De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

Flor

 

Olá,

 

luxo? me perguntei, sequestrada pelo título do artigo de Ricardo Ojeda Marins.
Parei tudo, foquei o máximo que tenho conseguido focar numa coisa de cada vez e me dei conta de que tenho vivido o luxo a vida inteira. Já tive, já não tive, vivi na abundância, no aperto, amei, desamei, ri e chorei como todo mundo, de toda raça, de todo credo e de de todo tamanho de conta bancária. Fui e deixei de ser tanta coisa, vivi papéis variados, mas o luxo dos luxos ainda acho que é reconhecer o luxo do dia a dia.

 

Ter amigos que valem a pena e reconhecer que nem sempre se é o amigo que vale a pena, é luxo. Luxo é receber o telefonema de um amigo querido dizendo que vem te ver, e ele vem. Ter pouquíssimos ingredientes na cozinha e preparar um prato divino, é luxo. Luxo é não querer parecer o que não é e não sentir insegurança de mostrar o que é.

 

Viver é luxo. Fazer parte do elenco da maior novela já encenada, é puro luxo. Luxo é excelência sob medida em cada fase da vida. Comer pastel na feira com quem a gente quer bem, num papo firme daqueles, é luxo. Luxo é bolinho de chuva, é milho na espiga na praia num dia de sol, caminhada e silêncio; é a caixa de bolinhas de chocolate recheadas de licor, esvaziada durante a projeção de Meia Noite em Paris. Luxo é o vestido de couro italiano estampado comprado na Neiman Marcus em Nova Iorque e o Cornetto comprado no boteco da esquina em São Paulo para acompanhar mais um episódio de House.

 

Luxo é prestar atenção no outro. Paz e a simplicidade do Papa Francisco são luxo.
Luxo é saber se comportar sem luxesa, mas com finesa. Acordar e saber que os filhos estão vivos e bem, é luxo. Luxo é ser capaz de reconhecer o luxo disfarçado de trivial.
E você, se pergunta?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

PS: Bem vindo Ricardo Maríns. Parabéns pelo excelente texto. Um luxo.

 

Maria Lucia Solla escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung. Tê-la aqui desde o início deste blog é um tremendo luxo.

Luxo é o privilégio de viver novas experiências

 

Ricardo Ojeda Marins é novo colaborador do Blog do Mílton Jung e escreverá às sextas-feiras sobre o mercado de luxo. Administrador de empresas pela FMU-SP, Ricardo tem MBA em Marketing pela PUC-SP e, atualmente, cursa o MBA em Gestão do Luxo na FAAP. É, também, autor do Blog Infinite Luxury. Seja bem-vindo, Ricardo; e você, caro e raro leitor, faça bom proveito do conhecimento deste novo colega:

Luxo é tema fascinante que ganha relevância no cenário brasileiro e mundial. Para muitos, o termo ainda está associado à ostentação, riqueza, consumismo, glamour e, até mesmo, futilidade. O luxo, no entanto, vem sendo desmistificado, é objeto de estudo em diversos países, e os números mostram que deve ser visto como um segmento de negócios como tantos outros, com suas especificidades, é lógico.

 

Durante séculos foram muitos os significados para definir o que é luxo. Está ligado à magnificência, conforto, suntuosidade e demais conceitos que demonstrem exclusividade. Na antiguidade, o luxo era ostentado mediante as riquezas materiais de uma classe alta da sociedade, principalmente pelos reis. Era um luxo material, de posses de bens e prova de alto reconhecimento social. Atrelado à ostentação e ao excesso, no passado, hoje o luxo mostra-se evoluído e com um consumo emocional: é tratado não apenas no sentido de possuir bens ou produtos; passa a ser visto como a era do ser; um luxo subjetivo, no qual o consumidor busca, sem dúvida, o raro ou exclusivo, mas, principalmente, qualidade de vida, sensações e experiências, como o prazer de utilizar um bem ou um serviço, sem, necessariamente, ter o intuito de ostentação. Antes, o produto em si era alvo de desejo; hoje, a experiência que esse produto proporciona ao cliente tornou-se o diferencial. O luxo deslocou-se para o subjetivo universo do consumidor, repleto de sentimentos, necessidades e valores que envolvem especialmente o aprimoramento sociológico das pessoas.

 

Um exemplo interessante é o turismo de luxo. O hóspede desses hotéis não quer torneiras de ouro ou lustres e decoração requintados. Para ele, o luxo está nas experiências de bem-estar que o lugar oferece: spa, jantar romântico em praia privativa, gastronomia especial, a história do próprio hotel e, principalmente, o sentimento de ser único ao receber tratamento personalizado, conforme suas necessidades e desejos específicos.

 

No varejo de luxo não é diferente. Clientes preferenciais de marcas de prestígio recebem privilégios como acesso às coleções antes de seu lançamento oficial, atendimento privativo e vivenciam experiências incríveis no ponto de venda.

 

Além de buscar qualidade de vida e bem estar, o consumidor, atualmente, está envolvido em questões como responsabilidade social, preocupa-se com o meio ambiente e se interessa pela origem do produto que vai comprar. O desafio está lançado para as empresas que, além de oferecem produtos que agucem o desejo de seus consumidores e tenham valores sustentáveis em sua cadeia social e ambiental, devem estar preparadas não apenas para atendê-los, mas entendê-los, surpreendê-los e encantá-los.

 

De incerteza

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

peço licença para compartilhar um texto que escrevi em agosto do ano passado, aqui para o blog do Mílton Jung. Como as ideias insistem em me boicotar, fui espiar para saber por onde se embrenhava minha reflexão, há um ano. Sabe como é, olhar no espelho do tempo faz bem. A percepção também é íntima dele.

 

Nós, filhos dos homens, nascemos e renascemos infinitas vezes numa vida só. Sempre sós. Todos nós. Ressuscitamos como nos fez ver o filho Dele, e a cada ressuscitar temos oportunidade de ver o novo a piscar. Tudo sempre novo. É paralisar, ou experimentar e enfrentar. Nos esforçamos no entanto para acreditar que tudo continua como era, pelo medo de soltar o velho, de deixar ir a dor e o prazer conhecidos, mas nada continua. Nada permanece. Vida é pura, e simplesmente, impermanência. Repetimos o que ouvimos, dizendo que vida é movimento, do mesmo modo que rezamos o Pai Nosso e a Ave Maria, como dizemos eu amo você, como dizemos quase tudo o que dizemos. Sem sentir. Sem verdade. O som corneteia pela boca, acostumado e apressado que é, e amordaça a alma. Usamos frases já feitas para não corrermos o risco de aceitar que nada é como antes, não é, Mílton Nascimento?

 

Rugas redesenham nossos corpos, a pele cansada de se agarrar em nós se afasta e a gente renasce. Sempre. Tem quem coleciona dores, tem os que preferem amores, os que miam e os que criam, os que param enquanto outros se preparam e os que se queixam, com medo de continuar, com medo de se olhar de perto. Param no ponto.

 

Passa uma, passa outra oportunidade, e nos esquivamos delas com medo de embarcar em mais uma viagem divina, aqui na Terra. Mas está ali, ao alcance da mão, sempre. Se a gente consegue se distanciar um pouquinho que seja do próprio ego, percebe que a certeza é só fumaça aprisionada por ele, fumaça que asfixia a incerteza, parteira do renascer.

 

É isso.

 

Entendi que fui até ali só para lembrar que certeza é fumaça aprisionada pelo ego.
Até a próxima inspiração, ou não…

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De nada

 

Por Maria Lucia Solla
De nada

 

Tem vezes que nem dá tempo de sentar para escrever, que uma cachoeira de ideias se atira

 

louc
a busca
ndo
olhar a
tento
ou
vido a
finado
cor
ação
a
berto

 

E quem é que não está em busca de olhar, ouvido e coração… cada um do seu jeito, na medida do momento, mas é o que buscamos. Sermos vistos, ouvidos e reconhecidos.

 

no
fundo
e na
superfície
é a oportunidade de nos reconhecermos
olhando no sentido inverso

 

Tem vezes que a inspiração preenche o vazio deixado pela expiração do que não dava mais para segurar

 

e
tem vezes que é assim
plenitude
de vazio
nada
a dizer.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

FGV calcula que R$ 0,50 na gasolina reduziriam ônibus para R$ 1,80

 

Texto escrito originalmente para o Blog Adote São Paulo

 

 

“Nossa Senhora” balbuciou o prefeito Fernando Haddad ao ouvir que de cada dez pacientes que estão em leitos hospitalares, em São Paulo, quatro são vítimas de acidentes de trânsito. A estatística fez parte da apresentação do coordenador da Rede Nossa São Paulo, Oded Grajew, que organizou, em parceria com a Frente Nacional dos Prefeitos, o evento “Alternativas para o financiamento do transporte público”, na manhã desta terça-feira, no Sesc Consolação, na capital. Coube a mim, no papel de mediador, sentar ao lado de Haddad, em uma mesa da qual participaram economistas, médicos, ambientalistas e gestores públicos. Pela posição em que estava me transformei em interlocutor do prefeito sempre que ele era surpreendido com um novo dado sobre os impactos da mobilidade urbana na qualidade de vida do cidadão.

 

Também provocou expressões de espanto por parte do prefeito, o resultado parcial de estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas/SP que ofereceu fortes argumentos para a defesa da mudança na cobrança e distribuicão da CIDE-Combustíveis (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico incidente sobre as operações realizadas com combustíveis). De acordo com Samuel Abreu Pessoa, do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia, R$0,50 a mais no litro da gasolina podem representar até R$1,20 a menos na passagem de ônibus e uma redução de 0,03 ponto percentual na inflação. Ou seja, se o Governo Federal aceitar a ideia de transferir o que for recolhido pela CIDE para os municípios investirem no transporte de passageiros, a tarifa na capital paulista cairia dos atuais R$3,00 para R$1,80. “Pelo Amor de Deus”, deve ter pensado você ao ver esta conta.

 

Haddad, mesmo parecendo satisfeito com os números que sustentam a tese que será defendida nacionalmente, sabe e falou ao pé do ouvido: “não vai ser fácil”. Apesar dos benefícios que poderiam gerar nem todos são a favor da ideia. Hoje mesmo entrevistei o presidente da Frente Nacional de Prefeitos, José Fortunatti, que comanda a cidade de Porto Alegre, a primeira a assistir aos protestos contra o aumento no preço da passagem de ônibus, este ano. Assim que se encerrou a conversa, na qual Fortunatti defendeu o aumento e a municipalização da CIDE – atualmente, com alíquota zero -, uma sequência de mensagens chegou no meu e-mail e Twitter. Eram cidadãos incomodados com a possibilidade de ter mais tributo a pagar, além daquela quantia enorme que o Governo já saca da nossa conta todos os dias. Eram, principalmente, motoristas de carros que passariam a subsidiar o transporte público com a mudança proposta. Muitos pedindo que antes de aumentar imposto, os gestores segurassem os gastos públicos, controlassem a ineficiência do sistema e acabassem com a corrupção.

 

Para os motoristas preocupados com o peso da gasolina no bolso, prefeitos e defensores da mudança dizem que o incentivo para o transporte coletivo vai ter impactos positivos para toda economia, aumentando a circulação das pessoas, diminuindo os congestionamentos, reduzindo o custo de vida, melhorando a qualidade do ar e levando menos pessoas aos hospitais. Mas além de parcela da opinião pública terão de convencer, principalmente, o Governo Federal que, até agora, tem preferido incentivos ao transporte individual, com retenção do preço da gasolina, isenção de impostos às montadoras e incentivo para a compra de carro. A diferença de tratamento é tão absurda que análise feita por Carlos Henrique Carvalho, do IPEA, mostrou que nos últimos 12 anos, o preço da gasolina reajustou em menos de 100% enquanto o das tarifas de ônibus quase bateu a casa dos 200%. Sobre isso Haddad nada disse, pois já havia ido embora para encontro com o presidente do Tribunal de Contas do Município, na sede da prefeitura. Estava atrasado para o compromisso, como sempre estão os paulistanos.

Vamos engrossar o caldo político

 

 

O antigo mobiliário do auditório do Pateo do Colégio estava devidamente organizado e lustrado para receber o grupo de cidadãos comprometido com a ideia do Adote um Vereador. A louza branca pendurada na parede do fundo do palco não era a única a destoar naquele cenário formado por um piano de cauda, balcão enorme e cadeiras de encosto alto, ambos de madeira escura, refletindo a antiguidade. Muitos de nós, acostumados aos encontros que ocorrem todo segundo sábado do mês no bar do Pateo, regado a café, água e descontração, parecíamos constrangidos em meio a pompa e circunstância do ambiente. Além disso, o sol e a temperatura de sábado estavam mais convidativos para passear pelas ruas e praças do centro de São Paulo. Mesmo assim preferimos caminhar até lá e nos sentar para assistir à palestra do cientista social Humberto Dantas, convidado especial desse encontro.

 

Dantas é jovem e entusiasmado como a maioria de nós que participa do Adote um Vereador (ok, eu sou mais entusiasmado do que jovem), com a vantagem que estudou e estuda as coisas que movem a sociedade, enquanto nós somos espécies de autodidatas da política. Aprendemos na marra, assistindo aos políticos fazerem sua política, cobrando deles posturas que consideramos ser as mais apropriadas para o cargo que ocupam e cidade que representam. Por isso, prestamos muito atenção em cada história contada pelo professor que dominou o público com extrema habilidade, mesmo nos momentos mais tensos do debate que, algumas vezes, foi interrompido pela ansiedade da audiência em opinar.

 

Em quase duas horas, demonstrou seu descrédito com as reformas políticas propostas nestes anos todos no país e questionou a necessidade de mudanças nas leis, novamente. Lembrou que desde a redemocratização nunca disputamos uma eleição com as mesmas regras da anterior, o que não significa que tenhamos evoluído no processo. A impressão que tive é que acredita menos nos sistemas e mais no poder dos homens em mudar comportamentos. Se estiver enganado, me corrija, professor.

 

Dantas contou histórias curiosas sobre a forma de agir de vereadores. Um dos casos mais curiosos é o da câmara municipal que funciona no mesmo prédio da secretaria de assistência social da cidade. Quando o morador vai até lá para pedir ajuda à prefeitura, os funcionários pedem para eles descerem até os gabinetes e pegarem com os vereadores papeletas coloridas que são como senhas para autorizar a prestação de serviços em áreas distintas como entrega de cesta básica, gratuidade no transporte e compra de remédios. Em outra, são os vereadores que providenciam o enterro e velório dos mortos, oferecendo serviço supostamente de graça para ajudar os familiares em hora tão difícil. Detalhe: todos os serviços são, por lei, fornecidos pelo município. Ou seja, não havia necessidade da interferência do político.

 

Para o sociólogo, as faltas de conhecimento e de consciência da sociedade brasileira permitem que os políticos se comportem de maneira clientelista e se aproveitem do poder e dinheiro públicos. Com a experiência de visita que fez na Europa, Dantas mostra o caminho das pedras para melhorar a política no Brasil. Na Alemanha, se surpreendeu quando viu um grupo de alunos, de sete e oito anos, assistindo à aula de valores – isto mesmo, valores: ética, moral, bom comportamento, etc. Uma garotada que, a partir daquela discussão, assumiria compromissos de melhoria da sua cidade.

 

Terminou sua fala, antes de intensa sessão de perguntas e respostas, recomendando que continuemos a pressionar nossos representantes, a fiscalizar as ações no poder legislativo e a interferir na política local. E ratificou nossa luta no Adote um Vereador, iniciada em 2008, assim como de todos os demais que atuam em organizações sociais ou individualmente – alguns presentes no encontro – nos convidando a “engrossar o caldo da cultura política, no Brasil”.

 

O Adote um Vereador agradece a gentileza de Humberto Dantas de nos ajudar a pensar um pouco mais profundamente sobre a política – assim como agradecemos a disposição do Pateo do Colégio de nos abrir espaço tão nobre na casa para esta pensata. E deixa ao professor a garantia de que saímos de lá dispostos a colocar ainda mais farinha neste pirão.