A imagem deste post é do álbum Grêmio Oficial no Flickr

A incrível história de Eurico Lara

 

Por Airton Gontow
jornalista e cronista

 

Eurico Lara sim

 

Faz 80 anos que morreu o goleiro Eurico Lara, grande nome da história do Grêmio, ao lado de Airton Pavilhão e Renato Portaluppi.

 

Aprendi a história de Lara ao lado de seu túmulo, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, segurando na mão de meu pai, como acontece com muitos e muitos gremistas. Era um goleiro fantástico e gremista apaixonado (como todos os gremistas devem ser). É o único jogador da centenária história gremista citado por Lupicínio Rodrigues. Sim, o autor de “Nervos de Aço” e “Felicidade foi se embora” fez o belo o hino do Grêmio – “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

 

Mas eu falava sobre Eurico Lara, que era apaixonado e gremista e, veja só, estava no quarto de um hospital, com tuberculose e doente do coração, no dia da final do campeonato gaúcho, contra o inimigo Internacional, no chamado clássico Gre-Nal. Lara fugiu do hospital para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Grêmio, que estava com um ponto a mais na competição. Mas, faltando três minutos, o juiz marcou um pênalti para o Inter. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe próxima. Foi neste momento que Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado: “abre”. E quando entrou em campo foi tirando a camisa, as calças…estava de uniforme por baixo e, pasme, de chuteiras. O estádio explodiu de espanto e alegria, mas logo depois, aconteceu um silêncio absoluto, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse vozes, pássaros…vento no mundo

 

O atacante do Inter ajeitou a bola. Parecia um touro, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção à bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Lara, meu herói Eurico Lara (cantado por Lupicínio como “o craque imortal”) saltou como um gato e encaixou a bola no peito e com ela continuou agarrado quando caiu no chão. A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol. No estádio, uma chuva de chapéus, como nunca mais foi vista, nem mesmo nas comemorações pela vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Lara continuava agarrado com a bola no chão. Sim, era sua, não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabara de acontecer. Lara estava morto. Com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus eram como flores homenageando aquele deus do futebol.

 

Na verdade, a história não aconteceu exatamente assim. No dia 22 de setembro de 1935, contrariando as recomendações médicas para que não atuasse mais, Lara entrou em campo para o jogo decisivo – um Gre-Nal! – do campeonato da cidade, naquele ano chamado de “Campeonato Farroupilha”, por ser o período das comemorações do centenário da Revolução dos gaúchos. O Grêmio precisava vencer para conquistar o título. Foi uma das maiores atuações de sua vida, decisiva para a vitória gremista por 2 a 0. Nunca mais atuou. Faleceu em 6 de novembro, 45 dias após o Gre-Nal – e dizem os médicos que a morte foi apressada pelos meses em que, mesmo doente, jogou pelo Grêmio.

 

Mas vou contar ao meu filho exatamente como o meu pai me contou: segurando em sua mãozinha de gremista, ao lado do túmulo do inesquecível Eurico Lara, aquele que morreu defendendo um pênalti, com tuberculose e doente do coração, dando o título de campeão ao Grêmio….

 

Avalanche Tricolor: nada pode ser maior!

 

Grêmio 2×0 Flamengo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Estou aqui para falar de vida e peço perdão se você, caro e raro leitor desta Avalanche, esperasse ler – se é que alguém me espera – sobre a vitória do Grêmio na tarde de domingo, em Porto Alegre, que praticamente lhe garantiu presença na Libertadores – faltam apenas alguns pontinhos. Desta vez, por estar de corpo presente na Arena, na minha estreia neste palco impressionante do futebol, até poderia tratar da bola rolando com mais precisão do que quando assisto aos jogos pela televisão. Mas não haveria espaço para tal diante das emoções que senti desde que cheguei à capital gaúcha e especialmente à arena gremista.

 

Claro que a vitória renderia um ótimo papo com você, pois foi construída a partir de dois tempos bastante distintos e dois gols que mostraram a categoria do time de Roger – um time que joga com paciência, segurança e talento, mistura que às vezes é difícil de ser entendida pelo torcedor. O primeiro dos gols, aliás, foi obra prima, pois se iniciou com a visão de jogo e o passe preciso de Douglas, o drible de categoria e a humildade de Luan, coisa rara no futebol competitivo que temos, e, claro, a velocidade e oportunismo de Everton. O segundo, valeu também pelo conjunto da obra, mas gostei muito de ver a calma do atacante Bobô para escapar da marcação e tocar a bola distante do alcance do goleiro.

 

Como disse, porém, não vim aqui falar de futebol. Quero falar de vida!

 

A partida desse domingo foi o presente de 80 anos que escolhi dar ao pai, que, convenhamos, não requer mais apresentações. Foi ele quem me ensinou ser gremista – entre outras tantas coisas boas que fez por mim na vida. Nunca havíamos assistido ao Grêmio na Arena e eu fazia questão de lhe proporcionar este momento levando-o até lá, assim como ele me levou de mãos dadas algumas centenas de vezes ao Estádio Olímpico. E não fomos sozinhos. Estavam lá filhos e netos. Queríamos que fosse um momento especial. E foi muito mais do que isso.

 

Velhos conhecidos o paravam para saudá-lo enquanto caminhávamos até o espaço reservado para assistir ao jogo. Entre abraços havia lembranças das épocas de narrador, e na voz de quem o cumprimentava a saudade dos tempos do Milton Gol-gol-gol Jung! Ouvir o locutor do estádio anunciar os gols da partida com os três gritos repetidos que se transformaram em sua marca parecia mais do que uma coincidência: soava como exaltação. Aliás, os gols – que não tinham como estar programados para a festa, mas que foram muito bem-vindos – me deram a chance de vibrar ao lado do pai mais uma vez como fizemos tantas outras no passado. Dei-lhe um abraço com a alegria que as vitórias costumam nos oferecer. Não esta que o futebol nos proporciona, já que esta é fugaz. Refiro-me a vitória que é estar vivo para compartilhar nossas alegrias em família, mesmo diante de todos os percalços que a vida nos impõe. Vê-lo sorrindo e com o olhar brilhando e ter filhos e netos ao lado dividindo a mesma emoção foi muito especial.

 

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Ao fim do jogo novas emoções nos esperavam, pois a direção do Grêmio o recebeu para cumprimentá-lo e lhe presenteou com uma camisa do clube. Lá estavam o presidente Romildo Bolzan, o vice-presidente de futebol César Pacheco, o supervisor Antônio Carlos Verardi – companheiro dele de antigas batalhas -, o diretor executivo de futebol Rui Costa dos Santos e o técnico Roger Machado, que antes de seguir para a entrevista coletiva foi apertar-lhe a mão. Assim como eles, antigos funcionários do clube também passaram para trocar algumas palavras e demonstrar admiração. Confesso que não sei se o pai percebeu a dimensão daquele gesto, pois ele sempre foi comedido nestes momentos, mas posso garantir que, assim como meus irmãos e os netos dele, assistimos a tudo com muito orgulho.

 

Obrigado, Grêmio! De todas as alegrias que você me deu até hoje, nenhuma poderia ser maior do que o respeito demonstrado ao pai.

Avalanche Tricolor: mais um ponto ganho no caminho para a Libertadores

 

Vasco 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Maracanã

 

Giuliano é um dos talentos gremistas (foto site oficial do Grêmio)

Giuliano é um dos talentos gremistas (foto site oficial do Grêmio)

 

Futebol de resultado foi expressão cunhada para explicar o jogo jogado por times que tinham como meta marcar pontos a cada partida e a qualquer preço, e neste “qualquer” cabe o anti-jogo, a cera e o poder defensivo se sobrepondo as demais possibilidades.

 

Outro lugar comum que empesta o discurso futebolístico é o tal de jogar com o regulamento embaixo do braço, muito usado para justificar o desempenho de times que podem até se satisfazer com uma derrota desde que esta não lhe tire a classificação.

 

Pautar-se por essas estratégias é sempre muito perigoso. É irritante! Apesar de já termos sido obrigados a encarar essa realidade em outras temporadas.

 

Hoje é diferente.

 

O Grêmio, a seis rodadas do fim do Campeonato Brasileiro, está com sua classificação para a Libertadores praticamente decidida. Mesmo que matematicamente ainda existam riscos, é pouco provável que algo desastroso aconteça na nossa caminhada que tem como objetivo maior a candidatura para a conquista do terceiro título sul-americano.

 

O resultado obtido nesse fim de tarde de domingo ficou de bom tamanho para quem já decidiu qual é a sua meta na competição. Com o empate fora de casa e contra adversário que luta desesperadamente para sobreviver, mantivemos distância segura dos times que vem atrás e consolidamos a posição que nos dá uma vaga direta a Libertadores.

 

Escrevo com esta tranquilidade porque embaixo tem muita gente se engalfinhado ainda sem saber qual será seu destino, enquanto nós seguimos firme e forte lá no alto. Mais do que isso: o futebol planejado por Roger é ofensivo sem abrir mão da sua força defensiva; o time montado por ele tem jogadores de talento que surgem dos dois lados do campo, movimentação lógica na transição da defesa para o ataque e um passe com precisão acima da média. E temos, claro, uma baita goleiro!

 

Mesmo diante dos altos e baixos apresentados nas últimas rodadas, às vezes dentro de um mesmo jogo, o Grêmio está sob controle. Isso não significa que esteja pronto e acabado. Há carências que precisam ser supridas, mas a posição no campeonato permite que o técnico e a diretoria façam essa avaliação e possam planejar a temporada de 2016. Então, não me venham com esta de futebol de resultado ou regulamento embaixo do braço. O que o Grêmio joga hoje é um futebol qualificado.

Avalanche Tricolor: um resultado que não muda absolutamente nada

 

Grêmio 2 x 3 Chapecoense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Walace é um dos novos talentos em busca de experiência (foto do álbum do Grêmio Oficial no Flickr)

Walace é um dos novos talentos em busca de experiência (foto do álbum do Grêmio Oficial no Flickr)

 

Há algumas rodadas ensaiei, nesta Avalanche, contagem regressiva para o título, uma aposta de que teríamos condições de, em uma arrancada fulminante, atropelar os adversários que estavam à frente, baseada no futebol qualificado que temos apresentado neste campeonato. Claro que era muito mais uma ação inspirada na crença do torcedor do que na lógica da competição, a medida que os times que brigam diretamente pelo título vêm mostrando muito equilíbrio e maturidade em suas atuações até aqui. Precisaríamos contar com o acaso, com a sorte, com tropeços inesperados, além de nos apresentarmos com desempenhos bem acima da média – sem isto, aliás, nada seria possível.

 

Foi também aqui nesta Avalanche que compartilhei com você, caro e raro leitor, o prazer de assistir ao time do Grêmio em campo por seu futebol envolvente, troca de passes precisa, movimentação veloz de seus jogadores, domínio do jogo graças a posse de bola, e bola possuída graças a marcação eficiente. Coisa bonita de se ver, que há muito não se via no time gremista.

 

O Grêmio cresceu muito rapidamente de produção nesta temporada e se transformou desde a chegada de Roger, em maio. Algo surpreendente devido a contenção de despesas e carência de contratações. Diante disso, é justificável que alguns de seus talentos reflitam em campo a falta de experiência e apresentem desempenho com oscilação, especialmente nos momentos decisivos. Aceite ou não, a inteligência emocional influencia no esporte. Portanto, como também já havia escrito por aqui, entendo que alguns resultados negativos têm de ser postos na conta da falta de maturidade de um time que vem sendo construído com jovens talentos.

 

Sei que alguns de nós vamos explicar o revés deste fim de tarde de domingo culpando este ou aquele jogador, identificando falhas nas escolhas feitas pelo técnico ou na postura adotada pelo time no segundo tempo, mas quero deixar claro, em alto e bom som (se é que isso fosse possível em um texto escrito), que a derrota nesta rodada não muda absolutamente nada na minha forma de pensar e ver o Grêmio jogar. Aliás, não muda nada na trajetória gremista para conquistar o que realmente sonhamos conquistar: a Libertadores no ano que vem – quando, então, teremos um time com mais quilômetros rodados e, portanto, com experiência para saber “matar” com um jogo no qual conseguiu colocar dois gols de vantagem sobre o adversário.

Avalanche Tricolor: a força do Grêmio na Era Roger

 

Grêmio 1 x0 Santos
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Encerrado o primeiro tempo, os jogadores escalados para a entrevista fizeram sua análise sobre o resultado até aquele momento. O Grêmio já vencia por um a zero e surpreendentemente com um gol na cobrança de escanteio e de cabeça, coisa pouco comum na Era Roger – desculpe-me se batismo este momento desta forma, posso até estar parecendo muito entusiasmado, mas há motivos para acreditar que a mudança de comportamento e na forma de jogarmos futebol, que se iniciou com a chegada do técnico, em maio deste ano, perdure por um bom tempo.

 

Bressan, autor do gol, disse que sua conquista foi resultado do trabalho coletivo e, especialmente, do treino feito por Roger um dia antes da partida, na qual insistiu nas cobranças de escanteio. Fiquei surpreso, pois há algumas semanas ouvi do próprio treinador, em entrevista ao programa Bola da Vez, na ESPN Brasil, que, historicamente, o aproveitamento destes lances é baixo e com as características dos atuais jogadores gremistas não adianta ficar insistindo em bolas pelo alto. Mas Roger sabe que se os jogadores certos estiverem no lugar certo no momento certo, o gol pode sair por ali.

 

Renato, capitão adversário, além de sair de campo reclamando injustamente do árbitro que supostamente não havia marcado irregularidade no lance do gol, afirmou de forma categórica que o Santos já sabia que o Grêmio é forte na “bola parada” (expressão que uso entre aspas porque não concordo com ela). Deixou muito claro que estavam fazendo a leitura errada do jogo.

 

O Grêmio, apesar desta noite ter vencido com gol marcado após cobrança de escanteio, é forte na bola tocada, e não na bola parada.

 

Durante toda a partida, ao menos durante os momentos em que dominou a partida, o Grêmio, como sempre tem sido na Era Roger, tocou muito bem a bola de pé em pé, graças a velocidade com que seus jogadores se deslocam no gramado e a forma como conseguem se aproximar para dar opção de passe. É assim que o Grêmio impõem perigo ao adversário, que se não for capaz de conter este domínio de bola vai ser surpreendido com um atacante na cara do gol, como ocorreu desde os primeiros minutos do jogo de hoje. Como nem sempre essas jogadas resultam em gol, às vezes se transformam em escanteio e aí sim valem os treinos de posicionamento dentro da área, realizados por Roger.

 

O que quero dizer depois de toda esta ladainha é que apesar de o Grêmio ter vencido hoje com um gol de cabeça após cobrança de escanteio, o que faz o Grêmio superior aos seus adversários, ao menos superior a maioria de seus adversários, é a bola que corre na grama com precisão, velocidade e muita categoria. Isso faz o Grêmio diferente. A “bola parada” é apenas mais um detalhe.

 

Mas deixe que pensem ao contrário, pois enquanto continuarem querendo impedir gols de “bola parada” continuaremos vencendo com a bola (muito bem) tocada.

Foi um prazer conhecer Roger

 

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Conhecia Roger como ídolo da época em que jogava. Depois, como admirador pelo trabalho que vem realizando no comando técnico do Grêmio. A ESPN Brasil me ofereceu a oportunidade de ser apresentado pessoalmente a ele ao me convidar para entrevistá-lo no programa Bola da Vez, ancorado pelo polivalente Dan Stulbach, também meu colega de rádio CBN, e com participação do comentarista Mauro Cezar. Tanto quanto a conversa que foi ao ar na noite de terça-feira, o bate-papo que tivemos fora do programa foi enriquecedor.

 

Falamos muito de futebol, mas não somente sobre ele. Conversamos sobre momentos da infância e dificuldades superadas, que forjaram seu caráter e revelaram sua personalidade. Descobri um pai de família zeloso que, ao parar de jogar, entendeu que a mulher, dedicada a ele nos 17 anos em que esteve dentro de campo, merecia ter seu espaço para retomar a carreira profissional. Pai que não permite que suas meninas, com 7 e 9 anos, assistam à televisão sem que os programas sejam pré-selecionados. Nem entrega nas mãos delas computador e celular pois pretende manter o controle sobre o conteúdo que elas recebem.

 

Ao chegar na sala de espera da ESPN, Roger preferiu ficar em pé, posição que lhe oferecia mais conforto diante da dor provocada por três hérnias de disco que tendem a lhe incomodar, principalmente em momentos de pressão. Trata a situação com a mesma aparente calma que orienta seus jogadores no vestiário. Disse que jogar bola é sentir dor: “quando acordava sem dor, dava uma canelada no pé da cama, porque senão algo não estava normal naquele dia”.

 

Tentei descobrir o que o tirava do sério, pois mesmo na tensão do jogo tendia a falar baixo. No ar, falou pouco sobre o assunto. Fora dele, deixou claro que jogador desleixado o faz perder a paciência. A impressão que tive é que a falta de compromisso de alguns atletas, o remete a situações vividas no passado. Mesmo nessas situações, contudo, é capaz de refletir sobre sua reação, discute a situação com a mulher, especialista em recursos humanos; se precisar, vai ao divã, pois há anos realiza terapia. E se perceber que exagerou, pede desculpas, pois sabe que a humildade tem de ser exercida especialmente pelos que assumem posto de liderança.

 

Aliás, uma das coisas que me chamaram atenção na fala e comportamento de Roger foi a visão estratégica que tem da vida – do futebol, também, mas isto nós já sabíamos, haja vista o desempenho do Grêmio na competição. Planejou sua carreira, estabeleceu metas para cada dez anos, identificou o momento de parar de jogar, e determinou que se em cinco anos não fosse técnico de um grande clube brasileiro trocaria de profissão. Tem agora outras metas: ser campeão pelo Grêmio até o ano que vem, quando vê boas perspectivas para o time, isso se não conseguir diminuir a diferença para o Corinthians já este ano, no Campeonato Brasileiro. Deixará a carreira aos 55 anos de idade, mas ainda não decidiu o que fazer. A persistirem os sintomas, se transformará em gerente ou dono de algum clube de futebol.

 

Mostrou-se entusiasmado quando lhe entreguei um exemplar do livro “Comunicar para liderar”, que escrevi em parceria com a fonoaudióloga Leny Kyrillos. Prometeu “devorá-lo” no voo de volta a Porto Alegre, pois o uso da comunicação nas relações interpessoais, disse Roger, tem sido tema de muitas conversas entre ele a mulher, em casa. Torço para que tenha lido e aprovado. Deixou claro que dá muito valor a palavra, além de valorizar o vocabulário. Sabe que mal colocada pode causar problemas de relacionamento no grupo. Mas quando usada com precisão, é capaz de transformar comportamentos.

 

Uma das histórias do futebol que me chamaram atenção foi quando contou sobre a conversa que teve com Douglas para mostrar a utilidade do camisa 10 no time, inclusive na marcação, pois nosso mais talentoso jogador do elenco tem capacidade de recuperação e controle do espaço, o que provoca erros de passe do adversário. Valores que as estatísticas não mostram e parte da torcida gremista não reconhece. “O que falam e pensam do nosso trabalho, não temos controle, o que você pensa sobre você mesmo, isso você é capaz de controlar”, disse o técnico em ensinamento que vale para Douglas, para mim e para você. E, claro, serviu muito para aquela equipe que encontrou desacreditada e colocou entre os melhores times do futebol brasileiro.

 

Aos caros e raros leitores que deixaram sugestões de perguntas, aqui e no blog do Imortal Tricolor, antes de mais nada agradeço pela colaboração. Muitas não puderam ser feitas e algumas foram atendidas no decorrer da conversa, como a que explica o baixo aproveitamento nas cobranças de falta e escanteio. Também respondeu aos que cobram o aproveitamento de jovens talentos na equipe principal mostrando que o percentual de garotos é alto, e mais não põe no time porque entende o risco que correm ao serem expostos sem estarem devidamente amadurecidos.

 

A pedidos, perguntei sobre a ansiedade do torcedor na busca de títulos e quanto isso poderia atrapalhar a construção do time para o ano que vem. Prefere usar esse desejo que considera justo, por gremista que também é, como motivador para a equipe. Por falar em ser gremista, foi perguntado quem é o melhor técnico que conhece e não titubeou: Tite. Quem é o melhor time: o Grêmio. E você treinaria o Inter? Disse que tem uma relação histórica com o Grêmio e, acrescentou: me preparei para treinar grandes times (entenda como quiser essa resposta).

 

Foi um grande prazer, Roger!

 

Aqui você assiste ao Bola da Vez com Roger Machado

Avalanche Tricolor: consolidados na vaga da Libertadores, ganhamos um ponto

 

Cruzeiro 0x0 Grêmio
Brasileiro – Mineirão

 

Meu velho time de botão da década de 70 reforçado pelo goleiro Danrlei

Meu velho time de botão da década de 70 reforçado pelo goleiro Danrlei

 

Fui colecionador de times de botão, esporte que era muito praticado antes do surgimento dos jogos eletrônicos conquistarem a garotada com as franquias do Fifa e do PES – Pro Evolution Soccer. Claro que os botões com as cores gremistas eram os que mais faziam sucesso na minha mesa com vitórias heróicas sobre os adversários. Um deles também tinha o azul em destaque, era o do Cruzeiro, time que havia sido comprado pelo pai, se não me engano devido a admiração que ele tinha pelo volante Piazza.

 

Era uma época em que as informações não circulavam com a mesma velocidade de hoje nem era possível assistir aos jogos pela televisão com a mesma frequência. Mas os mineiros tinham conquistado a Libertadores e disputado o Mundial de Clubes, naquele tempo chamado de Copa Intercontinental, quando foram vencidos pelos alemães do Bayer de Munique. Talvez isso tenha levado o pai a encomendar o time de botão do Cruzeiro. Se não me engano, aquele time segue por aí guardado em alguma gaveta entre Porto Alegre e São Paulo.

 

Os tempos mudaram, o Grêmio já até foi campeão mundial enquanto seu adversário ainda não foi capaz de alcançar esta glória. Jogar botão não é mais uma prática tão comum, ao menos para mim, apesar de ainda ser possível encontrar muitos adeptos e minha mesa estar armazenada no depósito de casa. De qualquer forma, as partidas lá em Minas são sempre complicadas, especialmente depois da sequência de títulos que o adversário conquistou no Brasil. E hoje não seria diferente, a começar pelo fato de estarmos enfrentando um daqueles técnicos que admiramos: Mano Menezes, chegado recentemente à equipe de Belo Horizonte.

 

Muitas vezes quando empatamos é comum dizermos que perdemos dois pontos, mas, pelas circunstâncias da partida, arrisco dizer que ganhamos um. Sei lá por quais motivos, atacamos pouco e chutamos menos ainda. Foram apenas duas tentativas no gol adversário e em cobranças de escanteio finalizadas pelo zagueiro Geromel, que voltou ao time (será coincidência que ele voltou e não tomamos gol apesar da pressão sofrida?).

 

Aquela troca de bola precisa e movimentação veloz de nossos jogadores não se repetiram. Fomos incapazes de superar a marcação no meio de campo, coisa que já fizemos contra times muito mais competentes neste campeonato. Até parecia que ainda estávamos de ressaca dos acontecimentos do meio de semana.

 

Bem que Roger fez suas tentativas ao colocar no time, no segundo tempo, Fernandinho, Bobô e Max Rodriguez. Mesmo assim, nosso desempenho ficou aquém do nosso potencial. Menos mal que lá atrás nos mostramos firmes e fortes, reduzindo ao máximo o risco de gol.

 

Alguém haverá de lembrar que desperdiçamos a chance de nos aproximarmos do líder, mas jamais devemos esquecer que se há um título que queremos, este será disputado ano que vem na América, não no Brasil. E, a nove rodadas do fim do Brasileiro, estamos cada vez mais consolidados na vaga que nos credenciará a disputar a Libertadores, campeonato que na época dos meus times de botão jamais imaginara ter o direito de vencer.

 

Obs: nessa terça-feira, o técnico Roger será o entrevistado do programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, e eu estarei na bancada de entrevistadores. Se você tiver alguma curiosidade e quiser fazer perguntas a ele, pode deixar registrada aí nos comentários.

Avalanche Tricolor: como assim, o que nos resta é a Libertadores?

 

Grêmio 1×1 Fluminense
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

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O que nos resta é a vaga na Libertadores … Opa, que história é essa? Desde quando falamos em Libertadores neste tom de lamento quando nascemos para a Libertadores. Forjamos nossos caminhos pelos campos duros do interior do Rio Grande, subimos a Serra, invadimos o Pampa, atravessamos fronteiras e tomamos o Brasil, apenas porque queríamos ter o direito de conquistar a América.
Então, meu amigo, caro e raro leitor desta Avalanche, deixe de lamentações.

 

É claro que ter perdido a classificação à semifinal da Copa do Brasil em casa por não termos marcado gols fora de casa é sempre muito ruim. O resultado, porém, precisa ser analisado com a frieza que os minutos seguintes à desclassificação não permite. Entender o que impediu que a bola chegasse em condições de marcamos gols ou por que quando esta chegou até lá não entrou.

 

Azar? Jamais. Detalhe? Às vezes. Falta de precisão? Com certeza. Imaturidade? É algo a se pensar.

 

E por que falo na falta de maturidade? Porque temos de ter na nossa perspectiva a ideia de que iniciamos um ano com um time desmontado, mesmo que motivado pela relação emocional com nosso treinador na época. Vivenciamos uma reviravolta com a descoberta das qualidades de Roger e seu novo olhar na forma de jogar e se posicionar em campo. Recuperamos jogadores, revelamos outros, redescobrimos uma trajetória vencedora que nos colocou em uma privilegiada condição dentro da maratona que é o Campeonato Brasileiro. Mas é incontestável que este jogo que estamos jogando precisa amadurecer, ter suporte no plantel para que não se perca qualidade nas trocas necessárias, e reforçar alguns setores diante do desgaste natural.

 

Assim como aconteceu na época em que Mano Menezes levou o Grêmio à final da Libertadores, pouco tempo depois de nos recuperarmos da Batalha dos Aflitos, hoje, também, o time foi muito além do que estava planejado. Chegou à reta final antes da hora e por seus próprios méritos, diga-se. Produz muito mais do que a maioria de nós desenhava após os primeiros passos na temporada. E, principalmente, produz muito mais do que a maioria dos seus adversários, inclusive aquele que enfrentamos na noite de ontem, mas que, por circunstância do regulamento, nos superou no mata-mata.

 

Copa do Brasil e noves foras, o Campeonato Brasileiro está aí no nosso caminho e resistir ao assédio dos que tentam tirar nossa posição é preciso. Se os resultados paralelos colaborarem, por que não pensar em ir além, mesmo que o time ainda tenha de crescer e aprender a ser decisivo também nos momentos decisivos? Você e eu estamos ansiosos por um título, com certeza, mas não se pode perder de vista que temos de estar prontos é para vencer a Libertadores no ano que vem e, portanto, conquistar o direito de disputá-la e aproveitar o ano que nos resta para deixar o time mais “cascudo”.