Bolsonaro e a Branca de Neve

 

Por Carlos Magno Gibrail

Jair Bolsonaro, deputado federal PP RJ, reeleito para mais um mandato, aconselha em programa da TV Câmara em pauta da Comissão dos Direitos Humanos:

“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele”.

E complementa:

“Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”.

O programa “Participação Popular” da TV Câmara quinta feira em rede nacional, contou com a presença do presidente da Frente Parlamentar da Criança e do Adolescente, Paulo Henrique Lustosa, e discutia a Lei da Palmatória. Bolsonaro representava a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara Federal.

A repercussão levou o deputado Bolsonaro à mídia, que sem cerimônia continuou no tom:

“Se o garoto anda com maconheiro, ele vai acabar cheirando, e se anda com gay, vai virar boiola com toda certeza”.

Na Rede TV, Bolsonaro, em programa para debater o episódio da TV Câmara, em dupla com Beto de Jesus, diretor da Associação de Gays e Lésbicas, ao se apresentar, perguntou:

“Vocês gostariam de ter um filho parecido comigo ou com ele”?

Arroubo de vaidade, plagiando a rainha invejosa da Branca de Neve em diálogo com o espelho, ou a saída do armário do Coronel Fits em Beleza Americana?

O preconceito em si esconde a relevância maior, tal qual nas boas películas, cujo roteiro e interpretações superam o fato.

Os vários mandatos de Bolsonaro são coerentes com os eleitores que representa. O incoerente é um deputado que apoiou a tortura de presos, considerou Vinicius de Morais um traidor, achou que o massacre dos 111 do Carandiru devesse ser 1000 e que pediu o fuzilamento de FHC quando presidente, pertença à Comissão de Direitos Humanos e Minorias como um de seus membros.

Esperemos que hoje, data marcada para o julgamento de Jair Bolsonaro, a CDHM Comissão de Direitos Humanos e Minorias, não decida de modo extremo e naturalmente afaste-o, pois como extremista não cabe em tão nobre entidade cujo objetivo é proteger as minorias da ação dos extremistas.

Carlos Magno Gibrail ė doutor em marketing de moda e, às quartas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

O cinema triunfa na Paulista

 

Por Carlos Magno Gibrail

Em outras regiões da cidade e do planeta terra, o cinema ao vivo tem ajudado a restituir ao mundo a verdade do mundo. É o que vimos há uma semana, quando um jovem foi agredido no rosto por outro jovem com lâmpada fluorescente.

Até então o grupo do agressor, apoiado por pais e advogados, inventaram situações e acusações infundadas. Bastou a imagem gravada para um dos advogados de defesa conscientizar-se e sair do caso. É bem verdade que mesmo diante da cena irrefutável houve quem discutisse o real, o que comprova a mente distorcida orquestrada pela ética disforme, que criou e desenvolveu comportamento tão desequilibrado nos jovens provocadores.

A enorme repercussão do fato gravado foi do tamanho da sua gravidade, todavia o foco de homofobia, embora relevante, não é o mais importante. O contundente é a agressão em si, gerada do nada ou do tudo. Vindo de meninos com instrução e famílias constituídas.

Esta complexidade deve ser estudada, principalmente para verificar se não é a resultante daquelas escolas cujos pais exigem que os filhos sejam tratados como clientes. E, como tal, sejam os “donos” dos colégios.

Menos complexa, mas tão importante quanto à psicologia do caso é a questão do uso generalizado das câmeras sob o aspecto legal e ético.

A cidade de Londres que previne e pune o crime com a maior quantidade urbana de câmeras do mundo; pesquisadores como Paco Underhill, que formou uma teoria do varejo através das câmeras; esportes como a Fórmula1 e o Tênis, que impedem injustiças nas competições milionárias com repetição de lances duvidosos; assim como uma série de residências, condomínios e empresas que têm tido sucesso na segurança com as câmeras de gravações, são exemplos para análise desta controvertida questão da invasão de privacidade dos cidadãos.

O dinheiro na meia, o dinheiro na bolsa e depois a reza, a mini saia da Uniban e a grande quantidade de babás espancando bebês mundo afora, foram protagonistas de casos que sem elas não existiriam.

O Rodeio das Gordas por falta de imagens gravadas ainda preenche muitas telas eletrônicas de relacionamento.

A FIFA, entidade dirigente do esporte mais popular do mundo, quanto mais expande seu império mais teme as câmeras. Certamente para manter o simulacro tão bem alicerçado do poder centralizado e estimulador para as demais confederações afiliadas. A ponto dos atores principais, os futebolistas, adotarem o mesmo e progressivo papel de simuladores absolutos. Chegam a trocar os pés pelas mãos, até mesmo para vagas no supremo torneio da entidade.

As cidades, cada vez mais populosas, deveriam prevenir e punir a criminalidade urbana como prioridade, sem receios de cerceamento pelas imagens.

É hora de repensar a liberdade de gravar e ser gravado. O cinema poderá ser bem-vindo neste cenário urbano contemporâneo. Reproduzindo o cotidiano com suas tragédias, dramas, farsas e comédias. Cinema ao vivo, para todos e para tudo.

Graças a ele, a promotora da Infância e Juventude Ana Lunardelli decretou ontem a internação dos quatro adolescentes envolvidos na agressão da Avenida Paulista na Fundação Casa por tentativa de homicídio e lesão corporal.

O pedido foi motivado “pelas imagens divulgadas pela polícia”. Sem elas, os agressores, libertados, arquitetavam a defesa com a imaginação que a ausência de imagem permite.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Chove chuva, chove promessa, chove desculpa, chove…


Por Carlos Magno Gibrail

Enchente em São Paulo

E enche. As enchentes que abalam grande parte das metrópoles brasileiras são resultado de um longo processo de modificação e desestabilização da natureza por forças humanas. As várzeas foram ocupadas e impermeabilizadas, as árvores escassearam e o progresso que foi instalado não trouxe a compensação natural.

A adequação das dimensões de todo o sistema de escoamento das águas não foi realizada e os piscinões que poderiam equilibrar parte do processo não foram executados em quantidade desejável.

Ou seja, a atualização das medidas necessárias para bocas de lobo, bueiros e canalização de águas pluviais não foram planejadas nem efetivadas. Isto significa que estes equipamentos não atendem ao volume de águas atuais. Como sabemos as chuvas de hoje são maiores daquelas de antes pelo desmatamento, inclusive da Amazônia, e pelo aquecimento global. E a população aumentada não cuida e entope estes escoadouros com lixo e detritos orgânicos.

Contamos ainda com três milhões de pessoas que vivem em áreas de risco.

É por isto que com duas chuvas em véspera de verão a cidade de São Paulo já teve mortes por enchente.

As ações preventivas não foram completadas. Ficaram nas promessas. Menos mal que há uma semana tivemos a aprovação unânime no Senado da Medida Provisória 494 que trata da liberação de recursos da União para atender casos de calamidade pública, sem exigir trâmites burocráticos convencionais. Esta medida que será apresentada ao presidente da república para sanção, cria o SINTEC Sistema Nacional de Defesa Civil, que deverá receber todo o mapeamento nacional das áreas de risco.

Nesta linha de levantamento, a Prefeitura de São Paulo está concluindo um sistema que irá permitir avisar os três milhões de moradores que estão em área de risco. Através de quatro a cinco mil líderes comunitário informará com antecedência a chegada de chuvas pelo SMS dos celulares. O problema ainda assim não estará resolvido porque a imprecisão é comum no verão. Nesta ;ultima chuva às 20h previu-se chuva forte no sul e o vento mudou para o centro e o norte da cidade de São Paulo, onde às 22h começou a chover.

É a resolução do problema começando pelo efeito e não pela causa. Nas próximas eleições será melhor tratar de temas pertinentes às grandes necessidades coletivas e públicas e deixar religião e preconceitos individuais para as igrejas e demais comunidades. Antes disso deveremos refletir sobre dados como os mais de 50% de financiadores desta última campanha terem sido as empresas envolvidas na construção civil. Não se sabe, entretanto para quem e de quem foi o dinheiro doado.

É chover no molhado? Espero que não.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Morumbi para muitos e para poucos

 

É Morumbi: Casa de Vidro, Oscar Americano e Praça Vinicius de Morais


Por Carlos Magno Gibrail

Muitos têm destacado Paraisópolis e sua imensidão; o estádio possível de abrir a Copa e as controvérsias com a FIFA, o SPFC e os moradores; o monotrilho; a explosão imobiliária vertical; a discussão em torno da possível saída da sede do Governo Estadual do Palácio dos Bandeirantes; as festas em casas de aluguel temporário e também a criminalidade.

Poucos sabem ou fingem ignorar os benefícios advindos das características urbanas e florestais da região. Uma invejável área onde as construções estritamente horizontais e arborizadas propiciam uma qualidade de vida exemplar. Bom para os moradores e benéfico para toda a cidade.

É um balanço desfavorável, mas ainda assim a notoriedade da marca Morumbi não só permanece como potencializa acontecimentos negativos sem a contra partida dos positivos.

Em 2010 ocorre uma concentração de ameaças às qualidades do bairro. Prefeitura e Estado se esmeraram em colocar na berlinda os encantos da área Oeste (ou Sul?) do município. Além dos políticos eleitoreiros e das construtoras.

Estas fazem parte dos poucos que conhecem as vantagens e fizeram com os 8mil apartamentos comercializados nos 3 últimos anos o maior crescimento da cidade. Não ignoraram inclusive a renda média familiar de 14mil reais, como também não ignoram que a predominância de casas e mansões residenciais ainda existentes será em breve transformada. Exatamente pela verticalização que tanto explora as características originais de casas e mansões para vender apartamentos.

Esta preocupante tendência começa a tomar corpo quando a imprensa propõe matéria sobre o que há de melhor no Morumbi e, ao destacar o crescimento vertical esquece-se da Fundação Oscar Americano, da Casa de Vidro, da Casa da Fazenda, da Praça Vinicius de Moraes, mas destaca Paraisópolis com seus 74% de moradores que trabalham ali mesmo, e os apartamentos que invadiram e invadirão o bairro. É só conferir nas bancas a Veja SP.

Entretanto, o Morumbi poderá ter mais sossego, na contribuição aleatória de Andrés Sanchez, levando para Itaquera a abertura da Copa e a VEJA SP informando a Goldman e Kassab que 74% de Paraisópolis não precisam do monotrilho.

Uma sorte e tanta, pelas mãos do inimigo declarado e da rala matéria sobre tão nobre bairro.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve toda quarta no Blog do Mílton Jung

O uso do celular no avião

 


Carlos Magno Gibrail

O vôo Porto Alegre – São Paulo, na quinta-feira, permitiu e estimulou os passageiros a usarem seus celulares para contatos familiares e profissionais. No Air Bus A312 a TAM passa a disponibilizar o uso através dos Smartphones para ligações telefônicas, SMS, internet e demais conexões eletrônicas, até então apenas possíveis em terra. É a primeira companhia brasileira a utilizar a aprovação da ANAC para os serviços de telefonia e internet nos aviões com SMP serviço móvel pessoal.

De acordo com a Diretoria de Marketing da TAM na palavra de Manoela Amaro: “O uso de celular a bordo foi uma demanda detectada por meio de pesquisas com nossos passageiros que desejam estar conectados ao trabalho, à família e a amigos enquanto viajam”.

A percepção que se tem é que o Comandante Rolim buscava sempre a diferenciação com base no conforto dos passageiros. A questão é saber que público dentre os principais segmentos de estilo de vida dos passageiros da TAM , que a Manoela Amaro está atendendo, ao liberar o uso do celular. O seu pai, pelo feeling, talvez nem precisasse de sistemas de pesquisa, pois diuturnamente estava atendendo em Congonhas os passageiros até o embarque, na escada dos aviões, em cima do tapete vermelho, ao lado do comandante e da chefe de serviço da aeronave. “Boa viagem, Gibrail” foi o que ouvi inúmeras vezes.

A ANAC certamente ao promulgar a liberação do uso do celular levou em conta fundamentalmente o aspecto tecnológico, já testado e aprovado. A OnAir , fornecedora da TAM, aplicou em 135 mil vôos em 356 cidades e 83 países. O serviço permite que apenas oito passageiros utilizem os celulares para ligações telefônicas ao mesmo tempo. Não há restrições para envio de torpedos nem no número de passageiros acessando a internet por meio de smartphones.

Esqueceram apenas de perguntar aos passageiros. Ou, com a “barriga no balcão” como Rolim fazia, ou com a metodologia que permitiu que 0,004% do universo de eleitores brasileiros pesquisados pudesse projetar o resultado de mais de 130 milhões de votos.
Nos Estados Unidos, alerta dado pelos comissários de bordo através do sindicato de classe, levou o Congresso a proibir o uso dos celulares em função da liberdade individual dos cidadãos. Ao mesmo tempo inúmeras pesquisas demonstram que os americanos apoiam a manutenção da proibição.

A FCC Comissão de Comunicações dos Estados Unidos em Washington proíbe o uso de celulares em aviões, em parte devido a algumas preocupações não resolvidas sobre possíveis interferências nos sistemas de telefonia e demais equipamentos de navegação das aeronaves.

O presidente da OnAir, Benoit Debains rebate: “Nos Estados Unidos a situação tem um aspecto emocional forte”, porque segundo ele o ruído normal do vôo não deixa os demais passageiros ouvirem o usuário falando.

As restrições de poucas aeronaves, poucos usos simultâneos e tarifas altas, logo deverão ser ultrapassadas e certamente estaremos diante de um ambiente insuportavelmente poluído.

Como historicamente no embate entre as grandes corporações e os indivíduos, as primeiras sempre vencem, há duas saídas para os que querem sossego nos voos. Separação entre usuários e não usuários ou chegada dos novos consumidores, hoje em fase de gestação. Aqueles que Nizan Guanaes descreve em artigo de ontem na Folha como “os escritores de celulares”. O escrito se sobrepondo sobre o falado no aparelho destinado originalmente à fala.

O torpedo não interrompe reuniões, exige menos firulas, propicia linguagem direta, é mais eficiente, serve mais, incomoda menos. A tese de Guanaes tem coerência, ressência, é contemporânea e pode se adiantar a massificação do celular em aeronaves. E estaremos protegidos.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve as quartas no Blog do Mílton Jung

Crime e aborto eleitorais

 

Por Carlos Magno Gibrail

A criminalização do aborto em 1966 custou ao ditador Nicolae Ceausescu da Romênia, 23 anos depois, uma revolta encabeçada pela juventude, que em boa parte não teria nascido se o mesmo não tivesse sido proibido. Ceausescu foi o único líder comunista do colapso soviético que teve morte violenta. As eliminações do aborto e do controle da natalidade contribuiram para o aumento da população, e as crianças nascidas a partir daí tiveram menos educação e mais pobreza.

A descriminalização do aborto em 1973 nos Estados Unidos gerou 20 anos depois e, até hoje, uma queda significativa no índice de criminalização do país. “Quando o governo dá a uma mulher a oportunidade de escolha quanto ao aborto, ela em geral pondera corretamente se está ou não em condições de criar bem o bebê”.

Estes fatos estão contidos no “Best-Seller” do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner: “Freakonomics” lançado em 2005. Embora embasados em argumentos correlacionados com dados estatísticos e lógica estimulante, as conclusões sempre poderão ser questionadas. O que não se contrapõem é o fato do tema ser mais bem esmiuçado à luz da técnica, da ciência e da crença individual.

O coletivo, o público e, principalmente, o oportunismo eleitoral sempre serão um empecilho para a coerência das conclusões em temas pessoais, envolvendo liberdade e cidadania.

É por isso que jornalistas e analistas políticos estão criticando Dilma e Serra pela falsidade e oportunidade de retroceder na maturação do processo eleitoral brasileiro.

Fernando de Barros e Silva lembrou o episódio de Boris Casoy inquirindo FHC: “Senador, o senhor acredita em Deus”?

Ruy Castro em “Conversões Tardias” declinou-se condenado às labaredas do inferno ao comparar a postura dos candidatos com a ficha religiosa que possui.

Claudio Abramo ressaltou a proeminência dos temas homossexuais e do aborto em detrimento dos grandes assuntos públicos, chamando atenção pela inversão: “O que é privado se discute em público e o que é público se discute em privado”.

Ricardo Melo em seu artigo “Império da mentira” louva as formalidades eleitorais, pois revela pessoas, porque ambos os candidatos foram ateus e eram a favor do aborto, mas hoje ou mentem ou converteram-se momentaneamente.

Benjamin Moser, norte americano, apela para copiarmos a Argentina e Portugal (que vergonha!), que atribuem igualdade para todos no casamento e opina que os atuais candidatos não estão demonstrando a coragem necessária para enfrentar preconceitos.

Entretanto esta contemporânea dramaturgia eleitoral que nos aflige talvez não fosse tão ruim se tivéssemos escolhas reais com diferenças perceptíveis.

Esperamos que a velha máxima do futebol que treino é treino e jogo é jogo possa prevalecer e qualquer dos candidatos que vencer possa crescer.

Mesmo porque, como escreveu José Eli Veiga, Professor FEA USP, seis por meia dúzia, Dilma e Serra nem isso tem de diferente. É seis por seis ou meia dúzia por meia dúzia.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Potência verde e a decisão de Marina

 

Por Carlos Magno Gibrail

“Os brasileiros estão mandando um recado para o mundo”, comemorou o comandante da Conservation International, Russel Mittermeier, expressiva organização ambiental, quando gravava para a BBC, ao saber dos 20% de votos dados à Marina Silva.

Russel, poliglota incluindo o português, primatólogo que conta com a identificação de seis macacos amazônicos, apaixonado pela biodiversidade brasileira, não titubeia ao declarar, como fez à revista Veja do dia 13, que potência econômica que é o Brasil tendo conservacionistas de qualidade e uma parte significativa da população que apóia o meio ambiente, certamente está no “Rumo à potência verde”.

Se Gore quando vice presidente de Clinton calou-se como ambientalista, Marina como ministra demitiu-se, esta pioneira situação de hoje em que a candidata ao mais alto cargo nacional é contemplada com mais de 19 milhões de votos deve preparar um salto para o futuro. É a chance de aliar o desenvolvimento à preservação, como enfatiza Russel ao identificar tais condições neste momento brasileiro.

Marina cresceu ao desconsiderar suas posições principistas contra os alimentos transgênicos ou as células-tronco e admitir plebiscito para questões controversas.

A decisão de neutralidade apresentada ao segundo turno das eleições presidenciais pode ser contestada, mas a inovação de liberdade aos partidários e o refreamento à busca fácil da negociação de cargos futuros, indubitavelmente é uma lição a ser apreendida e aplaudida.

Nem Dilma nem Serra, mesmo com todo oportunismo de caçadores de votos que têm demonstrado, conseguiram sensibilizar ao responder aos 42 pontos condicionantes para que a turma de Marina viesse apoiá-los.

Se Dilma e Serra, vencedores do primeiro turno, não ganharam o apoio da perdedora Marina, o país ganhou uma nova via de pensamento, que pode não ser a melhor, mas certamente beneficiará o processo político nacional.

E isto pode ser comprovado destacando-se algumas das 42 condições para apoio no segundo turno:

– elevação do investimento em educação de 5% para 7% do PIB
– comprometimento de 10% do orçamento federal para a saúde
– aumento para 75% dos domicílios com acesso à rede de esgotos
– desmatamento zero de vegetação nativa e secundária em todos os biomas
– veto a propostas de alteração do Código Florestal que reduzam áreas de preservação obrigatória ou promovam anistia a desmatadores
– não instituição de qualquer mecanismo de tutela ou controle sobre a liberdade de imprensa

Nesta lista não se inclui aumento de salário mínimo nem reajuste para aposentados. Como bem retratou o editorial da Folha de ontem: “Nem a petista nem o tucano acataram a agenda verde com mais convicção do que se entregaram a postiças exibições de religiosidade”.

Curiosa esta situação em que regredimos a um fundamentalismo e obscurantismo do século passado, por candidatos da esquerda dos anos do “Ame-o ou deixe-o”.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Desemprego ganha Nobel

 

Railroad_08

Por Carlos Magno Gibrail


À sabedoria da natureza, que demonstra em seus sistemas que a cura do mal pode ser feita pelo próprio mal, alia-se agora o Prêmio Nobel de Economia.

O Modelo DMP de Peter Diamond do MIT, de Dale Mortensen da Northwestern University e de Christopher Pissarides da London School of Economics, desenvolveu a teoria econômica que apontou a flexibilização do mercado de trabalho para estimular e melhorar a geração de empregos. Isto é, facilitar as demissões irá facilitar as admissões, principalmente se o desemprego não for estimulado com auxílios duradouros.

É um prato e tanto para ser saboreado por Dilma e Serra neste momento de obscurantismo em que o debate presidencial está se encaminhando.
Um pouco amargo talvez para o senador republicano Richard Shelby que impediu a nomeação de Peter Diamond para o FED Federal Reserve, feita por Obama.

O presidente americano certamente buscou Diamond para um dos sete postos do conselho de diretores do Fed e de seu Comitê Federal, que define as taxas básicas de juros, influenciando a atividade econômica e a inflação, porque já sabia o que o economista Paulo Krugman escreveu em sua coluna no The New York Times sobre o trabalho de Diamond: “Trabalho fundamental sobre todo o tema da relação entre o desemprego e a taxa de emprego”.

Uma das conclusões dos premiados do Nobel, é que o mercado de trabalho não funciona como o de produtos, pois oferta e procura não atuam como no caso clássico. Não se encontram na mesma velocidade e com os mesmos custos. Não se amolda também da mesma forma, pois os trabalhadores não estão dispostos a baixar salários na mesma medida que os produtos. Além disso, a mão de obra está sujeita a desmotivação e quando se reemprega pode não desempenhar o suficiente para preencher a necessidade da função.

Na Europa, John Van Reenen, chefe de Pissarides na London School, relata que “ele demonstrou que as regulações do mercado de trabalho, as barreiras ao ingresso no mercado de novas empresas de serviços, as políticas fiscais e previdenciárias afetam as disparidades do emprego em todo o mundo”.
Pissarides defendeu normas mais flexíveis a serem implantadas na Europa e ganhou. Mas não levou, pois segundo Van Reenen: “Essas normas se baseiam nos princípios econômicos corretos, mas que as maiores barreiras à sua implementação decorrem da ausência de vontade política”.

O jornalista econômico Philip Inman do The Guardian reproduzido no Estadão de ontem, discorda: “Esses princípios econômicos “corretos” foram abandonados porque afetam os eleitores comuns”.

A observação importante para os BRICS é que ficam mais fáceis mudanças em início de desenvolvimento do que com estruturas antigas estabelecidas. É uma área em que temos chance de ficar em melhor posição que Rússia, Índia e China. Ou vamos continuar discutindo crenças e normas religiosas?

Obs. A Dinamarca (veja artigo de 17/12/08) comprova a possibilidade da flexibilização.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Imagem de Timothy Vogel do álbum digigital no Flickr

Morumbi em choque

De Pitta à Kassab, passando pelo Governo, a defesa de novo Minhocão


Por Carlos Magno Gibrail

Morumbi, marca urbana das mais respeitadas do país, vê sua população mais tradicional em choque, e em rota de colisão com os trilhos aéreos do Metrô paulistano.

O monotrilho anunciado efetivamente coloca em risco a categoria e os atributos de sua marca, através da ameaça à qualidade de vida da região, cujos moradores planejam colocar em xeque o poder municipal e estadual, para reverter a demolição florestal e concreta que se anuncia. Justamente por parte dos políticos que tanto apoiaram e acabam de eleger. O futuro governador em entrevista à CBN afirmou que apóia e executará o projeto. Embora reportagem da Folha sinalize mudanças em várias Secretarias.

O atual governador ao lançar o edital da linha ouro disse: “Eventualmente o metrô aéreo pode afetar a paisagem de quem vai estar na beira da avenida, mas não é justificativa suficiente para deixar de fazer um metrô que vai custar um terço ou 40% em relação ao metrô que custaria duas vezes e meia a mais”.

Goldman apenas deixou de citar os alertas da própria companhia do Metrô, no estudo de impacto ambiental, que dentre outros itens já tínhamos destacado em artigo anterior:

O morador que não tiver seu imóvel demolido deve sofrer outro impacto negativo de ALTA RELEVÂNCIA: a mudança da paisagem devido à presença de vigas de até 15 metros de altura …

Será um grande causador de incômodo à população vizinha, que pode ter uma redução da qualidade de vida. A obra será usada por mais de 200 mil passageiros por dia …

Haverá ainda impacto sonoro. É sugerida uma proteção com barreira acústica para minimizar a propagação do ruído …

Nas vias de baixo tráfego haverá aumento significativo do movimento devendo atrair também camelôs e desvalorizando alguns espaços do entorno…

O padrão residencial vertical faz com que o impacto visual do monotrilho seja intensificado, pois alguns domicílios ficarão no mesmo nível que as estruturas permanentes.

Isto é, não escapará nada, nem casas nem apartamentos.

A tarefa de reversão que os moradores terão que executar não é das mais fáceis, pois a preservação de casas de alto padrão e de vigorosa área verde não é eleitoreira. Pelo contrário, pode parecer elitista e protecionista à cidadãos abastados pelo restante da população paulistana, se não enxergarem as vantagens da manutenção de área tão qualificada como visual e pulmão verde, essencial para toda a cidade. Aliás, região considerada como “área de preservação ambiental permanente” pelo poder municipal, e endossado por lei.

Foi um dos objetivos da reunião que aproximadamente 100 participantes de entidades representativas de moradores da região realizaram segunda-feira. Unindo especialidades jurídicas, técnicas econômicas e sociais através das entidades locais: a SMM Sociedade dos Moradores do Morumbi, a SAJM Sociedade amigos do Jardim Morumbi, a SAVIAH Sociedade amigos da Vila Inah, o CONSEG Morumbi e o Movimento Defenda São Paulo propõem uma abertura de negociação com Prefeitura e Governo de São Paulo. Almejam alertar para a questão ambiental, que acreditam pode ser preservada através de mudanças a serem realizadas.

De contato agendado com o líder do Prefeito, vereador José Police Neto PSDB, estarão a seguir buscando o atual e o futuro Governador, assim como o Ministério Público.

Que a técnica e a civilidade proposta pelas respectivas entidades enumeradas possam receber a mesma receptividade do poder público paulista, visando apenas o interesse público. Principalmente quando estão envolvidas gigantescas corporações, a começar pela estrangeira Bombardier, acirrada competidora da verde amarela Embraer.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

O voto: show business ou show de horror?

 

Por Carlos Magno Gibrail

Candidatos estranhos

Analisando nos dias recentes, jornais, revistas, sites, blogs, rádios, TVs e demais meios de comunicação, o voto tem espaço e audiência, mas está mais para um show de horror e humor.

De um lado, extensas e intensas críticas aos debates pouco esclarecedores e divorciados do objetivo da eleição. De outro, a propaganda que ocupa o horário político obrigatório expressa mensagens ofensivas à inteligência dos eleitores.
Tudo coordenado e em nome do marketing político, que ignora a teoria do marketing empresarial, cuja eficiência é inquestionável.

Entretanto a explicação é simples, o mercado é o mesmo, mas as regras são diferentes. No mercado em que as pessoas escolhem produtos e serviços, elas não são obrigadas a consumir. No mercado em que são escolhidos os candidatos, os eleitores são punidos se não votarem.

Para que os produtos e serviços sejam escolhidos, eles precisam satisfazer necessidades e desejos do consumidor.

Na política nem tanto, pois o consumo é obrigatório.

Ao desobrigar o eleitor de votar, automaticamente haveria valorização do voto e evitaria os votos inconscientes e vendidos. Situação ao que tudo indica, não é a desejada pela maioria política. Pesquisa Vox Populi do ano passado indicou que apenas 51% votariam em caso da não obrigatoriedade.

Tiririca, a estrela da insensatez e da provocação ignorante à ignorância, certamente não teria o um milhão de votos previstos.

A espetacularização orquestrada pelo STF provavelmente não teria tanta importância, pois quem se dignasse votar facultativamente faria escolha em cima dos ficha-limpa.

Embora estejamos defasados globalmente, pois 90% dos países adotam o voto facultativo, incluindo aí os mais ricos e desenvolvidos, a mudança teria que ser aprovada pelos mesmos políticos que usufruem do voto compulsório.

O objetivo político da maioria dos políticos é a própria reeleição, tornando o que é meio em fim, donde se converge o interesse maior na obrigatoriedade do voto. Facilitadora da continuidade e estimuladora da falta de compromisso numa trama em que o ator desempenha o próprio papel buscando sempre o interesse pessoal e sinalizando à platéia exatamente o contrário.

É hora de escolhermos corretamente boas peças e bons atores.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung