É nas escolas que a casa está caindo

 

Coluna publicada na revista Épocas São Paulo, edição de março, que está nas bancas:

 

Demolição da favela Jardim Edite

 

Um amontoado de casebres, construído de forma irregular com puxadinhos para os lados e para o alto, sempre me chamava atenção quando passava pela Avenida Roberto Marinho, no Brooklin. Até 2009, ali existia a favela do Jardim Edith, vizinha às obras estaiada – novidade que, mesmo suntuosa, não atraía meu olhar como as cons- truções populares. Eu ficava impressionado com a arquitetura local, feita de improvisação e audácia, adaptada à fal- ta de espaço para se expandir pelo terreno (já cercado de prédios e interesses imobiliários). Algumas casas ganhavam um ou dois andares com uma rapidez incrível. Quando menos esperava, mais um cômodo havia sido concluído. Como se mantinham em pé aquelas habitações mambembes? Tanto me intrigava que procurei engenheiros da prefeitura e, com surpresa, descobri que haviam sido realizados ensaios que com- provavam a segurança das obras. Problema, mesmo, era a ausência de área de escape. Em caso de incêndio ou desmoronamento, não havia para onde correr.

 

Lembrei-me dos “prédios” do Jardim Edith ao acompanhar, em fevereiro, a sequência de que- das de edifícios no Rio de Janeiro e em São Bernardo do Campo, ambos construções antigas e consolidadas, nas quais morreram 20 pessoas (18 no Rio e duas no ABC). Especialistas especularam sobre o que teria causado as tragédias. Nos jornais, reformas malfeitas são apontadas como as principais suspeitas, o que só poderá ser comprovado após a conclusão da perícia téc- nica. Seja como for, a probabilidade de barracos despencarem sempre foi muito maior do que a de qualquer prédio construído com alvará. Mesmo assim, nunca tive notícia de que uma das 400 famílias que viviam no Jardim Edith tenha perdido um parente devido a um desmoronamento.

 

A política de conveniência que pauta a administração de Gilberto Kassab (PSD) o levou a defender, agora, uma lei que obriga a vistoria, a cada cinco anos, em edifícios com mais de 500 metros quadrados. Em 2009, ele mesmo vetara projeto do vereador Do- mingos Dissei (PSD), alegando que interferiria no trabalho do Departamento de Controle e Uso de Imóveis (Contru). Após as quedas de fevereiro, Kassab pede para que os vereadores derrubem seu veto e mandem a conta de mais uma burocracia para os cidadãos – sem qualquer garantia de que isso impedirá, em São Paulo, acidentes como os do Rio e São Bernardo.

 

“Kassab tem de se preocupar com a estrutura das escolas, e não dos prédios”, ouvi de Seu Venceslau, companheiro de pastel no sacolão perto de casa. “É lá que a casa está caindo”, disse, sem notar o tro- cadilho. Tens razão, amigo Venceslau! De cada 10 alunos da rede pública paulistana, apenas três sabem razoavelmente mate- mática, diz relatório do Movimento Todos Pela Educação. Talvez por não saber fazer contas, mais de 60% dos estudantes que entram em engenharia na USP desistem do curso. Resultado: no Brasil, apenas 10% dos formandos são engenheiros, enquanto esse índice chega a 40% em países mais avançados. Como faltam engenheiros, contratamos mestres de obra para reformar nossas casas; e, no lugar do mestre de obras, pedreiros – que sabem mais por hábito do que pela técnica. Na falta de conhecimento, partimos para o improviso, o jeitinho brasilei- ro, que funcionou enquanto éramos só Terceiro Mundo. À medida que o Brasil cresce, como os puxadinhos, tem se tornado um desastre.

 

A imagem deste post é do meu álbum digital no Flickr e foi feita pela estudante de jornalista Beatriz Salgado, durante a destruição da favela do Jardim Edith

Minas Gerais não divulga dados de violência há mais de um ano

 

Próximo do prazo em que União, Estados e municípios devem garantir o acesso à informação sobre serviços prestados a qualquer cidadão, conforme lei que entra em vigor dia 16 de maio, o que assistimos em alguns lugares beira o absurdo e nos remete a um passado em que a sociedade tinha de ser subserviente à autoridade. Em Minas Gerais, a Polícia Militar emitiu memorando no qual proíbe que os comandantes de batalhões repassem estatísticas de criminalidade aos jornalistas. A ordem talvez se justificasse se a intenção fosse centralizar as informações para serem oferecidas de forma organizada, mas não parece ser o caso, haja vista que o governo mineiro não divulga os dados desde janeiro do ano passado. Depois que o jornal O Tempo publicou o texto do memorando 5008/2012, o governo de Antonio Anastasia (PSDB) prometeu divulgar à sociedade os índices de criminalidade no estado, o que deveria ter acontecido nessa segunda-feira, mas decidiu adiar a divulgação em virtude de acidente de carro envolvendo o secretário de Defesa Social, Lafayette Andrada, sexta-feira passada, no Rio de Janeiro. De acordo com o Tempo, em Minas, apenas dados de crimes não violentos, como furto, ficam disponíveis ao público.

 

A Lei de Acesso à Informação, sancionada em 18 de novembro de 2011, determina que todo órgão público municipal, estadual e federal, inclusive autarquias e fundações, deverá garantir o acesso a informação sobre o serviço prestado a qualquer cidadão. Os dados tem de estar publicados em sites oficiais.

Ficha Limpa no Carnaval

 

 


Este texto foi publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Carnaval no Sesc Pompeia

 

A baderna que se transformou a apuração de notas do Carnaval de São Paulo, terça-feira, provocou uma série de reações das autoridades paulistanas e ameaças de punição. Em entrevista coletiva, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) se esforçou para mostrar indignação e anunciar medidas para impedir a repetição dos fatos, apesar de que na prática a única mudança é que a SPTuris vai assumir a segurança do evento, apesar de não eu não ser capaz de identificar de que forma isto evitaria a invasão do local em que as notas eram anunciadas. Além de pessoal contratado pela Liga, a Polícia Militar estava lá com contigente maior do que nas principais partidas de futebol, segundo informações oficiais, e nada disso foi suficiente para conter os baderneiros. Em respeito ao público do Carnaval, é preciso que se registre que a confusão não partiu daqueles que estavam nas arquibancadas do Sambódromo, mas de gente autorizada, com crachá e pulseira de acesso que representa as principais escolas de samba da cidade. Mesmo a reação violenta, registrada pelas câmeras de televisão, de parte dos “torcedores” da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, somente explodiu após a invasão comandada por dirigentes – o que não os justifica.

 

Os meios de comunicação, em especial a TV Globo, que tem os direitos da transmissão, foram capazes de identificar uma a uma as pessoas que se manifestaram favoráveis a bagunça para impedir que houvesse a conclusão da apuração. Sem exagero, houve formação de quadrilha, pois os chefes, todos com cargos importantes dentro de agremiações, se reuniram, demonstraram descontentamento por não cumprimento de suposto acordo no qual não haveria rebaixamento de escolas para o Grupo de Acesso, e deram sinal de comando para “melar” a apuração, no que foram devidamente atendidos por seus asseclas, um deles, por sinal, que demonstrou muita agilidade no ato de roubar e extraviar as notas, enquanto fugia com destreza para escapar da segurança – parecia profissional (eu escrevi, parecia). A Polícia Civil já convocou ao menos nove deles para prestar depoimento, teria identificado o envolvimento de seis escolas e promete, em dez dias, a conclusão do inquérito que servirá de subsídio para a prefeitura e para a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo determinarem as punições cabíveis.

 

As declarações dadas até aqui, tanto pelo prefeito quanto pelo presidente da Liga, não foram convincentes e sinalizam para a punição talvez de alguns integrantes mas não das agremiações sob a justificativa de que a comunidade não pode pagar pelos erros de algumas pessoas. Da mesma forma, durante muito tempo, se passa a mão na cabeça de torcidas organizadas no futebol permitindo que usem todo tipo de chantagem, com a parcimônia dos cartolas, e sigam promovendo a violência e afugentando torcedores e suas famílias dos estádios. O Carnaval vai pelo mesmo caminho ao permitir que quadrilhas se apoderem das escolas de samba com financiamento público. Este ano, a prefeitura paulistana investiu R$ 27 milhões.

 

Importante ressaltar que a relação entre criminosos e samba não é privilégio de São Paulo, haja vista o que acontece no Rio de Janeiro, onde os dirigentes afrontam o Estado ao rejeitarem a proposta do governador Sérgio Cabral (PMDB) de afastarem os bicheiros que financiam a festa com dinheiro arrecadado de forma ilegal. Cabral defende a profissionalização das agremiações, tornando-as sustentáveis durante todo o ano e dependendo cada vez menos de verbas públicas. E de verbas sujas.

 

Para mudar a cara do Carnaval, em São Paulo e no Rio, será preciso implantar uma espécie de Ficha Limpa, afastando os criminosos, impedindo a presença de pessoas condenadas no comando das Ligas e das escolas, punindo com todo o rigor da lei as agremiações que se envolverem em baderna e não respeitarem o regulamento e cortando verbas públicas daquelas que forem incapazes de comprovar como gastaram este dinheiro. Está na hora de fazermos com que a criatividade dos carnavalescos, revelada a cada noite de desfile, contamine a administração do Carnaval e impeça que este se transforme em uma festa de quadrilha.

 

A foto deste post é de autoria de Luis Fernando Gallo e faz parte do meu arquivo de imagens no Flickr

Sem direito ao sofá da Tia Rosa, mas com palpites para o Oscar

 

Nunca fui convidado para jantar na casa da Tia Rosa em noite de Oscar nem costumo me arriscar em palpites para a festa do cinema, talvez por me considerar apenas um admirador de filmes, jamais um entendido no tema. Assim como não lembro de cabeça a escalação do time do Grêmio campeão mundial de 1983, quando pretendo citar algum filme tendo a sofrer de amnésia e fico no “aquele que tem aquele ator com cabelo grisalho e conta a história daquela família complicada que a mãe está em coma e o pai tem problema para conversar com as filhas, lembra?”. Além disso, cinema para mim é apenas um prazer e tenho extrema dificuldade de envolver meu olhar crítico às coisas que me dão prazer. Não consigo ir a um filme e prestar atenção demasiada a técnica de uma atriz ou da estratégia desenvolvida pelo diretor para conquistar o público, apenas me sinto conquistado ou não. Conheço alguns amigos que , imagino, sequer têm tempo para aproveitar o sabor salgado da pipoca, tão fissurados que ficam nos detalhes que surgem na tela. Gosto de avaliar os filmes como muito legal, valeu a ida, melhor se fosse na sessão da tarde, e a pipoca estava boa – e para este últimos espero que ao menos a pipoca esteja boa.

 

Desta vez, porém, apesar de seguir sem o convite para o sofá da Tia Rosa, me senti provocado por e-mails e posts disparados pelos colegas da Hora de Expediente, cinéfilos juramentados, que me convidaram a participar de um bolão para a cerimônia que não assistirei – me desculpe se causo alguma frustração com esta confissão, mas acordo às quatro da manhã, ao contrário do Dan, Zé e Teco (espero que eles acordem até às oito e meia, na segunda, e estejam a postos para o programa). Vou arriscar assim minha reputação, mas para não provocar estrago muito grande vou resumir meus palpites às três principais categorias:

 

Melhor filme – Torço por “Os Descendentes”, “aquele que tem aquele ator …”; apesar de que quem deve subir ao palco para receber a estatueta é “O Artista”, o que deixaria o Teco de mau humor.

 

Melhor ator – George Clooney, “aquele de cabelo grisalho”, é minha torcida; mas quem leva é Jean Dujardin, de “O Artista”, afinal o cara consegue impressionar as pessoas sem falar. Apesar de que tenho uma amiga que pensa o mesmo em relação ao Clooney.

 

Melhor atriz – Meryl Streep, de “A Dama de Ferro”, é sempre a melhor, mesmo quando não leva a estatueta; mas será Viola Davis, com “Histórias Cruzadas”, quem ganhará o troféu este ano, apesar de que eu considere muito mais interessante de ver desfilando no palco Rooney Mara, de “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Eu a amo.

 

Apenas uma torcida final, sem direito a concorrer no bolão: que Carlinhos Brown fique com melhor canção pois teríamos muito assunto durante a semana.

 

Em tempo: quer saber que é a Tia Rosa? Pergunta para o Teco ou leia o post dele no Blog do Fim de Expediente.

Alguma droga tem de ser feita na Cracolândia

 

Artigo escrito na revista Época São Paulo, de fevereiro

 

Precisa fazer alguma coisa, repete o paulistano sempre que se depara com o aglomerado de miseráveis na Cracolândia. A região começou a ser tomada no início dos anos 1990, quando usuários de drogas se refugiaram ali para escapar de grupos de extermínio que atuavam na periferia. O que nenhum de nós sabe bem é o quê, afinal, tem de ser feito para resolver um problema que só vem aumentando – e expondo a fragilidade do serviço público e da própria sociedade.

 

Por coincidência ou não, o clamor do paulistano aumentou de volume à medida que o tráfego de carros passou a ser bloqueado pelo tráfico. Nossa neurose do trânsito parece ter servido de estopim para autorizar o ataque aos “noias”, atropelando as regras internacionais de enfrentamento ao crack. Ou teria sido nossa fissura imobiliária em construir um novo bairro, já batizado de Nova Luz? Sem respostas, nos dividimos entre aplausos e vaias à operação da Polícia Militar que, como se estivesse diante de um lixão de pessoas a céu aberto, tenta limpar a área com balas de borracha.

 

A operação Centro Legal foi deflagrada às pressas pela PM, com uma sequência de trapalhadas em desarticulação com as áreas social e de saúde e que esbarra na falta de infraestrutura para atender os emigrados da droga. Fatores que o secretário de Segurança Pública do Estado, Antonio Ferreira Pinto, prefere chamar de “desencontro”. A propósito, não se espante com o fato de o porta-voz do combate ao crack ser da segurança, e não da saúde. Os interessados em cuidar da doença parecem ter sido coagidos a aceitar a invasão policial. O secretário municipal de Saúde, Januário Montone, discorda da minha percepção, mas admite que, agora, será preciso resgatar a confiança dos usuários.

 

O vínculo entre equipes de saúde e dependentes vinha sendo construído ao longo dos últimos dois anos, período no qual 4.350 viciados foram encaminhados a serviços de atendimento e cerca de 2 mil, internados – o número é duas vezes maior, na média mensal, do que o de drogados que buscaram ajuda em janeiro, sob a operação policial. Nem mesmo as internações podem ser comemoradas. No Brasil, seis em cada 10 dependentes tratados voltam à droga, diz pesquisa da Unifesp. Senti essa frustração ao conviver com um rapaz de 24 anos que, sem nunca ter ido à Cracolândia, pediu socorro ao ser ameaçado de morte. Recebeu o apoio necessário, viveu seis meses numa clínica particular, seguiu à risca o tratamento baseado nos 12 passos dos Narcóticos Anônimos, teve orientação psicológica, médica e espiritual, retornou à família e, mesmo assim, não resistiu à tentação da reincidência.

 

São Paulo precisa, sim, fazer alguma coisa. E teria outras opções que não con- vocar suas tropas para espantar os “zumbis”. Poderia ser inteligente e aceitar a colaboração oferecida, em 2009, pelo centro de acolhimento de San Patrignano, em Rimini (Itália), que mantém 1,6 mil jovens e recupera sete em cada 10 atendidos. Poderia ser audaciosa e reproduzir a experiência de Frankfurt (Alemanha), que, desde 1994, mantém narcossalas: espaços onde o consumo é controlado e onde são oferecidas assistência médica e psicológica permanentes, internação voluntária e política de empregos. Em 10 anos, a cidade derrubou à metade o número de viciados. Mas São Paulo prefere ser reacionária e investir em uma política que, em lugar de construir a Nova Luz, corre o risco de criar novas cracolândias. Torçamos para que isso não aconteça.

Cracolândia: viciado não é criminoso, é doente

 

 

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

Em sete páginas da edição paulista da revista Época, de fevereiro, os repórteres Camilo Vannuchi e Eduardo Zanelato entrevistam o comandante-geral da PM de São Paulo, Coronel Álvaro Camilo, sobre a ocupação da Cracolândia, centro da capital, que se iniciou em 3 de janeiro – ou seja, há um mês. O homem que lidera a tropa paulista no combate ao crime – e aos viciados de crack, também – diz que na capital não haverá zonas livres para o consumo dessa droga e 80% da região já está melhor do que no ano passado. Na mesma edição da revista (reproduzo a capa ao lado), sem ter lido a reportagem antes, escrevi minhas impressões sobre a Operação Centro Legal, as quais reproduzirei aqui no Blog semana que vem – a publicação está disponível nas bancas, ainda. Aproveito o espaço hoje, porém, para destacar alguns aspectos que considero reveladores e aparecem graças ao trabalho de meus colegas de redação.

 

Mesmo experiente e bem preparado para a função que exerce e acostumado e treinado para o bom uso da palavra – poucas vezes a PM falou tanto na mídia como neste último ano -, Coronel Camilo tropeçou no discurso quando se referiu a decisão de ocupar a área tomada por drogados:

… Fizemos reuniões com o pessoal do Bom Retiro e da Santa Ifigênia, recebemos apoio do comando, criamos um pelotão com 30 homens e decidimos: “Vamos Limpar”.

 

 

“Vamos limpar?” – indagaram os repórteres.

 

Ao perceber o tom politicamente incorreto, o Comandante pediu para que o termo fosse retirado por considerá-lo inadequado. Errado, sem dúvida, mas revelador. Minha terapeuta junguiana (como não poderia deixar de ser) avaliaria como ato falho, um sintoma que se constitui o elo entre o intuito consciente da pessoa e aquele que está reprimido. A filosofia que moveu a ação estatal estava exposta: limpar a área.

 

Em outro ponto, Comandante Camilo responde às pessoas que, através dos canais de comunicação abertos pela PM com a população, dizem que a polícia não deveria ser usada para resolver o problema da Cracolândia, pois os dependentes são doentes: “O que todos esquecem é que doente consome. E consumo é crime”. Pouco antes, já havia feito a seguinte afirmação: “A ação está sendo forte em cima de quem trafica e de quem consome. Consumo é crime … Foram presos 100 traficantes nas primeiras duas semanas”. Pelo que se nota, decidiu-se dar de ombros para a presunção de tráfico baseado na quantidade da droga, em um erro bastante comum nas políticas de segurança pública que imperam nos estados brasileiros. Os dependentes estão sendo tratados como criminosos quando deveriam ser pacientes. O problema é que para inverter esta lógica seriam necessárias vagas nas redes pública e privada para o atendimento desses viciados. E a Operação Centro Legal não ter a polícia como protagonista mas, sim, uma tropa de agentes sociais e de saúde.

Ela cometeu o Facebookcídio

 

Convencionou-se não se divulgar notícias de suicídio no jornalismo, regra que poucas vezes está escrita em algum manual – no da CBN está, e com ressalvas – mas é seguida à risca em praticamente todas as redações. Alega-se que a informação tende a incentivar as pessoas a repetirem o ato tresloucado, mas prefiro o argumento de que o fato somente tem sentido em ser noticiado se for, realmente, notícia, ou seja, estiver dentro daquele critério subjetivo do que é notícia. Imagino, porém, que não serei condenado por nenhum colega se dedicar este post a um tipo de suicídio que ainda me parece ser novidade – um dos requisitos para ser notícia – e está longe de causar alguma desgraça eterna na vida de alguém: o Facebookcídio.

 

Fui surpreendido com o recado de uma amiga muito próxima de que ela pretendia “se matar” na Facebook. Pretendia, não, ela havia se matado, desaparecido, deletado seu nome da rede social que tem, calcula-se, cerca de 800 milhões de usuários na face da terra. Ligado ao nome dela deveria haver umas mil pessoas, poucas realmente amigas e conhecidas, um dos argumentos que usou para sumir do mapa do Facebook. Nem sei como se consegue fazer isto, aliás sei usar pouco esta rede criada por Mark Zuckerberg, confesso que prefiro o Twitter de Jack Dorsey e seus amigos. Sei, porém, que a ação fatal desta minha amiga já me passou pela cabeça algumas vezes, não apenas em relação ao Face – para os íntimos – mas com todas as redes sociais nas quais estou registrado, inclusive deste e dos demais blogs para os quais escrevo como contratado ou convidado. Fico imaginando quanto tempo mais teria para conversar com os amigos próximos. Ou ler mais livros durante o ano, que apesar de muitos poderiam ser bem mais. Ou assistir aos filmes recém-lançados, tenho uma lista a minha espera. Ou pesquisar com mais profundidade os temas que trato no cotidiano do jornalismo. Ou, simplesmente, não fazer nada, descansar e deixar o tempo ir embora até retomar a hora do meu expediente na rádio CBN, afinal de contas esta é a minha prioridade profissional.

 

Há cerca de sete meses não me deletei, apenas me despluguei no período de férias em uma experiência interessante, porém temporária. Sabia que retornaria em breve e seguiria em frente com meus relacionamentos virtuais e nossas conversas diárias. É preciso muito desprendimento para cometer o facebookcídio, o tweetcídio, o blogcídio e todos os demais suicídios digitais possíveis. Não sou capaz sequer de apagar o nome de amigos e conhecidos que morreram, tenho a impressão de que ao fazer isto estarei destruindo o que resta de nossa relação. Uma bobagem, sem dúvida, pois da vida o que levamos dos mortos são suas histórias e memórias, estas devemos guardar com carinho no coração. Minha amiga não teve nenhum receio, largou a rede e se diz feliz por não precisar responder a todas as mensagens que chegam, explicar sua ausência ou suas decisões e pensamentos. Acredita que reforçar os lanços com os amigos de verdade (aqui para ser referir aos da vida real) lhe trará maior satisfação. Não sei quantos casos como esses ocorrem no mundo e no Brasil, mas imagino serem poucos. A vaidade exacerbada pela hiperexposição que a rede nos oferece nos deixa muito mais próximos de um suicídio de fato do que da morte virtual.

Uma lágrima por Daniel Piza

 

Daniel era amigo à distância. Falávamos muito mais por telefone e e-mail do que ao vivo. Nos últimos tempos, dúvidas profissionais pautavam nossas raras conversas, tendo o rádio como cenário central. Infelizmente, não tivemos tempo para o almoço programado desde que nos encontramos pela última vez na Cidade do Cabo, durante cobertura da Copa do Mundo da África do Sul. Na sexta-feira passada, Daniel Piza teve um AVC e morreu na cidade de Gonçalves, interior de Minas, com apenas 41 anos. Em vida, assim como na morte, tudo parece ter acontecido rápido demais para ele. Tinha pressa para aprender e uma capacidade de ler e escrever impressionantes. Assim como lia quantidade enorme de livros, conseguia absorver o conhecimento e traduzir para o público. Seu talento se revelou ainda jovem nas redações do Estadão e da Folha, na primeira metade da década de 90, trabalhos que o levaram a editar o que já foi considerado o melhor caderno de cultura do jornalismo impresso, o Fim de Semana da extinta Gazeta Mercantil.

Tive a oportunidade de dividir com ele o programa Leitura Dinâmica, na estreia da Rede TV!, em 1999. Além de crônicas e comentários do cotidiano, tinha um desafio que poucos profissionais seriam capazes de fazer com a personalidade e perfil que ele deu ao quadro: criticar a edição das revistas Veja, Isto É e Época. Desde que saiu da TV, o Leitura perdeu a graça. Fomos colegas, também, na CBN quando trabalhou como comentarista de esporte. Corintiano convicto, era capaz de falar do futebol driblando o lugar comum. Nem sempre seu estilo era compreendido pelos “especialistas”. Registre-se: conseguia falar de qualquer assunto sempre com olhar diferenciado e extrema capacidade. Era em busca deste conhecimento que eu fazia questão de abrir a leitura dominical dos jornais pela coluna Sinopse que escrevia no Estadão. Fui apresentado a obras e artistas, conheci músicos e músicas, e tive acesso a um mundo que desconhecia graças a inteligência de Daniel.

A morte precoce deste amigo mexe com os nossos sentimentos pois sempre temos a ilusão de que as pessoas que estão em nosso entorno serão eternas, principalmente as geniais como ele. Daniel nunca acreditou nisso, assim como não acreditava em vida eterna – talvez por isso tenha sido tão intenso como jornalista, marido e pai. Mesmo morrendo, ele tinha algo a me ensinar.

Um erro, apenas um erro

 

Miriam e Abelardo haviam planejado a viagem aos Estados Unidos há alguns meses. Levariam os filhos pela primeira vez na classe executiva, presente pelo ótimo desempenho escolar de ambos. Passagem comprada, hotel acertado e restaurantes reservados, há um dia de partirem descobrem que o visto americano de um dos garotos tinha expirado e o passaporte do outro, também. A primeira providência foi adiar a partida, renegociar preço e providenciar a burocracia esquecida, na torcida de que ainda houvesse chance de embarcar antes do fim das férias do casal. Assim que a família soube do caso começaram os palpites. “Se não foram é porque não era para ir” disse a tia mais velha do alto de seu conhecimento filosófico. A crente não se conteve: “Talvez seja um sinal de Deus, meus filhos”. “Não lute contra o destino”, preveniu outra ao ver o esforço do casal para remarcar a viagem. Pelo sim e pelo não, eles não se contiveram e ficaram colados na internet a espera da notícia de um desastre aéreo do qual teriam escapado. Não aconteceu nem no dia que seria da ida nem no que seria da volta. Ainda bem, pensaram envergonhados. Mas quem sabe o destino estava apenas preparando uma armadilha e o mal sinal viria nas datas remarcadas, pensou em voz alta um amigo do casal. Por que não deixamos pro ano que vem? Com destino não se brinca? – perguntavam-se todas os dias em busca de uma resposta para o erro infantil que havia causado tanta frustração bem no início das férias. Com documentação regularizada e passagens e estadias revistas, começavam a se convencer de que tudo não passava de coisa de gente supersticiosa até que chegou o dia de embarcar e o medo voltou. Rezaram, pediram apoio dos mais próximos e com o coração na boca seguiram viagem, aproveitaram até onde puderam e, dias depois, pegaram o avião de volta. Enquanto não tocaram o solo mais um vez, não se acalmaram. A qualquer momento a profecia poderia se concretizar. Em casa, deitados lado a lado, enquanto os meninos se divertiam com as compras no exterior, o casal caiu na gargalhada. Sinal celestial? Recado do além? Superstição? Coisa nenhuma ! Foi, sim, uma baita c….. – definiu Abelardo. Um erro, apenas um erro – resumiu com mais sensibilidade Miriam.

Acertos e tropeços nas compras online

 

Os tropeços da Americanas.com e Submarino, que andam sob o guarda-chuva da B2W, deixaram os brasileiros desconfiados com as vendas pela internet. Muita gente tem medo de comprar e não levar, ao menos não levar no dia marcado, principalmente próximo de períodos de alto consumo como o Natal – falhas deste tipo são corriqueiras no Brasil. Semana passada, ainda de férias nos Estados Unidos, depois de não encontrar nas lojas dois produtos, recebi a sugestão de encomendá-los pelo site. Mesmo desconfiado, encarei a proposta e fechei a compra com duas empresas diferentes. Ambas fizeram a entrega na hora, data e local corretos, dois dias depois. Dentre o dia da compra e da entrega, recebi e-mails da empresa que vende e da que entrega o produto para que eu monitorasse o envio. Alguém pode dizer que foi sorte de iniciante, mas não há como negar que a confiança no e-commerce americano é muitas vezes maior do que no Brasil.

Apesar das diferenças, os americanos têm historias incríveis sobre problemas no serviço de entrega, algumas que aconteceram recentemente. Na primeira, um funcionário da FedEx, aparentemente sem paciência, faz uma “entrega rápida” de um monitor de vídeo, apenas não imaginava que tudo estava sendo registrado pela câmera de segurança da residência. Com o monitor quebrado, o consumidor publicou as imagens no You Tube que, em poucos dias, foram vistas por mais de 5 milhões de pessoas, levando a empresa a fazer um pedido de desculpas público através de seu vice-presidente de operações Matthew Thornton, além de pagar indenização:

Na segunda, o entregador é da UPS e também estava com pressa. Não se sabe se a encomenda sofreu algum prejuízo, mas com certeza a imagem da empresa, sim: