Conte Sua História de São Paulo: tudo bem ficar de pijama

Lidia Amorim

Ouvinte da CBN

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Nasci em São Paulo, na infância fui para o interior e adulta retornei para estudar e trabalhar. Casei, fui mãe e para encurtar distâncias entre casa, creche e trabalho voltei ao interior. Fui viver em São Carlos.

Por um ano estive em uma indústria nada adaptada ao teletrabalho, que nos foi imposto pela pandemia. A jornada nos últimos meses estava exaustiva, com mais de dez horas de trabalho e reuniões atrás de reuniões. Foi então que resolvi arriscar, para manter a sanidade mental e encontrar conforto na vida pessoal. 

O ‘tiro no escuro’ foi certeiro. Encontrei na nova empresa um ambiente mais progressista e trabalhar em casa virou um conforto. Além de jornada mais flexível deparei com gestores confiantes, que entendem que a produtividade está estritamente relacionada ao bem estar social. 

Com duas semanas de empresa, ainda em período de experiência, descobriram o meu hobbie e me incentivaram a escrever um texto para o evento virtual de fim de ano da diretoria, com cerca de 200 pessoas assistindo online. 

Foi quando escrevi algo como: 

“A vida parecia bem mais simples quando não exigia longas presenças com nós mesmos ou com as pessoas de nossa casa ..

“Alguns especialistas insistem em nos ensinar a simular no trabalho remoto o mesmo comportamento de trabalhar em escritório. Se arrumar, se isolar em um cômodo da casa, comer comidas saudáveis, se exercitar, alongar…”

“E para as pessoas reais? Como a gente! Que precisa cozinhar o próprio almoço; que sente falta de conversar e rir com os colegas”  

“O padrão deveria ser feito para quem não é sempre perfeito; que precisar retomar a concentração mil vezes por dia, na casa barulhenta; que dá o seu melhor mesmo nas quedas do sinal da internet ou da falta de energia”

“Tudo bem ficar de pijama! Estamos todos na mesma, tentando sobreviver a um período fora do contexto. E são as pessoas de verdade que fazem do negócio, extraordinário; feito para servir gente”

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Lídia Amorim é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung@cbn.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: dos passeios fotográficos ao olhar afiado no Skype

Por Claudio Lobo

Ouvinte da CBN

As ruas de São Paulo são o nosso cenário. Somos sete amigos apaixonados por fotografia. Nossos encontros são frequentes. Alguns do grupo se reúnem semanalmente para fotografar São Paulo. Quem vê as imagens que captamos logo percebe que somos adeptos ao estilo “street photography” —- fotografia de rua, já que estamos aqui conversando em paulistanês. Imagine manter esse estilo com a Covid-19 nos mandando para dentro de casa. Impossível, né. 

Algumas semanas de susto e pandemia foram necessárias para encontrarmos novos caminhos. A saída foram encontros promovidos pelo Skype. Desde nove de maio de 2020 nos reunimos todos os sábados das duas às cinco da tarde para apreciarmos e discutirmos fotografia.

No início tivemos alguns tropeços nessa caminhada digital. Com o tempo aprendemos a usar o Skype, como falar, compartilhar as fotos e resolvemos problemas de atraso de áudio e imagem. 

André, Aretusa, Eduardo, Maria Luiza, Norma, Rose e eu somos fotógrafos amadores — amador avançado — e decidimos trocar experiências. Cada um apresenta duas imagens para o debate. Os colegas sugerem melhorias aqui, um retoque ali, falamos de técnicas a serem usadas, recursos que podemos lançar mão. Também conversamos de livros fotográficos; fazemos a leitura de fotos de profissionais renomados —- uma espécie de engenharia reversa, identificando e desmontando a foto de modo a aprender com eles. 

Os encontros sempre remotos são regados de aprendizado, generosidade, companheirismo e muita, muita diversão. Agora, estamos como a fábula do lenhador que enquanto não está cortando lenha, está afiando o machado. Quando tudo se acalmar, voltaremos a nos encontrar presencialmente e sairemos às ruas para seguir nosso passeio fotografando São Paulo e sua gente.

Claudio Lobo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Liguem suas câmeras, desliguem seus microfones, vamos dar início à solenidade e sejam bem-vindos ao novo mundo

Por Christian Müller Jung

Evento virtual do Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Pelo celular, cerimônia oficial é transmitida pela internet, respeitando protocolos de saúde (foto: Christian M. Jung)


Em Atenção ao protocolo, desta vez é o Respiratório”, artigo que escrevi em 11 de março de 2020 — data em que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde —- já abordava as regras que impactariam nosso cotidiano e viriam a se transformar em uma obrigação para quem vive em sociedade. As autoridades de saúde alertavam para a  maneira correta com que deveríamos agir para reduzir o impacto do que chamávamos de novo coronavírus — que agora, mais íntimo, a ponto de entrar em nossas casas e contaminar nossa família, atende pelo nome de Covid-19.


Passados um ano desde a primeira morte registrada na China e dez meses desde aquele artigo, os protocolos não mudaram, foram reafirmados: limpeza frequente das mãos, uso  constante de máscaras, distanciamento social —- aglomeração é crime, festas devem ser evitadas e preservar a vida é obrigação, protegendo especialmente os idosos e com saúde fragilizada.


Ainda que estejamos assistindo ao aumento na velocidade com que o vírus se dissemina e o registro de mortes se assemelhe ao pico alcançado em agosto do ano passado, a notícia de que vacinas estão prestes a serem aprovadas no Brasil é muito bem-vinda —- isso não muda a necessidade de mantermos os protocolos. Fora brigas políticas e birras infantis que colocam em xeque a capacidade da sociedade científica, ainda teremos de assistir à discussão que nos inclui e não nos cabe. Aliás só nos atinge. 


Questionar quem trabalha com a ciência é como discordar do diagnóstico do seu médico. É decidir que comer tomate à exaustão vai aplacar o impacto do seu câncer de próstata, em lugar de se submeter à quimioterapia. É tomar decisões que atendam as suas crenças, a despeito do que dizem pesquisadores e doutores que dedicaram a vida e a carreira aos estudos com a intenção de prolongar o seu tempo de existência no planeta Terra —- que não é plano, registre-se.


Tem muita gente tocando tambor pra louco —- como dizem aqui nos meus costados — e proferindo teorias negacionistas que em nada ajudam a reduzir a sobrecarga que tem esgotado os profissionais de saúde. E dê-lhe praia e dê-lhe festas, como se nada do que assistimos no mundo fosse verdade.


Ainda bem que em meio a esta pandemia, quando imaginamos que a humanidade vai se afundar e se esforça para sextavar uma roda que girava livre e solta, temos bons exemplos: seres humanos que estão mais preocupados em realmente achar uma solução, sem temer que a vacina vai transformá-los em jacaré.


Dito isso, voltemos aos protocolos e aos eventos que fazem parte do mercado ao qual estamos inseridos, nós mestres de cerimônia e produtores. E vamos pensar no que podemos aprender em meio a essa onda negativa que fez com que muitos profissionais tivessem de encerrar suas atividades, fechar as portas e, com muita tristeza, até suas próprias vidas —- sim,  infelizmente tivemos pessoas que chegaram a esse ponto. \


Em meio ao caos estabelecido, nos vimos obrigados a destravar sistemas tecnológicos que, convenhamos, já estavam à nossa disposição, mas que  ainda não tinham sido incorporados ao nosso cotidiano. Aprendemos a desvendar os protocolos da área de forma empírica — testando, errando e acertando —- porque a comunicação é necessária e a disseminação da informação imprescindível.


Em uma função na qual o respeito ao protocolo do cerimonial é primordial, logo absorvemos os protocolos de higiene ou respiratórios, como caracterizei em artigo anterior. Em seguida, os profissionais do setor tiveram de desvendar os protocolos de rede —- dessa teia que nos interliga.

Como ensina o Wikipedia:

“…. o protocolo (em ciência da computação) é uma convenção que controla e possibilita uma conexão, comunicação, transferência de dados entre dois sistemas computacionais. De maneira simples, um protocolo pode ser definido como “as regras que governam” a sintaxe, semântica e sincronização da comunicação”

Nesse ponto que queria chegar.

Empurrados pelo caos, descobrimos em lives, videoconferências, cerimônias online tanto quanto em plataformas como o Zoom, Google Meet e Skype que, mesmo impedidos da mantermos a presença física, teríamos como acessar as pessoas de forma virtual. Entendemos o que é ter qualidade na conexão de internet, em casa ou no trabalho; que, independentemente da infraestrutura oferecida, o “delay” (prefiro chamar mesmo de atraso) faz parte do diálogo; que ao nos conectarmos de casa ou de nossos escritórios com o mundo devemos nos esforçar para criar um ambiente harmônico; que nosso olhar tem de mirar a lente da webcam e não a tela do computador; que nosso equipamento —- computador, notebook, celular ou câmera —- deve estar na mesma altura do nosso rosto, evitando que pescoço, nariz ou testa fale mais alto do que nosso conteúdo.


São detalhes e informações que já estavam à disposição, muitos até conheciam, mas que por falta de necessidade e diante de tantas outras preocupações pertinentes à época, preferimos deixar para depois  aprender —- “quando precisar, meu filho me explica”, pensamos .


Fomos empurrados em direção a um penhasco não para nos espatifarmos pela falta de oportunidade, mas pela necessidade de continuarmos, de seguirmos trilhando esse universo das solenidades, dos eventos, do aprendizado com o outro e da necessidade que temos de nos enxergarmos como cidadãos do mundo.

Enquanto ainda enfrentamos esse período triste que não nos permite o contato físico e o olhar instigante dos que participam de cerimônias, congressos e convenções, agregamos essas tecnologias que a partir de agora estarão presentes em praticamente todos os eventos, aproximando ainda mais as pessoas, mesmo que elas permaneçam em seus locais de origem, distantes umas das outras.

Apesar da expectativa —- e desejo —- de que voltaremos a nos encontrar e nos reunirmos em um mesmo espaço, essa infraestrutura que foi agregada às atividades permanecerá, facilitando o comparecimento daqueles que têm dificuldades para se deslocar, seja pelo acúmulo de compromissos na agenda seja pela carência de recursos financeiros.


Sendo assim, o que antes se iniciava com um “senhoras e senhores, bom dia …” agora se transformou em “senhoras e senhores, liguem suas câmeras, desliguem seus microfones, vamos dar início à solenidade e sejam bem-vindos ao novo mundo”. 

Christian Müller Jung é publicitário, cerimonialista, Mestre de Cerimônia do Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, colaborador do Blog do Mílton Jung, gremista e meu irmão.

Avalanche Tricolor: Vanderson, Alisson e Churín foram as boas notícias deste domingo

Grêmio 2×1 Atlético GO

Brasileiro — Arena Grêmio

Vanderson rumo ao ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Foi o último jogo do ano no Campeonato Brasileiro, mas não o último do Grêmio. 2020, que já vai tarde, só termina para nós quarta-feira na decisão da vaga à final da Copa do Brasil. A presença em tantas competições simultâneas tem cobrado um preço alto do elenco —- algo nem sempre bem compreendido pelos torcedores que querem a mesma excelência de futebol todas às vezes que o time entra em campo.

Na noite deste domingo, exceções a Vanderlei no gol e a Darlan na frente da área, todos os demais jogadores saíram do banco de reservas —- verdade que alguns em condições de estar no time titular,  como é o caso de Alisson, que retornou aos gramados depois de dois meses recuperando-se de lesão. Pelo que mostrou nesta primeira partida, volta com a mesma intensidade e qualidade de jogo de quando teve de parar. Será uma alternativa para a decisão.

Graças a ele e seus companheiros, a partida desta noite foi um ótimo programa dominical.

Na lateral direita foi muito bom assistir ao desempenho de outro guri gremista: Vanderson, de apenas 19 anos. Demonstrou personalidade na parceria com Alisson. Chegou fácil ao ataque e não teve medo de ir a linha de fundo. Foi assim que, em cruzamento forte e na pequena área, provocou o gol contra que abriu o placar. Soube-se por ele próprio que essa é uma das suas características, inclusive elogiada por Renato nos dias que antecederam a partida. 

Vanderson de Oliveira Campos nasceu em Rondonópolis e foi para o interior de São Paulo, onde o Grêmio o descobriu e o levou para Porto Alegre. No início deste ano foi vice-campeão da Copa São Paulo e, ao longo da temporada, chamou atenção da comissão técnica nos times de base e aspirantes. É a quarta opção para a lateral, mas pode furar essa fila. Antes precisará ser lapidado por Renato e companhia —- como já foram tantos outros guris que passaram pelas mãos do técnico e se transformaram em patrimônio gremista.

Lá na frente, além do próprio Alisson, destacaram-se Pinares e Churín, especialmente porque foram produtivos quando mais se precisou deles. Logo depois do gol do empate, quando o time estava caindo de rendimento, após mais uma investida de Vanderson pela direita, Pinares passou a bola pelo alto e por trás dos marcadores, e Churín —- como se espera de um atacante — bateu forte e sem deixar a bola cair no gramado. 

O resultado mantém o Grêmio na disputa das primeiras colocações e invicto há 11 jogos pelo Campeonato Brasileiro, encerrando sua participação em 2020 na competição. 

Conte Sua História de São Paulo: da Coats Corrente à festa dos 400 anos

Por Maria Aparecida Querino Baron

Ouvinte da CBN

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Tenho 84 anos, moro no Alto da Mooca há 64. Nasci em Guaranésia,  cidade mineira, mas a minha vida, o meu coração está aqui nesta São Paulo. Vim para cá, em 1952, autorizada pelo meu pai, para morar na casa de uma tia, trabalhar e estudar. Era uma época muito difícil, o ramo têxtil estava em desenvolvimento, e consegui um emprego no bairro do Ipiranga, na Cia Brasileira de Linhas para Coser, a “Coats Corrente”  — que chamavam de Inglesa —-, uma das que fizeram história nos primórdios da industrialização: quantas saudades, alegrias … lembro até de ter furado um dedo na máquina de costura, mas, tudo era marcado por muita perseverança e dedicação frente aos desafios.

Após algum tempo, meu pai pediu o meu retorno para Minas. Eu havia conhecido, aqui em São Paulo, e estava namorando um rapaz. Assim que parti, namoramos por cartas durante alguns anos; por fim nos casamos lá em Minas Gerais. E, em 1956, voltamos para São Paulo. Construímos toda nossa família aqui: tenho três filhos, nora, genro, irmãos, sobrinhos e um “pet neto”

Das memórias de São Paulo, guardo com carinho a comemoração dos 400 anos. Um enorme evento que se estendeu de 9 a 11 de julho de 1954 —  o Brasil estava sob o governo de Getúlio Vargas. As comemorações começaram em frente a Catedral da Sé, no dia 9 de Julho quando padres e bispos tocaram os sinos, alertando o início da festa. O Parque Ibirapuera foi inaugurado como presente do Quarto Centenário.

Outro elemento que marcou a celebração foi a Chuva de Prata, uma colaboração da Força Aérea Brasileira, que sobrevoou a cidade diversas vezes despejando pequenos triângulos de papel laminado prateado, iluminados por holofotes do exército.[ 

O 10 de julho, um sábado, foi voltado especialmente para as crianças, com atividades e brincadeiras, em frente a saudosa TV Tupi; apesar de São Paulo inteira estar ocupada por pequenos palcos, os quais iam se modificando e alternando as atividades, conforme mudavam de região da cidade.

No terceiro dia: o fim da festa. Pela manhã, o Estádio do Pacaembu abriu suas portas para diversos números artísticos circenses — palhaços, malabaristas e o Globo da Morte, que divertiram a população. Também foi palco de um jogo de futebol de palhaços, transformando o Estádio Paulo Machado de Carvalho em um grande circo.

Não esqueço quando vi a Miss Martha Rocha, a baiana, que até hoje é sinônimo de beleza, desfilando em carro aberto no Ibirapuera. Ela tornou-se uma entidade: nome de rua, viaduto, torta e tema de marchinha carnavalesca. Martha era a favorita para Miss Mundo mas ficou em segundo lugar naquela famosa história das duas polegadas a mais. 

São Paulo, minha, nossa São Paulo, também conhecida como Terra da Garoa, se aproximando dos cinco séculos de existência, a cidade que abriga todos os povos brasileiros e estrangeiros de diversas partes do mundo. São Paulo, Obrigada por tudo! Pelo seu acolhimento, por sua energia e grande vibração. Continuarei rezando por você, enquanto acordo e durmo nos seus braços escutando o pulsar do seu coração. 

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Maria Aparecida Querino Baron (Cidinha) é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie sua história para contesuahistoria@cbn.com.br  e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Precisamos votar atentos ou vamos necessitar de um Ralph Nader, em São Paulo

 Por Carlos Magno Gibrail

Av Morumbi com Adibo Ares foto: Carlos Magno Gibrail

 

A cidade de São Paulo estará revisando o Plano Diretor e a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo – Zoneamento, na próxima legislatura. Em poucos dias a população estará votando para eleger Prefeito e Vereadores, a quem caberá executar a Revisão do Plano, cuja experiência  desde sua aprovação, em 2014, até hoje deve servir para sinalizar o que deverá ser mantido, acrescido ou descartado.

Da rádio CBN e do portal Ig, duas informações publicadas recentemente geraram um alerta. A primeira é que dos 14 candidatos a prefeito, apenas sete incluíram o Plano Diretor e o Zoneamento em seus programas de governo. No programa “Mais São Paulo” da rádio CBN, Américo Sampaio citou os sete: Andrea Matarazzo, Artur do Val, Guilherme Boulos, Jilmar Tatto, Joice Hasselmann, Mario França e Marina Helou.

Andrea Matarazzo, Guilherme Boulos e Jilmar Tatto, se propõem a focar na aplicação da Lei, enquanto Artur do Val, Joice Hasselmann e Mario França, pretendem efetivar a revisão com a participação da população. 

Outro alerta foi dado pelo portal iG, transcrevendo material da FOLHA, anunciou que “ Covas é patrocinado pelo mercado imobiliário” .

No aspecto da aplicação da lei, é comum a constatação do uso do solo divorciado das restrições originais do loteamento, que por lei, tem que ser cumpridas. Por exemplo o caso atual da Av. Morumbi com a Av. Adibo Ares em que a TEGRA TGSP 39 Empreendimentos Imobiliários desconsiderando o loteamento original projetou e está executando a construção de torres completamente fora dos parâmetros de adensamento permitidos. A obra foi acelerada diante dos protestos iniciais dos moradores, para atingir certamente o tão conhecido estágio  do “ninguém terá coragem de ordenar a demolição”.      

A Revisão com a participação da população é pretensão louvável, mas nem sempre possível, pois é comum nestas sessões a presença de agentes do mercado imobiliário distorcendo objetivos dos reais ocupantes do solo em pauta. 

Quanto ao  Covas estar sendo apontado como beneficiado de construtoras e incorporadoras, ao receber de empresários do setor  aproximadamente R$ 880 mil reais para a campanha, é legal, mas é preciso monitorar as decisões futuras.  Além disso, segundo a reportagem, Covas encaminhou proposta para aumentar no miolo dos bairros o gabarito dos prédios, bem como a flexibilização das vagas de garagem. Medidas que ainda não foram implementadas devido a judicialização que encontraram pelo caminho. 

Convenhamos que este é um cenário de confronto entre várias partes envolvidas,  principalmente entre ambientalistas e negacionistas, em que os agentes imobiliários não exercem o amplo papel que lhes cabe, atuando apenas como comerciantes a curto prazo. Não se importam com impactos ambientais nem com a preservação de recursos escassos. 

Ralph Nader neste contexto é bem lembrado quando partiu dele a vigorosa ação contra a poderosa indústria automobilística americana que fabricava “maravilhosos” automóveis sem o mínimo padrão de segurança.  Conseguiu que as técnicas existentes fossem introduzidas e os automóveis nunca mais foram os mesmos.  

A nossa indústria da construção civil também é poderosa, enquanto não surge um Ralph Nader local, estamos identificando ações de associações de moradores.  Neste momento recebemos material do morador e engenheiro civil Chico Lima sobre o processo citado acima sobre a obra da TEGRA, cuja decisão judicial é embargo e demolição. *

“Ante o exposto e considerando tudo o mais que dos autos consta, JULGO PROCEDENTE a ação que ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO JARDIM GUEDALA, move contra a TGSP – 39 EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA e PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, e o faço para declarar a vigência das restrições convencionais em relação aos lotes objeto do empreendimento. Em consequência, reconheço a nulidade dos atos administrativos consubstanciados nos alvarás de aprovação de obra nova expedidos respectivamente nos processos administrativos 2017-0.108.508-5 e 2018-0.027.294-0 e atos subsequentes. Condeno a requerida à obrigação de fazer consistente na demolição de toda e qualquer obra do empreendimento em questão, repondo-se integralmente o “status quo ante”, bem como na obrigação de não fazer, consistente na não construção dos empreendimentos “Il Faro” e “Il Bosco”. Arcarão as requeridas com as custas processuais e honorários advocatícios, que fixo em vinte por cento do valor atribuído à causa. Oportunamente, ao arquivo.

P. Intime-se. São Paulo, 03 de novembro de 2020.

CYNTHIA THOMÉ Juíza de Direito “

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.     

*

Mundo Corporativo: o futuro das empresas e do emprego, segundo Tiago Mattos

 

“Todas as nossas atividades vão mudar; então, ela vai morrer de certa forma porque ela vai mudar, mas a necessidade de a gente entregar valor como a gente entrega, vai continuar” — Tiago Mattos, futurista da Aerolito

Entender o futuro é enxergar qual o caminho que vamos seguir lá na frente e para que essa trajetória seja percorrida é necessário que hoje se tome as decisões mais adequadas. Ajudar empresas, empreendedores e profissionais a refletirem sobre essas escolhas tem sido o trabalho de Tiago Mattos, um dos fundadores da Aerolito, e entrevistado do programa Mundo Corporativo, da CBN. Mattos se apresenta como futurista e explica o que significa essa profissão:

“O trabalho de futurismo é muito menos prever o futuro e muito mais divagar, refletir, conjecturar sobre as possibilidades do futuro, porque com essas possibilidades a gente pode tomar melhores decisões no presente, fazendo com que a sociedade gere mais impacto positivo”

Com a pandemia, muito se falou da transformação digital que foi acelerada pela necessidade de sobrevivência de empresas e setores da economia. Mattos alerta, no entanto, que é preciso identificar quais são os estágios de digitalização de cada setor que, segundo ele são três: não-digital; digitalizado; e pensadamente digital.

Uma loja física, que é o mais comum que temos à disposição, é uma loja não-digital. Quando essa loja vai para o comércio eletrônico, mas mantém o mesmo modelo da física, com produtos expostos e o consumidor fazendo sua escolha em um clique, é considerada uma loja digitalizada. O avanço mesmo acontece quando essa loja se transforma em pensadamente digital, ou seja, oferece ao consumidor a possibilidade de escanear as medidas do seu corpo e a roupa ser fabricada não do tamanho P, M, G e GG, mas na medida certa da pessoa.

“Houve uma aceleração: o e-commerce é um presente já estabelecido e o pensamento digital, que chegaria lá na frente, se acelerou”

Um dos termos cunhados pela Aerolito é o da futuralidade —- que reúne futuro e naturalidade em um mesmo conceito. E parte da ideia de que é preciso acolher de maneira mais natural o futuro, que teve sua passagem antecipada. Para adotar a futuralidade, Tiago Mattos diz que as empresas precisam estar atentas a quatro pontos:

  1. Pensamento “efetual” —- gerir com a cabeça de um empreendedor e não de um gestor educado pela administração clássica, como explica Saras Sarasvathy, no livro “Effectuation”.
  2. Inversão temporal — evitar a linearidade do planejamento que segue a ordem “now, next and future”;  agora, a ordem é “now, future and next”, ou seja, tem de olhar para o presente, para o futuro e, depois, para os próximos passos, porque esse futuro vai chegar antes da hora.
  3. Pós-categorização — não podemos cair na armadilha de usar rótulos conhecidos para os conceitos, comportamento e posturas que surgirem pós-pandemia; esse reducionismo faz com que o novo envelheça antes mesmo de nascer;
  4. Segurança psicológica —- é preciso exorcizar os evitáveis conflitos pessoais para catalisar os inevitáveis conflitos de ideia; tenho de ser genuíno e não sofrer nenhuma pressão; quem tem de ganhar o embate de ideia é a argumentação e não o cargo; não importa a roupa, o sotaque, a raça e o gênero; é diferente de inteligência emocional, que é do indivíduo, enquanto a segurança psicológico é uma construção coletiva.

Diz Mattos:

“A gente tem de pensar no futuro para entender qual é o caminho, para onde vai essa nossa autopista; para que hoje a gente tome decisões adequadas ao nosso tempo; estar no presente hoje, em 2020, não significa que a gente esteja mentalmente em 2020; a gente pode estar com posturas que não sejam de 2020, com uma estética que não seja de 2020, com uma ética que não de 2020, ou com uma gestão que não seja de 2020”

Um dos aspectos que precisam ser melhor administrados pelos gestores do futuro é o da circulação de mensagens para evitar que o excesso de informação prejudique o relacionamento de empresas e colaboradores. Tiago Mattos alerta para os riscos do que chama de infoxicação:

“Se todo link de Whatsapp, se toda notícia de rede social, se tudo que chega a gente considera verdade, o cérebro processa de uma maneira profunda e a gente gasta muita energia. Então, fazer esta curadoria e depois ter essa confiança no conhecimento que nos chega é um dos papeis fundamentais para que a gente não entre nessa loucura contemporânea que é a infoxicação”.

A gravação do Mundo Corporativo pode ser assistida pela site da CBN e pelo canal da CBN no Youtube às quartas-feiras, 11 horas da manhã. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e está disponível, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Juliana Prado, Natalia Motta, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

A construção do envelhecimento

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A redução das taxas de mortalidade em todo o mundo tem promovido um aumento da expectativa de vida, resultando no crescimento da população idosa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000 a população idosa com mais de 60 anos era de 14,5 milhões de pessoas. Atualmente, esse número passa dos 29 milhões com projeções de que em 2050 tenhamos uma população de 50 milhões de idosos em nosso país.

O envelhecimento, apesar de ser muito associado ao conceito de perdas físicas ou deterioração do corpo, compreende um processo singular, heterogêneo e influenciado por aspectos socioculturais, cujas definições foram sendo modificadas ao longo da história da humanidade. 

Nas sociedades antigas os idosos eram valorizados, por conta de sua experiência, auxiliando os mais jovens em suas atividades diárias e transmitindo seus conhecimentos adquiridos no transcorrer da vida. Na Grécia, o envelhecimento era compreendido a partir da classe social pertencente. Os idosos da elite tinham o poder político, econômico e cultural e eram reconhecidos como sábios. Por sua vez, os idosos que pertenciam às classe sociais inferiores representavam a invalidez, a doença e a morte. Na sociedade romana os idosos detinham uma posição privilegiada, dotados de autoridade, o que geralmente provocava conflitos com as gerações mais novas.

Na Idade Média, atingir a longevidade era algo raro e a velhice era compreendida como a fase na qual o indivíduo não era mais capaz de trabalhar. No renascimento houve uma valorização da juventude e da beleza.

No fim do século XVIII, com a industrialização e o surgimento do capitalismo, o poder econômico se centralizou nas pessoas mais jovens e os idosos, por sua vez, passaram a ser vistos como mendigos, em virtude da dificuldade de conseguir um emprego. Isso favoreceu uma associação da velhice com a incapacidade física, acentuando a perda da importância social do idoso, que ficou marginalizado na sociedade.

No século XX, novas regras de aposentadoria e pensões reduziram a associação da velhice com a incapacidade de produzir, uma vez que todas as pessoas, a partir de uma determinada idade, foram dispensadas da necessidade de trabalhar.

Novas mudanças aconteceram e ao fim do século XX o idoso recebeu maior atenção da indústria do consumo, englobando também o lazer e o turismo. A busca por um modelo de envelhecimento ideal, fez surgir o conceito de “melhor idade” vinculado à ideia de se ter um envelhecimento saudável, no qual se manteria a autonomia, a liberdade, a tomada de decisão e comportamentos capazes de preservar a saúde. 

Ser idoso e estar na “melhor idade” passou a exigir um repertório de atitudes que contemplassem a capacidade de manter-se fisicamente ativo, ter uma alimentação saudável, fazer treinos cognitivos para exercitar o cérebro, controlar os sinais de envelhecimento físico, como a utilização de cosméticos ou cirurgias estéticas. 

Se houve um tempo no qual à margem da sociedade estavam aqueles que não eram produtivos, a culpabilização passou a recair sobre os idosos que não adotassem o estilo de vida capaz de “retardar” a velhice e suas consequências. Numa sociedade marcada pelo consumo e pela negação das situações mais incômodas, como adoecimento ou morte, deixar a vida seguir seu ritmo passou a soar como passividade, beirando a irresponsabilidade.

Isso não significa que não se possa construir um envelhecimento mais saudável e com qualidade de vida. Pelo contrário, há muito a ser feito. Mas esse processo dever começar muito antes do envelhecimento.

Diversos estudos apontam que envelhecer de forma saudável envolve fatores genéticos e uma série de comportamentos adotados ao longo da vida, como controle da pressão arterial, dos níveis de açúcar no sangue, evitar o tabagismo e o etilismo, manter uma prática regular de atividades físicas e intelectuais. 

Atualmente, diversas pesquisas procuram compreender a importância da  reserva cognitiva no processo de envelhecimento, como um fator de proteção para o cérebro.  Reserva cognitiva compreende a capacidade de ativação das redes neuronais em resposta às diversas atividades realizadas. Essas atividades intelectuais desenvolvidas durante a vida, como leitura, cálculos matemáticos e aprendizagem de idiomas, aumentam a reserva cognitiva e, de certo modo, permitem que tais competências cognitivas se mantenham em idades mais tardias, minimizando as manifestações clínicas de doenças neurodegenerativas, como as demências. Além das atividades intelectuais, atividades físicas, sociais e de lazer também estão envolvidas na construção da reserva cognitiva. 

Apesar desses fatores de proteção, a velhice trará consigo as perdas funcionais e estas serão progressivas. Portanto, as atitudes adotadas para uma vida equilibrada e saudável não devem ser concebidas como uma batalha contra o envelhecimento, mas como facilitadoras para que essa fase se desenvolva de maneira tão natural quanto nascer e crescer, de modo ativo e com propósitos. 

Envelhecer de forma saudável não é sinônimo de juventude. Envelhecer saudável é envelhecer com dignidade, com políticas públicas que se preocupam com a população desde idades mais precoces, favorecendo medidas que promovam a saúde física e mental, que garantam a escolaridade, ocupação e renda aos cidadãos. É a promoção de atenção, cuidado e proteção à população idosa de maneira acessível a todos e não um privilégio de poucos. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: fragilidade, solidariedade e individualismo se revelam na pandemia

Assine e ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso em podcast

“Esse é o momento de separar as empresas que são nossas alinhadas das empresas oportunistas” —- Jaime Troiano

A surpresa com a falta de controle das nossas vidas e a revelação de dois lados da nossa personalidade apareceram com destaque no estudo aplicado para entender o comportamento do consumidor e o impacto sobre as marcas em seis meses de pandemia. O trabalho foi realizado por Jaime Troiano e Cecília Russo com base na técnica ZMET, criada pelo doutor Gerald Zaltmam, da Harvard Business School. 

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília explicou que o método “Zaltman Metaphor Elicitation Technique” usa conceitos de neurociência e a aplicação de metáforas para acessar conteúdos que vão além da nossa racionalidade. Com isso se consesgue mapear os caminhos mentais que estão associados a determinados temas. No Brasil, apenas a Troianobranding tem autorização para aplicar essa técnica.

Uma das imagens que surgiram na pesquisa com os consumidores foi a de peças de dominó, umas caindo sobre as outras, sem que se conseguisse parar aquele movimento. Uma metáfora que expressa como as pessoas ficaram surpresas com a pandemia, pois imaginavam ter controle sobre suas vidas, especialmente diante de toda a tecnologia disponível: big data, algoritmo, drones, satélites, carros autônomos, engenharia digital. 

“…de repente nos vimos com a vida como se estivesse em ‘modo avião’ … tínhamos a visão da onipotência e de repente o dominó escancara a nossa impotência diante de um inimigo invisível” —- Cecília Russo

Se a primeira ideia que surgiu no estudo foi a da evidência da nossa fragilidade, a segunda identificou os dois lados do ser humano: a solidariedade e a empatia em contrapartida a comportamentos individualistas de autopreservação. 

“… diante da iminência de sermos dizimados, buscamos novas formas de nos salvar”  — Jaime Troiano

Para as marcas, as lições a ser aprendidas, a partir dos resultados alcançados com a técnica ZMET:

  1. Esse é um momento que exige sensibilidade das marcas, ajuste de linguagem, não tão piegas nem tão agressivo. É preciso ajustar o tom.
  2. Darwin não está mais vivo, mas o que ele descobriu sim: as mais adaptadas, as que souberam navegar melhor nessa fase, sobreviverão e serão positivamente lembradas. 

Uma das sugestões de Jaime Troiano ao gestores de marcas é que façam o mesmo exercício que as pessoas estão fazendo diante da pandemia: um balanço de suas atitudes e de como se relacionam com as outras pessoas.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. E pode ser ouvido, também, em podcast.

Crime sem castigo

 

Como meu editor, da Contexto, sempre foi caridoso em permitir a reprodução de seus artigos aqui no blog, hoje tomei a liberdade de compartilhar seu pensamento sem antes ter-lhe pedido autorização. Que Deus me perdoe por esse pecado. Se não, que você me absolva deste crime, Jaime, porque estou longe de ser um dos poderosos protegidos pela justiça!

 

Por Jaime Pinsky

 

Teve um tempo em que acreditei na Justiça. Ou melhor, nas justiças, na dos homens e na divina. Parecia-me razoável que cada pecado cometido fosse devidamente punido. Que cada desobediência implicasse algum castigo. Claro que isso me custou muito sofrimento. Aquele dia em que me isolei no quarto alegando necessidade de estudar e fiquei jogando botão (quem nem botão era, mas plásticos rijos que cobriam relógios de pulso) a tarde toda, e no dia seguinte me saí muito mal na prova de latim… O outro em que briguei com um colega de escola, rolei com ele na terra aos socos e pontapés, entrei quietinho em casa, me lavei, joguei a camisa rasgada e encardida no cesto de roupa suja e fui almoçar sem contar nada aos meus pais (desta vez não tive muita sorte, o olho roxo e as escoriações no joelho me traíram miseravelmente). Os castigos me pareceram razoáveis: uma semana passa depressa, embora eu adorasse jogar bolinha de gude com a turma da Vila Gagliardi, rua sem saída, nosso empoeirado parque e praça esportiva improvisada.

A vida, à época, fazia sentido: a cada pecado, uma punição. Uma das coisas que eu fazia, esporadicamente, era dar uns sopapos no meu irmão “do meio” (éramos três meninos) sempre que ele, sob qualquer pretexto, agredia o caçula. Quando eu me entusiasmava nos sopapos e o chorão abria o berreiro, o cinto do meu pai fazia o papel de juiz, entrava na contenda e meu traseiro ganhava algumas faixas avermelhadas. Meu pai averiguava, julgava e aplicava o castigo, sem delongas. Já o castigo divino… Desse eu tinha mais medo, mas devo reconhecer, por outro lado, e à distância, que era bem menos eficiente. Eu me lembro até hoje da vez que fiquei um tempão tentando espiar uma freguesa, quando ela provava blusas na loja do meu pai. A moça ficou muito tempo experimentando cores, modelos e tamanhos diferentes, enquanto eu, nos meus heroicos nove anos, rondava a porta do provador improvisado. Um pirralho como eu certamente não representava ameaça alguma ao pudor dela… Mesmo assim, e mesmo não tendo tido nenhum sucesso na minha precoce atividade de voyeur, eu sabia que havia pecado. Talvez o sexto mandamento, ou outro qualquer, mas alguma lei de Deus. Esperei conformado o castigo, ficando em troca apenas com o azul-claro do enorme sutiã que vislumbrara. Mas o castigo nunca veio. Bem diferente de um colega de colégio, que ao confessar ao padre a prática da masturbação, foi aconselhado a se autopunir para ficar limpo. O resultado da queimadura que J.B. provocou em si próprio o acompanhou até sua morte precoce.

Já adulto me dei conta de que a Justiça tem cor, sexo e leva em conta fatores que, anteriormente, nunca imaginei que pudessem influenciar na decisão de quem julga. Algumas pessoas são julgadas logo, outras nunca. Alguns têm ótimos defensores em todas as numerosas instâncias, outros mal conseguem defensores razoáveis e se dão mal por erros técnicos, esquecimento de prazos legais para apresentar a defesa, má vontade dos cartórios e até dos próprios juízes. A lei, embora nominalmente coloque todos os cidadãos no mesmo patamar de direitos e obrigações, é muito mais generosa com uma parte da população, os que têm poder. Um complexo e lento sistema de defesa composto de numerosas etapas tem a função de protelar qualquer julgamento definitivo e respectiva punição. Recursos infindáveis, muito bem apresentados por equipes afiadas, lideradas por advogados muito hábeis, fazem com que o medo de punição não atemorize criminosos conhecidos. E, se algum juiz do andar de baixo comete a “irresponsabilidade” de sugerir prisão a um figurão, corre o risco de cair  em desgraça. Não importa o que diz a constituição sobre igualdade de direitos. Temos uma cultura estabelecida e ai de quem ousar questioná-la.

Uma amiga, promotora em São Paulo, me disse uma vez que a justiça de classe no Brasil nunca permitiria que tivéssemos um verdadeiro país de cidadãos. Ela tinha razão. Olhamos os iguais, ou supostos iguais, de modo distinto do que fazemos com pessoas “diferentes”, seja por sua origem social, cor da pele, religião, grau de instrução, tipo de roupa que usam. Isso é uma flagrante violação à letra e ao espírito da Constituição Brasileira, à  democracia e à cidadania. Deixar o tempo passar para que os crimes prescrevam, colocar ricos em prisão domiciliar, mesmo quando cometeram crimes horríveis, enquanto abandonamos  dezenas de milhares de pobres presos sem julgamento, é comum por aqui.
 
Aos iguais tudo, aos demais a força da lei.

 

Jaime PinskyHistoriador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto