Copa da África é vermelha como o sol de Toscana

 

Direto de Ansedônia/Itália

Sol em Toscana

Nem Itália nem Brasil no fim da Copa, me deixaram orfão neste domingo em que pessoas no mundo todo se reuniram para assistir a partida final do Mundial 2010. Aqui onde passo as férias, Toscana, bares e restaurantes promoveram timidamente encontros para receber torcedores dispostos a acompanhar a partida. Espanha e Holanda não ofereciam aos italianos motivação especial, a não ser à turma de Milão, com dois representantes na seleção holandesa: Sneijder, da Inter, e Huntelaar, do Milan (que nem em campo estava).

Restou-me aceitar o convite da Zia Puppa para ver o jogo com a família. Ela só assiste ao futebol em Copa, e, ultimamente, tem reclamado muito das partidas. Acha que ninguém “joga, assim, assim …” e reforça a frase com as duas mãos sacudindo a sua frente.

Pedaços de pizza, queijos cortados, salame ‘italiano’ e cerveja servida me aguardavam. Logo que cheguei, perguntei pelo coração dela. Tanto faz, mas o sol, hoje, está mais pra Espanha do que Holanda.

Fui conferir. Aqui do alto de Ansedonia, onde fica a casa dela, o sol desce no Mediterrâneo e pode ser apreciado, no verão, até oito e meia, quase nove da noite. Tinha razão, o vermelho era especial.

Nada especial era o jogo na televisão. Apesar de final de Copa do Mundo, as seleções se apresentavam com futebol aquém do esperado. Ou jogavam aquilo mesmo que Zia Puppa há algum tempo reclama. Um jogo sem graça, com poucos lances de gol e muito pontapé. “Porca la miseria” disse Zia ao ver o holandês acertar com a chuteira o peito do espanhol.

Quis saber porque a Espanha ainda estava na Copa se tinha perdido um jogo. Tive de explicar que foi só o primeiro do Mundial e depois ela se recuperou. Quis saber, também, como o Brasil perdeu para esta Holanda ? “Pergunta pro Dunga, Zia”.

O prato de petiscos estava quase no fim, e o jogo não andava. Falta pra um, cartão amarelo pro outro, de vez em quando alguém tentava um drible. As poucas escapadas ao gol eram contra-ataques da Holanda que acabavam nas mãos (ou pés) de Casillas. A Espanha ensaiava um ataque, uma cobrança de escanteio, um cabeceio, mas a maior parte das bolas seguia pra fora.

“Desse jeito ninguém vai fazer gol”. No intervalo, a previsão da Zia Puppa já era de que a decisão seria nos pênatis. Os analistas da Rai Uno, com mais argumentos, diziam o mesmo. Um deles arriscou que o jogo iria melhorar no segundo tempo: “Até aqui a ordem era não perder a Copa no primeiro tempo”.

O segundo tempo se iniciou, e minha companheira de sofá dava sinais de cansaço. A cabeça as vezes caía pra frente como se estivesse dormindo. Despertava sempre que alguém na sala gritava mais alto por causa de um chute a gol. Ou uma falta, o que se repetiu muito mais. Ela só se levantou mesmo, indignada, quando o juiz inglês Howard Webb não puniu Iniesta que fez uma falta fora de jogo: “Ele amarelou” – traduzo eu para um português menos ofensivo. Aproveitou para fazer exercícios para as costas, estavam mais interessantes.

Apesar de uma pequena melhora na partida, o gol não surgia e a previsão da Zia Puppa ficava mais próxima: os temidos pênaltis. “E se der pênalti, este aí vai pegar tudo”, se referia a Casillas que naquela altura tinha participado dos lances mais emocionantes do jogo.

Já não havia mais sol lá fora, quando o 0 x 0 se confirmou e o jogo foi para o tempo extra: “é castigo, pra ver se eles acertam um gol”, disse se levantando para lavar a louça na cozinha. E lá de dentro ainda resmungou: “no meu tempo não tinha essas coisas, se ganhava no jogo mesmo”.

Engano dela, em 34 quando a Azurra da Zia ganhou o seu primeiro mundial, o título foi decidido na prorrogação. Aliás, finais de Copa com prorrogação já tinham acontecido, também, em 66, 78, 94 e 2006. Portanto, nenhum demérito aos que tentavam a conquista hoje, a não ser pela carência de futebol e excesso de violência.

O problema da prorrogação é que a cerveja tinha acabado. E os ‘comes e bebes’, também. Ao menos que tivesse mais futebol. Iniesta exitou e errou. Navas assustou com a bola batendo do lado de fora da rede. Sneijder cobrou falta pra fora. Tinha um holandês impedido numa jogada e mais um na outra. E um outro acabou expulsou. “E foi expulso porque fez falta naquele que nem tinha que estar mais em campo”, lembrou minha comentarista de plantão, se referindo ao fato de Heitinga ter agarrado Iniesta que corria pra dentro da área.

“Eles vão jogar a vida toda e não vão marcar gol”. Foi como se a Espanha resolvesse dar um #calabocazia, pois ela mal acabara de reclamar e Iniesta encheu o pé pra fazer o gol do título. Comemorei, nem tanto pelos espanhóis, menos ainda pela previsão errada dela, mas porque gol ainda é a coisa mais importante no futebol.

Curioso é ver que a Espanha que chegou com boa fama e boas previsões na Copa estava bem próxima do título tendo marcado apenas oito em sete jogos. E logo a seleção batizada como “Fúria”. Talvez a explicação estivesse não nos número de gols marcados, mas nos tomados: apenas dois. Ou quem sabe estava no equilíbrio destes números, uma defesa segura e um ataque que marca o necessário ?

Pensei em levantar esta bola pra Zia comentar, mas, sei lá de onde, surgiu mais um copo de cerveja. Dois, aliás. Um na minha mão e outro na dela que brindou a façanha espanhola – o jogo já havia acabado.

“Estava torcendo, Zia ?”

“Eu, não, mas o sol estava”.

E o vermelho do sol de Toscana era espanhol, sem dúvida. Assim como a Copa da África.

Quem tem artilheiro, não morre pagão

 

Direto de Roma/Itália

A tabela de goleadores da Copa do Mundo 2010 é auto-explicativa. Dividem o primeiro posto Villa da Espanha e Sneijder da Holanda; Muller da Alemanha e Furlan no Uruguai. Cada um deles marcou cinco vezes, sendo que os dois primeiros podem ampliar esta vantagem na partida de logo mais.

O alemão, aos 20 anos, é o segundo atleta mais jovem a marcar cinco gols em um Mundial. O primeiro, lógico, é Pelé que alcançou este feito aos 17. O uruguaio já é o segundo goleador do País, com 19 gols, dois atrás de Hector Scarone.

Alemanha com 16, Holanda com 12 e Uruguai com 11 são as seleções que mais gols marcaram nesta Copa. A Espanha é o ‘patinho feio’, pois chegou a final com apenas sete gols em seis jogos – muita mais pela pontaria do que pelo desejo, pois foi quem mais chutou, 103 vezes.

A numeralha muitas vezes atrapalha e esconde verdades. Mas trago estes dados estatísticos para chamar atenção em especial para o fato de que as seleções com artilheiros foram as que chegaram a disputa final. Nenhum esquema tático, nenhuma estratégia defensiva, nenhum medo, pode abrir mãos destas figuras essenciais ao futebol.

O goleador – às vezes perna dura para driblar, outras mal-querido pela personalidade – tem de estar em qualquer grupo de elite que se preze. Abrir mão deles em nome de comprometimentos e comportamentos é desperdiçar a oportunidade de um time avançar.

É preciso ressaltar a importância destes personagens da bola, principalmente em um momento em que a economia de gols é evidente na formação das equipes. Não fossem Alemanha e Uruguai partirem para o tudo ou nada – diga-se de passagem, comum na decisão do terceiro lugar – corríamos o risco de assistir ao Mundial com a pior média de gols de todas as Copas.

Após o jogo de ontem, chegamos aos 2,28 por partida, mesmo que a decisão se encerre 0 a 0 encostaremos nos 2,29 de 2006, se houver três gols, superamos a marca. O que ainda é muito pouco e significativo para o futebol que o mundo está jogando.

De nada servirá uma goleada sem o título – não tenho dúvida. Mas mesmo equipes que marcam pouco, como foi a Espanha na Copa da África, precisam de um fazedor de gols, como Villa. Alguém com capacidade de finalizar aquilo que os companheiros construíram ou mesmo com força suficiente para concluir o que ele próprio teve de construir.

Que nossos queridos técnicos aprendam de uma vez por toda. Quem tem um artilheiro, não morre pagão.

Alemanha em campo, uma resposta à intolerância

 

Direto de Roma/Itália

Fique atento ao hino nacional alemão assim que se iniciar a cerimônia de abertura do jogo que decidirá o terceiro lugar da Copa do Mundo contra o Uruguai. Não é preciso se ater a letra nem mesmo a sonoridade – hinos costumam ser eloquentes em qualquer parte do mundo. Enquanto a câmera desfila no gramado, preste atenção no rosto daqueles jogadores. Em cada face a melhor resposta que a Alemanha poderia dar ao capítulo mais estúpido de sua história, a mais absurda guerra racial que o mundo já assistiu.

Aparecerão brancos e negros perfilados. Olhos com traços turcos e sérvios. Narizes espanhóis e poloneses. Cabelos africanos e brasileiros. Todos vestindo a mesma camisa e defendendo a mesma Nação. Uma diversidade inimaginável para um povo que teve sua vida marcada pelo regime nazista, nas décadas de 1930 e 1940.

Ao elencar os 23 jogadores que disputariam a Copa da África, os critérios usados por Joachim Löw foram esportivos. Nem poderiam ser diferentes. E os resultados alcançados até aqui, mesmo fora da final, mostram que as escolhas foram corretas. Para muitos, a Alemanha foi quem mostrou o melhor futebol deste Mundial e mereceria, inclusive, o título da edição 2010.

O jovem treinador e ex-jogador alemão, porém, reuniu uma diversidade de atletas que simbolizam muito mais do que apenas uma equipe de futebol – uma equipe de futebol muito boa, ressalte-se.

Onze dos que foram para a África representar a Alemanha nasceram fora do País ou são de origem estrangeira.

Dois de seus maiores destaques, Lukas Podolski e Miroslav Klose, são poloneses por nascimento. Autor de um dos primeiros gols da Alemanha, nesta Copa, Cacau é de Santo André (SP). Marko Marin é da Bósnia, tem origem sérvia, e se naturalizou alemão.

O pai de Jérôme Boateng é de Gana e se casou com uma alemã. Sangue africano também tem Dennis Aogo, nascido no país e com ascendência nigeriana. Sami Khedira tem pai da Tunísia. Özil e Tasci são de origem turca; Trochowski, polonesa; e Mário Gomez, espanhola.

Sabemos que na maioria das vezes estas histórias sequer são percebidas por seus protagonistas muito mais pragmáticos nas escolhas do que a própria geopolítica do futebol possa nos parecer. Mas é sintomático que estes alemães-turcos e alemães-africanos – apenas como exemplo – estejam lado a lado disputando uma Copa construída na África, país que ainda sofre com as sombras criadas pelo apartheid.

Quando Nelson Mandela imaginou levar a competição para a África do Sul sabia que seria a oportunidade de chamar atenção do mundo para seu povo e alertar a todos sobre a necessidade de combater, constantemente, o racismo. Faixas são abertas diante das câmeras de televisão e capitães são convocados a ler mensagens a todo o público, mas poucas coisas podem ser mais ilustrativas na luta à intolerância do que estas seleções ‘globalizadas’.

E quando este sinal vem de um país como a Alemanha, seu grito é ainda mais forte. Muito mais forte e importante do que o futebol apresentado até aqui por esta ou qualquer outra seleção.

Portanto, hoje, quando o hino alemão tocar, em lugar das vuvuzelas, tente ouvir a mensagem subliminar que a mistura daqueles rostos nos transmite. E pense como é possível no seu dia a dia ser menos intolerante com qualquer tipo de diferença.

Cochichos e recados nos caminhos do Morumbi 2014

 

Direto de Roma/Itália

Toda vez que o presidente Lula abre a boca pra falar de Copa, o projeto Morumbi’14 sai da gaveta novamente, onde está guardado com pastas e documentos importantes que podem decidir o destino do estádio de São Paulo.

No lançamento do estranho logo para o Mundial do Brasil, Lula passou recado ao prefeito da capital paulista Gilberto Kassab (DEM), que está na África sob a alegação de que precisa conhecer programas e soluções desenvolvidas por aquelas cidades.

Kassab foi, na verdade, fazer política, não planejar.

As constatações do prefeito de que São Paulo não deve nada ao sistema de transporte de Johannesburgo e seria impossível construir um Soccer City com dinheiro público poderiam ser feitas de dentro do gabinete dele, no Viaduto do Chá. Haja vista que ao planejarem a Copa da África, as autoridades sul-africanas foram a São Paulo, especificamente na região do ABD paulista, passaram por Curitiba e esticaram viagem a Bogotá, na Colômbia, para entender como transportar passageiros com qualidade. Devem ter ficado presos em congestionamentos na cidade de São Paulo, onde não se investe em corredores de ônibus, há bons anos.

E como Kassab foi fazer política, voltará da África com o recado do presidente lhe coçando a orelha: “Continue a brigar pelo Morumbi” – está no Blog de Cosme Rímoli, em 08/07/10.

Há pouco mais de um ano, em outro cochicho nem tão baixo assim, Lula falou ao Ministro do Esporte, Orlando Silva Júnior, durante cerimônia no estádio do Morumbi: “Diga ao Ricardo (Texeira) para parar de falar m…. . É preciso baixar a crista dele. O Morumbi é o estádio de São Paulo para a Copa” – descreveu Juca Kfouri em 24/06/09

Pode parecer uma contradição (mas só a quem mantém a visão ingênua de que tudo é uma questão de preferência clubística), o corintiano Lula tem sido o “Embaixador do Morumbi” desde o primeiro minuto de jogo e seu esforço aumentou após encontro com o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio – o mesmo que ao assinar nota em resposta a exclusão do estádio da Copa, ameaçou: “A Justiça é filha do Tempo. O Tempo é o Senhor da Razão. O Tempo dirá. E nós também” (16/06/10). Dirá o quê ?

Há quem não consiga dissociar a frase final daquela nota com o comentário presidencial, na cerimônia africana, de que o Brasil é feito de gente que não desiste nunca. Disse isso em uma das três vezes nas quais citou nominalmente Ricardo Teixeira, durante a cerimônia. Mais do que um slogan, um alerta ?

Destacou, também, o necessário combate a corrupção na Copa 2014. Quando, aliás, não será mais presidente do Brasil: “pode contar comigo no que for necessário” – fez questão de avisar a Teixeira.

Terça-feira (07/07/2010), já em solo africano, em outra das suas frases, Lula não foi descuidado na fala: “Se a CBF adotasse o que eu adotei quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, a cada oito anos a gente trocava a direção da CBF. No sindicato a gente trocava”.

Quanto a Kassab, não-alheio a discussão, voltará a São Paulo talvez com a bagagem vazia de projetos urbanísticos, mas com um aparente alívio: poderá reaproximar seu discurso pró-Morumbi ao do Palácio dos Bandeirantes, de onde se ouvia dos corredores críticas pesadas contra o alcaide. E, ao mesmo tempo, costurar com investidores a construção do Plano B, ou P, o Piritubão.

Desembarcará em São Paulo, com um pé em cada estádio.

Por enquanto, vizinho do Palácio, Juvenal Juvêncio só abre a gaveta de seu escaninho, cheia de pastas e documentos, pra remexer no projeto de reforma do estádio do Morumbi.

É das conversas ao pé de orelha, bate-papo nos bastidores e recados indiretos que se constrói o caminho para São Paulo ser sede da abertura da Copa do Mundo de 2014. Ou qualquer outra coisa que tenha o mesmo valor.

Torci pelo time do Pedro

 

Direto de Roma/Itália

Comecei a partida torcendo pela Alemanha. Sei lá se você é daqueles que consegue sentar diante da TV e assistir a um jogo de futebol sem tender por um ou outro lado. Eu, decididamente, não. Escolhi os alemães por questões familiares, e após a vitória contra a Argentina em que vi jogadores germânicos driblando pra cá e pra lá, desconfiei que ali havia resquícios do futebol-arte que um dia esteve no Brasil.

Poucos minutos haviam se passado até que minha fidelidade fosse colocada à prova. A Espanha, que diziam ter um jogo festivo, marcava a saída de bola, seus atacantes – gente de talento – não deixavam os alemães trocarem passe. E como erraram passes os alemães.

Uma assistência para Villa que fez o goleiro Neuer sair a seus pés mexeu comigo. Um cruzamento forte da direita que encontrou Puyol me chamou atenção. Chutes do ataque espanhol de fora da área mostravam quem tinha mais chances de marcar primeiro.

Foi, porém, no início do segundo tempo que virei casaca, definitivamente. E o responsável foi um cara que não tem nome composto, charmoso nem famoso como Xabi Alonso, David Villa ou Andrés Iniesta. Ele se chama apenas Pedro, veste o número 18, não chega a 1,70 de altura e, apesar de estar às vésperas de fazer 23 anos, já tem muita história pra contar.

É o único jogador do Barcelona a marcar um gol em seis competições diferentes em uma mesma temporada. Da Copa del Rey ao Mundial de Clubes, deixou sua marca em 2009. Foi aposta espanhola para esta semifinal substituindo Fernando Torres. E deu muito certo.

Habilidoso nos dois pés, Pedro fez uma jogada especial pelo lado direito. Driblou um, dois, três, se não me engano, havia também um quarto alemão no caminho. E todos ficaram para trás com cara de desesperados. Ciente de seu papel de coadjuvante, entregou um presente para o companheiro Alonso que desperdiçou o ataque chutando para fora. A televisão, teimosamente, repetia o chute errado e se esquecia de registrar o lance mais interessante do jogo.

Daquele momento em diante, os italianos que assistiam à partida comigo não tinham dúvida de que minha torcida era espanhola. E, aos poucos, eles também se entregaram. A seleção comandada por Vicente Del Bosque – que tem cara daquele avô simpático e satisfeito com o que a vida lhe ofereceu -, contaminada pelo estilo Barcelona de ser, tomava conta do jogo, apesar da insistência da Alemanha em estragar a festa.

O futebol bacana dos alemães, responsável por três goleadas e os melhores desempenhos na Copa da África, não apareceu diante da intensidade dos espanhóis. Mas a seleção treinada por Joachim Loew é jovem – a mais jovem que a Alemanha já reuniu – e, portanto, é de se esperar que seu estilo de jogo ainda possa oferecer bons espetáculos até a Copa do Brasil, em 2014.

A Espanha começou a Copa decepcionando muitos dos que esperavam um show a cada partida, e quando tinha boa performance parecia se satisfazer mais em tratar bem a bola do que colocá-la dentro do gol – fez sete em seis jogos.

Nesta semifinal, mostrou que mesmo quem pretende jogar bonito precisa marcar bem – e até aqui levou apenas dois gols em seis jogos. Houve excessos em alguns momentos e isso é comum quando sobra talento, mas ver que o gol surgiu de jogada pragmática – cobrança de escanteio e cabeceio de um defensor – revela, também, que a Espanha sabe que o caminho da vitória nem sempre está no toque de calcanhar, no drible legal ou em uma jogada fantástica.

Vê-la na final é motivo de satisfação. Mostra que mesmo com os esquemas táticos rígidos e fechados que imperam na maioria das seleções, o futebol moderno ainda tem espaço para o drible, para um toque sutil e para o talento.

A Espanha está na final. O futebol agradece.

E pra mim será muito simples escolher alguém pra torcer no domingo: o time do Pedro.

Faltaram os artistas da bola

 

De Ansedonia/Itália

Meninos brincam na praia

Dois irmãos brincam na praia de Tagliata, em Ansedonia, onde fica a velha casa de Puccini. Não me parecem meninos muito interessados com o que a obra criada pelo mestre da música nos oferece. Jogam futebol dentro d’água. Ou algo que se pareça com isso, pois usam muito mais as mãos do que os pés. Se divertem com uma dessas bolas de supermercado que ganham efeitos especiais com o vento que vem do Mediterrâneo.

De vez em quando, um deles tenta uma bicicleta e nas vezes que acerta, grita o nome de Ronaldo. Pela barriga do adolescente poderia pensar no Fenômeno; mas pelo malabarismo e proximidade só posso crer que se refira ao Gaúcho, que veste a camisa do Milan, por enquanto. O irmão parece torcer pela Juventus, pois se alcança a bola, narra como se fosse uma defesa de Buffon e, se espanta pra longe, chama por Cannavaro.

Tantas as vezes que ouvi da areia da praia o nome de Ronaldo que lembrei de outra figura pela qual cruzei quando estive em Cidade do Cabo, na primeira fase da Copa. Era um pintor de rua, desses que com alguns randis na mão e muita paciência para pousar fazem sua imagem nem sempre semelhante. Na espera de clientes, ele retocava um quadro que simulava uma disputa de bola entre Ronaldinho Gaúcho, com a camisa do Brasil, e David Beckham, com a da Inglaterra.

Craques na pintura

Dadas as circunstâncias desta Copa, a obra do pintor era quase uma ficção, pois os dois craques estavam fora de campo. Ronaldinho sequer foi convocado enquanto Beckham, devido a lesão, ganhou o direito apenas de desfilar seus ternos no banco inglês. Perguntei ao artista por que os dois e não jogadores que estivessem disputando o Mundial: “porque eles são artistas”, respondeu.

Têm razão, tanto os meninos de Tagliata quanto o pintor do Cabo. Se é para criarmos, idealizarmos um mundo perfeito, são as estrelas que devemos exaltar. E se algo chama atenção na Copa da África é o fato de chegar às semi-finais sem um candidato à craque.

Os mais cotados até a bola rolar frustraram as expectativas do torcedor. No Brasil, sem que a Ronaldinho fosse dado o direito de brilhar, Kaká jogou pela metade. Fez poucas arrancadas, sua jogada típica, e nenhum gol. Cristiano Ronaldo, de Portugal, ensaiou passes e dribles, mas produziu quase nada. Rooney, da Inglaterra, Drogba, da Costa do Marfim, e Etoo, de Camarões, não foram nada bem. Messi, da Argentina, foi quem mais rendeu, mas ficou devendo um gol e sumiu quando o time precisou dele, na derrota para a Alemanha.

Das quatro seleções que disputam vaga para a final, a partir de hoje, aparecem jogadores de qualidade. Na Holanda, Sneijder e Robben, e no Uruguai, Fórlan; na Alemanha, Podolski, Müller, Klose e Özil, enquanto na Espanha, Villa e Iniesta. Ressalto: são jogadores de qualidade, não craques (claro que adoraria tê-los no meu time e na seleção).

Qualquer um deles tem chances de se destacar no pôster do Campeão Mundial de 2010 – e merecem -, mas para se transformarem em personagem de uma obra de arte (ou um quadro de rua) e alimentarem a imaginação das crianças que brincam na praia precisarão ir muito além do futebol mostrado até aqui.

Dunga e Felipe Melo, desculpas que o Brasil precisa

Direto de Roma/Itália

Brasil esfarrapado

A ‘coerência’ e mau humor de Dunga, a falta de cabeça de Felipe Melo e, por que não, o pulo fora de hora de Julio César são as desculpas que o Brasil precisa para explicar a si mesmo a saída antecipada da Copa da África. Nunca somos derrotados, pois somos insuperáveis. Sempre perdemos por nossas causas individuais, jamais por nossa incompetência coletiva.

Barbosa foi nosso Cristo em 50, não se pensou na qualidade da seleção do Uruguai que havia goleado adversários e vencido o próprio Brasil em amistosos antes da Copa. O ‘apagão’ de Toninho Cerezo explica para muitos o desastre no Sarriá, em 82, sem que se perceba a praticidade do futebol italiano. A amarelada de Ronaldo, em 1998, e as meias arriadas de Roberto Carlos, em 2006, esconderam na crônica a superioridade dos azuis da França comandados por Zidane.

No aeroporto, leio no Portal Terra, torcedores foram taxativos: Felipe Melo é vacilão. O dedo apontado de maneira acusativa não considera o fato dele integrar um grupo, fazer parte de uma estratégia tática, ser apenas um em meio a multidão de falhas. O volante brasileiro parece ter costas largas suficientes para carregar a frustração de um povo que não perdoa o erro, mesmo que ele próprio erre em tantas outras coisas.

Nos comentários deixados neste blog, há quem prefira acreditar em esquemas mirabolantes a tirar o Brasil da Copa. Gostaria apenas que me ajudassem a entender se desta conspiração fizeram parte os zagueiros brasileiros que deixaram o holandês cabecear sozinho após um escanteio; Kaká que completou jogada genial no primeiro tempo com um chute colocado no ângulo que não se transformou em gol graças ao esforço do goleiro adversário (vai ver ele também fez parte da conspiração); ou mesmo Dunga que não convocou Ganso talvez para ficar, propositalmente, sem opções melhores no banco. Mick Jagger e seu pé frio estariam nessa, também ?

Precisamos sempre de um culpado, uma figura capaz de resumir nosso fracasso e nos eximir de qualquer responsabilidade, e não nos permitimos admitir a superioridade do oponente. Esquecemos das falhas estruturais do futebol brasileiro, da falta de organização dos campeonatos, do desrespeito aos torcedores e dos clubes falidos comandados por dirigentes abastados.

A seleção é reflexo do que ocorre no futebol de um país, mesmo que a maioria dos convocados há muito não jogue por lá. Fenômeno, aliás, que pode ser visto como causa e efeito das coisas que não alcançamos.

A forte presença de nossos atletas no exterior demonstra a capacidade natural do País em assistir ao surgimento de jogadores qualificados, ao mesmo tempo que destaca a incompetência para mantê-los em nossos clubes. Com isso, os times brasileiros não criam ídolos para cativar novos torcedores nem levar os já conquistados aos estádios (sem contar a desqualificação desses estádios).

Para a CBF, autoridade máxima do futebol brasileiro, pouco importa a condição vivida pelos clubes. Os atletas que servem a seleção não dependem deles. Enquanto houver empresas/agremiações suficientemente ricas para levá-los e mantê-los em atividade no exterior, que assim seja. Ganham experiência, convivem com o modelo mais organizado dos clubes europeus, em especial. E se ambientam com os adversários que enfrentarão nas competições internacionais.

Por curiosidade: com os brasileiros que disputam a série A do futebol italiano seria possível formar um time inteiro e seus reservas. Nas 20 equipes que iniciam a temporada 2010/2011 há uma relação de 18 jogadores nascidos no Brasil.

A fórmula, mal ou bem, tem dado certo, pois com todos os erros seguimos sendo os maiores campeões de todos os tempos e com chances de ampliar esta vantagem ao disputarmos em casa o próximo Mundial.

E quando perdemos um campeonato como este da África, desclassificados nas quartas-de-final, logo encontramos um culpado.

Dunga ou Felipe Melo – ou mesmo Júlio César, com todo o crédito por ele acumulado – são inocentes úteis dos cartolas que comandam o futebol brasileiro. Enquanto acreditarmos que nossas derrotas ocorrem devido a eles, bastará mudar o treinador, banir alguns nomes – como fizeram com Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho -, convocar outros que, provavelmente, estarão jogando no exterior e voltar a fazer promessas de títulos e conquistas.

Mudar para que o poder siga nas mãos dos mesmos sanguessugas da paixão do brasileiro. Para que tudo fique como está.

De boca e coração


Por Maria Lucia Solla

O que te mantém vivo? Dizem que você é o que come: Cuidado com o que entra pela boca! mas também dizem: Cuidado com o que sai dela.

No primeiro caso a gente ingere combustível para a máquina funcionar; e há quem afirme viver, há anos, única e exclusivamente, de água e da luz solar. Quem sou eu para duvidar!

No segundo caso não acredito que o cuidado more no cuidar com o que sai dela, porque só sai o que está dentro, certo? É lei da Física.

Na área controversa de alimentos tem os minerais, por exemplo, sobre os quais quando eu era pequena nem se ouvia falar. Sódio, potássio, iodo, cloro, ferro, magnésio, cromo; meu Deus do Céu, que suplemento eu tomo!

fibra fruta legume
nada de muito açúcar
nem muito sal
senão você passa mal

colesterol que sobe
colesterol que desce
tem o bom e o ruim
muito complicado para mim

cálcio zinco selênio
hormônio insulina
hemoglobina e proteína
dessa eu ouço falar desde que era menina

Naquele tempo, a saúde vinha da cor. A pele era amarela ou rosada, a gente ficava vermelho de raiva, verde de ciúme e roxo de dor. E sorria, quando estava tudo azul.

Lá em casa quem ditava a dieta era meu pai. Café da manhã tinha suco de tomate feitinho na hora, docinho, gelado, tomado de canudinho; dali vinha o vermelho. Da gema de ovo, da galinha do quintal, na colher, deitada numa caminha de azeite puro, é que vinha o amarelo e o dourado. Espinafre não podia faltar; dali vinha o verde fácil de assimilar.

Na nossa mesa tinha bife, feijão arroz, macarrão com molho vermelho, feito na panela que fazia a sua parte durante toda a manhã; sem pressa, no fogo lento. Encorpava o molho uma porção generosa de bifes enrolados, guardando recheio gostoso, amarrados por linha forte. Quantas vezes fiquei ali olhando minha mãe que bordava, um a um.

A vovó Grazia vinha toda semana e escolhia o feijão na mesa da cozinha: você vai, você fica. A vasilha no seu colo se enchia enquanto eu olhava maravilhada e intrigada. Que coisa! como ela é que ela sabia?! Mas criança falava pouco, de preferência nada, e eu olhava. Que saudade!

Hoje percebo que era de lá que vinha a saúde, era das mãos delas, não das panelas. Era da entrega, do saber a sua missão; e de cumpri-la. Confidentes, às vezes falavam de perto coisas de gente grande, de certo.

Hoje, sabendo daquelas coisas, me sirvo da memória para entender minha história.

A conclusão a que chego, agora, é de que o que te mantém vivo vem do outro e vem de dentro. Vem dele o olhar de compreensão, o nem sempre te dar razão, o te apoiar quando precisa e tirar teu apoio para que você aprenda a nadar.

o que te mantém vivo
não é cálcio proteína ou a boa digestão
é o que entra e sai da tua boca
o que entra e sai do coração

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

O menino chora

TV italianaDireto de Ansedonia/Itália

O menino chora. Era a primeira Copa dele. Via sua seleção jogar e não tinha dúvida em dizer aos colegas que seu time era imbatível. Ninguém pode com a gente. Certo estava que para ser campeão do Mundo faltavam apenas três jogos. Primeiro, a Holanda. Depois, Uruguai ou Gana, tanto faz. E na final, qualquer um que chegasse estava bom, pois a seleção dele era a melhor.

Um dia antes do jogo, passeou de mãos dadas com o pai e foi a um café na pequena cidade italiana de Orbetelo. Ali era o único lugar com acesso a internet nas redondezas. Queria mandar um e-mail para o avô e desejar boa sorte, pois sabia que ele também estaria diante da televisão torcendo pelo Brasil. Não conseguiu. A conexão caiu. E ainda teve de ouvir o dono do bar apostar na vitória da Holanda. Pois bem !

Hoje à tarde, vestiu uma réplica da camisa azul usada por Pelé na Copa de 58 e foi para casa de uns tios pouco interessados em futebol, mas que aceitaram lhe emprestar a televisão para ver o jogo no qual a seleção brasileira confirmaria toda sua confiança. Era um aparelho de tubo, daqueles modelos mais antigos, improvisado com uma antena colada com adesivo no alto para captar melhor a imagem. O nome dos jogadores e o tempo de partida não ficavam bem definidos. Não importava, a qualidade da seleção dele era nítida.

Ficou orgulhoso quando ouviu o narrador da Rai 1 dizer que havia assistido à mais bela jogada da Copa, logo depois de dois dribles de Robinho, um cruzamento forçado pela falta que recebeu, um toque de Luis Fabiano de calcanhar e o chute colocado, com endereço certo, apenas interrompido por um esforçado goleiro. É o meu Brasil, falou baixo.

Vibrou com a enfiada de bola de Felipe Melo que ofereceu a Robinho a oportunidade de marcar o primeiro gol do Brasil. Que golaço ! Eu não disse que os caras são muito bons ! É campeão, é campeão !

A voz dele estava isolada em uma cidade que parecia viver outro mundo, não tinham vuvuzela nem foguetes nem gritos dos vizinhos, como nas partidas que assistiu no Brasil. Pouco importa, dali pra frente, era só esperar o apito final do árbitro. Mesmo que ainda houvesse todo um segundo tempo para ser disputado não havia nada capaz de acabar com o sonho do menino.

De repente, o goleiro ídolo falha, o zagueiro confiável erra, o volante valentão é expulso. E nem o cara que ele mais admira neste time está em campo para ajudar. Elano ficou fora depois de uma patada que recebeu de alguém da Costa do Marfim. Mas ainda falta muito tempo. Só um gol, o empate, a prorrogação e ganhamos nos pênaltis. A gente ganha nos pênaltis, pai ?
O jogo segue, o tempo passa, o menino com as duas mãos no rosto da sinais de sofrimento. Ainda acredita em um lance de herói, capaz de mudar tudo que está se passando naquela TV. Em todas as suas histórias o super-herói surge para restabelecer a ordem, fazer justiça. Quem sabe agora ? Não, não foi. Dá um chutão lá pra dentro !

Os tios não entendem direito por que aquela agonia. É só um jogo de futebol.

O menino começa a entender. Começa a enxergar o que até então não havia visto direito. Nosso time pode ser bom, mas o outro quer ser melhor. E quando faz melhor, nos supera. A derrota é uma realidade possível, não apenas no jogo. E tem de ser enfrentada, porque não é definitiva.

Os três minutos de acréscimo não importavam mais. Ele não conseguia mais ver a imagem na TV, a voz do locutor anunciando a desclassificação do Brasil não fazia sentido, a bola chutada de um lado ao outro era um objeto estranho. Os jogadores, também. Não se pareciam com os das figurinhas que colocou na álbum com todo cuidado.

O apito final não quis ouvir. Levantou-se sozinho e saiu caminhando pra fora da casa. Não havia vuvuzela tocando nem foguetes nem gritos. Apenas uma lágrima e a descoberta de que não somos invencíveis. Nem no futebol, nem na vida.

Kaká, Robinho e Luis Fabiano, sem pudor

Direto de Roma

Os cinco amigos o esperam ansiosos no boteco em uma rua escondida no extremo sul de São Paulo. Lá é Cidade Dutra, distante do que você conhece, longe, mesmo para quem mora ali. Marcão, aquele torcedor sofrido que citei neste blog, há dois dias, chegou depois do expediente, durante o qual oferece segurança para a casa do patrão. A moto não havia sido desligada nem o capacete retirado e já ouvia a gritaria que vinha do pessoal sentado nas poucas mesas que enchem o salão.

Como um goleiro que repõe a bola em jogo, Marcão passou a mão na encomenda que havia recebido diretamente da África do Sul (“aí é mais barato, chefia”) e a chutou em direção a pequena porta que dá acesso ao bar. Os dois menos combalidos pela cerveja que regou o fim de tarde saltaram antes e conseguiram pegá-la ao mesmo tempo. Puxa daqui, empurra dali, o mais novo levou a melhor. Vantagem que não durou muito, pois o pessoal sem reflexo no primeiro arremesso aproveitou-se do entrevero para roubar-lhe o objeto.

Preocupado com o prejuízo que teria, Marcão gritou mais alto: “Para lá, para lá, essa Jabulani é minha e ninguém tasca”.

Os, agora, seis amigos reverenciavam de seu jeito a bola desta Copa, a mais criticada e querida (no sentido de “pedida”) de todos os tempos. A trataram como um troféu desejado e assim que tiveram um pouco de lucidez passaram a analisá-la de raio a raio. Não viam hora de testá-la no Peladão, campo de várzea da vizinhança que ganhou este nome devido a inexistência de qualquer vestígio de grama entre as quatro linhas, todas devidamente cavadas pelo tempo.

Inversamente proporcional às reclamações dos profissionais da bola, surgiu o desejo dos peladeiros no mundo todo pelo objeto fabricado pela Adidas, especialmente para a Copa da África. Seja no extremo de São Paulo, no comércio de Johannesburgo ou aqui em Roma – de onde escreverei até o fim desta Copa – não é difícil ver alguém comprando, carregando ou chutando a tal bola de supermercado, assim definida pelo goleiro Julio César – que não tem muito o que reclamar dela até aqui – e, posteriormente, comprovada em testes de laboratório.

Parece que todos querem exercitar seus dotes na Jabulani e desafiá-la. Ou desafiar os craques (?) da Copa: “Ela é tão ruim assim ou eles é que são pernas de pau?”. Jamais vão descobrir pois a bola vendida em lojas – e supermercados, também – com preço mais em conta tem diferenças em relação aquela que rola nos gramados da África. Com mais gomos do que a original, ganha mais atrito e oferece efeitos menos danosos.

O curioso desta bola não chega a ser os problemas que pode gerar, em especial aos goleiros. Mas o fato de o objeto ter ganhado vida própria com nome de batismo e tudo. Enquanto estive na África, ninguém me pediu para comprar uma bola, todos queriam a Jabulani.

Verdade seja dita, esta coisa de não chamar bola de bola é antiga aqui no Brasil e se iniciou com o pessoal do rádio que na criatividade de suas narrações a chamavam de tudo, menos de seu nome próprio: balão de couro, criança, menina, gorduchinha, maricota, leonor, pelota, perseguida, maria, redonda, nega, esfera, caroço, esférico, esfera de couro, margarida, caprichosa, pneu, bexiga, … (complete a lista se quiser).

Antigamente, também, os jogadores costumavam tratá-la de forma diferenciada, bem mais carinhosa. Era uma dama a ser cortejada, acariciada. Lembro de alguns que a beijavam antes de chutá-la. Quando pisavam nela, os locutores gritavam: “Tá chamando a bola de Vossa Excelência”. No Brasil, a bola sempre foi admirada como mulher, culpa da gramática que a apresenta como substantivo feminino.

Hoje, os craques que sobram não tem mais tempo para todo este apego, assim que a pegam precisam mandá-la em frente antes que um “zagueirão” chegue rachando e acabe com a graça da jogada. Nosso Elano, infelizmente, sabe do que estou escrevendo.

A bola – a Jabulani – anda com velocidade, sempre tocada com pressa nem sempre de pé em pé, resultado de um futebol moderno que exige cada vez mais força e – ao contrário do que críticos dizem – muito mais jeito para fazê-la chegar ao destino desejado. Por isso tendem a não alcançar seu objetivo.

Desconfio que a bola da Copa não trata ninguém mal, é maltratada por jogadores que têm cada vez menos tempo para intimidades com ela. Para estas quartas-de-final, sugiro que os técnicos destinem uma bola para cada atleta e que os obriguem a dormir abraçado nela para quem sabe, assim, comecem a tratá-la como uma amada amante.

Kaká é dos brasileiros o que mais deixa explícita sua relação sem limites em toques e assistências – uma contradição para um atleta recatado com sua vida privada. Robinho é o mais atrevido ao dançar com ela diante do adversário e, ao menos uma vez até aqui, enfiar-lhe nas redes. Luis Fabiano, sem vergonha, tem demonstrado capacidade de aproveitá-la de todos os jeitos. Por cima, por baixo, de primeira, de chapéu e, se preciso for, passa a mão nela.

Que amanhã, contra a Holanda, os três repitam esta falta de pudor.

O torcedor iria se apaixonar.