Da H1N1 à Covid-19, o risco de confisco saiu do campo da imaginação à estratégia bélica de um governo sem rumo

Imagem de enriquelopezgarre por Pixabay
Imagem de enriquelopezgarre por Pixabay 

A mensagem do governador Ronaldo Caiado, de Goiás, soou como ameaça ao escrever no Twitter que o Governo Federal publicará medida provisória para requerer toda e qualquer vacina contra Covid-19 que estiver sendo produzida no Brasil. Requerer no vocabulário político é sinônimo de confiscar. Anúncio feito, repercussão em curso e, em seguida, surgem o “desmente daqui”, o “lustra dali” e o “desvia o assunto” —- típico deste campo em que a batalha pela vacina está sendo travada. Como neste jogo tem gado mas não tem bobo, o recado foi recebido com preocupação, especialmente em São Paulo, o principal alvo das pretensões bélicas do presidente Jair Bolsonaro e seu exército de ministros mambembes.

O Palácio dos Bandeirantes já montou sua sala de guerra para impedir que “tropas federais” invadam o Instituto Butantã — em lugar de fuzis e matracas, advogados e políticos planejam estratégias para impedir que alguma medida legal imponha a entrega do lote da Coronavac, produzida pela chinesa Sinovac. Talvez seja o caso de montar trincheira no STF que tem sido um dos cenários desta guerra vacinal e política que assistimos enquanto contamos mortos e feridos pelo verdadeiro inimigo: o vírus.

O risco de confisco da vacina, por mais absurdo que possa soar, não deve ser desdenhado. Lembre-se que à frente do Ministério da Saúde está um cidadão muito mais afeito a guerras do que a ciência; que tem como lema: “um manda e o outro obedece”. E quem manda é quem está na cadeira de presidente, atualmente ocupada por um ignóbil.

A tese do confisco federal já havia rondado os laboratórios farmacêuticos, com fábricas no Brasil, durante a pandemia do H1N1, em 2009 e 2010, que em 16 meses contaminou 493 mil pessoas e matou cerca de 18,6 mil pessoas, segundo a OMS —- em três meses, a Covid-19 já havia superado essas marcas. O vírus se espalhava em menor velocidade e era menos mortal do que o SarsCov-2. Tínhamos uma população de idosos que havia sido “imunizada” nas gripes asiática, de 1957, e de Hong Kong, de 1968, também causadas por outros vírus influenza. Soma-se a isso a existência de dois antivirais com potencial para conter os casos mais graves e amenizar os efeitos da H1N1: o principal deles era o Oseltamivir, que costumamos chamar de Tamiflu, aprovado pela primeira vez, nos Estados Unidos, em 1999, e produzido pelo laboratório Roche; o outro, usado em menor escala era o Zanamivir, descoberto em 1989 —- batizado Relenza pela Glaxo Smith Kine, fabricante da droga.

Os primeiros casos de H1N1 surgiram no México, em março de 2009; no Brasil, tivemos registros do vírus em abril; em junho, a OMS decretou situação de pandemia. Os países mais organizados passaram a fazer estoque principalmente de Tamiflu, como forma de garantir atendimento a sua população. No Brasil, o medicamento sumiu das farmácias, comprado por pessoas assustadas com o risco da doença. Nos estoques oficiais, segundo reportagem do Correio Brasiliense, de 8 de setembro de 2009, o governo tinha remédio suficiente para apenas 5% da população, quando a recomendação da OMS era de que o alcance fosse de 25%. 

Já no princípio da crise, a Roche traçava todos os cenários possíveis diante da que foi a primeira pandemia do século 21 —- desde uma situação sob controle, com pacientes contaminados pelo H1N1 tendo atendimento médico regular até uma tragédia humanitária, na qual faltariam leitos e remédios, com imagens que lembravam a Gripe Espanhola. De acordo com um dos executivos com quem conversei na época, o que mais preocupava era a inexistência de um plano de ação federal. O temor do fabricante —- por mais improvável que lhe parecesse: sem um planejamento, o governo poderia de uma hora para outra encomendar uma quantidade de remédio que excedesse a capacidade de produção; sem condições de entregar, a farmacêutica se transformaria em bode expiatório, acusada de segurar estoques para vender na rede privada e seria alvo de um confisco federal.

Não foi o que aconteceu. Mesmo com o crescimento do número de pessoas mortas e contaminadas, o sistema público de saúde e a rede privada de hospitais, com as adaptações necessárias e as restrições conhecidas, atenderam os pacientes de H1N1. Toda a produção de Oseltamivir foi canalizada para o setor público e distribuída para estados e municípios. No primeiro ano, foram mais de 28 mil casos e 1.632 mortes, no Brasil. Em 2010, houve uma redução drástica graças a campanha de vacinação contra a doença: 727 pessoas contaminadas e 91 mortes.

Pode-se traçar paralelos entre a pandemia de 2009 e a de 2020 porque sempre há lições a aprender do que fizemos no passado. Não há dúvida, porém, que a Covid-19 é única. É devastadora. As ações de combate a doença são muito mais necessárias e complexas — sequer temos um antiviral para amenizar seus impactos;  o planejamento precisa ser feito com o uso de inteligência e baseado na ciência; e o Brasil não tem um ministro da Saúde nem um Presidente da República com estatura para administrar essa crise. O confisco seria apenas mais um absurdo nesta sequência de erros que já nos levou a 181 mil mortes.

Alecir, um cidadão que reclamava por amor

Lá se foi nosso Alecir. Companheiro de primeira hora no Adote um Vereador, perdeu a batalha contra Covid-19. O coração sempre apaixonado pela mulher Virgínia e pela sobrinha Amanda tanto quanto pelas lutas em favor da cidadania não resistiu o esforço para respirar e o tempo de internação. Nesta madrugada, morreu aos 62 anos, em São Paulo.

Alecir Macedo esteve na primeira reunião do Adote, mais ou menos nesta mesma época do ano, em 2008, quando sentamos juntos em torno das mesa do Centro Cultural São Paulo. Eram lá os encontros presenciais que surgiram por iniciativa daqueles que aceitaram o convite para que atuássemos no controle do trabalho dos vereadores da nossa cidade. 

Depois fomos para o Pateo do Collegio. E o Alecir foi junto com a gente. Muitos ficaram pelo caminho. Desistiram da luta, mudaram o foco de atuação, desacreditaram no nosso trabalho ou tinham mais o que fazer na vida. O Alecir, não. Todo segundo sábado do mês costumava ser o primeiro a chegar depois de uma longa jornada de ônibus e metrô que se iniciava na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, onde morou por mais de 40 anos —- na época em que desembarcou na Cachoeirinha ainda existia a água correndo que dava nome ao bairro, me contou uma vez.

Alecir é de Jaguariaíva, interior do Paraná, onde também existem  cachoeiras. Chegou a São Paulo, em 1978. Sem dinheiro nem conhecimento e apenas com o convite de um cunhado, deixou a mulher e o filho pequeno na casa da mãe e se bandeou para a capital paulista. Aqui tinha apenas a indicação do parente: “desce perto do hospital da Vila Nova Cachoeirinha, atravessa a avenida e pergunta por mim no bar do outro lado”. Eram seis da manhã. O bar estava fechado. Sorte que o cunhado havia comentado que para chegar no endereço dele, bastava atravessar a avenida nova — a Inajar de Souza —- e procurar a casa verde, no alto de um barranco: “é a quarta casa”. Na divisa com a favela da Divineia.

O instinto de sobrevivência o fez encontrar o lugar, e do lugar arrumou emprego de auxiliar do departamento pessoal em uma transportadora, na avenida Marques de São Vicente. Lá trabalhou por 12 anos até chegar ao cargo de gerente de filial. Nem enchente nem todo tipo de encrenca que encontrou pelo caminho — e desde novo fazia questão de denunciá-las —, atrapalhou a construção de uma relação que se transformou em paixão pelo bairro.

Nosso amigo era um tipo curioso: poucos reclamavam tanto quanto ele; mas sempre reclamou por amor. Pelo verde da praça que os “nóias” ocupavam na frente de casa; pelo meio ambiente que os carros poluíam e as pessoas desrespeitavam; pela calçada que as concessionárias tornavam irregular; pelo céu que os prédios encobriram; pela cidade, que os políticos não cuidavam.

Ah, os políticos! 

Controlá-los e cobrá-los era seu esporte preferido. Enquanto pode, foi a Câmara para assistir às sessões, fuçou nas reuniões de comissões e tomava a palavra nas audiências públicas. De casa, monitorava os parlamentares pelo computador, gravava as imagens geradas pela TV Câmara na internet, editava vídeos, denunciava abusos e absurdos ditos em plenário, reproduzia brigas e publicava tudo no blog que levava o nome da Vila Nova Cachoeirinha. Quando percebia a ausência de algum vereador no trabalho, mandava e-mails e cobrava a resposta.  Na rua, fotografava a falta de semáforo, de luz, de cuidado e de respeito — enviava para jornais e vereadores.

Por amor, esteve com a gente até quanto pode. Até ser superado pelo desânimo há cerca de um ano. Mesmo assim, nos falávamos por telefone e trocávamos mensagens. Ele me ajudava a manter o site do Adote um Vereador que criou lá no início da nossa história. Até recentemente dava seus pitacos. Dia desses li e me ri: “político fazendo campanha de máscara economiza óleo de peroba…”, escreveu em uma rede social. Foi na rede que encontrei, também, como ele se definia: “cidadão brasileiro, com muito orgulho, cansado de sofrer nas mãos de políticos inescrupulosos”. 

Alecir se foi. Era um amigo. Sincero como devem ser os amigos. Engraçado de tanto que reclamava. Um daqueles caras que deixará saudade eterna pelo abraço que me dava, pelo carinho que sempre demonstrou e pelos puxões de orelha diante da minha desatenção a algo dito no rádio —- sim, além de tudo era um ouvinte frequente dos meus programas, desde os tempos do CBN São Paulo.

Se o Adote perdeu uma referência e São Paulo, um cidadão, posso lhe garantir que Deus arrumou sarna para se coçar. Mas não se incomode, Senhor: quando ele reclamar vai ser por amor!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo, escrito por Alecir Macedo, que foi ao ar em abril de 2013

O jornalismo precisa respeitar o tempo de apurar e de noticiar; senão deixa de ser jornalismo

Foto Pixabay

Nunca o jornalismo foi tão imediato como agora. Do microfone no rádio à câmera na televisão, o tempo para publicar a notícia é o tempo de acionar o botão do … NO AR. Na internet, a urgência aparece em alertas na tela do celular antes mesmo do texto ter sido publicado. Os jornais sem tempo para imprimir o fato, atualizam o site com manchete em letras garrafais, mesmo que o repórter ainda não tenha dado ponto final; e usam as redes sociais para levar ao público a informação com o crédito que a história lhes concedeu. 

Confundem aqueles que, primeiro, identificam o fazer jornalismo apenas como o ato de publicar um fato, quando há uma série de ações que precede a esse ato. Confundem mais ainda — seja lá com qual for a intenção, talvez apenas desconhecimento — quando veem no avanço tecnológico a necessidade de mudanças em características que são próprias do jornalismo: a busca incessante da verdade, o apuro dos fatos, a relevância no que é interesse público e o direito ao contraditório. Essa jornada exige tempo e responsabilidade —- em uma equação que desafia o cotidiano de repórteres, editores e analistas, pois a medida que diminui o tempo entre o fato e a sua publicação, aumenta a responsabilidade de quem publica o fato. 

Estruturas menores, profissionais com menos experiência, crescimento da competitividade e investidores preferindo o entretenimento ao enfrentamento, típico do jornalismo, têm prejudicado essa dinâmica nas redações —- e isso ninguém nega, é fato e nós jornalistas gostamos de trabalhar com fatos: em dez anos, 83% dos jornais brasileiros reduziram o número de profissionais, 13% mantiveram a equipe no mesmo tamanho e apenas 3% declararam ter aumentado seu time, conforme estudo feito pelo jornalista Ricardo Gandour e publicado no livro “Jornalismo em retração, poder em expansão” (Summus Editorial).

As redes sociais tornaram o processo ainda mais complexo ao dar agilidade na entrega da informação —- confirmada ou não —- e a oferecer a todos o mesmo poder e espaço, diferenciado-os apenas pelo alcance que cada um capacitou-se a ter e pela forma como os algoritmos impulsionam ou não essa mensagem. Esse cenário gera uma concorrência desleal; enquanto uns se alvoroçam nas redes publicando o que bem entendem, se satisfazendo em traduzir tuítes e replicar fatos sem confirmação, desde que tenham potencial de agitar a galera a espera do engajamento da arquibancada digital, sem se preocuparem com a responsabilidade de seus atos e opiniões;  outros —- e os jornalistas fazem parte desses outros, ou deveriam fazer —- têm compromisso ético imposto pela profissão que exercem. “Eu acho”, “ouvi falar”, “dizem por aí”, “não tenho certeza, mas …” são expressões que se repetem com frequência no dia a dia das nossas conversas, no bate papo de boteco, na troca de mensagem entre amigos e colegas e dominam as redes sociais; porém jamais podem ocupar o espaço destinado a objetividade jornalística,  um dos fundamentos no exercício de noticiar. 

O jornalista é refém da verdade e esta nem sempre é encontrada na mesma velocidade exigida pela sociedade contemporânea que sofre de ansiedade informacional. Porém, assim como o tempo de maturação da notícia, do levantamento de dados e da confirmação de versões tem de ser respeitado, equilibrar os três pilares que sustentam o trabalho jornalístico —- isenção, correção e agilidade —- é essencial para nossa sobrevivência. É preciso, sim, noticiar de forma livre e independente, sem cumplicidade com governos e empresas; ser correto na apuração e na relação com a fonte; tanto quanto ágil na publicação —- entendendo que essa rapidez no informar tem de estar pautada na razoabilidade do tempo entre o fato ocorrido e o fato publicado. Quanto menor o tempo, mais correta for a apuração e mais precisa a notícia, melhor para o jornalismo e para a sociedade.

Galeano, Piazzola, Blazquez e o grito sonoro do gol para homenagear Maradona

 

Eduardo Galeano, que me inspirou em post anterior, foi resgatado em crônica “O parto”, na qual conta o nascimento de Diego Maradona, no encerramento da edição do Jornal da CBN. Por criação de Paschoal Júnior, ouvimos o segundo e impressionante gol do “Diez” contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986, em três vozes: Roberto Hernandes Júnior, do México, Samuel Souza Santos , da Guaíba, e Osmar Santos, na Globo. Tudo sonorizado por Adios Nonino , de Astor Piazzolla Y Eladia Blazquez, com interpretação de Mariana Avena.

As palavras que definem Maradona

Reprodução de vídeo do site Clarín

 

A notícia da morte de Diego chegou em um alerta no celular. Daquela chamada curta que dizia o necessário e definitivo até agora, não tive coragem de escrever uma só linha sobre a morte de “Diez”. Nada que eu pensasse já não haveria de ter sido pensado por gente muito mais habilidosa com as letras. Temos cronistas, esportivos ou não, qualificados para homenagear com seu talento o talento de Maradona. A leitura dos jornais nesta manhã, as publicações na internet e as homenagens no rádio e na televisão deixam isso bem claro. E faço o convite para que você vá na banca mais próxima e compre todas as edições de jornais deste 26 de novembro de 2020 — serão históricas.

Para bloquear qualquer criatividade que me restasse, ainda ouvi a pergunta de minha mulher, na mesa do jantar: “o que o pai escreveria sobre a morte de Maradona?”. O pai ao qual ela se refere é o meu pai, Milton Ferretti Jung, mais conhecido por narrador de esportes e de notícias, mas, também, cronista de qualidade irretocável. Não bastasse o prazer de ouvi-lo interpretando textos que escrevia na rádio Guaíba, de Porto Alegre — preferia datilografar suas ideias no papel em lugar de fazer de improviso, em respeito às palavras –, por algum tempo publicou crônicas nos jornais da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

Não me atrevo a arriscar o que o pai escreveria de Maradona, o craque que nasceu na Argentina, país pelo qual ele — o pai — sempre admirou pelas carnes, pelos vinhos, pela cultura, pelas ruas de Buenos Aires e por Maradona, também. No armário, onde ficaram as roupas deixadas pelo pai, quando morreu, no ano passado, encontrei a camisa do Boca Junior — certamente comprada na Bombonera em uma das muitas visitas que fez ao estádio que aplaudiu o futebol de Maradona. Provavelmente escreveria texto memorável e o leria com todas as letras e caprichando na pronúncia espanhola.

Sem palavras — por comedimento, respeito e não me sentir a altura dessa turma boa de cronistas que temos —, recorri a biblioteca que tenho aqui em casa e encontrei o livro “Fechado por motivo de futebol”, de Eduardo Galeano, uruguaio que escreve como poucos sobre a vida e o futebol. Foi Galeano, como lembrado em muitas das reportagens publicadas desde ontem, que definiu Maradona como “o mais humano dos deuses”. No livro, a primeira crônica é Galeano revelando o sonho de ser jogador de futebol; a segunda, é do nascimento de Maradona — que li ao fim do Jornal da CBN, desta quinta-feira; e a terceira é a homenagem eternizada que reproduzo a seguir, porque Galeano, em 221 palavras, fez o que nenhum de nós conseguiria fazer tão bem: descreveu Maradona, do início ao fim.

Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.

Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório. Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises, de urina ou de sangue, não detectam essa droga.”

A aventura na casa do vô que me levou à leitura

Foto: Pixabay

A casa de meu avô Romualdo, em Porto Alegre, era um mundo a ser explorado. Dois andares, salas e quartos grandes, jardim na frente, corredor largo ao lado e um quintal, com videira e galinheiro, que se estendia até uma pracinha de pedras britadas que servia para quarar a roupa da vó —- e se transformava em campo de batalha dos netos que se atreviam a quebrar a lei do silêncio que imperava no local. Sim, aquele era um mundo em que o silêncio era para ser conservado na medida do impossível.

Minha diversão era desbravar os quartos vazios do andar de cima. Em um deles havia morado minha bisavó e em outro, funcionava uma espécie de escritório do vô. Tinham alguns armários com porta de vidro que atiçavam a curiosidade de quem olhava de fora — lá dentro havia livros-caixa e caixas de papel velho. Minha curiosidade se voltava a uma coleção de livrinhos que só alcançava se puxasse uma cadeira para subir e me esticar até os andares mais altos do armário.

O medo de fazer barulho, de cair e de ser descoberto não era suficiente para impedir minha aventura. Lá de cima pegava um exemplar, botava a cadeira no lugar e corria para o quarto da bisavó, que tinha uma cadeira de balanço ideal para minha leitura. Meu companheiro de aventura era Tintim, o guri jornalista criado pelo belga Hergé. 

Para quem nasceu em uma família de jornalistas, provavelmente não foi o guri de topete que me inspirou a exercer a função quando grande. Mas foi ele quem me fez pegar gosto pelos livros, e com a cumplicidade de meu avô que, apesar de não gostar de barulho, bagunça e aventura dentro de casa, testemunhava de longe minha arte de criança sem reprimenda por saber que havia ali uma ótima causa: estava nascendo um leitor. 

Texto escrito para o projeto Clubinho da Vanguardinha, criado pela Livraria Vanguarda, de Pelotas (RS), para inspirar a leitura das crianças.

Beto morreu porque é negro! Que triste, minha Porto Alegre!

Foto: SILVIO AVILA / AFP publicada no site CBN

 

Um homem negro foi espancado até a morte, na garagem de uma das lojas do supermercado Carrefour, no bairro do Passo da Areia, zona norte de Porto Alegre. Logo na minha Porto Alegre, como gosto de me referir à cidade em que nasci, aprendi, amei e sofri. Logo lá! Foi o que pensei quando li a notícia na abertura do Jornal da CBN desta sexta-feira marcada pelo Dia da Consciência Negra. Logo tu, Porto Alegre, de onde saí em 1991 e trouxe um carinho especial pelas pessoas que me cercavam e o orgulho por ter entendido quão rica culturalmente e diversa é a capital gaúcha — após anos de passeios noturnos do Bom Fim à Cidade Baixa, dali para o Menino Deus, com paradas no Ocidente, no Opinião, no Bar do Pio e outros locais tão anônimos quanto eu  que os frequentava muitas vezes sozinho, e acompanhado de uma bebida qualquer.

Sim, foi de Porto Alegre que o repórter da rádio Gaúcha Tiago Boff falou ao vivo no programa e relatou como João Alberto Silveira Freitas, o Beto, um homem negro, de 40 anos, aposentado por invalidez, após um suposto desentendimento com a fiscal de caixa, foi levado por cinco pessoas para fora do supermercado — eram três homens e duas mulheres —- e espancado por dois deles, e pisoteado, e sufocado até morrer. A mulher de Beto, que havia ficado para pagar a conta do supermercado, para o qual os assassinos de seu marido trabalham, encontrou-o no chão e em tempo de ouvir seu último desejo: “Emilia me ajuda”. Não deu tempo, ele morreu com os dois homens ainda prensando-o no chão com o uso dos pés.

Emília agora chora porque não pode ajudar o marido. Chora o pai de Beto, Joao Batista Rodrigues, de 65 anos, que teve de reconhecer o corpo do filho no DLM, lá na avenida Ipiranga — contramão para quem mora no Passo da Areia como a família de Beto. Eles moram —- Beto não mora mais — pertinho do supermercado, são clientes e o pai diz que até fez o cartão de compras por sugestão do filho. Programa de fidelidade que será “recompensado” com as custas do funeral,  o “suporte necessário” e um lamento impresso em nota assinada pelo Carrefour.

Saber que Porto Alegre estará na boca do mundo por essa lamentável e irreparável ocorrência me entristeceu nesta manhã —- o que foi percebido pelo sempre observador Dan Stulbach, na conversa do Hora de Expediente. Minha tristeza, lógico, não se constrói apenas por um sentimento paroquial. É muito maior pelo crime cometido. E acrescida por perceber que vivemos em um país onde muita gente ainda é capaz de relativizar a violência imensurável sofrida por negros, seja lá na minha Porto Alegre, seja aqui na minha São Paulo, seja onde for.

Por mais que houvesse pessoas solidárias ao drama da família e indignadas com o ato que expressa o racismo estrutural da nossa sociedade —- transformando-se em dose de bom senso e esperança —-, confesso que doeu no coração saber que há aqueles que são tão incapazes de se sensibilizar com esse comportamento quanto rápidos em criticar quem o denuncia. Poucos minutos após o relato jornalístico das barbaridades cometidas contra Beto, um homem negro, na minha Porto Alegre, alertas de mensagens piscaram na tela do computador. 

Por que destacar que a vítima é negra? Se fosse branco, você diria? Se fosse branco, não teria a mesma importância? Quem disse que ele foi morto porque é negro? Racismo é isso que vocês fazem! Cadê a ética jornalística? Todas as vidas importam. Vocês tem de ser isentos! 

Exclamações e interrogações de mãos dadas com a fatídica conjunção coordenativa de adversidade: …. não se deve matar, mas quem disse que …; eles erraram, mas o cara …; o mas —- que lá na minha Porto Alegre é pronunciado com o som do a fechado — sempre surge distorcendo o fato e querendo por dúvidas onde só temos uma certeza: o racismo existe e é praticado diariamente no Brasil.

O negacionista surge travestido de defensor da moral e dos bons costumes. Pede isenção quando o que quer é ser isento de punição. Só lembra de soletrar a palavra igualdade quando tenta impedir a implantação de políticas afirmativas. Fala em discriminação invertida onde o que existe —- e se exige — é discriminação positiva, aquela que estabelece equilíbrios e garantias para pessoas que historicamente foram excluídas pela sociedade. Surrupia o nome do crime que comete ao questionar o discriminado.

Beto foi morto porque é negro. Porque se branco fosse, seria oferecido a ele a abordagem do gerente do supermercado e não a intervenção violenta dos seguranças. Morreu porque é negro e morreu lá na minha Porto Alegre! Que triste!

Sou maricas, sim!

Foto: Pixabay

 

Foi o presidente Jair Bolsonaro quem disse: somos um país de maricas! Somos não! Se o significado for a covardia, como no espanhol, não somos, não!  Este é um país de brava gente. Porque é preciso muita coragem para sair da cama todas as manhãs sem saber o que será do amanhã. Se lá fora o vírus vai me matar. Uma bala vai me atingir. Um louco resolve se vingar porque ao fim da saliva apela à pólvora. Tem de ter muita coragem para enfrentar os desafios do escritório, do armazém e da rua; do medo do desemprego, da falta de educação e do hospital sem leito para me atender.

Agora, presidente, se maricas é ser afeminado, sou sim, maricas. Porque ter alma fêmea, feminina nos faz melhor. Nos torna acolhedor, solidário. Em Alma Feminina, canta Daniela Mercury: “… porque sou guerreira; tenho alma de mulher; sou fé, sou brasileira … tenho alma de menina e uso a força da voz para falar de amor”.

Então, sou maricas, sim!

E isso não me faz pior: tenho coragem de assumir minhas fragilidades. Não tenho medo de compartilhar essas fraquezas. De ter desejo de chorar diante da covardia de quem ataca os mais fracos. De sofrer ao assistir pusilames travestidos de líderes desdenhando  o peso de uma morte — uma não, mais de 163 mil mortes —; incapazes que são de identificar o quanto a violência por atos e palavras impacta a saúde mental de jovens, especialmente de jovens que na sala de aula, no pátio da escola ou na plataforma digital são vítimas de ataques, que agora chamamos de bullying —- palavra que para o presidente não faz sentido, porque com ele é na pólvora, é na porrada. 

Ele é machão — da pior espécie. Eu sou maricas, sim!

Tomado por essa alma feminina que todos devemos preservar sem medo, preocupo-me com a maneira como tratamos a morte de um rapaz de 33 anos que havia se colocado à disposição da ciência para salvar vidas e desistiu da sua própria vida, sabe-se lá por quê. Nesse caso, não apenas pelo presidente — que comemorou, sem aspas, a morte e a paralisação de testes de uma vacina que poderia dar vida a outras pessoas — mas pela maioria de nós que tratou o suicídio como algo banal, descreveu com detalhes o laudo e a jornada à morte. Uma morte sempre difícil de explicar, que leva embora jovens, muitos vítimas do bullying, do desrespeito, dos machões de taverna. 

É preciso que estejamos atentos em casa, com sensibilidade para ouvir o que nossos filhos, nossos jovens não são capazes de falar; nos mostrarmos sempre acolhedores para entender como está batendo o coração desse menino ou dessa menina; uma gurizada que tem seus sentimentos tolhidos por essa cultura machista em que tristeza é frescura, depressão é coisa de vagabundo. Depressão, tristeza, solidão …. um caminho que se for percorrido com gente acolhedora —- como somos os maricas, nós de alma feminina —- se torna mais fácil. E pode ser transformador no rumo que vamos tomar em vida.

O suicídio jamais pode ser tratado com a irresponsabilidade com que se tratou este tema nas últimas horas aqui no Brasil. É coisa muito séria. Quem tiver dúvidas de como abordar o assunto, seja politicamente seja jornalisticamente, busque orientação nos manuais da Organização Mundial de Saúde. Quem tiver dificuldade para falar do tema, busque o Centro de Valorização da Vida, que tem uma experiência incrível, formada por pessoas que estão sempre à disposição para ouvir, abraçar e ajudar. Para nos salvar!

Que falta faz um Carlinhos Pastel na eleição dos EUA

Manifestantes em frente a local de apuração nos EUA. Foto: JEFF KOWALSKY / AFP

 

As eleições dos Estados Unidos, dentro das suas muitas esquisitices e complexidades, tem provocado uma situação curiosa quanto a divulgação de números da apuração de votos. Emissoras de TV e veículos de comunicação divergem em relação a quantidade de delegados que cada candidato já conquistou para o Colégio Eleitoral. AP e Fox, por exemplo, anunciam no momento em que escrevo que Joe Biden tem 264 delegados; CNN e New York Times, 253. Os primeiros já projetam vitória do democrata no Arizona, mesmo que a apuração não tenha se encerrado; os outros são conservadores e esperam um pouco mais antes de bater o martelo. Para ser presidente é preciso ao menos 270 delegados.

Projetar votos não é exatamente uma novidade em cobertura eleitoral. Era assim que se conseguia antecipar os resultados aqui no Brasil na era pré-urna eletrônica — a primeira eleição em que o sistema foi usado foi em 2000, para prefeito e vereador.

Como funcionava antes: o eleitor preenchia uma cédula, colocava dentro da urna, a urna seguia para um centro de apuração e lá era aberta sobre a mesa para que os apuradores — sob os olhares dos fiscais dos partidos —- abrissem a cédula e registrassem na ata para quem foi o voto. Ao fim da apuração de cada urna, era emitido um boletim com o total de votos apurados. A cópia do boletim era exposta em uma área pública para conhecimento de jornalistas, funcionários de partidos e curiosos. O boletim original era enviado ao Tribunal Regional Eleitoral que anexava os dados aos resultados oficiais.

Imagine esse procedimento se repetindo milhares de vezes em enormes centros de apuração —- geralmente em ginásios esportivos —-, com muitas cédulas de papel, mesas de apuradores e boletins públicos, com centenas de pessoas em volta tentando confirmar ou anular votos que não tinham o nome do candidato escrito de forma clara. Era uma zona (e não era eleitoral) … sim, uma zona que se estendia por dias até a última cédula. 

Sem tempo a perder e na busca da informação em primeira mão, os grandes veículos de comunicação montavam esquemas próprios de apuração, com um batalhão de pessoas para coletar os dados dos boletins publicados lá onde os votos eram contados, dezenas de funcionários para municiar os programas de computador e uma infraestrutura tecnológica que permitisse o cálculo mais rapidamente possível. Além disso, havia os especialistas que cruzavam dados históricos das eleições passadas com aqueles que estavam sendo registrados na eleição presente e faziam suas projeções. Uma fortuna era investida para montar essa estrutura e antecipar o resultado final.

Na eleição de 1986, trabalhava na Companhia Jornalística Caldas Junior, na época sob o comando de Renato Ribeiro —- um empresário ligado ao agronegócio, proprietário de plantações de arroz aqui e nos Estados Unidos, que havia comprado rádios, jornal e TV de Breno Caldas, o último mandatário dos fundadores. Quem tocava o negócio com o pé na redação era o irmão Carlos, responsável pela estrutura montada para a cobertura jornalística —- cuidava menos do editorial e mais do numeral, ou seja, dos dados que eram coletados.

Diante da estrutura mais bem montada pela concorrente, o Grupo RBS, Carlos Ribeiro — que também atendia pelo apelido de Carlinhos Pastel, pelo prazer que tinha em comer a popular massa folheada e recheada — passou a pressionar os técnicos para que acelerassem as projeções e antecipassem o resultado. Os computadores e os dados não davam conta da pressa. A empresa contratada para fazer os cálculos entendia que as informações ainda não eram consistentes. Sem muita paciência para conversa, diz a lenda, Carlinhos  pegou papeis de rascunho, tirou a caneta de trás da orelha, somou, dividiu, projetou e chegou a um resultado: “publique-se”, ordenou.

O resultado oficial só foi anunciado pelo TSE um ou dois dias depois, confirmando a vitória do governador Pedro Simon, do MDB. E a edição do jornal Correio Povo publicou o anúncio, assinado pela diretoria da Caldas Junior: “desculpem a nossa falha: 0,0001%” —- sim, a conta de padaria feita por um dos donos da empresa chegou a praticamente o mesmo número total de votos alcançado pelo governador eleito.

Está faltando um Carlinhos Pastel para dar um ponto final nesta eleição dos EUA.

Arquivo Guaíba faz homenagem a Milton Ferretti Jung, que completaria 85 anos

De uma crônica que jamais havia ouvido, de gritos de gols inesquecíveis, de narrações que contam a história da humanidade e de histórias que foram contadas na minha intimidade —- o programa Arquivo Guaíba, que foi ao no sábado, dia 31 de outubro, me fez reviver as mais diversas passagens do pai pelo rádio brasileiro —- foram 60 anos dedicados e respeitando o microfone, dos quais quatro na rádio Canoas e os demais 56 na Guaíba.

A homenagem se deu pela passagem do aniversário de Milton Ferretti Jung que completaria 85 anos, no dia 29 de outubro. Como você sabe, caro e raro leitor deste blog, o pai morreu no ano passado, no dia 28 de julho. Assim, aproveito a generosidade de Luis Magno e da equipe de profissionais da rádio Guaíba que relembraram alguns dos momentos da carreira dele para reproduzir o programa aqui entre nós,, nesta segunda-feira, dia 2 de novembro, dia que dedicamos aos mortos que permanecem na nossa memória.

Antes de clicar no arquivo para ouvir o programa, me permita dizer muito obrigado aos profissionais que se dedicaram a fazer esta homenagem e aos ouvintes que sempre se referem ao pai com muito respeito e carinho:

O programa apresentado pelo jornalista Luis Magno foi criado em maio deste ano e explora o rico arquivo de áudio que a rádio Guaíba ainda preserva no prédio da rua Caldas Junior, centro de Porto Alegre. Vai ao ar aos sábados à noite, tem produção de Pedro Alt, edição de Davis Rodrigues, com José Moacir Bittencourt responsável pelos arquivos.