Conte Sua História de São Paulo: roupa alinhada e sapato engraxado para passear na cidade

Aristeu de Campos Filho

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

Nos tempos de garoto sempre que se necessitava ir ao Centro dizia-se: “vou à cidade”. Especulo que devia ser por causa da paisagem diferente da região central, já povoada de prédios, grandes lojas e trânsito intenso, que se contrapunha ao aspecto bucólico dos bairros onde eu vivi na Zona Norte. Ali era uma paisagem quase rural: galinhas, cabras, cavalos, alguns bois; havia casas simples e térreas, vez por outra dividindo espaço com pequenos comércios; ruas de terra onde a criançada podia brincar tranquilamente; os veículos praticamente inexistiam,.

Vai daí que nossas idas à região central da Capital eram  eventos, por alterarem substancialmente nossa pacata rotina.  Ariovaldo e eu vestíamos cada qual a melhor roupa e calçávamos o melhor par de sapatos, devidamente engraxado e lustrado pelo Seu Aristeu.

Meu pai era bancário e o antigo IAPB – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários tinha um corpo médico excelente, que atendia na sede da Conselheiro Crispiniano, quase na esquina com a Sete de Abril.  Minha saúde era problemática – devido à bronquite que me afligia praticamente desde a saída da maternidade, felizmente curada aos dez anos – e frequentemente a Dona Cida, minha mãe, me levava até lá para consultas. 

Para chegar havia duas alternativas. Algumas vezes descíamos do 56-Vila Gustavo/Anhangabaú (linha de ônibus operada pela Empresa Auto Ônibus Parada Inglesa) nas proximidades da Ponte Grande – como então era chamada a Ponte das Bandeiras – na Praça dos Esportes, ao lado da Associação Atlética São Paulo e defronte ao Clube de Regatas Tietê, dois dos muitos clubes que margeavam as águas limpas e navegáveis do Rio Tietê. Embarcávamos no ônibus Norte-Sul, da finada CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos e descíamos nas proximidades do Teatro Municipal, perto do consultório. Quando o dinheiro estava ainda mais curto, usávamos o 56 até o Anhangabaú, nas proximidades da Senador Queirós  e caminhávamos bastante na ida e na volta do consultório.

Nessas ocasiões o infalível pastel era degustado na Rua Capitão Salomão, entre o Largo do Paiçandu e a Praça do Correio.

Meu pai trabalhava no Banco de Crédito Pessoal, na Galeria Califórnia, e, por vezes, aproveitava o horário de almoço para acompanhar-nos na consulta. Sempre que seu apertado orçamento permitia substituíamos o pastel por um bauru, feito no pão Pullman bem torrado,  acompanhado por um Guaraná Brahma, servido na lanchonete, em frente ao consultório.

O trajeto e o ritual eram repetidos quando necessitávamos tirar uma foto para documento ou para alguma ocasião especial, como formatura do primário ou primeira comunhão.  As fotos eram tiradas na Rua São Caetano, perto da Igreja de São Cristóvão. Depois da sessão de fotos, o pastel era o da Pastelaria Chinesa, na mesma calçada do estúdio fotográfico.

Para comprar roupas visitávamos o comércio popular da Rua José Paulino e adjacências, no Bom Retiro. Descíamos do 56 em frente à Pinacoteca do Estado, na Avenida Tiradentes e dali fazíamos o percurso caminhando. 

Alguns anos depois, quando já morávamos na Vila Ede, a Dona Cida passou a frequentar o Brás, na região da Rua Maria Marcolina. Vez por outra, se aventurava nas ruas Direita e São Bento, mas saía sempre de mãos vazias, pois os preços eram muito altos para o nosso padrão de vida. As vitrines das lojas tinham para nós o mesmo efeito que uma máquina de assar frangos tem para os cães: somente podíamos olhar e babar.

Muito tempo se passou e felizmente eu progredi na vida, respaldado na luta de meus avós, meus pais, minha amada companheira Teresa e sem falsa modéstia no meu próprio esforço. 

Tenho 70 anos e sinto saudades. Não da vida dura de outros tempos, mas da delícia que era “ir à cidade”.

Aristeu de Campos Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o Cine Bijou dos meus sonhos

Ailton Santos

Ouvinte da CBN

Fotógrafo Aurélio Becherini, Acervo da Casa da Image de São Paulo

Das montanhas de Minas para as “montanhas de luzes” de São Paulo, entrei de ônibus na Pauliceia, numa noite de janeiro de 1970. Deixava o curso de direito na federal, em Belo Horizonte, para fazer teatro. Só desafios. Tudo novo. Sem limites.

A primeira noite, sono agitado num hotelzinho perto da antiga rodoviária. Depois, a pensão de uma prima. Quarto com dois beliches e uma cama de campanha. Cinco primos cheios de sonhos. E muita agitação.

O dinheiro curto. No domingo, só almoço. E bananas e mais bananas para todos até o dia seguinte.

O primeiro emprego, na revisão de O Estado de São Paulo. Das dez da noite às seis da manhã. 

Só descobertas! Tumultos. E muito barulho. No jornal, no quarto, na casa, nas ruas. Como dormir? Quando dormir? Me pegava dormindo no ônibus, de pé, segurando o pegador que pendia do teto. O joelho falhava, eu quase caia. No elevador do Estadão, um vaivém do andar da revisão ao andar do restaurante. E eu dormindo, ainda em pé, pra baixo e pra cima, no intervalo da jornada.

Certa tarde, em desespero, com a dor aguda de semanas sem dormir, passei diante do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. Filmes de arte, para driblar a ditadura. Que descoberta!

Sessões do meio-dia até a madrugada. “Gaviões e passarinhos”, de Pasolini. Nem pensei. Entrei. E mal joguei o corpo na poltrona vermelha, já estava de olhos fechados. Acordei no fim da primeira sessão. No meio da outra, com o personagem Totó caminhando por uma estrada sem fim, com uma gralha falante e um garoto. E de novo só despertei – dormido e descansado – antes da sessão das dez. Pronto para o trabalho.

Dias e noites, a penumbra encantada do Cine Bijou embalava meu sono e meus sonhos, até a hora de trabalhar. Não sem antes saborear o imortal sanduíche de pernil acebolado no bar de frente do jornal.

Outros filmes vieram, para salvar-me da tortura dos barulhos da pensão. E do mundo. Continuei fiel ao berço do Bijou. Até que Carlitos  recebeu-me com as luzes encantadas do seu “Circo”. A angústia de Totó dá lugar ao lirismo de Carlitos, dançando na sala de espelhos, perseguido por um policial. 

Durmo, sonho. E acordo ainda sonhando com aquela magia. Dias e noites. Noites e dias. Até hoje.

Agora que o cinema foi reinaugurado, reacendeu suas luzes, espero reencontrar Totó e Carlitos nas telas do Bijou ou caminhando pelas calçada da Praça Rosevelt. Porque eu continuo a sonhar. Agora com o sono (e os sonhos) em dia.

Ailton Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer texto, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a minha Maurília

Sidnei Beneti

Ouvinte da CBN

Um postal do “Parque Trianon sem o Masp”

Maurília é uma das “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, inspirado nas narrativas de Marco Polo a Kublai Khan. Roberto Pompeu de Toledo, em “A Capital da Vertigem – Uma História de São Paulo de 1900 a 1954”, reporta-se a Calvino:

“O viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões postais ilustrados que mostram como esta havia sido”. 

Cidades diferentes, a do presente e a da memória. São Paulo em minha memória extrapola em várias, desde que para ela vim de Ribeirão Preto, no início dos anos sessenta. 

Eram carros e bondes nas ruas centrais, indo até bairros, como para lá de Santo Amaro, passando por campos aflorestados. Ônibus fumacentos na São João, Paissandu, Largo de São Francisco, Praça das Bandeiras com o Teatro de Lata, de chanchadas e variedades. 

A Avenida Paulista era enfileirada de majestosos palacetes de rico estilo, bondes nos dois sentidos, belas calçadas largas e naturalmente arborizadas sem o a artificialidade de floreiras!  Parque Trianon sem o MASP e Ibirapuera de mais verde e raro asfalto.

No centro, Confeitaria Viena, Leiteria Americana, Restaurantes Itamarati, Ponto Chic, Churrasqueto, Gato que Ri, Giovanni, Almanara, e, muito caros, após combinar com a casa para comemorar o XI de Agosto, La Casserone, Hotel Terminus, Rubayatt.  Perto da Casa do Estudante, pela manhã uma “média”, café com leite, no copo, com pão e manteiga, e no almoço o saboroso prato do dia naquele bar muito honesto  cujo nome não sei até hoje. Na Alameda Santos, a Pizzaria Urca! E, é claro, os ”bandejões” do XI de Agosto na Rua do Riachuelo e da Faculdade de Economia, na Rua Dr. Vila Nova! 

Livrarias Francesa, Livro Italiano, Revisal alemã, Brasiliense, Teixeira, Francisco Alves, Mestre Jou, Kosmos, Forense, Revista dos Tribunais, Saraiva, perto da Faculdade, que vendia em prestações para estudantes que pagavam quando podiam e colecionava em arquivos implacáveis pendências de famosos a quem não cobrava nunca. E a Livraria e Editora Bushatsky, para a qual fiz a revisão de manuais jurídicos

O Mappin, com o chá e o restaurante muito chiques e uma escada rolante única nos prédios da cidade. Lojas Sears Roebuck, Casa Cosmos, Exposição Clipper, Mesbla, Casas José Silva, Old England , Picadilly, Los Angeles. 

Na Rua Sete de Abril ficava a Companhia Telefônica, com uma fileira de cabinas de telefones públicos. Comprava-se uma linha telefônica em prestações, esperava-se muito, custava caro, e as linhas eram declaradas ao Imposto de Renda.

Deslumbrante o Museu de Arte de São Paulo, ainda nos altos dos Diários Associados na Rua Sete de Abril. O Estado de São Paulo na Rua São Luís, antecipando manchetes luminosas em letreiros correntes. A Folha de São Paulo na Barão de Limeira, cuja redação frequentava, ajudando amigos na revisão de textos. 

A abertura da Galeria Metrópole das rodas de violão e do Chá Mun. Rua Direita, Rua São Bento apinhadas de gente apressada, de paletó e gravata, em cerrado fluxo de passantes em mão e contramão invencíveis. 

Vila Buarque, Leiteria Little perto da FAU e da Faculdade de Economia. João Sebastião Bar com Leny Eversong e Claudete Soares frequentes e os grandes da Bossa Nova incidentais mas sempre havia algum. Praça Roosevelt linda na simplicidade da nenhuma construção no meio, com o Cine Bijou, de arte, levando Godard, Truffaut, Resnais, Glauber, Wells. Ali perto a Boate Zum-Zum, com Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes apresentando a Suíte dos Pescadores. Na frente, atravessando o largo asfaltado, o Colégio Porto Seguro, que antes era o Colégio Alemão. Um pouco para lá da Avenida Consolação o Teatro de Arena.

Para outro lado, ali perto a TV Excelsior Canal 9, depois Teatro Cultura Artística e só um pouco mais distante, os Teatros – TBC,  Oficina, Cacilda Becker, Maria Della Costa, Nidia Licia,  com direito a ver em cena as próprias e tantos outros – para os quais não há como deixar de chamar de  “monstros sagrados” — daquele tempo e para sempre!  Para o outro lado, o Teatro Paramount, dos Festivais de Música da TV Record Canal 7, no Bom Retiro o Teatro TAIB! 

Cinemas enormes e cheios, com filas para comprar ingressos: Metro, Olido, Art Palácio, Cinerama, Ipiranga, Arouche, Regina, Paissandu, Marrocos. Como conseguiam construir e manter salas imensas com filmes em rolos que podiam romper e pegar fogo?

Na praça da Sé, os Restaurantes Gouveia e Papai. Da Praça do Patriarca ao Anhangabaú sem túneis, só, majestosos, os Viadutos do Chá e Santa Ifigênia, ia-se pela belíssima Galeria Prestes Maia, de paredes de mármore, pela Escada Rolante. Não havia a Avenida 23 de Maio, só um riozinho modesto, o Itororó com margens de mato a sumir no já canalizado Anhangabaú, ex-Saracura. Casa Bevilaqua na Rua Direita com pianos e partituras. 

O Theatro Municipal, da solenidade de minha formatura na Faculdade de Direito. Peruadas no centro, trote acadêmico com calouros obrigados a ir em “corrida de burros” pelo Viaduto do Chá até nadar na fonte da Praça Ramos de Azevedo. Aulas na Faculdade de paletó e gravata, também trajes para os cinemas e teatros. 

Também nas “peruadas” e “pinduras”, assim mesmo, com a letra “i”, nos restaurantes, e de dois tipos: as “diplomáticas”, com dia e hora gentilmente marcados, ou “primitivas”, com todo mundo correndo, muitas vezes presos e liberados após “sermões” de Delegados e Investigadores, que nos tempos de faculdade também haviam dado “pinduras”!

Estudante, trabalhei já no segundo ano de faculdade em Escritório de Advocacia, na Praça do Patriarca; lecionei de noite português, no Curso Roosevelt, na mesma praça; e estagiei no Escritório do grande Mestre, Professor Oscar Barreto Filho, ainda na Rua Maria Paula, logo mudando para prédio novo na Rua Santo Amaro. 

Por concurso, entrei a trabalhar no então existente 2º Ofício da Fazenda Municipal, no 11º andar do Fórum João Mendes Jr, que que terminava no 12º andar. Daí para cima só tinha  alguns tapumes a indicar que um dia chegaria às duas dezenas de andares de hoje. Trabalhava-se em dois períodos, de manhã e de tarde e, ao início, em meio período aos sábados.  

Almoços no restaurante do 6º andar ou nas proximidades – muita lembrança do restaurante API – Associação Paulista de Imprensa, logo ali perto! Na pausa para o almoço rápido, uma vez por semana,  o concerto de órgão na Catedral da Sé,  ainda ouço a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach, fazendo tremer os pilares de granito!

No Largo de São Francisco, a Faculdade de Direito de São Paulo, começada em 1964, e terminada em 1968. Política estudantil carregando o sentimento de mudar o país e o mundo para uma sociedade mais justa. Aquelas assembleias acirradas e intermináveis, na Sala do Estudante, na Rua Maria Antonia, no CRUSP e na PUC, e passeatas e protestos. Dias e noites, noites geladas de julho, em Faculdades na posse dos estudantes. Valentia e medo, em tempos de violência, sumiço e morte de verdade. 

Havia ainda o Estádio do Pacaembu e do Parque Antárctica, torcendo alviverde, as competições nos clubes Tietê, Floresta e Pinheiros!

O Centro Acadêmico XI de Agosto, na Rua do Riachuelo, Diretoria Cultural e de Apostilas e presidência do Diretório Acadêmico, com as aflições na representação na Congregação da Faculdade ocupada, às vésperas do Ato Institucional nº 5.

Andava-se a pé por qualquer lugar, a qualquer hora, sem medo e sem perigo. A noite era bela na São Paulo ainda frequentada pela garoa.

Um dia tiraram os bondes, cobriram de asfalto as ruas e os trilhos, inventaram calçadões, que expulsaram veículos e fecharam ou degradaram lojas, ruas, bares e livrarias. Demoliram-se edifícios monumentais para passar carros, caminhões e ônibus sob o fascínio dos novos veículos. As estações do Metrô somaram-se insensíveis na destruição – sobrando, por milagre de heróica resistência dos ex-alunos, o Colégio Caetano de Campos!. Felizmente foi poupada a Estação Júlio Prestes, que virou a magnífica Sala São Paulo!

Aniquilaram-se cinemas e teatros e o centro tornou-se região marcada por gerações de abandonados sem trabalho, sem destino e sem porvir. Saiu a Estação Rodoviária da Praça Princesa Isabel. Surgiu a tristeza da “Cracolândia”.

Passou um monstro “Minhocão” de cimento por sobre a Amaral Gurgel e a Avenida São João, que vi ir se estendendo defronte à Casa do Estudante sem acreditar no que via. Sumiram as árvores e os casarões da Avenida Paulista, em que iam e vinham bondes fazendo o quadrado pela Angélica, República, Barão de Itapetininga, Líbero Badaró, Largo de São Francisco, Praça da Sé e subindo a Liberdade ou a Brigadeiro até a Paulista de novo!  Aqueles ônibus que para o tempo iam longe, com gente lendo livros e jornais. Penha-Lapa, Fábrica-Pompéia, Pacaembu. Os ônibus elétricos Machado de Assis-Cardoso de Almeida, incrivelmente ainda sobrevivendo.

Foi demolida a Maternidade São Paulo, de que saímos felizes a pé, levando a primeira filha, com um pacotinho de gente embrulhado em mantinha, e em que nasceram nossos outros dois filhos. Temos fotos, cartas, até um “Livro-Caixa” que controlava gastos de uma feliz vida modesta. Tudo era para sempre. Ainda uso, vestindo saudade, aquele colete de lã com cores que não fenecem jamais, comprado na extinta “Casa José Silva”, na Rua São Bento. 

São Paulo agora? Isso todos sabem. Basta ter olhos. A São Paulo atual de cada um será, no futuro, a sua Maurília de agora. 

Sidnei Beneti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a intepretação de Mílton Jung. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a porteira da República da Mooca

Renato Spandri

Ouvinte da CBN

Nasci num centro interplanetário chamado Mooca. Fica em São Paulo, a uns tantos metros do marco de fundação desta minha cidade. Dentre muitas outras, uma recordação da minha infância é a velha porteira da Mooca — aquele ponto onde a rua da Mooca cruzava a linha de trem da antiga São Paulo Railway. A porteira era um grande portão deslizante que um funcionário empurrava para fechar o trânsito e dar passagem aos trens. Era também o nome do cruzamento: a internacional porteira da Mooca!

Havia nesse ponto uma passarela de aço para os pedestres: alta, escadaria abundante, com vista para todos os lados da cidade. Sentados nos degraus mais acima, crianças, eu e meus primos, jogávamos adivinhações sobre os próximos trens que passariam pela porteira: locomotivas vermelhas da rede, composição metálica do suburbano, vagões de carga de toda geometria e todo formato, numerados ao acaso.

Era um brinquedo parecido com o que já foi do gosto dos meninos ingleses: o trainspotting, em que se adivinhava ou memorizava o número do trem que passaria na estação. Brincadeira que nos unia em semelhanças – mooquenses e londrinos – por uma coincidência inconsciente e coletiva infantil. Era genial!

Hoje, a porteira da Mooca foi substituída por um viaduto, professor Alberto Mesquita de Camargo — ícone do bairro, fundador da escola São Judas, uma grife da Mooca, e professor de Português e Latim de minha mãe Marina Stella, no tempo em que ela fez ginásio numa pequena escola na rua Clark: berço da Universidade São Judas. Marina Stella ( ou Stella Maris, como lembrava sempre o latinista Mesquita) era paulistana da gema e viveu com meu pai, Giancarlo, no tempo jovem guarda da Mooca – lambretas, saias rodadas, cinemas dominicais (o Patriarca, o Ouro Verde, o Roma), bailes no Juventus…

Ah, Juventus. Grandioso! Status de corporação, da Mooca para o mundo, um jeito de ser em branco e grená. Uma espécie de exército do bem, de uma espécie de república universal: a República da Mooca!

Renato Spandri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar deste quadro, registre aqui as suas lembranças da cidade. Escreva e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidades, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: o canto do coração de meus amigos na cidade

José Pina

Ouvinte da CBN

Pina, de joelhos a esqueda da foto, no palco do teatro em foto divulgação


Vim do interior de Rondônia. Sonhava em estudar, trabalhar, ganhar um bom ordenado, ajudar a minha família e ser artista. Fiz uma amiga no Orkut, que me convidou para sonhar com ela, em São Paulo. Depois de três dias, desembarquei no Terminal do Tietê. A amiga que deveria estar me esperando, nunca apareceu. Eu, não tinha o que fazer, onde morar …


Passei a perambular pelas ruas. Atordoado pelo desespero e solidão, busquei ajuda na rodoviária. Encontrei um bom homem: Kemps, segurança do terminal. Me apontou direções, me ofereceu comida, me acolheu com generosidade. Encontrei uma boa mulher: Dona Cíntia, que fazia a limpeza dos banheiros. Me deixou tomar um banho: um reconforto para a alma, que estava 14 dias sem higiene corporal.


Comi jornal velho pra enganar a fome. Me fiz palhaço contando anedotas, me humilhei para sobreviver. Do jeito que dava, fui parar na favela. Fiz o próprio barraco. Fomos desapropriados e me juntei aos sem-teto para garantir o meu … Barracos, calçadas, cortiços, pensões, no chão. Dormi onde conseguia. Em cada canto, novos amigos. 


A rua me apresentou a realidade nua e crua, a educação pela pedra me transformou dono do meu destino. Criei resistência, fortaleci o espírito e me tornei solidário — aprendi com os amigos que me acolheram. Vivi quatro longos anos intensamente.


Trabalhei em trem. Vendi água, chiclete, chocolate, amendoim. Sempre fugindo dos guardas. Fui pego cinco vezes. Na última, quis desistir. Chorei no meio da plataforma. Outro amigo nasceu: Carlos Ferreira quis saber o motivo do meu choro. Disse que havia perdido tudo e não teria dinheiro para fazer o curso de teatro. Ele me emprestou um carrinho de pipoca. E novos amigos apareceram. 


Como pipoqueiro, conheci Juliana Teixeira, atriz e produtora, que ao saber do meu desejo, apostou no meu talento e financiou o primeiro curso de teatro.


Subi ao palco realizando meu sonho. No dia da estreia, soube da morte de meu pai pouco antes das cortinas se abrirem. Trôpego, sem o domínio do meu corpo, segui guiado por uma força invisível. No aplauso da plateia, ouvi a gargalhada de meu pai.


Sou artista, tenho um canal no Youtube, milhares de seguidores. Milhares de amigos. O coração de cada um deles é o melhor canto de São Paulo.


José Pina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Nós estamos a espera da sua história na cidade. Escreva agora e envie para  contesuahistoria@cbn.com.br.  Todos os sábados, você ouve mais um capítulo da nossa cidade. Tem também no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: no espiral do Center 3, minha diversão era garantida

Gladys Prado

Ouvinte da CBN

Durante a minha infância, frequentava o Center 3 com minha mãe. Não havia outro shopping perto de casa. Eu adorava essas visitas. Não para fazer compras. Para brincar. Havia uma rampa de acesso aos andares do shopping em espiral. Muito alta e com um corrimão feito de triângulos de vidro. Eram todos enfileirados desde baixo até o alto. Que era tão alto que se perdia na escuridão do espiral.

O prédio do Center 3, onde havia duas torres ocupadas pela Cesp – a Companhia Energética de São Paulo, foi projetado pelo arquiteto Jorge Wilheim, em 1969. Imagino que tenha sido dele a ideia daquela rampa, que poderia ter sido apenas um local de passagem de um andar para o outro, mas que era instrumento para despertar tantos sentimentos.

O espiral era incrível! Eu podia correr para cima e para baixo, quando o shopping estava vazio. No percurso, por si só uma diversão; me hipnotizava, olhando a espiral e a sequência de triângulos. Aqueles triângulos que eram ao mesmo tempo fascinantes e ameaçadores.

— Cuidado com o vidro, repetia minha mãe, enquanto eu me divertia.

Muitos anos depois, já adulta, presenciei o incêndio daquele prédio, em 1987. Meu ponto de ônibus ficava bem em frente e assisti, melancólica e triste, ao fim daquele canto de São Paulo que acompanhou a minha infância. 

A implosão precisa e competente de parte do prédio, após o incêndio, foi a despedida mais paulistana que aquela obra de arte poderia ter. 

Nem sempre queremos algo novo, mas, frequentemente, nesta cidade, esse algo se impõe. 

Faz parte dos aprendizados dos que moram aqui

Gladys Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie a sua história da cidade. Mande seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: o office-boy que nos apresentou a cidade

Francisco Moacir Assunção Filho

Ouvinte da CBN

E lá se vão mais de 40 anos. Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978, ao lado do meu pai, Moacir Assunção, do mano Marcondes e da mana Eva. Éramos todos adolescentes e eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus enormes arranha-céus futuristas, além de cenas gerais que mostravam a selva de pedra que era essa cidade. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “como São Paulo é feia”. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo, na Praça da República, ao lado da qual moro atualmente. Me apaixonei  perdidamente, como era de se esperar.

Enfrentei, de cara, o enorme preconceito que havia contra nordestinos – todos genericamente baianos para os paulistanos. Esses eram sinônimo de burrice, ignorância e brutalidade. Uma vez, na agência em que trabalhava, tive uma discussão com um argentino que criticava os “baianos”, citados por ele com um curioso sotaque portenho que soava assim: “baiános”. Para ele, ignorante como era, baianos eram pouco inteligentes e não eram brasileiros. Tive que esclarecer à curiosa figura que ele é que não era brasileiro e o Brasil havia começado pela Bahia. Respondi assim à acusação de burrice: “os baianos são burros mesmo, lá nasceram uns tais de Ruy Barbosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Amado e Raul Seixas, todos muito burros”. O sujeito se calou e não falou mais comigo, o que me deu muito prazer. Descobri, depois, que os baianos foram os primeiros nordestinos a chegar, de forma organizada, na cidade, a convite do fundador da Nitroquímica, o empresário pernambucano José Ermírio de Morais, na década de 1930.

Curiosamente, nunca mais ouvi falar desse preconceito. Ninguém mais me chamou de baiano ou ouvi essa expressão de forma depreciativa. Atribuo isso ao maior conhecimento do Nordeste por parte dos paulistas e paulistanos e ao grande número de nordestinos, muito deles bem-sucedidos em vários aspectos, que há na cidade, a maior capital “nordestina” do Brasil.  

Logo, comecei a andar pela cidade, pelo Centro, que nem de longe conhecia, embora tivesse dito que conhecia tudo, para conquistar o emprego que me garantiria meio salário mínimo por mês. Salário muito importante para uma família recém-chegada que vivia na periferia e precisava se firmar na cidade grande. Até então meu conhecimento da capital acabava na Penha, zona leste.

Ao andar pela cidade com minha pastinha de boy cheia de documentos, me espantava com a altura dos prédios. Vim de uma cidade pequena do interior, Trindade, em Pernambuco, onde não havia prédios.  Nessas andanças, fui parar na extinta TV Tupi, no Sumaré, berço da TV brasileira, para entregar uma passagem e conheci dois grandes atores: Lima Duarte e Paulo Goulart. Ambos muito simpáticos, conversaram comigo e até pagaram a coxinha que comi na padaria ao lado. 

Tempos depois, subindo a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio em direção à Paulista — eu  pegava o dinheiro pra condução, mas só andava a pé, porque os trocados eram gastos em churrasco grego, cinema e fliperama — vi uma multidão acompanhando a entrada em um prédio, que sabia ser do Exército (era a Segunda Auditoria Militar) de um homem barbudo, algemado e escoltado por dois soldados. Era Lula, conforme dizia, com muito cuidado, alguém na multidão. Tempos depois, já jornalista, o entrevistei como deputado e presidente.

Posteriormente, fui trabalhar na Livraria Saraiva da rua José Bonifácio, no coração do Centro, onde se consolidou o meu gosto pela leitura. Era responsável pelas estantes de História e de Sociologia – nem de longe imaginaria que eram duas das áreas que estudaria  mais à frente. Trabalhava no fundo da livraria e reconhecia o meu público. Quando via um jovem com óculos redondos, bolsa de couro e ar desleixado, tinha certeza que ia procurar livros destas áreas. E sempre acertava.

Fui, aos poucos, apesar dos problemas, me apaixonando por esta enorme cidade. Aqui, estudei, me tornei jornalista e professor e tive a oportunidade de, um dia, retribuir um pouquinho do que ela me ofereceu: mantive durante dois anos a coluna “Conheça seu Bairro” no extinto (e saudoso) jornal Diário Popular, na qual contei a história de mais de 120 bairros de São Paulo, o que me fez gostar mais ainda da maior e mais cosmopolita metrópole brasileira. Enfim, isso tudo é pra dizer que amo São Paulo, para mim a melhor cidade do Brasil, insuperável em todos os aspectos, na qual pretendo viver até o fim dos meus dias e fico feliz em saber que, depois de 42 anos morando aqui, adquiri a “cidadania paulistana”. Abraços a todos os conterrâneos.

Moacir Assunção  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: minha cidade tem praia, sim senhor!

Julio Araújo

Ouvinte da CBN

Era adolescente nos anos 1960 e gostava de folhear o Guia de Ruas  da Cidade de São Paulo. Se não me engano se chamava “Guia Levi”, e era vendido em bancas de jornal. Me detinha nos pontos para visita ou turísticos. Certa vez, folheando o guia, dois desses pontos me chamaram a atenção: Praia Azul e Praia do Sol.

Como assim?  São Paulo não tinha praia! Na minha cabeça, praia era algo grandioso. A praia que conhecíamos de verdade ficava longe, embora já existisse a rodovia Anchieta juntamente a Estrada Velha de Santos. Era viagem de pelo menos duas horas e meia.

Não lembro  como consegui  a informação, se foi no próprio guia, que as praias Azul e do Sol ficavam em Guarapiranga, pra lá de Santo Amaro.  Eu morava na  Vila Prudente. Santo Amaro era como se fosse outra cidade, de tão longe.

Num domingo resolvi encarar a aventura. Peguei ônibus para o largo Sete de Setembro; em seguida, embarquei no bonde na avenida Liberdade. O trajeto era interessante: passava pela Vila Mariana, São Judas, Moema, Aeroporto de Congonhas, Campo Belo, numa linha reta, no meio da via, e demorava  bastante, embora não houvesse trânsito. Em Santo Amaro, no Largo Treze, peguei outra condução para Guarapiranga. E depois outra, em direção à represa, onde estavam eu e mais um senhor acompanhado de dois meninos, pareciam ser seus netos. 

Perguntei a ele sobre a represa e a resposta foi de que eles estavam exatamente indo pra lá. Para a praia. Ele até levava varas de pesca. Quando descemos do ônibus, do outro lado da avenida  o senhor me disse: “aqui é o autódromo de Interlagos”, que era  bem rudimentar na época.

Descendo pela rua de frente, que mais parecia uma trilha, havia muitas casas noturnas. Uma delas chamava-se Chez Nous, que o senhor traduziu do francês: Para nós. Não era pra mim, não! Aliás, aquele  senhor  explicava cada detalhe; era como se fosse um guia de turismo.

Juntos chegamos. Havia crianças brincando, pessoas pescando, alguns barcos ao fundo. Caminhei pela beira para conhecer a orla. E ainda fui convidado para o lanche em família. Nos divertimos bastante. Conheci as Praias Azul e do Sol, apesar de não ter nenhuma placa indicando seus nomes. Mas eram praias. Fluviais. Mas praias paulistanas.

Quanto ao senhor e aos meninos nos despedimos, nem ao menos o nome deles fiquei sabendo, mas me marcaram muito até hoje.

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: saudades do meu bairro de São João Clímaco

Djalma Bom

Ouvinte da CBN

Imagem do bairro de São João Clímaco, SP

Saudades da minha infância e juventude nas décadas de 1950 e 1960, no bairro de São João Clímaco, na zona sul de São Paulo. Foi lá, na estrada de  São João Clímaco com a estrada das Lágrimas, o meu segundo emprego: na fábrica de Fogos de Artifício Albanese.

Lembro da minha caixa de engraxar sapatos. Profissão que adotei  para receber alguns trocados e ajudar a família, no Bar do Antonio Costa, também ali na São João Clímaco.

Na época, nadava no rio dos Parentes, na divisa com São Caetano do Sul; frequentava a paróquia do bairro, aos domingos; e estudava no Grupo Escolar São João Clímaco – sim, lá tudo leva esse nome. Foi onde aprendi o ABC, em uma predinho de madeira, atrás da paróquia. Na escola tinha a nossa querida diretora Dona Maria José e zeladora Dona Leontina. Tenho boas lembranças delas.

Aos domingos, além da missa, havia matinê, no Cine Cristal e no Cine Seckler. À noite, era hora do fotting que acontecia na própria estrada de São João Clímaco com a Rua São Silvestre.

Fui dar meus primeiros passos na dança nos bailes do Floresta, no Flor do Pinhal e no Carnaval, no Alencar de Araripe.

O que hoje é a favela de Heliópolis, ontem foi a maior várzea de futebol amador da capital: Floresta, Flor de São João Clímaco, Copa Rio, Flor do Pinhal, Guarani, Alencar de Araripe, Milionários, Sacomã, Flamenguinho e a Portuguesinha. Grandes craques foram revelados nessa várzea: Geraldo Scotto e Celso, do Palmeiras; Mosca e Rodelão, do Corinthians; Zé Luís da Ferroviária de Araraquara. O auge era o jogo de futebol de confraternização no fim do ano.

Quanta saudade do meu bairro de São João Clímaco.

Djalma Bom é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468: o charme da av. São Luiz

Neusa Stranghette

Ouvinte da CBN

Nasci no Ipiranga e com dois anos de idade, a família mudou -se para São Caetano do Sul. Lá cresci, estudei e tive meu primeiro emprego, em uma multinacional, que ficava no meio do mato, mas que eu adorava. Em 1970, sai da empresa e retornamos para São Paulo, no bairro de Santa Cecilia. Foi a primeira vez que entrei num supermercado que eu e minha mãe frequentávamos como se fosse o um parque de diversões! 

Morar em São Paulo era só novidades! Mas precisava arrumar um emprego.

Num domingo li os classificados do jornal e achei uma agência de empregos na Praça da República, que pelo menos eu sabia onde era. Dia seguinte, me apresentei, preenchi uma ficha e recebi duas indicações: uma na avenida São Luiz e outra em Santo Amaro, que eu não tinha a menor ideia de onde ficava nem  como chegar….. 

Na hora, fui para a São Luiz. Quando entrei naquela avenida maravilhosa, arborizada — que prédios lindos —, decidi, naquele momento, que era ali que eu iria trabalhar.

Fui aprovada na entrevista e comecei na quarta-feira. Os colegas de trabalho foram se tornando amigos! Na galeria Copan, ali do lado, tomávamos café no Floresta, que existe até hoje. Almoçávamos todos os e dias e nas sextas fazíamos nosso happy-your, no Balloon. Na galeria, também, havia uma boutique, que todas as minhas colegas e amigas frequentavam. Tínhamos crédito com as donas, que sabiam direitinho quando teríamos aumento de salário. 

Gostávamos ainda de almoçar no Eduardo’s, no Franciscano e, quando recebíamos o vale-refeição,  na excelente feijoada do Brasilton.  Algumas vezes tinha almoço no Circolo Italiano, no Edificio Itália, e o maitre Mário nos tratava como VIPs. Mas o top era a primeira sexta-feira após o pagamento, quando a balada era no London Tavern, no Hilton Hotel. Éramos recebidas pelo Léo e ficávamos até a madrugada, sem medo de ser feliz!  

Hoje a  avenida São Luiz ainda mantém um pouco do charme da época. Bem pouquinho.  Só sobrevivem o Floresta e o Circolo Italiano. Nada mais de Balloon, Brasilton, lojinha de roupas, Eduardo’s, muito menos o Hilton. Nem a empresa onde trabalhei por  20 anos está mais ali.  Perdemos nossas referências. Ficaram fotos, os amigos, as memórias  … e viramos saudosistas.

Neusa Stranghette é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.