MÍLTON JUNG
Está na hora de voltar

Hora de abandonar as sandálias que me acompanharam nos últimos 15 dias. Deixar para trás o sol forte, a areia da praia, a água gelada e os dias de descanso. As férias são boas de se aproveitar, mas têm fim. Que bom que seja assim. A volta ao trabalho é sempre um recomeço, revigorado, remoçado no ânimo e nas ideias. Este período afastado nos ajuda a enxergar as coisas com uma certa distância, entender o que se passou e analisar melhor o que virá pela frente. Problemas ficam menores do que eram quando surgiram e as conquistas deixam de ter a mesma importância, diminuindo o risco da prepotência. Muitas vezes, é a chance de rever convicções e reforçar outras. Bom momento, também, para se comprometer com metas. Em outros tempos, compartilhei algumas neste blog, mas fui incapaz de cumpri-las na totalidade, preferindo, então, deixá-las, desta vez, para minha consciência. Comprometo-me, porém, a contá-las sempre que alcançar alguma. Espero ser capaz. E assim encaro este retorno, na expectativa que você também tenha aproveitado bem todos estes dias.
Época SP: "Saiam da rua, meninos, voltem pra casa!"
Coluna publicada na edição de julho/2013 da revista Época São Paulo:

O futebol e o orgulho de ser brasileiro

Lorenzo acordou cedo. Ainda está confuso pela diferença de cinco horas. Havia dormido tarde para assistir ao Brasil ser campeão pela primeira vez. Da última, em 2006, tinha apenas seis anos e quase nada lembra de Felipão e sua família em campo. Há muito não se mostra entusiasmado com as coisas do futebol, prefere os jogos de computador e seus ídolos sul-coreanos, capazes de vencer adversários em qualquer parte do mundo. Do meu Grêmio, curte mais ver o pai sofrendo e sorrindo do que propriamente, o time. Ontem à noite, aqui na Itália, se aboletou ao meu lado no sofá para ver na televisão a final da Copa das Confederações contra a Espanha, repetindo o que havia acontecido na semifinal, quando ainda estávamos em São Paulo.
Ele assiste ao jogo de uma forma diferente da minha, que me concentro apenas na TV. Está com um fone no ouvido, o Ipod nas mãos, os olhos na tela e curioso para cada acontecimento. Assim como eu, se assustou ao ver o gol em menos de três minutos em um jogo que eu havia dito a ele que seria muito difícil de vencermos. Lorenzo não tem as informações que eu tinha do adversário, além de saber que a Espanha era a campeã de quase tudo e tinha um goleador chamado Torres, mais famoso para ele por ser alvo das brincadeiras nas redes sociais. Talvez por isso não tivesse o mesmo medo que eu, e entrou para a partida confiante na conquista.
O futebol se transformou em uma tremenda diversão para nós. O gol deitado de Fred, a comemoração no meio da torcida (pai, posso ficar lá no próximo jogo?), a caça dos espanhóis a Neymar, a firmeza da nossa defesa. Esse era para matar, heim, pai? – disse ao ver Paulinho tentar um gol de cavadinha lá de fora da área. Comemorou ao meu lado quando David Luiz e sua cabeleira despacharam a bola para fora do gol brasileiro com um carrinho que deveria ter sido festejado na galera, se houvesse tempo. O velho Felipão, cara de avô e bigode de gente boa, foi motivo de muitos comentários entre nós. A bronca nos jogadores quando o domínio era nitidamente verde e amarelo e os espanhóis estavam batidos causou dúvidas nele. Responsabilidade, Lorenzo – explquei de bate-pronto. Já era madrugada por aqui quando eu e Lorenzo fomos para a cama, felizes por vermos que o futebol brasileiro voltava a ser campeão e era motivo de elogios dos comentaristas da TV italiana.
Agora cedo, cara de sono, café a ser servido, antes mesmo do bom dia, ouvi dele:
– E o orgulho de ser brasileiro, heim, pai?
– Foi uma baita vitória, mesmo, respondi.
– Não, tô falando do pessoal que está protestando, não vai parar, vai?
Pegou a bola, me deu um drible e se foi embora aproveitar as férias.
Por que gostamos de história?
Por que gostamos de história, tema do novo livro de Jaime Pinsky, editor, escritor e historiador, foi usado para provocar uma série de profissionais que gravaram depoimentos em vídeo. Tive a oportunidade de ser convidado pela Editora Contexto e gravei a fala que você assiste em coma e lê embaixo:
Sou jornalista e conto notícias, que podem ser entendidas com as histórias do nosso cotidiano. Mas uma notícia mesmo só pode ser compreendida se estiver conectada às demais histórias, aquelas que explicam o contexto, justificam ou intrigam, que nos levam a reflexão. Um fato isolado talvez diga muito pouco ao cidadão, integrado em uma história, ao que já foi e ao que pode ser, talvez provoque uma revolução. Por tudo isso, eu gosto de história
Aproveite a oportunidade e responda porque você gosta de história. Ou não gosta?
Tô de saco cheio!

Incomodado com o tratamento oferecido por algumas empresas e prestadoras de serviço, há exatos dois meses, inaugurei a sessão Tô de Saco Cheio, neste blog. Falei mal de quem trata mal e desrespeita as regras legais e do bom senso. Estava cansado de falar com serviços de callcenter que não resolvem o problema, negociar com empresas que somente agem sobre pressão e reclamar em ouvidorias que não ouvem. Hoje, volto a esta coluna, não apenas como consumidor, mas cidadão.
Tô de saco cheio é o que dizem milhões de brasileiros que há duas semanas não saem das ruas em protesto. Estão cansados de assistirem a elite política do país a negociar na cúpula sem considerar a base. Uma gente que transforma negociação em negociata. Não aguentam mais pagar trilhões de impostos – isto não é força de expressão, apenas no ano passado foram R$ 1,5 trilhões – sem receber um só serviço de qualidade. Têm de levar o filho para a escola particular, se pretende vê-lo bem sucedido; internar-se com ajuda de planos de saúde, na esperança de não morrer antes de ser medicado; contratar guardinha de rua, investir em câmeras, alarmes e portões de grade, para reduzir o risco de ver sua casa invadida por bandidos; perder horas de seu dia no trânsito, porque se esperar o ônibus no ponto não chega em tempo, se procurar a estação do metrô não vai encontrá-la; sem contar a coação para o pagamento de “gorjeta” a cada licença necessária ou documento a ser expedido na repartição pública.
A bronca dos brasileiros, revelada a cada passeata ou avenida interditada, se volta para uma quantidade enorme de alvos. Alguns sequer estão escritos nos cartazes que revelam a criativa indignação nacional, talvez sequer apareçam de forma clara na nossa memória, mas ajudaram a encher o saco a ponto de poucos centavos serem suficientes para esta explosão social. PEC37(?), Cura Gay, Tarifa Zero, Renan no Senado, corrupção nos legislativos, juízes endinheirados, salários públicos aviltantes, pedágios caraos, auxílios-alimentação, moradia e paletó são todos elementos de uma longa história de derespeito ao cidadão.
A presidente Dilma Roussef falou sexta-feira passada, buscou o equilíbrio no discurso, evitou a arrogância, mas apenas refez promessas já ouvidas. Precisa agora agir e mostrar que está disposta a liderar esta renovação de comportamento no País. Os brasileiros querem mais do que palavras, e não só da presidente. Quem apostar nisso, não sobreviverá nesse rebuliço social. Governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores precisam dar sinais claros de que entenderam o recado. A Justiça, também. E rapidamente. Reforma política ampla, mudanças radicais nas alianças, transparência nos contratos, redução de gastos públicos, gestão profissional nos serviços prestados, comprometimento e atendimento de metas claras, canais de comunicação abertos para ouvir o cidadão. E mais uma série de outras ações fundamentais para oferecer à sociedade um País justo. Porque o brasileiro já mandou o seu recado: tô de saco cheio!
Debate em vídeo sobre os protestos históricos no Brasil
Os protestos pela qualidade do serviço público, a corrupção e mais uma variedade de temas que mobilizam o Brasil há duas semanas motivaram debate que realizei com leitores e equipe da revista Época São Paulo, através do serviço de hangout do Google. A discussão foi durante os manifestos da semana passada, dia 17 de junho.
Mais do que afetar a cidade, os protestos precisam ser entendidos como uma manifestação democrática. E que, como tais, eles integram a cartilha de direitos dos cidadãos paulistanos. Não tinha dúvidas de estar diante de um momento histórico para o Brasil capaz de mudar nosso destino.
Se você perdeu o hangout ao vivo, assista no vídeo acima.
Que Brasil queremos?

Equilíbrio é a palavra de ordem

Manifestação na Paulista foi pacífica na noite de terça-feira
No que estamos metidos? Ouço a pergunta de vários lados. Muitos de nós não temos a resposta para isso. Quem as tem de forma taxativa corre o risco da revisão em breve ou esteja apenas interessado em vender uma tese. Os olhares ainda estão contaminados demais para uma fala totalmente isenta. As manifestações, frutos de uma sociedade conectada, causam reações desconexas. As características deste cenário têm provocado conclusões sem sentido e contraditórias. Alguns perderam a lógica do pensamento ao explicar suas posições e suas falas beiram ao absurdo. Gente de diferentes matizes políticas se aproveita desta situação. Pelas palavras ou atos, joga pedras para o outro lado da rua, enxerga inimigo em todas as sombras e não assume sua responsabilidade. O momento é propício para os aproveitadores e alcançar o equilíbrio tem de ser a meta de quem media esta situação.
Brasil, mostra tua cara !



Pela ordem: Brasília (G1), São Paulo (p/@Andrebnu) e Rio de Janeiro (Terra)