Santa palmadinha

 

Por Milton Ferretti Jung

O Executivo – leia-se Governo Federal – encaminhou ao Congresso Nacional, em julho de 2010, mais um projeto capaz de gerar polêmica. Trata de assunto muito delicado e sujeito a diversas interpretações. Refere-se à proibição de que os pais castiguem seus filhos corporalmente. Não faz muito, a proposta foi debatida em audiência na Comissão Especial sobre este assunto. A previsão é de que o projeto seja votado em dezembro. Para Daniel Issler, juiz auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça, a iniciativa é elogiável. Fez, porém, uma ressalva: ”Ninguém de bom senso irá defender que a violência seja aceitável como forma de educação. A violência não é pedagógica, mas a educação está muito longe de ser simples”. Acrescentou que são necessários ajustes. Concordo inteiramente com o que ele disse, em especial, o que está na última frase do trecho entre aspas.

Vou escrever acerca da minha experiência pessoal nesta questão, primeiro como filho, depois como pai e com o que sei do comportamento dos meus filhos em relação aos deles, que são quatro, dois em São Paulo e mais dois em Porto Alegre. Não fui, na minha infância, um carinha dos mais comportados, tanto que acabei sendo internado aos doze anos e permaneci por um período e meio num colégio distante 120 quilômetros da casa paterna. Naquele tempo, internar os filhos mal comportados era prática comum, embora aumentasse consideravelmente os gastos dos pais com a educação. Antes disso, lembro de ter recebido petelecos da minha mãe. Meu pai apenas ficava brabo. Logo, o maior castigo que sofri, foi o internato. Já no que diz respeito aos meus filhos, geralmente era a mãe deles que se encarregava dos “castigos”. Um vez, quando o Beira-Rio iria ser inaugurado, o comandante deste blog foi flagrado por mim balançando uma bandeirinha do Inter. Gremistão doente,fiquei furioso. E dei um tapa na bunda do Mílton. Nunca lhe perguntei se ainda lembra do ocorrido. Envergonho-me até hoje sempre que o incidente me vem à cabeça.

Duvido que os meus filhos tenham necessitado “castigar” os meus netos, todos muitíssimos comportados e cumpridores dos seus deveres. Não fiz por merecer, em matéria de comportamento, os filhos e os netos que tenho. Tenho certeza, por outro lado, que não fui um mau pai. A propósito de castigos corporais, escrevo para finalizar, que aos pais cabe não confundir educação com castigo violento ou humilhante. Espero que o projeto, se aprovado, não impeça santas palmadinhas e evite, isto sim, todo e qualquer exagero. É conveniente não esquecer que a educação começa em casa.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cheque clonado, o seguro morreu de velho

 

Por Milton Ferretti Jung

Os bancos, com certeza, ainda são os locais mais confiáveis para que a gente deposite neles o nosso dinheiro. Os malandros de todas espécies, porém, vivem estudando maneiras de ludibriar a segurança das casas bancárias, muitas vezes, diga-se a bem da verdade, com safadezas bem sucedidas. Quando uma é descoberta, os patifes, imediatamente, inventam outras. Há espertinhos que tentam usar internautas ingênuos ou navegadores principiantes, para aplicar os mais diversos golpes. Quem lê seu correio eletrônico, por exemplo, é assediado com frequência a abrir e-mails supostamente enviados por bancos. Só hoje recebi mensagens de dois. Sou, entretanto, cliente de apenas um deles. Logo o deste, chegaram três. O assunto do e-mail era atualizaçãp de dispositivo. Bancos não costumam mandar e-mails para seus clientes por questões de segurança. Assim mesmo, existe quem, inadvertidamente, cai na esparrela. Conheço gente experiente em Internet que, se descuidou, sofreu momentânea bobeira e marchou nesse tipo de golpe. Outra mensagem muito usada é a que fala em “recadastramento de segurança”.

Tomei conhecimento na semana passada de outro golpe que está sendo aplicado, este mais novo e com tecnologia mais moderna. Pessoa de minhas relações foi consultar seu extrato e quase desmaiou com o que viu: sua conta estava no vermelho, eis que alguém, usando os dados de um cheque seu, que estava bem adiante do último que fora passado, havia feito retirada de certa importância, felizmente de pequena monta. Seu cheque tinha sido clonado. A vítima foi aconselhada a ir a uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência. Lá, ficou sabendo que outras seis pessoas tinham adotado idêntico procedimento, visando a serem ressarcidas pela instituição bancária que também é vitimada pelo golpista.

Sei lá por que, nunca tinha ouvido falar em cheque clonado. Como eu, talvez várias pessoas estejam no mesmo caso. Para diminuir o risco que corremos de virar vítimas de vigaristas, conviria que controlássemos mais amiúde o extrato bancário. Sei que há quem não ligue para isso. Mas, como ouvia meu pai dizer frequentemente, seguro morreu de velho. Quem conhecia a trampa, que me desculpe. Escrevi o texto para alertar possíveis incautos.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Menos armas na mão e na direção

 

Por Milton Ferretti Jung

Li ,nas últimas semanas,  duas notícias que me chamaram especial atenção, ambas tratando de assuntos rio-grandenses. Que me desculpem os leitores de outros estados se pareço puxar brasa para o meu assado. Creio que os assuntos, embora tratem de questões locais, possam interessar, de alguma forma ,a quem me acompanhar. A primeira dessas notícias dá conta de que o Rio Grande do Sul lidera a adesão à Campanha Nacional do Desarmamento. Os números são alvissareiros. Garantem que um de cada 4 mil gaúchos entregou armas entre os meses de maio e setembro. Os paulistas, por exemplo, tiveram contribuição menor: um por 7,7 mil. Para o estado, que era um dos mais apegados às armas no país, é uma melhora considerável, com certeza. É claro que algumas alterações no Estatuto do Desarmamento, favoreceram a mudança de atitude do povo gaúcho. Os pontos de coleta aumentaram, não é mais necessário que a arma tenha registro ou número de identificação, o proprietário pode permanecer no anonimato e quem se dispõe a ficar desarmado recebe, ainda por cima, entre R$100 e R$300 por arma recolhida. Assalta-me, porém, uma dúvida crucial. As pessoas de bem (ou do bem, como se diz hoje em dia) concordam como desarmamento. As do mal, principalemnte aquelas que lidam com drogas, bem pelo contrário, enriquecem os seus arsenais com armamento pesado. Terão as autoridades, ditas competentes, capacidade para impedir que os bandidos se reforcem com armas dos mais diversos e poderosos calibres? Esta dúvida, evidentemente, já foi exposta por muita gente boa…e preocupada.

E chego à segunda boa notícia, esta bem mais recente, porque publicada nessa  terça-feira, mas  sem chamada na capa do jornal que a divulgou, embora merecesse. A Polícia Rodoviária Federal, diante do crescimento dos acidentes na estradas e vias urbanas gaúchas, principalmente nos malditos feriados prolongados, apelidados bestamente de “feriadões”, começou a se valer da tecnologia para aumentar a vigilância sobre os motoristas. A BR-116, com trânsito pesado nos 36 quilômetros que separam Porto Alegre de Novo Hamburgo, passou a ter vigilância total por meio de 24 câmeras e quatro viaturas  equipadas com geradores de imagens. Trata-se da Central de Controle Operacional (CCO), colocada na confluência das BRs 290 e 116. Não preciso dizer que, com este equipamento de alta qualidade técnica, não haverá pontos cegos no trajeto. Os maus motoristas, abundantes no Rio Grande do Sul, que se preparem. O trecho fiscalizado custou R$2 milhões de reais. Por enquanto, portanto, é pequeno. Que a PF faça dele, porém, bom proveito. Talvez, graças ao CCO, o número de acidentes, muitos fatais, se torne consideravelmente menor.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Mulher no volante, assalto constante

 

Sempre que chego a uma terça-feira sem ter encontrado assunto capaz de agradar, como o Milton sempre diz,”os caros e raros leitores do blog”, fico preocupado. Gosto de entregar o texto bem antes da quinta-feira. Quem me conhece, está cansado de saber que sou cheio de preocupações, herança genética, com certeza. Meu pai passou a vida preocupado comigo e com meus irmãos. Ainda bem que foi a única coisa desagradável que herdei dele. Em compensação (se é que esta palavra cabe para o que vou escrever a seguir), quando eu era menino e papai demorava para chegar em casa, depois da sua faina diária, eu me postava diante da janela da sala e apenas me tranqüilizava ao vê-lo estacionar o Citroën negro na frente do portão da garagem.

Esta – a de entregar o texto com razoável antecedência- é, porém, uma das minhas menores preocupações. Afinal, se algum dia não descobrir assunto que valha a pena digitar, não temo ser demitido. Por motivos óbvios. Já uma das maiores refere-se à segurança da minha família nestes tempos cada vez mais difíceis de serem vividos. Maria Helena, minha mulher, acha que trato a questão da segurança com cuidados exagerados. Preocupa-me, faz muito, vê-la sair de carro sozinha. Sempre que possível, prefiro acompanhá-la, dirigindo o automóvel. Pois não é que, nesse domingo, dia 11 de setembro, data de má memória para o mundo civilizado, Zero Hora estampou a seguinte manchete: ”MEDO FEMININO. Roubo de veículos assombra gaúchas”

A seguir, numa “cartola”, Francisco Amorim, autor da reportagem, escreveu: “A cada quatro horas, uma mulher tem o carro roubado. Esta, entre outras estatísticas de Porto Alegre e do Estado, assusta as gaúchas ao volante”. E não é para menos, digo eu. Recentemente li neste blog a história de uma mulher, em São Paulo, que parou o carro num semáforo, e foi surpreendida por uma vozinha que lhe pedia passasse seus pertences. Para seu espanto, era um pivetinho que a “ameaçava”. Perto do local, meninos mais velhos esperavam o resultado do assalto. O aprendiz de ladrão não teve sucesso, mas estava apenas sendo treinado para futuros e exitosos roubos. Desfecho fatal, porém, ocorreu em Porto Alegre, lembra o jornal, com uma fotógrafa de eventos, ao sair de um banco do qual retirara 150 reais. Ela se dirigia ao seu carro, falando com o marido pelo celular, quando foi empurrada para dentro do veículo e, em seguida, friamente assassinada pelos assaltantes. A estatística mostra que quase 1,4 mil mulheres foram atacadas em Porto Alegre (é daqui que envio meus textos), entre janeiro e julho deste ano, foram vítimas de assaltos. Diante deste número, sabendo que os ladrões imaginam encontrar mais facilidade para assaltar mulheres ao volante e que as autoridades pouco podem fazer para evitar a ação dos criminosos, como não ficar terrivelmente preocupado com a situação? Invejo aqueles que não ficam.

Caça a motorista bêbado tem de ser predatória

 

Por Milton Ferretti Jung

Acidente de trânsito e carro clonado

A caça a motoristas que dirigem alcoolizados os seus veículos está se tornando, me permitam a expressão, cada vez mais predatória. Esta é, sem dúvida, uma boa notícia. São Paulo deu ao país um bom exemplo quando o governo estadual mandou à Assembléia Legislativa projeto visando a impedir que, em pontos comerciais, sejam vendidas bebidas alcoólicas, oferecidas ou que o seu consumo seja permitido a menores de 18 anos. No Rio Grande do Sul há uma idéia ainda mais abrangente. Pais e responsáveis também ficariam proibidos de deixar crianças e adolescentes beberem em sua companhia. Na lei paulista, apenas o proprietário do estabelecimento vendedor é responsabilizado. Uma equipe multidisciplinar, liderada pela Secretaria Estadual de Justiça e Direitos humanos gaúcha, pretende apresentar um projeto de lei acerca do tema em fins de setembro.

Mas tem mais. Tenho certeza de que meus leitores, se é que os possuo, já leram ou ouviram notícias sobre projeto aprovado na Câmara dos Deputados segundo o qual se proíbe que bebidas alcoólicas sejam transportadas nas cabines de veículos. Essas, então, apenas poderão ser levadas no porta-malas. Nada impedirá, porém, que um motorista “sedento” pare o veículo que dirige e abra uma das garrafas guardadas no maleiro. A referida lei é daquelas de difícil fiscalização. Foi Edson Lobão, hoje Ministro de Minas e Energia, quando senador, o autor do projeto que data de 2002. Não foi especificado por ele se as garrafas devem obrigatoriamente estar lacradas. Vá lá, o condutor do veículo não pode beber, mas e os passageiros? Seja lá como for ,a propostas volta ao Senado e necessitará de aprovação da presidente Dilma.

Vou insistir num dos pontos que já abordei em postagens antigas que tratavam de trânsito: nada resolverá os excessos tanto de ingestão de bebidas alcoólicas quanto de velocidade, nas estradas e nas ruas, se desde a mais tenra idade as crianças não forem educadas, em casa e na escola, a respeitar as leis. Por outro lado, as punições impostas aos maus motoristas, especialmente os bêbados, têm de ser revisadas. Hoje, quem comete um acidente por estar sob efeito de alcool e provoca a morte de alguém, é julgado por cometer crime culposo, quando o mais correto seria ser punido por crime doloso.

N.B: No homicídio culposo, sem intenção de matar, o motorista é julgado por um juiz. Se condenado, pode pegar de dois a quatro anos de prisão. A habilitação pode ser suspensa por um ano. No homicídio doloso, intencional, o motorista vai a júri popular. Se condenado, a pena é de 6 a 20 anos. A pessoa pode perder o direito de dirigir.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O salário dos vereadores de Porto Alegre

 

Por Milton Ferretti Jung

São Paulo é, como todas as grandes metrópoles, uma cidade que enfrenta, quem não sabe, problemas sem conta. Em vários aspectos, porém (e quem escreve este texto é insuspeito por não ser sequer morador daí), é invejável. No caso, o adjetivo que usei é sinônimo de apreciável. Um destes aspectos aos quais me referi diz respeito ao programa Adote um vereador. Não trato do assunto porque o Mílton foi o primeiro a se filiar ao Adote quando desafiou os ouvintes do CBN São Paulo – se é que alguém não sabe disso – a adotar um vereador. Por que cito o Adote um vereador?

Explico: por que, se existisse iniciativa semelhante na minha cidade, Porto Alegre, os vereadores daqui não teriam, talvez, aumentado os seus salários, sem votação em plenário.  Ganhavam  R$10.335,72 e passarão a perceber R$14.837,94. Convém acrescentar que eles tem à disposição cota máxima de R$8.785,56 por mês para custear despesas do gabinete, tais como materiais, conta telefônica, combustível, diárias, passagens aéreas, etc. Afora isto, recebem duas ajudas de custo, uma em 15 de dezembro  e outra em 15 de fevereiro, para complementar as despesas. O valor é referente a um mês de salário e está descrito no contracheque.

Apenas dois vereadores contrariaram a decisão da maioria: Pedro Ruas e Fernanda Melchionna, ambos do PSOL, que doarão a diferença a instituições sociais. O aumento, ainda por cima, é retroativo a fevereiro. Enquanto isso, os professores municipais precisaram entrar em greve para, ao fim e ao cabo, receberam 5% de aumento (?) e terão de compensar, no período de férias, os dias em que ficaram parados. Gostaria que tivéssemos, em Porto Alegre, programa semelhante ao de São Paulo. Possuíssemos o “Adote um vereador”, quem sabe, repito, os nossos respeitariam mais os seus iludidos eleitores. Encerro, para que os paulistanos saibam com quem nós, porto-alegrenses estamos lidando, com a declaração de Luiz Braz do PSDB, um dos que embolsará o aumento se este se confirmar: “Com o salário que ganhamos, fazemos nosso trabalho com muita dificuldade. Com o aumento, ganhamos fôlego para realizarmos.

Em tempo:  Depois que encerrei este texto o Tribunal de Contas do Estado, em decisão cautelar, suspendeu o aumento concedido pela Câmara Municipal de Porto Alegre aos vereadores. Sofia Cavedon do PT, presidente da Câmara, resolveu não recorrer.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Odeio os aeroportos

 

Por Milton Ferretti Jung

Desde abril não viajava de avião. No último dia 5, convidado que fui a participar ao lado do meu filho do programa Papo Aberto, apresentado por Gabriel Chalita na TV Canção Nova, precisei ir a São Paulo, o que fiz com enorme satisfação, como lembrei no texto que postei neste blog no dia 11 do corrente, eis que o convite do Chalita me proporcionou reencontrar o ramo paulista de minha família, o Mílton, a Abigail e os netos Gregório e Lorenzo. Quando eu narrava futebol pela Guaíba de Porto Alegre, sempre que podia, evitava viajar, não por ter medo de voar, mas é que já naquele tempo detestava aeroportos. E notem que então eram raros os vôos que saíam com atrasos enervantes ou, como acontece frequentemente agora, nem decolavam. Ninguém imaginava que haveria um 11 de setembro trágico envolvendo aviões dos Estados Unidos em atentados que abalaram o mundo. O reflexo da fatídica data se faz sentir, hoje em dia, principalmente nos aeroportos.

Aqui no Brasil não tinha ainda me deparado com o que me pareceu uma certa paranóia dos agentes fiscalizadores de bagagens e passageiros em vôos domésticos, o que me chamou especial atenção. Fui e voltei à Argentina com minha mulher sem enfrentar problemas ao cruzar a fiscalização de embarque. Claro, existem regras que precisam ser obedecidas. Nos bons tempos não se fazia necessário, por exemplo, que a gente se preocupasse com a capacidade das embalagens de líquidos, que agora não podem ultrapassar 100ml, na bagagem de mão.

Tanto na minha ida como na volta, no Salgado Filho e em Congonhas, passei por experiência desagradável. Com minha bagagem de mão não houve. Já,no entanto,quando cruzei aquele portãozinho (sei lá como é o nome técnico da coisa), o apitinho soou. Não levava nada no bolso capaz de provocar o maldito som. Quase me viraram ao avesso. – Tira o cinto! – mandou um “simpático” agente. Tirei o cinto e o relógio, mas me mantive calçado. No retorno a Porto Alegre, porém, nem os sapatos pude manter nos pés. Será, pensei, que tenho cara de terrorista? Diz a resolução 168 da ANAC, entre outras coisas, que os critérios para os casos em que passageiros e bagagens devam ser submetidos à inspeção mais detalhada são definidos pela Polícia Federal. Pelo jeito, dei azar. Ou os agentes escalados para os dias em que viajei dormiram mal e resolveram me fazer dançar. É possível também que tenham gostado de me “massagear”. Nem os idosos, atualmente, merecem respeito. Cada vez mais, odeio aeroportos.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Os estudantes e o exame da OAB

 

Por Milton Ferretti Jung

Quando fui estudante, e idêntica experiência viveram também os meus três filhos, precisávamos enfrentar, antes de chegar à faculdade, os cursos primário, ginasial e o clássico ou científico. Neste, se inscreviam os que pretendiam estudar, por exemplo, medicina. Naquele, os que desejavam ser advogados. Já naquela, no meu caso especialmente, distante época, o que diferenciava o clássico do científico, era o latim, materiazinha bem difícil. Quem o cursava, necessitava, igualmente, lidar com matemática, química e física, meus espantalhos, digo de passagem. Fosse pelo desejo paterno, eu teria enfrentado uma faculdade de Direito. Lamento não ter podido satisfazer o sonho do meu pai, mas o veículo Rádio me conquistou, de maneira irremediável,antes mesmo de eu concluir o clássico no Colégio Nossa Senhora do Rosário. Creio que papai se conformou com a minha opção.

Se eu tivesse seguido o seu desejo, somente seria licencidado para exercer a profissão depois de fazer o exame aplicado pela Ordem dos Advogados do Brasil. Este é o meu assunto de hoje, embora a tal prova não me afete de modo algum, seja ela mantida ou não. Nenhum dos meus filhos pensou em ser advogado. É verdade que ainda não perguntei aos meus netos o que pretendem fazer. Confesso que, já estive entre os que estranhavam a exigência da OAB, mas não porque imaginasse tratar-se de medida visando à reserva de mercado, conforme diz o bacharel João Antônio Volante, autor de recurso apresentado ao STF. Mudei de idéia, ao ver provas que um colega, que era professor de Direito, levava para corrigir na rádio, tamanhas as asneiras escritas pela maioria dos seus alunos, todos no quinto ano. Só lendo para crer. Oxalá isto seja levado em conta pelo Supremo Tribunal de Justiça quando julgar o recurso do bacharel gaúcho.

Os números demonstram que o exame exigido pela OAB têm razão de ser. Notem que na última avaliação realizada em dezembro pela OAB, somente 9,7 por cento dos candidatos de todo o país obtiverram aprovação. Que me desculpe o Dr.Volante, mas não vejo inconstitucionalidade na lei que prevê a realização do polêmico exame. Ele encontra amparo no inciso XIII do artigo 5ºda Constituição Federal, segundo o qual existe liberdade do exercício profissional desde que atendidas as qualificações estabelecidas em lei. Gente baixamente alfabetizada não pode ser considerada apta para exercer a advocacia. As faculdades de Direito do Brasil, com excessões ,claro (como boa parte das de Jornalismo), não garantem boa qualificação profissional.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílto Jung (o filho dele)

Presente do Dia dos Pais

 

Por Milton Ferretti Jung

Recebi, lá pelo dia 30 ou 31 de julho, não lembro bem, um telefonema do Mílton, no qual ele me informava que tínhamos sido convidados para comparecer a um programa da TV Canção Nova que iria ao ar em 8 de agosto. O apresentador Gabriel Chalita queria que participássemos do Papo Aberto. Assunto: Dia dos Pais, que se festeja, como se sabe, no segundo domingo deste mês. Só quem é muito desmiolado talvez não se recorde desta efeméride,tantos são os anúncios sobre a data divulgados pela mídia.

Permitam-me que apresente Gabriel Chalita, especialmente para os leitores e/ou telespectadores do Rio Grande do Sul. Ele, que é formado em Direito e em Comunicação e Semiótica, foi eleito deputado federal com 560.022 votos. Vai concorrer, agora, à prefeitura paulistana. O convite para o Papo Aberto, como não poderia deixar de ser, foi aceito de imediato. Graças a ele, aproveitei para visitar meu filho, minha nora e meus netos. Mais do que isto, a participação no programa me deu a rara chance de compartilhar com o Mílton o relato de nossas histórias profissionais, algo jamais imaginado por mim e, com certeza, por ele. Confesso que fiquei emocionado ao ouvir os elogios feitos por Gabriel Chalita ao comportamento do Mílton tanto no seu trabalho quanto como pai de família e senti ,mais uma vez, que o guri que, em 91, se mudou com armas e poucas bagagens para São Paulo, só teve a ganhar com a troca. Confesso, também, que a coragem que ele demonstrou ao deixar a casa paterna para se estabelecer em uma terra então estranha, não faz parte das minhas poucas virtudes, porque jamais gostei de viajar ou de ficar só em lugares distantes do meu lar. Não exagero se disser a quem lê este texto que, como pai, fui capaz de ensinar algumas coisas aos meus filhos – a Jacqueline, o Mílton e o Christian – mas eles souberam aprimorá-las e passá-las aos seus filhos.

Durante o programa, comentei que o Mílton, no microfone, fala muito. Não foi isso que ensinei a ele. Nisto, somos diferentes: na minha profissão nunca fui âncora, sempre lidei com a leitura de notícias e de textos, criados ou não por mim; narrei futebol durante décadas; participo, hoje de um programa de debates esportivos; no início da minha carreira até fiz radioteatro, mas precisava apenas interpretar as partes que me tocavam no script. Já o Mílton me impressiona quando faz ou concede entrevistas, seja porque sempre se mostra bem informado sobre os assuntos que aborda com os seus entrevistados, seja porque, quando, especialmente, fala do rádio como veículo, demonstra pleno conhecimento do assunto.
Encerro este texto agradecendo a Gabriel Chalita pela chance maravilhosa que nos deu de falarmos sobre nossa profissão e de nossas famílias.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (meu pai)

Mais um festival de besteiras, na língua e no trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

Hoje vou tratar de dois assuntos, um relativamente ameno. É por este que começo. Creio que a imprensa brasileira aboliu a figura do revisor. Lembro que, ao iniciar minha carreira no rádio e no jornalismo, todo jornal que se prezasse possuía revisores. Eles eram imprescindíveis (o copidesque surgiu mais tarde), não digo que fossem infalíveis, mas era difícil que deixassem escapar erros, alguns deles crassos, que lemos nos dias de hoje. Por falar em erro crasso, vale recordar quem está na origem desta expressão. Veio de um general chamado Marco Licinius Crasso, que em 59 a.C. dividia o poder, em Roma, com Júlio César e Pompeu Magnus. Ao contrário dos seus talentosos parceiros, Crasso tinha uma idéia fixa: conquistar os Partos, povo persa cujo império ocupava boa parte do Oriente Médio. No comando de 50 mil homens tentou, simplesmente, se atirar ao ataque, abandonando as táticas romanas. O resultado não poderia ter sido pior: suas tropas foram dizimadas e ele foi uma das vítimas do massacre. A asneira cometida por Crasso virou, em várias línguas, sinônimo de estupidez.

Volto ao meu assunto inicial. Existissem ainda os revisores, redatores de todas espécies, não imitariam o infeliz general romano ou, pelo menos, teriam seus erros minimizados. Os repórteres e redatores das editorias de assuntos policiais ou esportivos são os que mais cometem gafes. Algumas, como as duas que vou citar, lê-se, repetidamente, nas páginas dedicadas ao futebol: o jogador fulano, contratado ao Bambala, será apresentado hoje. Esta vai ipsis verbis: No segundo tempo, Jô fez a sua estréia. Repatriado ao Manchester City, ainda está sem ritmo de jogo, etc.

Gostaria de saber como ser faz para “repatriar” um jogador de algum clube estrangeiro. Além de erros que atentam contra o vernáculo, os jornais estão cheios de modismos. “Apontar” é um deles. Será que não existe um sinônimo só para, de vez em quando,variar? O mais recente, conforme ando notando, é o “por conta”. Exemplo: Por conta das chuvas, que castigam a região serrana, já há milhares de flagelados. Os narradores esportivos, os comentaristas e repórteres não sabem, pelo jeito, que há dois tipos de moral. A palavra moral é feminina quando empregada na acepção de conjunto de costumes, de modos de procedimento, de corpo de preceitos naturais ou tradicionais, para distinguir as ações dos homens: “A moral cristã”” – “A moral ordena que assim procedamos”. Já moral é do gênero masculino quando indica o contrário de material, isso é, quando designa as forças de inteligência, de espírito de ânimo: – “O moral das tropas está abatido” – “O moral dos jogadores é grande”.

No início escrevi que, neste espaço, abordaria dois assuntos. A Zero Hora dessa segunda-feira, na página 25, mancheteou: ”Sete jovens morrem em acidentes”. O jornal gaúcho, na matéria, acrescentou que quase a metade dos jovens tinha até 25 anos. Os fins de semana são trágicos no Rio Grande do Sul e, provavelmente, São Paulo não lhe fica atrás do meu estado. Talvez, até contribua com número maior de vítimas. Quando vejo as estatísticas, especialmente as que se referem aos finais de semana, constato que em boa parte dos acidentes os envolvidos são jovens que participaram de festas e, imagino, tenham exagerado na bebida. As pessoas, por mais campanhas que sejam feitas alertando para os perigos de dirigir depois da ingestão de álcool, seguem bebendo e apostando na sorte.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)