Conte Sua História de SP: nossas mudanças, e as do Carnaval, também

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Em 1937, quando nos mudamos de Itaquera, que era um lugar muito agradável com suas chácaras, sem luz elétrica, sem calçamento e sem água encanada, muito diferente da Itaquera de hoje,fomos morar na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, número 146.

 

Era uma casa pequena, de sala, dois dormitórios e banheiro, cujas cozinha e área da lavanderia ficavam no alto, com vistas para um matagal que mais tarde veio a tornar-se a Avenida 23 de Maio.

 

Estávamos felizes, perto do centro da cidade, a 140 metros do largo São Francisco, bem perto da já famosa Faculdade de Direito 11 de Agosto.

 

Após quase dois anos, recebemos um convite para desocuparmos essa residência pois acabava de ser aprovada a construção de um viaduto que iria passar por cima da Avenida 23 de Maio, ainda a ser construída, ligando a Rua Cristovão Colombo, que sai do Largo São Francisco, com a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio.

 

Hoje ambos são partes importantes no centro da cidade de São Paulo.

 

Logo conseguimos um belo sobrado na própria Avenida Brigadeiro Luiz Antonio número 254, onde, na parte de baixo, havia a loja da companhia  Gessy. Lá nos acomodamos com muita facilidade e conforto, morando quase em frente ao Restaurante e Pizzaria Giordano, apenas a cem metros do Cine Teatro Paramount. Quanto conforto, quanta facilidade. Tínhamos diversas linhas de bonde para diversos lados da cidade.

 

No Carnaval, assistíamos ao desfile de blocos em carros conversíveis. Um carnaval bem diferente dos dias de hoje. Eram grupos de jovens uniformizados como marinheiros, havaianos, soldados romanos, damas antigas, clubes esportivos … que passavam cantando as gostosas marchinhas de carnaval: “o Jardineira porque estás tão tristes”… “Mamãe eu quero”,  Eu fui a touradas de Madrid…” e outras mais. De vez em quando paravam, desciam de seus carros e formavam alegres blocos, atirando serpentina, lança perfume e confetes.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: no tempo em que eu vestia minissaia

 

Por Martha Catalunha

 

 

Estávamos desfrutando de merecidas férias de trabalho e faculdade, eu e minha melhor amiga, quando resolvemos ir ao maior refúgio em área verde paulistano, resultado de um dos primeiros grandes projetos do paisagista Burle Marx e do arquiteto Oscar Niemeyer: o Parque do Ibirapuera, cujo significado em tupi-guarani, curiosamente, é madeira podre. Só o conhecíamos no calor do alvoroço de sábados e domingos festivos.

 

Pensando na tranquilidade idílica que certamente o parque nos ofereceria, após o almoço rumamos para lá. Por sugestão minha, fomos de short medianamente curto, pois naqueles tempos, de saudade indizível, em que eu usava e abusava da minissaia, tínhamos as pernas perfeitamente apropriadas para deixá-las desnudas.

 

Lá chegando, começamos a caminhar tranquilamente em meio à garbosa natureza e seus ritmos buliçosos entre jardins, lagos, as 120 espécies de pássaros lá abrigadas ou migratórias, patos, gansos e marrecos, quando bruscamente, aproximou-se um rapaz de mais ou menos 30 anos que, forçosamente puxou assunto e nos passou a sensação desagradável de uma mente tosca e leviana.\

 

Tentamos deixá-lo de lado, contudo, ele não se fez de rogado e, imediatamente nos convidou a passear em seu carro. Agradecemos, dizendo que queríamos passear a pé pelo parque. Ele se afastou, e, após poucos minutos, passou por nós em seu carro, e nos fez uma abrupta saudação gritando alto e em bom som: – Suas putas!

 

Após nos refazer do susto, olhamos uma para a outra e combinamos nunca mais colocar short, a menos que estivéssemos em uma bela cidade à beira-mar com o imponente sol nos fazendo companhia.

 

Hoje, à luz do presente, em meio a tantas jovens com minissaias, shorts, calças rasgadas com barrigas de fora, grávidas ou não, em todos e quaisquer lugares, embalada em minha total visão libertária, questiono, porque o uso da minissaia estava de acordo com as convenções sociais vigentes, enquanto o short enquadrava mocinhas trabalhadoras e estudantes determinadas, em mulheres que desenvolviam suas atividades remuneradas através da volúpia de seus próprios corpos???

 

Mistérios de uma São Paulo do passado.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30. Conte você também mais um capítulo da cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

 

Conte Sua História de SP – 462 anos: da minha casinha no Butantã até onde o olhar alcança

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, trechos do texto enviado pelo ouvinte-internauta Samuel de Leonardo, nascido em 1956, na cidade de Inúbia Paulista. Veio para a capital no fim dos anos de 1950 quando a família se fixou em uma chácara na rodovia Raposo Tavares:

 

Dias difíceis aqueles, contavam meus avós. Pouco trabalho, pouca comida e um frio de matar. Minha avó japonesa, era assim que a chamávamos, permanecera com os irmãos de minha mãe tocando a lavoura de café na região de Rinópolis, interior de São Paulo.

 

Com dignidade, meu avô paterno tocava a lida na chácara e subsistíamos com o que ali se plantava: verduras, mandiocas, muitas abóboras, muitos chuchus e criação de galinhas. Meu pai ingressou na construção civil, foi ser servente de pedreiro. O que poderia mais conseguir um semi-analfabeto que dos 30 anos vividos frequentara a escola apenas dois?

 

Decorrido pouco tempo ele conseguiu ingressar na Prefeitura Municipal de São Paulo, no cargo de gari, e com isso passara a ganhar um pouco mais. Assim como todo brasileiro, a casa própria era o seu sonho. Com muito sacrifício comprou terreno num loteamento novo em São Domingos, lá pelos lados do Butantã, na zona oeste.

 

Lembro-me vagamente dos dias vividos na chácara nas imediações onde hoje está erguido o Shopping Raposo Tavares: a bola colorida, presente dada pela mulher que era a dona do local; a minha queda de cima do barranco quando soltava bolhas de sabão com canudo de talo de mamona feita pelos meus tios. Tenho vivo em minha memória quando, aos três anos, pela primeira vez entrei em um veículo motorizado, um caminhão. Foi o dia da mudança para a casa nova, um cômodo apenas, perdido numa imensidão de terra vermelha, mas que para nós era um lar.

 

De frente àquela casinha olhando um pouco mais para alto podia-se avistar um imenso milharal e uma imagem tal qual uma colcha de retalhos em várias tonalidades de verde, repleta de verduras. Era a chácara dos Fonsecas. À direita uma estreita rua subia rumo às casas, que se perdiam de vista, espalhadas colina acima em direção ao Bonfiglioli. À esquerda, a poucos metros da casa, uma imensidão de sapezais e, mais abaixo, um córrego com várias tábuas ao seu redor. Ainda ao longe uma estradinha que terminava em uma granja e um pouco mais à frente podia-se contemplar os telhados de uma olaria lá pelos lados do Rio Pequeno.

 

Aos fundos outra colina em menor escala onde a uns 200 metros passava uma estrada de terra batida, caminho principal daquele então modorrento lugarejo onde existia um comércio capenga formado basicamente por uma única avenida que abrigava uma padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue que não me recordo o nome do dono, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e com o salão ocupado por mesas de bilhar.

 

Perceba que morávamos em um grande buraco.

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

 

Conte Sua História de SP – 462 anos: uma pipa nas manhãs de sábado

 

Por Luiz Silva

 

 

Em 1970, éramos adolescentes e morávamos no bairro da Cidade A. E. Carvalho, zona leste de São Paulo. Nosso passatempo favorito era confeccionar e empinar pipas, nas manhãs de sábados. Nosso encontro aconteciam na entrada da casa do meu amigo Israel. O ritual alegre era acompanhado pela garotada da periferia que tentava descobrir como fazer belas e multicoloridas pipas.

 

Tudo era feito com muita descontração, desde o preparo da cola com farinha de trigo, que eu levava de casa e exigia muito esmero para não sujar o belíssimo fogão da dona Ondina, mãe do Israel. As folhas de papel de seda eram da lojinha da dona Matilde, escolhidas cuidadosamente entre as diversas cores dispostas na prateleira.

 

Existia um momento que exigia grande concentração, era quando começávamos a “afinar” as varetas retiradas do bambu do varal de roupas da dona Ondina. Nesse momento, até que adquirisse destreza com a afiadíssima faca dialogávamos sobre as novas namoradinhas, os estudos no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, que localizava-se em Itaquera e sobre o serviço como Office-boy numa Cia. de Seguros no centro de São Paulo.

 

O grande prazer completava-se por estar ao lado do amigo que não via há uma semana e poder detalhar o perfil da nova namorada que trocávamos assim como éramos trocados freqüentemente.

 

Às vezes, éramos obrigados a abandonar nossa área de lazer momentaneamente, pois dona Ondina queria varrer a mesma, o que ocasionava um tempo de espera encostados no velho carro Ford semi-desmontado pelo Sr. Luis, pai do meu amigo, que era mecânico. Nesse momento passava o Zé Roque, irmão do meu amigo e parava na nossa frente com algumas peças de televisão na mão, pois o mesmo tinha uma oficina de conserto no quintal, e ficava zombando da nossa capacidade de confeccionar pipas. Gargalhadas espalhadas pelo ar entrecortadas pelos raios de Sol da bela manhã de sábado completava a nossa felicidade com a chegada do Lalá que com seu tradicional assobio chamando sua namorada que era a irmã do Israel. Saía toda perfumada, sorrindo e pisando cuidadosamente sobre os pipas para não amassá-las. Abraçavam-se carinhosamente e nós abaixávamos a cabeça concentrados na confecção da nossa namorada, que era a pipa.

 

Olhávamos o céu azul e a nossa maior preocupação era com o vento. Entre a confecção das pipas e a eterna paciência em fazer aquelas “rabiolas” quilométricas, molhávamos o dedo com saliva para saber qual a direção que o vento soprava e sua intensidade.

 

Dessa maneira tínhamos uma vaga noção por onde nossas pipas e nossos pensamentos voariam.

 

O vento da periferia sempre era bondoso conosco e jamais deixava de soprar aos sábados de manhã. Às vezes trazia o aroma agradabilíssimo do café coado pela dona Ondina, em xícaras de porcelana pelo Lalá e sua linda namorada. Sempre sorrindo e desejando-nos bons ventos.

 

Talvez por não existirem prédios, o vento soprava uma agradável brisa, na quantidade exata às nossas expectativas e aos nossos sonhos de adolescente, e soprava em quase todas as direções.

 

Fazíamos as pipas com perfeição e elas raramente deixavam de voar. Tínhamos uma brincadeira maravilhosa que consistia em dar nomes às nossas pipas e geralmente ganhavam nomes da última namorada e assim que o mesmo ganhava o céu ficávamos imaginando subir junto com eles e ficarmos olhando lá de cima tudo o que tinha acontecido, acontecia ou iria acontecer no nosso querido bairro Cidade A. E. Carvalho.

 

Havia sábados em que o vento soprava em direção ao bairro de Itaquera e nossos pensamentos avistavam cenas indescritíveis. Lá de cima podíamos avistar a padaria com sua enorme máquina de assar frangos, pessoas saindo com saquinhos de pães, carros com o volume do rádio um pouco acima do normal, tocando músicas de Roberto Carlos, Caetano Veloso, Beatles e Morris Albert cantando “Fellings”. Olhando atentamente poderia observar minha caixa de engraxar sapatos que outrora colocava em frente à padaria e ficava aguardando pacientemente os fregueses.

 

O ponto de ônibus em frente à padaria, e motoristas e cobradores sorrindo entre um gole de café, uma coxinha comida e um cigarro aceso. Pessoas entrando pela porta traseira e o ônibus saindo vagarosamente com motoristas com óculos escuros acenando aos companheiros com destino à Praça Clovis Bevilaqua. Viagem longa que nossas pipas não conseguiam acompanhar.

 

Observava crianças correndo alegremente, pelo pátio da escola Milton Cruzeiro durante o recreio e o ônibus Mogi-Parque D.Pedro II que passava em alta velocidade deixando-nos atônitos.

 

O vento mudava um pouco a direção e de lá de cima enxergava minha mãe e outras mães do bairro lavando roupas na mina e conversando sobre o sofrido cotidiano. Enquanto as roupas eram quaradas pelo tempo, trocavam receita de bolo e reclamavam do custo de vida que já naquela época fazia-se presente.

 

Eis que a pipa e os nossos pensamentos pairavam sobre a igreja do bairro e podíamos deliciar-nos com a tradicional quermesse que recebia as meninas com seus cabelos cortados “à Chanel”, devidamente arrumados com “laquê”, e trajando lindos vestidos rodados coloridos; e os meninos usando calças “boca de sino” com cintura alta, parecendo um toureiro da periferia, e suas inconfundíveis camisetas “volta ao mundo” ou “gola olímpica”.

 

Sentia o aroma dos bolinhos caipiras preparados pelas mães do bairro e avistava barracas coloridas, que ajudávamos a montar, que abrigavam diversos jogos e vendas de guloseimas. As meninas eram vigiadas constantemente pelas mães ou irmãos que não permitiam beijos ou abraços, o máximo era uma piscada bem longe dos olhos severos dos pais de antigamente.

 

O alto-falante sussurrando uma inaudível música de Nelson Ned entrecortada pela voz rouca do amigo Israel que era o locutor oficial da quermesse, anunciando o início do jogo de bingo que jamais conseguira ganhar, completava a paisagem.

 

O barulho estridente do trem que fazia o trajeto Brás-Mogi das Cruzes afastava os namorados que trocavam presentes na véspera do Natal.

 

O vento começava a parar de soprar e era hora de recolher as pipas, nossas imaginações e nossos sonhos e retornar às nossas casas, depois de um abraço e um aperto de mão. Estávamos novamente na terra e ficávamos torcendo para que a semana passasse rápido e o vento mudasse de direção para que pudéssemos nos encontrar e avistar novos lugares e acontecimentos do pacato bairro da Cidade A. E. Carvalho.

 

Um passado não muito distante que ganhara as alturas através da nossa criatividade e amizade sincera, que deixou muitas saudades de um tempo em que dávamos vazão a nossa imaginação de adolescente, através de uma pipa.

 

Uma pipa nas manhãs de sábados.

 

Esta é uma pequena homenagem ao meu amigo Israel Brienzo que faz uns 30 anos que não vejo. Soube que anda morando lá pelas “bandas” do Norte do Paraná. Abraços, amigo, e saiba que até hoje me lembro das lindas namoradas e pipas que tanto empinamos juntos.

 

Luiz Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização do Cláudio Antonio. Conte sua história da cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP-462 anos: Vila Joaniza, meu lugar no passado

 

Por Tadeu Gentil Gomes

 

 

Eram os idos de 1960…

 

Nasci na Vila Joaniza, Zona Sul de São Paulo, em uma casinha simples de três cômodos no fundo do quintal: quarto, cozinha e banheiro. Tive como parteira minha avó paterna, Dona “Artina”, que é como se falava no idioma mineirês da época. No quintal, uma hortinha, uma laranjeira e, de vez em quando, umas galinhas, segundo contava minha mãezinha Tereza.

 

Lembro-me muito vagamente de, nos fins de tarde, ver minha mãe colocando o vidro de leite vazio ao pé da porta da cozinha para, na manhã do dia seguinte, encontrar um outro cheinho. Uma vez corri e tive tempo de ver o caminhão do leiteiro partir. Mas meu grande sonho mesmo era o de conhecer o bondoso homem que nos entregava o leite fresquinho. Nunca consegui.

 

Meu pai (Seu Gentil) trabalhou por longo tempo à noite. E eu, cheio de quereres, me apossava de seu lugar na cama bem quentinha ao lado do anjo da minha vida: minha mãe. Ela me contava histórias e mais histórias de assombração e de sua vida na roça, no interior de Minas Gerais. Eu adorava! Adormecia imaginando-me personagem das narrativas caipiras que ouvira um pouco antes. Não sei se sonhava depois de dormir, mas sei que sonhava acordado com os fantasmas mais fantasmas de que já tinha ouvido falar e com os tios e outros parentes de minha mãe, os quais conheci por fábulas contadas nas noites frias de São Paulo. Ela também recitava versinhos e cantava para mim. Foi meu primeiro contato com a literatura.

 

Naquele tempo, havia o costume de se engordar porcos. E, como a Vila Joaniza constituía-se num reduto de mineiros em São Paulo, não era muito difícil avistar um chiqueiro. Alguém fazia um no quintal, depois passava de casa em casa pedindo sobras de comida para ajudar a engordar o bicho. Já criado, o porco era abatido, e sua carne dividida entre os que colaboraram na engorda. A maior parte ficava para o dono, é claro. Foram muitas as manhãs em que acordei atordoado pelos gritos de um porco. Às vezes era abate; às vezes, castração. Presenciei algumas execuções suínas em casa de tios e vizinhos. Para mim era algo normal, comum; algo que era assim porque era assim mesmo e pronto!

 

Uma vez meu pai engordou um porco no quintal de casa. Acompanhei da construção do chiqueiro ao abate. Abate que seria trágico não fosse o episódio de comicidade que o envolveu, dando-lhe um ar de tragicomédia grega. Meu pai entrou no chiqueiro para amarrar o bichinho, de modo a facilitar a facada no coração (era assim que se matavam os porcos). Contudo, percebendo que havia algo errado, o danado do porco iniciou uma fuga alucinada dentro de seu pequeno espaço de confinamento, estragando os planos de meu pai. Eu, secretamente, estava torcendo para o porco. Em dado momento, o suíno fingiu que ia para a direita, mas rapidamente tomou o sentido oposto. Como o ambiente estava abarrotado das fezes de seu hóspede, meu pai escorregou e caiu. Caiu e rolou xingando todos os palavrões que sabia e que talvez inventasse na hora. Fiquei feliz pelo porco e senti uma enorme vontade de rir, mas tive que me conter. Meu pai, furioso, ergueu-se e atirou a cordinha que tinha na mão para fora da pocilga. Em seguida, ele saiu e foi buscar uma marreta. O final da história não preciso narrar. Pela primeira vez na vida, fiquei triste pela execução de um porco. É que ele era meu amigo…

 

Nas manhãs de frio, ia para a escola passando a mão sobre as camadas de gelo que se formavam sobre os poucos carros estacionados pelo caminho. E em todas as noites, praticamente, garoava. Minha mãe me Obrigava a usar um boné estilo “Chaves”, matando-me de vergonha. Era a chacota para os colegas. Que ódio!!!

 

Num determinado Natal, íamos ver um Presépio no Vale do Anhangabaú, pois minha família era católica. Tudo pronto. A vizinha, Dona Cláudia, veio com seus três filhos para irmos as duas famílias juntas. Tão logo me viram, os mosqueteiros começaram a fazer “aquela cara” de deboche. Emburrei para não usar o boné. Apanhei na frente de todo mundo, mas não usei o desgraçado do boné. Resultado: não houve passeio, não houve Presépio.

 

Estudei no Grupo Escolar de Vila Joaniza, a famosa “Granja”. Alguém perguntava: “Onde você estuda?” Lá vinha a resposta: “Eu estudo na Granja.” Mas isso tinha fundamento. Contavam que o bairro fora uma fazenda, e que seus donos (João e Nilza, daí Joaniza) cederam a parte do terreno em que havia um antigo galinheiro para que se estabelecesse ali a escola. As salas de aula eram os antes criadouros de galinha. Nos dias de chuva, para ir ao banheiro, muitas vezes o aluno descia a trajeto derrapando o traseiro, ou mesmo rolando. E não foram poucas as vezes que professoras, professores e bedéis passaram pela mesma situação. Quando estava na 5ª Série do I Grau, numa tarde chuvosa, um colega e eu que sentávamos nas últimas carteiras, chegamos a tomar choque ao encostar, por acaso, o braço e as costas na parede.

 

Na inauguração da Praça da Vitória, minha prima Cássia e eu fomos uma das atrações. Havia até políticos no evento! Pois bem, ela e eu cantamos a música tema do seriado Nacional Kid. E… pasmem… em japonês da nossa cabeça e dos nossos ouvidos!!! Foi lindo! Todo mundo aplaudiu ao final. Não me lembro se fiquei emocionado, mas achei muito legal. Hoje, passados os anos, fico imaginando a vergonha que fiz meus pais sentirem.

 

Em junho, havia fogueiras e balões. Íamos em turmas passando pelas fogueiras das ruas vizinhas, e os meninos das ruas vizinhas passavam pela nossa. Todo mundo era bem recebido. Todo mundo comia e bebia. Eu, sempre meio lunático, já quase na hora de entrar para dormir, a fogueira esfriando, sentava-me em um tronco e ficava tempos olhando os balões coloridos navegarem sem rumo pelo céu afora misturando-se às estrelas. Sentia vontade de ser um deles…

 

Em três de junho de 1970 meu pai mandou alguém fazer um balão para soltar depois do jogo Brasil x Tchecoslováquia. Nessa época, ele era dono de um bar: Bar e Mercearia Bossa Nova – Secos e Molhados. Ao final da partida, fizeram uma faixa enorme com cartolina: Brasil 4 x Tchecoslovaquia 1. Quando o balão começou a subir, a faixa enganchou no fio de luz e… fogo!!! Adeus balão! Não subiu nem dez metros.

 

Uma vez andei de bonde, porém a imagem que guardo na tela de minhas retinas é quase esvaecida, muito tênue. Vejo-me sentado ao lado de minha mãe, que me segurava com força, bem apertado ao seu corpo. Lembro-me também de uma igreja (acho que a do Largo 13 de Maio, em Santo Amaro), um homem pulando antes de o bonde parar e muita gente em torno de nós. Só.

 

Também vivi a colocação do esgoto na atual Avenida Yervant Kissajikian, antiga Estrada do Zavuvus, seu asfaltamento e a colocação de luminárias. Na “inauguração das luzes” houve festa e uma espécie de desfile de escola de samba, só que formada pelos próprios moradores do lugar.

 

Hoje, quando passo pelas ruas da Vila Joaniza, tento encontrar o meu lugar do passado, e não encontro. Não encontro porque a mudança faz parte de tudo na vida. Tudo muda. Sinto uma enorme saudade, e isso é bom. Só sentimos saudade daquilo que nos deu prazer, daquilo que nos fez bem. Se os bandeirantes ainda estivessem vivos, com certeza sentiriam saudade do tempo em que saíam sem rumo para desbravar a nova terra. Sei que meu lugar do passado jamais retornará materialmente. Mas sei também que ele jamais deixará de existir dentro de mim.

 

Tadeu Gentil Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Participe deste quadro, enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP – 462 anos: o “casarão” do meu amigo Reis

 

Por José Salomão da Silva

 

 

20 de janeiro de 1985, domingo, 10 horas da manhã.

 

Estava eu chegando na rodoviária do Tietê, vindo de Ilhéus, na Bahia. Do lado de fora, uma mão se erguia freneticamente na minha direção, fazendo-me entender que ali se encontrava alguém a me esperar. Era o meu grande amigo Reis, assim como havíamos combinado. Nos cumprimentamos e saímos em direção ao Metrô.

 

Em tom de brincadeira que fiquei sabendo depois, Reis falou:

 

– dá a mão para o trem parar. (e o trem parou)

 

Descemos na estação São Bento. Logo ali no Anhangabaú existia ponto final da CMTC que nós levou até o Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, próximo a residência dele. Lá chegando deparei-me com uma grande quantidade de pessoas. Música alta, muito churrasco e todos os tipos de comida nordestina, em todos os cantos da enorme casa. Aí comecei a perceber que meu amigo tinha preparado uma grande festa para minha chegada.

 

E qual grande era a nossa casa? O meu amigo, viu, morava bem!

 

Ficamos ali horas a fio, conversando, bebendo e comendo com todos presentes. O tempo foi se passando até a hora de descansar, dormir. Afinal, foram 32 horas de viagem.

 

Fui na direção do Reis e perguntei:
Qual vai ser o meu quarto? Onde eu vou dormir?

 

Ele apontou na direção de um cubículo e tascou:
A nossa casa é este espaço aqui, ó!

 

Foi neste belo dia ensolarado de janeiro que fiquei sabendo o que era um cortiço, tal qual um dia havia sido descrito por Aluísio Azevedo.

 

José Salomão da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. O programa, em homenagem aos 462 anos da cidade, vai ao ar, nesta semana, às 7h15, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP – 462 anos: aquela turma do Itaim Bibi

 

Por João Batista de Paula

 

 

Minha rua era recheada de história. As pequenas casas com seus jardins sem padrão definido e flores de todas as espécies, que se confundiam com pequenas arvores frutíferas e arbustos; daí vinham os pássaros e as borboletas, e o cheiro de pessoas amigas, e a vida calma que levávamos.

 

A casa de número três da rua Mário de Castro era a primeira casa, morava o senhor Emílio; a minha era de número 7, há uns vinte metros, se tanto, do Córrego do Sapateiro, no Itaim Bibi, zona oeste da cidade.

 

Isso há uns bons 77 anos.

 

Seu Emílio era alto, parecia personagem das aventuras dos Sete Mares. Antes do dia escurecer, costumava ficar em seu portão vestido de branco. Ele não usava cinto, e sim uma larga faixa de tecido vermelho enrolada na cintura. Apesar dos meus 83 anos já vividos, ainda posso enxergá-lo com seu cigarro de palha, olhando o sol se por. Essa figura, embora gigante aos olhos de um menino, não metia medo. Seu semblante era de paz. Nos impressionava mesmo era a grande família que tinha: doze pessoas.

 

Vamos a elas, o casal Sr. Emilio Carota e Dona Julia Carota. os seus filhos por ordem de idade: Armando Alberto, Néca, Ermelinda a (Nuje) Rosa, Mafalda, Nélia, Olga, Lolita, e Nina.

 

Quantos casamentos nessa família, quantas festas juninas, quantas risadas e choros dessas pessoas que enfeitaram minha infância e adolescência.

 

A Mário de Castro até já mudou de nome. Agora é a Fernandes de Abreu. Mas, se me concentrar bem, ainda lembro das brincadeiras naquela rua. Éramos uns 20 ou mais meninos e meninas.

 

A noitinha, quando estávamos no auge das brincadeiras, vozes vindas das casas, chamando Olguinha, Nélia, …. tá na hora, a mãe tá chamando … Dito, Nelson, Lúcia, Guiomar … Tchau, tchau, amigos! E disparavam em direção a suas casas. Minha mãe sempre me consolava: dê tempo ao tempo!

 

Uma grande verdade. O tempo é senhor de tudo e de todos. Sem nos darmos conta fomos seguindo nosso rumo. Assim como nos encontramos naturalmente e, por acaso, também nos separamos.

 

Às vezes nos meus devaneios, tenho vontade de gritar bem alto para toda aquela turma do Itaim Bibi: Tchau, tchau – ate amanhã!

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio

 

Conte Sua História de SP – 462 anos: aprendi a nadar no Rio Tietê

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Em 1937, quando morávamos em Itaquera, zona leste, só havia um grupo escolar, ou seja até o 4o. ano primário, o que levou meus pais a mudar para a cidade afim de eu prosseguir nos estudos. Se arriscaram, e vou adiantar que em pouco tempo começaram a sentir falta da tranquilidade da chácara onde tínhamos tudo que precisávamos, fresquinho sem sair de casa, e sem gastar.

 

Na cidade, a primeira coisa que preocupou papai foi fazer parte de um clube para nadar e praticar exercícios, assim como fazia na chácara. Íamos de bonde para o clube Guarany .no bairro do Tatuapé. Logo. papai comprou um barco fininho e comprido, com rodinhas no assento. Tinha remos bem longos, que papai sabia fazer deslizar na água de forma muito elegante.

 

Meu irmão e eu sentávamos um em cada ponta do barco, enquanto descíamos o Rio Tietê, que de tão limpo enxergávamos através de suas águas. De remo, chegávamos a Ponte das Bandeiras, no Clube de Regatas Tietê. Ali, papai dava meia volta e começava o nosso exercício. Com os remos, gentilmente, ele nos empurrava para dentro do rio, e do nosso jeito íamos nadando ao lado do barco. De vez em quando, ele colocava o remo à nossa disposição para fazermos um rápido descanso e retomar o fôlego, pois estávamos nadando rio acima.

 

Papai nos orientava: braçadas curtas, mais devagar, batendo os pés, calma, mais perto do barco… fazíamos tudo que aprendíamos num quadrado, cercado e forrado de madeira, que ficava dentro do rio, chamado de “cocho” – próprio para menores que estavam aprendendo a nadar.

 

Apesar de gostarmos e nos esforçarmos para fazer tudo direitinho, ficávamos animados mesmo é quando víamos que o clube estava chegando.

 

Assim era o Rio Tietê, quando ainda tinha suas margens cheias de mato.

 

Elmira Pasquini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Para participar do Conte Sua História de São Paulo, envie texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: era a coisa certa a fazer? quem saberia?

 

Por Elaine Viana
ouvinte da rádio CBN

 

 

Chegando em São Paulo.

 

Querida São Paulo, quero te contar tudo o que aconteceu comigo, dos meus sonhos, dos meus medos, das minhas conquistas e das minhas incertezas.

 

Quando deixei para trás todos aqueles que eu amo, no verão de 1999, na cidade de Araruna, na Paraíba, eu carregava na mala uma vida de saudades e lamentações de amores distantes. Ficavam na porta da minha casa meu pai, minha mãe e meus irmãos aos prantos. E eu, ao olhá-los pela janela do ônibus, sentia o meu coração partir-se em mil pedaços. E me perguntava se era a coisa certa a fazer?

 

Quem saberia?

 

Uma garota de dezenove anos, com o rosto lavado de lágrimas; no coração, além das incertezas, também havia esperança de uma vida melhor, com mais portas abertas. Quando eu olhava ao meu redor, eu via os que também estavam chorando por partir, então eu não era a única a despedir-me de minha família.

 

Com mais de 2.700 quilômetros rodados, finalmente a rodoviária do terminal Tietê. Sonho realizado! Será? Não! A minha vida estava apenas começando… Carros, prédios buzinas. Minha nossa! O que é isto? Tanta gente, tantas malas, quantas bagagens… Tanta confusão na minha cabeça, entretanto, eu estava amando tudo isso.

 

O tempo passou… Quantas coisas eu vivi. Tantos sentimentos bons e ruins eu tive. O quanto eu aprendi aqui em São Paulo.

 

Do primeiro cinema ao primeiro shopping, quantas descobertas… Quantas artes, músicas, teatros… Uma cidade rica em informações, até quem não quer aprender, acaba aprendendo…

 

Cidade mãe, a cada brisa que toca em meu rosto, eu ainda sinto as boas vidas e a boa sorte que São Paulo trouxe-me quando pisei nesse solo.

 

Hoje, quando vejo pela janela do meu quarto, no último andar do prédio, a noite iluminada pelas inúmeras luzes de São Paulo, posso sentir as lembranças batendo em meu rosto, como se fossem asas de anjos sobrevoando a minha vida. Quando olho nos olhos do meu filho relembro tudo o que eu passei, como cheguei até aqui, como consegui ficar aqui, nesta cidade onde tudo é abundante, onde eu decidi fazer a minha vida, onde eu aprendi a amar como se fosse minha.

 

São Paulo deu-me todas as oportunidades que uma garota paraibana, de 19 anos, sonhava em ter. Aqui fiz minha família, aqui encontrei o meu amado marido, aqui virei professora, aqui tive o meu querido filho. Aqui eu tenho o que eu preciso.

 

Mergulhada nas minhas lembranças, eu sinto a mão de São Paulo tocar em meu rosto e me dizer: “filha, você venceu os obstáculos, agarrou as oportunidades e aprendeu direitinho tudo o que eu te ensinei”. É assim que vejo esta cidade, como uma mãe abençoada por Deus. Porque é assim que os filhos fazem, quando necessitam correm para os braços da mãe.

 

Sou grata por tudo que aprendi e vivi… Sou grata pelo meu eterno amor e meu eterno amado filho.

 

Sou grata pelo que ainda vou aprender e sou grata por toda a saudade que tenho dos meus pais. Eu tenho certeza que é essa vida, que os meus pais sonhavam que eu tivesse.

 

PS: Nunca deixei de visitar meus pais. Todos os anos passamos nossas férias com eles. É claro que também amo a minha cidade natal e melhor do que estar lá, é estar com os presentes que São Paulo me deu. Meu amor e meu filho (Paulo e Júnior). Acho que tudo isso tinha mesmo que acontecer: haja Paulo na minha vida. Pai Paulo, marido Paulo, filho Paulo e cidade que moro e amo São Paulo.

 

Boa noite São Paulo. Dorme com Deus. É assim que eu me sino nesta cidade, nas mãos de Deus.

 

Atenciosamente

 

Elaine Viana

Conte Sua História de São Paulo: o cordel da cidade multicolorida

 

Por Pedro Monteiro
Ouvinte CBN e cordelista

 

 

Minha São Paulo querida
Berço da desenvoltura,
Alavancando o progresso
De renomada estatura,
Na meiguice ou na crueza,
Sua imponente beleza
Tem diversão e cultura.

 

Quando um imigrante deixa
Para trás a sua terra,
Seus costumes, sua gente,
Seja na paz ou na guerra,
Na tristeza ou na alegria,
São Paulo é a garantia
De quem mirando não erra.

 

Cada migrante que chega
Trazendo seu predicado,
Ajuda na construção
Desse importante legado.
Com essa atitude boa,
Hoje a terra da garoa
Tornou-se berço afamado.

 

Entre adotivos e natos
Ela não faz distinção;
Valoriza a quem batalha
Ganhando honesto o seu pão.
Quem vai à luta, ela ampara;
Quem não vai, ela equipara
Aos caídos no chão.

 

Beijo a face multicor
Dessa torre de babel,
Para o seu aniversário
Quero pintar um painel,
Com as cores da emoção,
Gravadas no coração
Nestes versos de cordel.