A gente não quer carro, quer se deslocar

 

Este texto foi escrito, originalmente, para o Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Ônibus atrasado, passageiro no ponto

 

Ter carro próprio é sonho que se equivale ao da casa própria, com a vantagem de que os governos sucessivamente criam políticas que facilitam o acesso ao automóvel. O garoto próximo de completar 18 anos já vislumbra ganhar um modelo zero quilômetro do pai se passar no vestibular. A marca e os acessórios podem significar ascensão social no grupo em que vive e mudar seu relacionamento com os amigos (e amigas, principalmente). Esta cultura que impera no Brasil tem peso significativo na nossa qualidade de vida com a piora da poluição ambiental, doenças pulmonares graves e riscos à vida. O ambiente urbano está entupido, cenário que não se resume às grandes cidades. Médias e pequenas também enfrentam esta dificuldade e ouvem reclamações de seus moradores que pedem mais investimento em avenidas, pontes e asfalto.

 

Pesquisa do Instituto Akatu, que prega o consumo consciente, porém, revela mudança de comportamento no cidadão, talvez pelo esgotamento do modelo anterior. Ao ouvir cerca de 800 pessoas, de todas as classes sociais e em diversos Estados, descobriu que antes de ter um carro, o brasileiro quer mesmo é ter o direito de se deslocar pelas cidades com segurança, conforto e flexibilidade. Em uma escala de 0 a 10, a mobilidade alcançou índice de 7,9, enquanto ter carro próprio, 4,9. De acordo com os dados, até mesmo para quem não usa carro próprio em seu cotidiano (82% dos entrevistados), a preferência é fortemente em favor da mobilidade (7,7). “O resultado da pesquisa é uma prova do equívoco que são as políticas públicas que priorizam os carros. As pessoas podem ter carro, mas antes de serem proprietárias de automóveis, elas querem eficiência no transporte”, me disse o diretor-presidente do Akatu, Hélio Mattar.

 

A implantação de corredores de ônibus e faixas exclusivas para o transporte público, medidas de baixo custo que reduzem o tempo de deslocamento e oferecem mais conforto aos passageiros, têm de ser prioridade. Importante, também, dar mais velocidade aos projetos de ampliação das redes de metrô e trem, para atender a demanda crescente da população. Nessa quinta-feira, em Brasília, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunatti (PT), que assumiu a Frente Nacional dos Prefeitos, defendeu a união dos governos federal, estadual e municipal no sentido de desonerar o setor de transporte e aumentar os investimentos, tornando as passagens de trem, metrô e ônibus mais acessíveis.

 


Conheça a pesquisa “Rumo à Sociedade do Bem-Estar”, do Instituto Akatu

Pequenas cidades e grandes problemas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Imagino que inúmeras pessoas residentes em cidades grandes, uma vez na vida,pelo menos,cogitaram trocá-las por uma de menor porte ao atingir a idade madura e desde que tenham amealhado pé-de-meia capaz de sustentá-las. Por que fariam tal escolha? Viver em metrópoles,é inegável,tem lá as suas vantagens. Quem pesar os prós e os contras,no entanto,talvez entenda que, nessas, os congestionamentos, a poluição e,em especial,a insegurança, que é cada vez maior,conspiram e contra a sua permanência.

 

Nasci em Caxias do Sul,na casa dos meus avós maternos. Meus pais me trouxeram para Porto Alegre quando completei uma semana. Durante toda a minha infância e mesmo ao me tornar adulto,visitei com frequência minha cidade natal,seja para visitar os inúmeros parentes que lá moravam,seja por razões profissionais. Narrei,para a Rádio Guaíba, muitos jogos da dupla Gre-Nal contra os dois times de Caxias:o Juventude e a Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias. Fui,com isso,acompanhando o crescimento do município.

 

Meus avós moravam na Avenida Júlio de Castilhos,em um sobrado de quatro pisos,se esses fossem contados do porão ao sótão. A Júlio se estendia,em linha reta,do bairro de São Pelegrino até a saída da cidade e, então,ainda não possuía calçamento. Quando chovia, virava um lamaçal,dando muito trabalho para ser vencida pelos enormes caminhões carregados de toras de madeira. Com o passar dos anos,Caxias do Sul foi ficando cada vez mais povoada. Os italianos,que a colonizaram,se viram obrigados a conviver com oriundos de municípios menores ou até de outros estados. Aos poucos,Caxias passou a ser notícia nas páginas policiais. Crimes de toda espécie eram e são cometidos. Recordo-me que,durante bom tempo,era fácil estacionar o carro no centro,na praça, em frente à Catedral. Hoje,a cidadezinha na qual nasci,transformou-se em metrópole,com todos os defeitos que foram crescendo com ela.

 

Lembrei-me de Caxias do Sul porque a vida lá somente ficou complicada com o seu rápido crescimento. Muitas das cidades do interior gaúcho não vão chegar nem perto do tamanho dela. Não serão,todavia,pacatos pequenos municípios,em condições de receberem quem pensa fugir,por exemplo,do caos porto-alegrense,piorado com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Esses sofrem por não contarem com hospitais,com policiamento capaz de impedir a invasão frequente de quadrilhas de assaltantes de bancos,como a que espalhou o terror em Pedras Altas,nesta semana. Quase todos os dias,aqui no Rio Grande do Sul,ocorrências iguais a de Pedra Altas são registradas pela mídia gaúcha. Será que alguma família idosa e ou de aposentados,diante das circunstâncias,ainda sonha em viver no nosso interior?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Tô de saco cheio: um novo padrão no atendimento ao consumidor

 

Camelôs na 25 de Março

 

Um novo padrão de atendimento ao consumidor foi o tema de debate que tive oportunidade de mediar, alguns dias atrás, a convite da Editora Padrão, que colocou no palco os representantes de algumas das principais prestadoras de serviço do país. Itau, TIM, Claro, Oi, Sky e Nova.com – que reúne o comércio eletrônico de Ponto Frio, Extra e Casas Bahia – se fizeram presentes através de seus vice-presidentes e diretores responsáveis pelo atendimento ao cliente – uma turma que exerce o papel do marisco, frágil animal marinho que vive entre o mar e o rochedo. Longe de mim querer eximí-los da responsabilidade de prestar o melhor serviço possível. É para isso que usam o crachá da empresa. Mas, com certeza, ocupam uma função ingrata, pois têm de equilibrar as forças entre os interesses das corporações e os direitos dos clientes.

 

No palco, diante de plateia especializada e interessada no assunto, defenderam de forma convicta tudo que suas empresas realizam e deixam de fazer. Fora dele, ouvi, em off, frases do tipo “realmente, aqui em São Paulo nosso serviço é muito ruim”. Publicamente, foram unânimes em destacar a complexidade do serviço prestado, em especial daqueles setores com uma base de clientes tão grande quanto o da telefonia, por exemplo. Reclamam que a necessidade de atender legislações diferentes em cada cidade e Estado complica ainda mais as ações, além de torná-las caras. Um exemplo é a Lei de Entrega em vigor no Estado de São Paulo, na qual as empresas são obrigadas a informar a data e o turno em que a encomenda será entregue, sem cobrar taxa extra, regra estabelecida para que o cliente não tenha de perder o dia inteiro aguardando em “horário comercial”. A lei atrapalha, entre outras coisas, a logística das empresas, pois pode ocorrer de o caminhão ter de fazer mais de uma viagem para o mesmo bairro ou rua, no mesmo dia, em horários diversos. Sem contar que os Correios, maior empresa de entregas do Brasil, não tem a obrigação de atender o horário estabelecido, ficando a responsabilidade apenas para quem vende a mercadoria.

 

As empresas têm razão em parte no que reclamam, mas ao mesmo tempo não aceitam reduzir a velocidade dos seus planos de expansão e acabam vendendo mais do que podem entregar. Além disso, em lugar de “complexo e difícil”, palavras usadas para justificar falhas no atendimento, oferecem na propaganda o “simples e fácil”. Ou como bem definiu Marcelo Sodré, um dos criadores do Código de Defesa do Consumidor, também participante do debate: “as empresas vendem o Mundo dos Jetsons e entregam o Mundo dos Flinstones”.

 

Dito isso, registro que, a partir desta semana, criarei aqui no Blog a coluna “Tô de saco cheio”, na qual compartilharei com você, caro e raro leitor, problemas que enfrentamos no relacionamento com as empresas e prestadores de serviço. Por não ser especializado no assunto, a ideia é descrever minhas sensações e indignações como consumidor. Não tenho a pretensão de mudar o atendimento, quero apenas desabafar com você e, assim, evitar um ataque do coração, o que me levaria a ter de usar os serviços dos planos de saúde e a burocracia imposta por estas empresas quando você mais necessita (ops, já comecei).

Pensando Logicamente

 

Por Julio Tannus

 

Conforme diz J. Dewey em Reconstrução na Filosofia: “O juízo é o mais importante na lógica. Porém, o juízo não é, de forma alguma, lógico, é pessoal e psicológico”.

 

 

E eu acrescentaria: muitas vezes o juízo é politico e interesseiro. Um bom exemplo é nossa carga de impostos federais, estaduais e municipais.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung.

Receita se moderniza às custas do contribuinte

 

O ouvinte-internauta Edson Lima, após me ouvir falar da EFD Contribuições, durante comentário sobre o Custo Brasil do Carlos Alberto Sadenberg, no Jornal da CBN, publicou aqui no Blog algumas informações sobre a nova escrituração (leia aqui). Eu tomei a liberdade em transformá-las em um post para que você, caro e raro leitor deste Blog, tenha acesso mais fácil ao assunto:

 

Milton, sou ouvinte assíduo da CBN e observei, com bastante surpresa, confesso, seu comentário junto ao Sardenberg sobre o EFD Contribuições. A surpresa está no fato de que a CBN foi a única dentre todos na imprensa que falou algo sobre o tema (pelo menos que eu ouvi).

 

Entretanto, gostaria de contribuir com uma informação mais completa do que a que vc comentou hoje.

 

A EFD Contribuições faz parte do Projeto mais amplo, o SPED – Sistema Público de Escrituração Digital e não pode ser avaliada fora desse contexto.

 

No Brasil, fatores como federalismo, complexidade da legislação tributária e a diversidade de normas federais, estaduais e municipais, contribuem para o elevado custo de administração (aqueles custos que a administração tributária têm para poder fiscalizar e arrecadar tributos) e os custos de conformidade dos contribuintes (aqueles que só existem por que os contribuintes têm que cumprir com as novas disposições tributárias).

 

A administração pública, liderada pela Receita Federal, está se reestruturando para aumentar o campo de atuação (hoje só fiscaliza grandes contribuintes) e ser mais assertiva, aumentando a receita arrecadada e diminuindo os custos de administração.

 

O SPED, cujo principal objetivo é estabelecer um novo método de relacionamento entre a administração pública e os contribuintes, utilizando-se, sobretudo, de tecnologia, é um dos instrumentos desenvolvidos para possibilitar isso. A EFD Contribuições é somente um dos subprojetos do SPED. Os outros são a NF-e, a EFD ICMS/IPI, a ECD e o FCONT. Já está no roadmap da SRFB a EFD IRPJ e a EFD Folha de Pagamento.

 

Sua implantação, porém, impacta (não importa se para cima ou para baixo) os custos de conformidade (aqueles que os contribuintes têm apenas em razão da existência da obrigação).

 

Quanto ouvi seu comentário sob a quantidade de campos da EFD Contribuições, gostaria de contribuir com uma informação (além das já escritas) é que muitos desses campos já foram exigidos em outra obrigação: a EFD ICMS/IPI e a NF-e. Sendo assim, além da quantidade, existe a duplicidade.

 

Isso certamente onera o contribuinte.

 

O SPED é um sistema fantástico. Está relacionado ao e-GOV e é importante para o País, mas a forma desordenada como está sendo implementado está colocando o sucesso do projeto em risco.

 

Estou tentando pesquisar o impacto do SPED nos custos de conformidade dos contribuintes e, confesso, está difícil. A SRFB não disponibiliza informações suficientes para o estudo. Não está aberta a contribuir em nada. Por outro lado, o mercado também não ajuda. O contribuinte sequer tem interesse em participar de uma pesquisa acadêmica que visa, justamente, levantar esses impacto.

 

Minha dissertação de mestrado visa provar que a SRFB está se modernizando às custas do contribuinte. Está transferindo o custo de administração para o custo de conformidade e está dizendo que está trabalhando para a redução do custo Brasil. Isso não acontecerá com a transferência de custos, mas sim com a diminuição ou eliminação de um deles.

 

Minha pesquisa, caso possa contribuir com a divulgação: https://www.surveymonkey.com/s/9X53DWL

 

Grato!

 

Edson Lima

De irmão sobrevivente, da tragédia em Boston e de mais uma fenda aberta no coração de todos nós

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

 

não nos esqueçamos, nem por um segundo, que esses meninos desequilibrados poderiam ser teus filhos, poderiam ser meus, poderiam ser você, eu, ele ou ela. O jovem, e o não tão jovem, tende a buscar um ídolo, um norte para a sua existência, sem se dar conta de que ídolos hipnotizam e se alimentam da energia de quem os segue, a fim de existirem. É a sua dependência, a sua fragilidade que nos atraem, não o contrário. Cria-se então uma relação parasitária que leva, com o teu consentimento, o dever e o direito de escolha a cada segundo da tua vida. Vamos manter isso em mente, também.

 

Eu, romântica que sou, depois de ter sofrido muito com mais esse atentado, imagino esse menino doente, que sobreviveu até agora apesar de si mesmo, de castigo numa saleta espartana, sem janelas, para que seja forçado a olhar para dentro de si. Na saleta, uma cama macia que sustente seu físico, para que possa dormir quando seu ego se sentir exausto de tanta enfermidade, e para que possa ser acolhido por anjos que farão o que deve ser feito na sua consciência desestruturada e na sua alma dilacerada.

 

Ele deverá, durante a manhã, todos os dias, assistir, vigiado para que não feche os olhos nem os ouvidos, ao vídeo que escarrou para o mundo o resultado da sua inconsciência e do seu fanatismo seja lá pelo que for.
Deverá ouvir, em alto e bom som, gritos de seres humanos encurralados por sua covardia e a de seu irmão, por seu fanatismo bolorento e por aquele de seu irmão.
Deverá assistir à queda do senhor que corria a maratona e que poderia ser seu avô.
Deverá ouvir o relato de vítimas que falam para câmaras e microfones, com os rostos manchados de sangue e a alma, para sempre, tatuada de dor e horror. De novo, e de novo, e de novo, até a manhã virar tarde.

 

Deverá, à tarde, todos os dias, trabalhar, carregando correntes que liguem suas pernas uma à outra, como auxiliar de enfermagem.
Deverá lavar feridas de gente que sofre, para que os enfermeiros apliquem a bandagem necessária à cura.
Deverá observar de bem perto os cuidados com a gente queimada, e sentir o cheiro nauseante de sua carne na luta pela vida.
Deverá banhar idosos que já não conseguem controlar o sistema fisiológico, assistir a terapias com crianças que perderam as pernas, e com elas a chance de um dia simplesmente andar. Isso que fazemos sem nos darmos conta, todo dia, toda hora, sem muitas vezes ou quase nunca sentirmos gratidão por isso.

 

Esse menino, à noite, deverá estudar. Muito. Lerá, ou melhor, ouvirá a leitura das ideias de grandes e pequenos homens que criaram e que destruíram, de altruístas, egoístas e populistas gananciosos. Ouvirá contos de fadas – que toda criança deve ouvir. Lerá a notícia no jornal do dia da tragédia engendrada por ele e por seu irmão, e assistirá novamente aos depoimentos do horror causado por ele e por seu irmão. De novo, e de novo, e de novo, até decorar os traços de pais cujos filhos sofrem, de mães que não morreram ali, mas que carregarão, dali para frente, corpos e mentes ocos.
Deverá ouvir também, é evidente, os depoimentos de seus familiares e de seus amigos.
Deverá se dar conta do egoísmo que mora no fanatismo.
Deverá se dar conta da burrice construída pacientemente pela certeza, que é a origem de todo mal.
Deverá se dar conta de que a vida resiste apesar dele, apesar de mim, apesar de nós, apesar da tua fraqueza e da minha, e da fraqueza maior, insisto, que é fortalecida pela altivez e arrogância de toda e qualquer certeza.

 

Meu Deus, o que será de nós!

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Um passeio pela história no centro de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

Praça da Sé

 

Tenho andado pelo centro de São Paulo, em especial no que conhecemos por centro velho: praça João Mendes, praça da Sé, Largo São Francisco. Ali, tudo está muito próximo. E cada lugar com sua característica e peculiaridade. Todos imponentes: Catedral da Sé, Faculdade de Direito, Teatro Municipal. Tem ainda outros prédios que guardam na arquitetura a lembrança da São Paulo antiga e memorável. Será que os cidadãos que passeiam por ali têm ideia do significado desse patrimônio? Imagino que um estudante de arquitetura, sim. Em sua mais nova experiência de traçar as linhas para uma cidade contemporânea, deve ficar encantado e deslumbrado com tais monumentos, preciosos.

 

Santos de gesso

 

A Catedral Metropolitana, conhecida por Catedral da Sé, foi inaugurada em 1954, nas comemorações do quarto centenário de São Paulo. Passou por restauro, em 2002, respeitando as características originais da construção. Historiadores dizem que a Catedral é das maiores igrejas em estilo neogótico do mundo. Ali, nos jardins da praça, também fica o monumento “Marco Zero”, o ponto central da cidade. Para as famílias católicas há no entorno lojas especializadas em arte sacra que vendem diversos santos em gesso e vinho canônico.

 

Largo São Francisco

 

O que dizer da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ou ainda “Arcadas” em alusão a arquitetura. Chama  atenção até dos mais apressados, é impossível passar pela frente e não fazer uma foto para registrar esse pedaço da história. A faculdade foi criada pela lei imperial em 11 de agosto de 1827, poucos anos depois da Proclamação da Independência, para mais tarde ser incorporada pela USP. É considerada a faculdade mais antiga de Direito no Brasil. Inicialmente quem estudava no Largo São Francisco eram os governantes e administradores públicos.

 

Portão do Teatro Municipal

 

Minha curiosidade foi até o Teatro Municipal, que está maravilhoso, imponente. Exala cultura, glamour e história.  O teatro surgiu para suprir a necessidade da elite paulistana, formada pelos “Barões do Café”, que exigia um local de alto padrão nos moldes europeus para abrigar os espetáculos e óperas da época. O arquiteto responsável pelo projeto foi Francisco de Paula Ramos de Azevedo, que, por sua vez, foi homenageado emprestando o nome à Praça Ramos de Azevedo.

 

Sem dúvida, há inúmeros outros locais a serem visitados por essa região: Mosteiro de São Bento, Pateo do Collegio e Mercado Central, entre tantos outros igualmente importantes para a história da cidade.

 

Quem sabe me atrevo a descrever alguns desses outros pontos em um próximo post. Enquanto isso não acontece, deixo minha sugestão para quem estiver passeando na cidade ou visitando o centro da Capital: conheça estes pontos e busque informações que mostrem o real valor de cada prédio, que vai além da beleza arquitetônica. Inclua as crianças que terão uma aula da história do Brasil e do desenvolvimento de São Paulo.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida aos sábados, no Blog do Mílton Jung

De volta à nossa Língua Portuguesa

 

Por Julio Tannus

 

A deliciosa história de uma mesóclise-à-trois. Bela lição do nosso idioma português. Texto de Fernanda Braga da Cruz – portuguesa, com certeza – da Faculdade de Letras de Lisboa. Vale a pena ler. Redação vitoriosa num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa:

 

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

 

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

 

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

 

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

 

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. 
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
 Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

 

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

 

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

 

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais. Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

 

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisto a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

 

Que loucura, meu Deus!

 

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

 

Só que, as condições eram estas:

 

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
 O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história.Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

De tirania, extravagância, estado unipartidário e República Democrática Popular da Coreia

 

Por Maria Lucia Solla

 


Alguém, por favor, pode dar um basta nesse menino mimado do PT da Coreia?!

Sem tempo nem espaço para condescendência. O moleque está ameaçando pôr fogo na casa. Há de haver alguém neste planeta que possa engatilhar – com perdão da violência implícita – um plano para pôr ele pelo menos de castigo, ou então dar-lhe uns tapas na bunda.

 

 

Não, não é assim.

 

chegar aonde se quer chegar
a qualquer custo
a qualquer preço
não
ao menos
não impunemente
ao menos
não o tempo todo

 

Quando é que a vida nos para? Para nós é sempre de repente demais. Inesperadamente. Um soco no estômago. Achamos que é possível continuar escondendo a mãozinha atrás das costas, enquanto mamãe e papai fingem que não estão vendo o que a criança tenta esconder atrás de seu pequeno escudo. Papai e mamãe acham bonito, e a criança se sente esperta se safando daquela, se sentindo herói.

 

 

Bad news!

 

O herói pode se transformar em bandido. Se dá bem, repete. Se dá bem de novo, vai mais em frente.

 

hitler
nero
fernandinho beira-mar
mao tsé-tung
kim-jong-un
stalin
al capone
até quando

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Uma visita aos sebos e ao mundo da leitura

 

Por Dora Estevam

 

O centro de São Paulo oferece enorme variedade de livrarias, o que torna impossível não encontrar uma do seu gosto. As que  me chamaram a atenção, esta semana, foram os sebos, que vendem livros de segunda mão, conservados ou até restaurados. Indico três lojas para você conhecer. Se já conhece, a dica é voltar lá e ver as novidades, todas estão muito bem abastecidas.

Começo com o Sebo Central, do Alaor Júnior. É uma loucura. Pequena, mas, toda cheia de livros especializados na área jurídica: processo civil, penal, tributário, criminal … Todos com capas grossas, empilhadas de forma que enchem os olhos dos consumidores. Alaor recebe livros na loja semanalmente, na maioria das vezes vem de famílias que se desfazem das bibliotecas, outras são de escritórios de direito que se separam e vendem as coleções. Ele conta que ano retrasado recebeu uma coleção de quase 30 mil volumes que chegaram em duas carretas do Rio de Janeiro, a coleção pertencia ao ex-ministro do governo Figueiredo, Antonio Neder. Os livros chegam à loja deteriorados, mas o comerciante restaura um por um deixando-os com cara de novos. Os preços variam de R$50 a R$1.000.

Loja muito famosa é o Sebo do Messias. Entrei lá e fiquei deslumbrada com o tamanho e a quantidade de livros. O proprietário fez questão de me conduzir ao interior e mostrar como ele abastece e distribui os livros vendidos.  Haja organização. A história do Messias começou em uma lojinha na esquina e se tornou esta grandiosidade, com 150 mil livros na loja física e   160 mil na virtual. Ele trabalha com livros de todas as áreas. Tem raridades, auto-ajuda, além de CDs, DVDs e LPs, tudo em uma área 2 mil metros, com 44 funcionários treinados pelo próprio livreiro.

 

O Seu Messias veio para São  Paulo, em 1964, e foi trabalhar de garçom em um restaurante no bairro do Paraíso, depois foi ser livreiro, vendendo livros de porta em porta. Os clientes começaram a encomendar livros e Messias visitava os sebos, conseguia os exemplares e revendia aos clientes. Começou a ganhar um trocadinho, fez suas economias até conseguir comprar uma biblioteca. Era de um amigo que havia falecido e a esposa fez questão de vender para ele os 5 mil livros. Se ajeitou em uma garagem de um parente, foi vendendo aos poucos e no vai e vem resolveu alugar uma salinha no centro da cidade, na Praça João Mendes, onde começou o império que tem hoje – como ele mesmo faz questão de contar. O local foi escolhido porque inicialmente Messias só vendia livros jurídicos e a loja estaria perto do Tribunal de Justiça e no caminho de promotores, juízes e advogados.

 

Hoje, Seu Messias abastece o Brasil todo e não acanha em repetir o que as pessoas dizem sobre o site dele: é o melhor na América Latina, na área. Entre os clientes famosos, cita como destaque Jô Soares, que costuma visitar o sebo com frequência. Messias atribui o sucesso das vendas ao site de compras, no qual o cliente reserva do livro, que dura 72 horas, e pode retirá-lo na loja, além da renovação diária, resultado das compras feitas por quatro equipes que tem nas ruas. Os clientes que se desfazem das bibliotecas, abastecendo a loja do Messias, são pessoas que se mudam e não têm mais espaço para biblioteca tão ampla, estudantes que não precisam mais dos livros e famílias que perdem o seu titular.

 

Dica do Messias para conservar os livros: deixar o local bem arejado e, se estiver danificado, mandar consertar, isso é possível. É assim que ele faz na loja.

Saio dos sebos para entrar em uma distribuidora de livros novos, a Basques, loja que vende lançamentos de todas as áreas ao preço de R$9,90. Assim que cheguei, não resisti às compras. Resolvi falar com o vendedor queria saber o motivo daquele preço. Ele me explicou que isto é possível por serem distribuidores, isto é, os livros chegam a um custo baixo, eles abrem os pacotes e vendem no varejo. Marcos Tedesqui, um dos vendedores, diz que o preço da venda é o preço do livro. E pensar que o mesmo livro pode custar R$ 50 em uma loja de shopping. Para ele, o livro de 9,90 não está barato de mais, é o preço justo; o de 50 é que está caro, por conta das despesas, mas este é outro assunto. O preço atrai clientes que muitas vezes não têm o hábito de ler, eles entram na loja e se envolvem com a atmosfera dos livros. Outros compram para os amigos e parentes, e saem da loja com pilhas de livros. É um ambiente que favorece a leitura e o cliente tranfere esta sensação para a sua casa.

 

Serviço:

 

Livraria Juridica Central
Loja 01 – Rua Riachuelo, 62 – Centro – São Paulo – 11-3105-0520
Loja 02 – Senador Paulo Egidio, 25 Centro – São Paulo – SP – 11-3107-5872
www.sebocentral.com.br

sebocentral@gmail.com

 

Sebo do Messias
3104 7111
www.sebodomessias.com.br

 

Livraria e Distribuidora Basques
Rua Riachuelo, 52, centro
3106 5488