De viver a vida

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Não vejo a pintura no quadro, mas o quadro que vejo é bonito. Na sacada de um prédio da redondeza, além do cavalete de metal, há plantas. Poucas, mas suficientes para colorir de verde e vermelho o espaço aprisionado entre espaços aprisionados. E sua criadora se estica até o lado superior esquerdo da tela. Se contorce, afasta o olhar, se afastando, até onde o muro da sacada permite, e continua o trabalho, na busca pela luz do sol, que ela quer aprisionar na tela.

 

Foi o que vi outro dia durante o meu encontro rápido com ele, o sol, na sacada do quarto. Não tenho mais sua luz, o dia todo invadindo o apartamento, mas agora temos uma agenda. Quando me dou conta de que ele está chegando, corro pegar a caminha da Valentina e seu cobertor cor de rosa, e acomodo tudo no lugar de honra. Depois me encaixo e vou mudando de lugar, enquanto ele segue o caminho de iluminar.

 

Fico ali curtindo o calor na pele, jogando meu olhar para cá e para lá, aproveitando cada pouco da sua visita, até a grade da varanda do sexto andar me mostrar que há limite.

 

E por falar em limite, voltei a reforçar minha crença na impossibilidade de pensar grande ignorando o pequeno pensamento. Em que não vale a pena ter a perspectiva aumentada se perdermos no processo o detalhe. Ovo não nasce na caixinha, gasolina não nasce da bomba mais próxima da tua casa e nem da minha, e a fonte da água dita potável não é o encanamento das nossas casas, no momento em que queremos um banho quente.

 

Sonhos grandiosos crescem com a rega da minúcia de passos, olhos nas estrelas e pés no chão, e muita gratidão pela oportunidade da vida, preenchendo cada canto do coração.

 

Viva a vida!
De bem com ela, mesmo que doa.
Boa semana.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De reflexão

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Todos passamos por refinamento voluntário e involuntário, continuamente. Enfrentamos oportunidades para dar uma polida aqui, uma lixadinha ali, para queimar isto, esfriar aquilo, e vamos nos transformando e transformando tudo, todos e cada um, em volta ou não. Efeito inevitável.

 

Tendo em mente que refinamento não depende de grife, do número de milhas viajadas nem do valor do extrato bancário, refinamento é evolução, e evolução não existe sem movimento, que é alicerce na evolução física, emocional, mental e espiritual. Quanto mais harmônica e abrangente a evolução dos nossos corpos, maior o refinamento.

 

ser
nascer
estar
aceitar
agir
evoluir

 

Bem-estar é termômetro. Se tem dor, mudança de posição pode não ser a solução, mas é bom começo.

 

bem-estar
não é
fazer bonito
bem-estar
é
sentir bonito

 

no barco em que estamos tem quem quer pular fora
depois de ter esperado na fila
pela
oportunidade da vida

 

tem quem entrou mais uma vez na fila
torcendo para ser chamado de volta
a ela
e tem quem não tem a mínima ideia do que está fazendo aqui
na vida

 

Incoerência humana.

 

A Regência da vida nos orquestra movimentos e enredos da Música. Vivace, cantabile, animato (com alma), dolce. Como as ondas do mar.

 

O caminho nunca é só bom ou só ruim. Vamos de um movimento a outro um punhado de vezes durante um único dia, por vezes numa fração de segundo. Bom/ruim é um binômio complementar peralta, que adora gangorra. Por isso, nossa vida não é um projeto; é a realização de um projeto por dia, a cada passo, a cada batida do coração.

 

Isso é evolução, que na voz de Mario Quintana fica mais bonito:

 

‘Só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos.’

 

Penso que evoluir para refinar é deixar que a vida flua, e fluir com ela num carrossel de emoções. É aceitar a realidade como pano de fundo do espetáculo infinito do viver.

 

Evoluir é movimentar-se em muitas direções buscando a construção do círculo refinado perfeito, mas evoluir é verbo intransitivo. A gente simplesmente evolui. Sem objeto direto nem indireto.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Jornada Mundial da Juventude conheceu o Brasil como somos

 

 

A Jornada Mundial da Juventude se encerrou com resultados contraditórios. A felicidade de jovens católicos com os quais tive oportunidade de conversar impressionava, todos entusiasmados com a manifestação religiosa que marcou o Rio de Janeiro na última semana e se espalhou pelo Brasil, a partir da ampla cobertura jornalística e transmissões dos eventos pela televisão. O comportamento do Papa Francisco e seus vários recados enviados de forma direta, que migraram da religião à política, surpreenderam boa parte dos brasileiros, inclusive parcela dos que não concordam com ideias defendidas pela Igreja Católica.

 

Por outro lado, assistimos a problemas que evidenciaram a falta de organização e planejamento. Desde a barbeiragem da escolta no primeiro dia que levou o Papa e sua comitiva a ficarem presos em congestionamento e expostos a riscos até as dificuldades para os peregrinos se deslocarem na cidade do Rio. Por sinal, deste lado do evento, nada que nos surpreendesse. O que se enfrentou nesses últimos dias é o que todo brasileiro precisa encarar em seu cotidiano. Os engarrafamentos e a falta de mobilidade emperram o desenvolvimento das nossas cidades e prejudicam a qualidade de vida dos cidadãos. Sexta-feira, por exemplo, sem Jornada nem evento especial, a cidade de São Paulo registrou mais de 300 quilômetros de congestionamento. Metrô parado, falta de ônibus e ruas entupidas são tão comuns quanto obras mal planejadas, como a do Campo da Fé, construído sem estrutura suficiente para suportar os dias de chuva. Pessoas morrem todos os anos e em grande quantidade por ocuparem áreas de risco e com a conivência do Estado. Foram 30 no chuvoso verão paulistano, este ano, e apenas em um evento de março, em Petrópolis, região serrana do Rio, 16 morreram.

 

O “imagina na Copa” voltou com força nestes dias, seguido da previsão de um desastre em 2014. Não compartilho do mesmo pessimismo, a começar pelo fato de que em nenhuma das cidades sedes teremos a necessidade de movimentar milhões de pessoas ao mesmo tempo em tão pouco espaço como ocorreu na Jornada Mundial da Juventude. Isto reduzirá o impacto da falta de infraestrutura. Mas também não me iludo com a ideia de que os serviços serão prestados à altura do que competições do porte da Copa’14 e da Olimpíada’16 exigem.

 

Resumo os sete dias de evento com frase que foi dita pelo colega Carlos Heitor Cony, no Liberdade de Expressão, do Jornal da CBN, sexta-feira passada: na Jornada dois personagens cumpriram bem o seu papel: o Papa e o povo.

 

Quanto ao resto, digo eu, é o que nós já conhecemos muito bem.

De mais um recomeço

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Férias terminadas, missão cumprida, e agora a longa volta para o Brasil.

 

São cinco horas da manhã, e estou sentada na sala de embarque do aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida. Esta ala está passando por uma reforma e já tem homens trabalhando e martelando. Nada que incomode, mas fica tudo feio e desarrumado.

 

Não sei se você tem viajado pelos Estados Unidos e se já enfrentou a situação de ter que tirar os sapatos para que eles, assim como você e toda a tua bagagem, possam passar por dedos nervosos e Raio X. Esta é minha segunda experiência, e ainda terei mais uma quando chegar em NY para tomar o voo de volta para o Brasil.

 

Minha estreia ‘descalça no aeroporto’ foi quando embarquei, no dia 20 deste mês, de NY para a Flórida. Fui pega de surpresa, de sandália alta, daquelas de uma tirinha fina segurando os dedos e fivela no tornozelo arrematando o pacote. Quando vi que as pessoas tiravam os sapatos, entendi. Não!

 

Pos é, sim! Para tirar a sandália do pé direito foi menos complicado, uma vez que o pé esquerdo, apoiado num belo salto, me dava altura suficiente para esticar a perna direita, pôr o pé na esteira e, só um jeitinho aqui, outro ali, e lá se foi um pé. Mais difícil um pouco foi realizar a mesma proeza com o pé esquerdo, pois o direito, já descalço, me privava de uns sete centímetros. Já se vai tempo do meu tempo de balé, mas fiz um alongamento surpreendente e consegui tirar o segundo pé da sandália e colocá-la numa bandeja. plástica que foi rolando pela esteira, com meus outros pertences, para o exame minucioso de dedos nervosos e máquinas curiosas.

 

Adianta a fita e os dois pés já estão calçados novamente. Ufa! Esquisito, seu.

 

Além da desarrumação da sala de embarque, tenho reparado que a gritante maioria das pessoas não se arruma mais, para nada. Nem para viajar. Ou melhor, principalmente para viajar. Chinelo de borracha, bermudão e camiseta. Um ar desleixado invade o aeroporto que, há não muito tempo, era pura festa. Mas deixa para lá.

 

Meu voo só sai às seis, e preciso que as voltas da vida e do relógio não virem as costas uma para outra, porque o avião que me leva de volta a São Paulo decola às onze e quinze, do aeroporto JFK. Me espera ainda um desembarque, e a tortura da espera por minha mala que será desovada (a gente nunca tem certeza disso) da aeronave e levada para um passeio de carrossel e que venha se oferecer na minha direção. Depois disso, andança apressada pelo aeroporto, até a ala da American Airlines, e descalça de novo.

 

Quando meu pai começou seu primeiro trabalho remunerado, tinha só catorze anos e nenhum par de sapatos. Começou descalço. Isso me dá a certeza de que posso sempre recomeçar.

 

E a vida continua.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Um passeio pelo inverno de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

 

Vá passear no centro de São Paulo e se deixe envolver pela atmosfera de nostalgia criada pelas ruas e costruções antigas e pelos monumentos históricos. A região da Praça da Sé que ainda mantém marcas da época em que era impulsionada pela exportação do café hoje tem perfil bastante diferente. Sua economia é movida pelas muitas lojas, restaurantes e cafés que atraem pessoas de vários lugares do país. Por dia, em toda a área do centro paulistano circulam cerca de dois milhões de pessoas e em torno de 400 mil moram por ali, números calculados pela subprefeitura da Sé.

 

Gosto de caminhar nessa região e encontrar algumas surpresas como o café no Pátio do Colégio, local em que a cidade foi fundada. Além da exposição que conta parte da história de São Paulo e peças do século 16, há espaço para sentar e contemplar, que oferecem conforto aos visitantes. O charme do centro também está no Mosteiro São Bento e no café Girondino, que tem a decoração inspirada no começo do século 20. A praça em frente a Bolsa de Valores de São Paulo tem uma doceria bem charmosa e cheias de clientes ávidos por doces. E em todas as ruas e vias, encontra-se muita gente, que surge de todos os lados, que vem de todos os cantos, que lota as calçadas, toma as ruas, se transforma em um formigueiro.

 

 

Mesmo em uma semana gelada como a que tivemos na cidade de São Paulo, impossível sentir frio em meio a esta multidão. O calor humano prevalece e a visão da história nos aconchega. Para compartilhar com você parte desta sensação, apresento ao longo deste post imagens que fiz ao passear pelo centro paulistano. Faça bom proveito.

 

Dora Estevam é jornalista e escreve de moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Calçadas, armadilhas urbanas no caminho do cidadão

 

 

É a cara da dor dos pedestres brasileiros. Uma foto constrangedora que incomoda. Os hematomas nos olhos da atriz Beatriz Segall estampados nas páginas de jornais e sites, desde quarta-feira, simbolizam a realidade de milhares de vítimas de acidentes nas calçadas mal conservadas das cidades brasileiras. Um buraco no caminho do teatro onde assistiria a um espetáculo, no bairro carioca da Gávea, a fez despencar no chão, como ocorre diariamente com quantidade incrível de pessoas. Estudo do ombudsman da CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, Philip Gold, divulgado ano passado, estima que 171 mil pessoas sofrem quedas nas calçadas apenas na Região Metropolitana e o custo social destes acidentes é de R$ 2,9 bilhões a cada ano – 45% a mais do que o custo causado por acidentes com veículos. No Hospital das Clínicas de São Paulo as quedas são o segundo principal motivo de busca de atendimento na instituição e em 40% dos casos havia um buraco no meio do caminho.

 

Não pense que os problemas apenas incomodam os moradores de São Paulo, onde aliás mora Beatriz Segall, ou Rio de Janeiro, onde ela caiu. De acordo com enquete realizada pelo Instituto Mobilize – Mobilidade Urbana Sustentável, as calçadas de 39 cidades receberam nota 3,55 em média, muito abaixo do que se considera o mínimo aceitável para uma calçada de qualidade, que é a nota 8. Apenas 6,57% dos 228 locais avaliados obtiveram nota acima desse indicador mínimo. E 70,18% das localidades analisadas tiveram médias abaixo de 5 (veja os dados completos aqui).

 

Para resolver esse problema não é possível deixar a solução apenas para os proprietários das casas e prédios que, na maioria das cidades, são os responsáveis diretos pelas calçadas que estão diante de suas unidades habitacionais. As prefeituras têm obrigação de desenvolver ações com intervenção nos passeios com maior fluxo de pedestres e criar programas que incentivem os cidadãos a cuidar das calçadas. São Paulo, por exemplo, tem 32 mil quilômetros de calçadas , se investir em 10% das principais vias solucionaria 80% dos problemas de acessibilidade dos pedestres.

 

É necessário, também, mudar o nosso comportamento, pois tendemos a reclamar mais pelo buraco no asfalto que “machuca” a roda e a suspensão do carro do que pela calçada quebrada, sem perceber que, por mais que adoremos os automóveis, antes de motoristas somos pedestres.

Rodízio de carros mais amplo não melhora trânsito em São Paulo

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da Revista Época SP

Ligação leste-oeste (Foto Pétria Chaves)

 

O motorista paulistano acordou com frio e sob ameaça de ter seu espaço ainda mais reduzido nas ruas da Capital. A CET – Companhia de Engenharia de Tráfego anuncia para setembro a ampliação em 240km da área em que o rodízio municipal estará em vigor, incluindo as avenidas Aricanduva (zona leste), Eliseu de Almeida (oeste), Inajar de Souza (norte) e Washington Luís (sul). A data para implantação do novo sistema estaria relacionada a melhoria do transporte público, que segundo o diretor de planejamento da companhia, Tadeu Leite Duarte, acontecerá com as novas faixas exclusivas de ônibus que estão sendo entregues desde o início da gestão Haddad.

 

Pesquisa anual feita pela própria CET mostra que a velocidade média dos veículos nos principais corredores caiu 12% no ano passado na comparação com 2011. Se antes estava ruim, agora ficou pior: enquanto pela manhã a velocidade média é de 23km/h, no período da tarde, é de apenas 15km/h. No horário de pico da manhã (7h às 10h), os congestionamentos subiram de 53 para 68 quilômetros e da tarde (18h às 21h) passaram de 107 para 120 quilômetros. Mesmo fora do horário de pico a situação ficou mais complicada: às 11 da manhã, o índice médio de congestionamento subiu cerca de 50%, de 34 para 66 quilômetros.

 

Com o desafio de mudar este cenário, a prefeitura tem investido na ideia de aumentar o espaço para os ônibus e restringir o dos carros. Foram instalados 70 quilômetros de faixas exclusivas para o transporte coletivo até agora, incluindo a Avenida Paulista e as marginais Pinheiros e Tietê, e a ideia é chegar a 220 até o fim do ano. Para 2016, o plano prevê 150 quilômetros de corredores de ônibus, mais efetivos do que as faixas. Com as intervenções feitas até agora, estudos preliminares teriam mostrando aumento na velocidade dos ônibus de 13km/h para 15km/h, o que, convenhamos, não motiva ninguém a deixar o carro de lado para subir no ônibus. Por isso, não dá para crer que a ampliação da área de restrição de circulação de carros levará os motoristas a se transformarem em passageiros.

 

Hoje, conversei com Luis Célio Botura, engenheiro especializado em transporte, sobre a pretensão da prefeitura em relação ao rodízio. Para ele a medida trará mais prejuízos do que benefícios, pois aumentará a quantidade de carros dentro dos bairros, em ruas pouco apropriadas para a circulação de veículos, onde, aliás, não existe monitoramento da CET (ou seja, sequer serão calculados nos índices de congestionamento da capital). Ele defende a ideia de a prefeitura atuar nos pontos críticos da cidade com melhor controle sobre os semáforos e a construção de passagens subterrâneas para eliminar cruzamentos como o da avenida Giovanni Gronchi com a Morumbi, na zona sul.

 

A redução do espaço para os carros em avenidas importantes da Capital, desde a implantação das faixas exclusivas de ônibus, tem gerado fortes críticas de motoristas (e estas vão aumentar com o fim das férias escolares, semana que vem). A prefeitura não deve recuar na iniciativa de implantar faixas apenas para ônibus, apesar da bronca de parcela da população. Não precisa, porém, tornar a situação ainda mais complicada com o aumento do rodízio. Vai comprar uma briga em troca de resultados pífios.

Da coragem de lutar

 

Por Nei Alberto Pies
Professor e ativista de direitos humano

 

“O medo tem alguma utilidade, a covardia, não”.
(Mahatma Gandhi)

 

Crianças, adolescentes e jovens percebem com muita facilidade quando um professor ou uma professora lhes aponta caminhos para construir sabedoria, viver o amor e lutar pela dignidade. Percebem, também, quando os educadores os encorajam para engajar-se socialmente pela garantia dos direitos humanos. A ocupação pacífica das ruas feita por educadores pode ensinar-lhes muito mais do que através de discursos e teorias sobre como viver em sociedade e como sobreviver de forma organizada, em defesa de interesses da coletividade.

 

Oferecemos, todos os dias, nas nossas salas de aula, o melhor do que somos e o melhor do que temos por amor às nossas crianças, adolescentes e jovens. Oferecemos a eles luzes de esperança, forjadas na cotidiana luta de nossa superação pessoal e profissional. Se os adolescentes sonham em transformar o mundo, apontamos caminhos de saudável rebeldia, capaz de arrebatar causas, sonhos e desejos que move a cada um e cada uma e a uma coletividade. Se jovens e adultos acreditam no poder do conhecimento, os estimulamos a fazerem suas buscas na vida pessoal e profissional, através de seus estudos. Quando, por vezes, cansados, animamo-nos ao perceber que nossos educandos tem uma vida e uma caminhada sempre muito difíceis, geralmente mais difíceis do que as nossas caminhadas.

 

Apoderar-se de sensibilidades afetivas, sociais e políticas constitui um grande legado para aqueles que escolheram ser professor ou professora. Por obra de uma paixão ensinante, fazemo-nos compreensivos com os outros, e sofredores com eles, crentes que cada ser humano possui as mais ricas e únicas possibilidades de superar-se, individual e coletivamente. Como na educação, também na política, só deveriam atuar aqueles que, acima de vaidades e interesses, são capazes de somar na crença que todo ser humano é sempre capaz de superar-se em todos os seus contextos, singularidades e peculiaridades. Para isto mesmo é que serve a política e a educação: propiciar instrumentos às pessoas para sua liberdade e sua emancipação.

 

Daqueles que assumem posições de poder, espera-se que sejam abertos ao diálogo, mesmo que na dureza das críticas dos outros. Que se interessem pela coletividade, sem desfazer-se de suas motivações e convicções políticas. Que saibam avançar nas proposições, mas também recuar quando se faz necessário. Que desenvolvam habilidades capazes de justificar as intenções que desejam ver concretizadas na coletividade.

 

“Quem luta, também educa”. Quem ama, também educa. Quem não anula e menospreza a sua consciência, ganha mais vida na dignidade, justamente por assumir-se como é. Para nós, educadores e educadoras, a educação não é um fim, mas sempre um meio para estimular as condições subjetivas, materiais e sociais para que toda pessoa possa sonhar e conquistar a sua felicidade. Para que a felicidade aconteça, é claro, sempre é preciso muita coragem para viver e lutar.

De Mãe Natureza

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Mãe,
permite
que me sinta sempre acolhida no teu Reino.

 

Guia-me
para que possa te devolver o indizível bem que me faz, com o melhor reciprocar de que sou capaz.

 

Andando por ele sinto cada canto enfraquecido, preenchido por tua magia, por tua grandeza e pela música cantada por árvores e arbustos, a plenas folhas.

 

Orquestra meu coração para que vento, sol, chuva, trovão, furacão, expressem eles drama ou comédia, plantem em mim sempre o melhor sorriso.

 

Desperta
de mim a infância
sempre pronta para acordar e
embala
minha consciência no teu manto, para que se mantenha acordada e cante pelos caminhos de tuas artérias. Que assim seja!

 

Tua diversidade de cores e formas é cardápio inesgotável que
amortece
a dor, mesmo a do amor, que não
cura
ainda nenhum doutor. Na tua expressão ferida é cicatrizada e memória transformada em construção da história.

 

Mãe,
acolhe-me
sempre, com coelhos posando para foto, e bambi se chegando, curioso pra saber o que é que eu vim fazer. Também eu tenho me perguntado, mas pensando bem, eu vim mesmo só ficar
mais perto de você.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De condicional

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Ah se eu pudesse…

 

…me consertaria todinha, voltaria a fita e desfaria os males que causei, mesmo aqueles dos quais nem conta me dei. De mim isso aliviaria o fardo, mesmo que fosse muito, muito difícil, eu o faria sorrindo e de bom grado.

 

Pediria desculpas a quem magoei, mas jamais engoliria as lágrimas que chorei. Choraria ainda mais, até que o engasgo desengasgasse, até que meu coração desafogasse.

 

Ah se eu pudesse…

 

…seria melhor mãe do que tenho sido, desataria os nós que atei, faria de novo, e faria bem, tudo aquilo em que falhei.

 

Beijaria mais, abraçaria abraços apaixonados, apertados e compridos, enxugaria as lágrimas dos sofridos e dos desesperançados, muito mais, mas muito mais do que até hoje enxuguei.

 

Ah se eu pudesse…

 

…confessaria meu amor sem pudor, acariciaria o corpo do homem amado com muito, mas muito amor, sem recato, e não mais aceitaria o vazio do abstrato.

 

Curaria as feridas dos corações dos meus filhos, uma a uma, sem medo nenhum de facilitar-lhes a vida, e recolheria cada pétala de cada dor por eles sentida.

 

Ah se eu pudesse…

 

…diria todos os dias, a todos os meus amigos, o quanto eu quero tê-los sempre comigo, lhes ofereceria abrigo, mesmo que seus queixumes não fizessem, para ninguém mais no mundo, nenhum sentido.

 

Continuaria a andar, feliz, pela estrada do sonho e por aquela da realidade, viajaria e cantaria, sem medo de desafinar. E mesmo não conhecendo os caminhos, para todo canto eu iria, pelo simples prazer de andar. Sem rumo, sem idade, para pôr minhas energias no prumo.

 

Ah se eu pudesse…

 

…não abandonaria jamais o banco da escola, daria aula de graça porque essa sempre foi minha cachaça.

 

Dançaria mais, muito, mas muito mais. Todo dia rodopiaria, de noite e de dia, num crescente espiral que me transportasse em transe e me colocasse frente a frente com o plano espiritual.

 

Ah se eu pudesse…

 

…adoçaria os corações amargos, desarmaria os armados, acalentaria os desesperados, animaria os desanimados, resgataria suas almas perdidas, cicatrizaria suas feridas, uma a uma, sem hesitação nenhuma.

 

Escreveria a história da minha vida e contaria ao mundo cada momento vivido, aqueles dos quais me orgulho e aqueles inverossímeis, dos quais mesmo eu duvido. Despiria meu êxtase, meus suspiros, meus gritos mais aflitos meus impulsos contidos, meus desejos proibidos. Um a um; não mascararia nenhum.

 

Ah se eu pudesse…

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung