Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo

Por André Gibrail

As pessoas que estão à frente do seu tempo, em geral, ficam famosas pelos seus feitos, resultados ou simplesmente, por acertarem muito antecipadamente algum movimento da evolução humana. Outras com essa mesma capacidade, porém, podem não se tornar famosas, mas a sua valia permanece nos mais altos níveis de contribuição e admiração. E aqui relato uma dessas pessoas:

Ele, bacharel em dose tripla (administração, ciências contábeis & atuariais e economia) e um mestrado, tinha uma capacidade intelectual e de análise crítica tão acima da média, que por vezes, levantava dúvidas e desconfiança do resto dos mortais. Lia compulsivamente artigos, revistas, blogs, periódicos e livros de assuntos absolutamente diversos — de economia e política à consumo, moda e gastronomia. Tendências de tecnologia e suas implicações sócio-culturais eram uma de suas favoritas.

Com sua visão diferenciada, ainda na década de 70 e no começo de 80, prevendo a instauração de mercados comuns, fez um plano de negócios para montar uma empresa no Paraguai, tendo a certeza do advento do Mercosul, que viria longínquos 20 anos depois. 

Nessa época ainda à frente de três confecções de moda infanto-juvenil (Pataca, Caramelo e Nautik), lançou muitas inovações como jaqueta que virava mochila, camiseta com logomarca com líquido colorido que movia-se como ondas no mar, jaqueta infantil com leds coloridos que piscavam — isso tudo há 40 anos! Apostou em uma modelo infantil que iniciava sua carreira na Caramelo e que depois seria conhecida nacionalmente, Angélica.

Ainda na década de 80, prevendo a tendência dos consumidores de migrarem sua preferência de lojas de rua para os shopping centers, liderou a criação de toda a rede de varejo da Cori, a principal marca de roupa feminina AA da época. E foi um sucesso absoluto! 


Na década de 90, com o varejo da Cori a todo vapor, repetia incansavelmente que “ter caixa em loja era miopia”. Dizia que a consumidora deveria ser atendida pela mesma pessoa do começo ao fim, pois ser direcionada ao caixa para pagar a conta (com outro funcionário que não teve nenhum contato com ela na compra), quebraria todo o relacionamento. Ele já falava de experiência e jornada do cliente nessa época! Dez anos depois, Steve Jobs inaugurou a primeira loja da Apple, aplicando os conceitos que tanto ouvi em casa: nenhuma loja da Apple tem caixa. O vendedor é responsável por toda a sua jornada na loja.

Novamente sua visão crítica acertou mais uma vez ao conhecer e dar apoio a uma apresentadora de TV que iniciava um programa ainda pouco assistido na TV Record, Ana Maria Braga.

Com o advento da Internet, foi o primeiro a prever por aqui o boom de consumo de moda no comércio eletrônico. Na época, ouvia de praticamente todas as pessoas de que o consumidor jamais compraria roupa ou acessórios via Internet. Mas ele, com toda sua persistência, criou o primeiro site de moda do Brasil (quiçá de toda a América Latina) o Modasite. Falava que, além das pessoas, sim, consumirem roupa na internet, iriam preferir um site completo, multimarca. Faria todo sentido prover um marketplace ao consumidor. Infelizmente, não estávamos preparados na época. Somente 20 anos depois o mundo provou que ele estava certo. 

E as histórias de sua genialidade continuaram, afinal, depois de mais de 30 anos de Cori, mesmo beirando seus 70 anos, tornou-se um dos consultores mais especializados em varejo e relacionamento com shopping centers ajudando tanto empresas quanto shoppings a se reinventarem; participou de três startups  — a última ano passado com seus 77 anos —, e agora em Dezembro dizia que estava animado com algumas perspectivas para o começo de 2021 … novos horizontes iriam se abrir. 

Além de tudo isso, arrumava tempo para uma das atividades que mais lhe dava prazer e orgulho: escrever um artigo semanal para o blog do Mílton Jung. E eram artigos sensacionais!!!

Sendo uma pessoa tão animada, tão cheia de energia de vida e com uma cabeça tão privilegiada como a dele, para pará-lo só parando o seu cérebro. Carlos Magno Correa Gibrail, teve um AVC e morreu em 1º de Janeiro de 2021. Pai de quatro filhos e avô de seis netos, são paulino convicto, tenista e apaixonado também por futebol, leitura e atividades sociais, paratiense de nascença com muito orgulho, nos deixa um legado inacreditável. 

Obrigado Carlos Magno!

Eu te amo. 
Seu admirador e filho,

André

Conte Sua História de São Paulo: “Pensão no Brás, avenida Mercúrio, reservada por Amigo”

Alceu Sebastião Costa

Ouvinte da CBN

Minha querida São Paulo, que eu escolhi como abrigo,

Há 52 anos, pela primeira vez, aqui desembarquei,

Pensão no Brás, Av. Mercúrio, reservada por Amigo,

Olhos postos no futuro, de lágrimas e esperança inundei.

 

Cidade em franco desenvolvimento, tijolos e cimento,

No teu colo, sem arrependimento, vivi cada momento

Da busca acelerada, mesclando terra, ar, água e fogo

Vezes sem escapatória do arrojo em detrimento do povo.

 

Muito sangue e suor derramados, caminhos sem volta,

Falta de moradia, a rua como último bastião alcançado

Pelo cidadão que, a bem do sucesso e do progresso,

Deu a sua contribuição solidária, voluntária e solitária

Ainda que consciente dos riscos sobre o fio da navalha.

 

Meu Amigo, que como eu, em Sampa um dia aportou,

Seja condescendente, generoso e renove a esperança

De vê-la livre das maracutaias, desrespeitos e mazelas;

Afinal, a nossa Urbe, que, no 25 de janeiro,

Alcançará orgulhosa seus 467 anos de esplendoroso vigor,

Traz também em seu histórico memoráveis feitos de Amor.

 

Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Ele já esteve outras vezes aqui no quadro, sempre com poesia e realidade. É só procurar lá no meu blog miltonjung.com.br A sonorização é do Cláudio Antonio. E você já é nosso convidado para enviar seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e participar da série especial de aniversário de 467 anosa da nossa cidade.

As notícias de jornal no primeiro do ano

Image by PublicDomainPictures from Pixabay

Comecei cedo o ano, como começo todos os meus dias. Se o despertador não chama, os gatos chamam. Querem comida —- apesar de que desconfio de que, como eu, buscam é companhia, porque a comida está lá a espera deles, nos dois pratos espalhados no chão da cozinha, com direito a água ao lado da geladeira. Desço, converso em voz baixa para não acordar os de casa, eles fazem de conta que me entendem e seguem seu destino. A mim cabe dar início ao ritual dessas manhãs de folga na redação: preparar o café na máquina e abrir o jornal no celular. 

Espero o apito da cafeteira, que marca o fim de seu trabalho e o início de uma maratona de cafés que servirei para mim mesmo durante toda a manhã, e estou curioso para ver a primeira página dos jornais neste primeiro do ano —- geralmente é uma edição limitada a fotos de festas nos principais pontos turísticos do mundo. Mas hoje é “2021”.

Este ano foi diferente —- caramba, vamos continuar usando essa frase para descrever o ano em que vivemos —, havia mais notícias de saúde e doença do que fotos de réveillon. Até ensaiaram um colorido nas estátuas, pontes e praças históricas que nos acompanham desde sempre, mas o vazio de pessoas anuviou a imagem da festa. Nem o Brexit que finalmente começou — e seria motivo de escandalosas manchetes —- convenceu os editores a mexer na diagramação do primeiro de ano.

Menos mal, porque assim havia pouco espaço para reproduzir mais uma asneira do presidente de plantão que dentre tantas bobagens ditas ao vivo, chamou de ilusão o uso de máscara para combater a Covid-19 —- em mais uma negação a tudo que o conhecimento científico nos ensinou ao longo dos tempos. Se o moço tem um mérito é o fato de ser ignóbil convicto, do primeiro ao último dia do ano.

Nesta primeira edição de 2021 dos jornais também encontrei reportagens sobre a esperança que novas administrações municipais nos oferecem e os tremendos desafios que os prefeitos terão de enfrentar —— pouco me importa, eles sabiam o que os esperavam, e se douraram a pílula para angariar votos, que tratem de mantê-la brilhando em punho próprio e com o pouco dinheiro que têm em caixa.

Por sua vez, os colunistas —- cada vez mais fundamentais para a existência dos jornais —- tendem a nos oferecer textos bem acabados, pensamentos provocadores e um tanto de conhecimento. Costumo parar por mais tempo diante dos meus favoritos. Gosto dos que tratam do cotidiano, mas não só deles. Às vezes, sou surpreendido com autores para os quais nunca havia dado atenção —- por preguiça, por falta de tempo ou pelo hábito de sempre ler os mesmos.

Enquanto leio e já entornei minha terceira xícara de café, o céu ficou nublado e as primeiras gotas de 2021 começam a cair sobre mim  — e aqui não há nenhum exercício poético ou mensagem subliminar, é a chuva mesmo. Sou obrigado a trocar de cadeira sem trocar de tarefa: encontrar em meio aos textos uma mensagem que me revigore para enfrentar o ano. Desejo fugaz. 

Nada que encontrar no dia de hoje vai mudar o que foi o de ontem. E o que será o de amanhã. Os amigos que perdi não voltarão; o amigo que agoniza, ainda não sei. A vida não zera no primeiro do ano  —  como se fosse um jogo eletrônico —, até porque seria muito chato termos de repetirmos todas as fases, aprendermos tudo de novo, reconhecer as pessoas que amamos, e descobrir, em tempo, que são elas a quem devemos o nosso amor. Imagine cometer os mesmos erros de antes, encarar toda a jornada de enganos até aprender a lição final —- logo agora em que estou em um momento da vida em que só peço a Deus que me livre dos meus pecados e se quiser que eu preste contas pelo que fiz que o faça quando encontrá-Lo e não aqui em vida. Que Deus me ouça!

Até amanhã!

Avalanche Tricolor: Feliz Ano Novo!

São Paulo 0x0 Grêmio

Copa do Brasil —  Morumbi

Festa de réveillon antecipada no Morumbi Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Jogadores do Grêmio comemoram ao fim da partida Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Às vésperas do fim do ano, passeei de carro perto de casa. Não mais do que alguns quarteirões. Precisava respirar um pouco fora do ambiente ao qual fiquei confinado em boa parte desses últimos 285 dias, desde que a recomendação foi de mantermos distância, evitarmos aglomerações e encontros desnecessários. Fui ao lava-jato levar um carro que esteve durante todo este tempo acumulando poeira na garagem. De dentro dele não saí e pedi apenas uma boa ducha —- “caprichada”, me disse o atendente no posto de combustível, com um boné vermelho, preto e branco. 

Por mais restrito que tenha sido este giro, foi impossível deixar de notar a quantidade de pessoas circulando pela região com a camisa do São Paulo. O motoqueiro que passou em alta velocidade pela minha esquerda, o menino que atravessava na faixa de segurança, o senhor de barriga acentuada que esperava a conclusão do serviço e o rapaz conduzido por um cachorro a caminho da praça mais próxima —- todos transmitiam um ar de confiança na partida que se realizaria dali a alguns quilômetros de distância. Sim, eu moro próximo do Morumbi, onde decidiríamos a vaga à final da Copa do Brasil.

Infelizmente, estar presente no estádio não era uma opção para qualquer um de nós. Restava-nos assistir ao jogo na televisão —- o que não me impediu de ouvir o espocar de fogos proporcionados por torcedores adversários que cercaram o local da partida para inspirar seus jogadores. Havia gritos, também, que partiam da varanda dos prédios ao redor de casa. Que se calaram assim que a bola começou a rolar.

Em campo, desde o primeiro minuto de partida, o Grêmio expressava uma personalidade típica de times acostumados às grandes decisões. Meu colega e amigo Paulo Vinícius Coelho disse com a precisão de sempre e com base em informações que levantou em conversa com porta-vozes gremistas de que jogaríamos um futebol adulto, maduro. 

Era a confiança versus a maturidade.

E que maturidade!

Vanderlei sequer precisou ser gigante como em partidas anteriores. Cumpriu o seu papel em interceptar as poucas bolas que chegaram ao gol. Nossos zagueiros, Rodriguez e Kannemann, depois Paulo Miranda, despacharam para longe qualquer perigo que se desenhava. De um lado Victor Ferraz e de outro Diogo Barbosa foram precisos nas roubadas de bola. Lucas Silva e Matheus Henrique fecharam a entrada da área com uma tenacidade impressionante  —- ganharam ainda o reforço de Thaciano, no segundo tempo. Alisson, Jean Pyerre e Pepê fecharam o meio de campo e deixaram seus marcadores sempre de prontidão diante do risco de uma escapada em contra-ataque. Diego Souza por pouco não se consagrou com um gol de bicicleta —- apesar de sua maior qualidade nesta noite ter sido a maneira como voltou para marcar e encurtar o espaço.

O Grêmio foi gigante diante de um adversário que tem revelado futebol de alta qualidade, apesar de incapaz de nos superar nos últimos quatro anos. Estamos sem perder para o tricolor paulista desde 2016 e sem tomar um só gol desde agosto do ano passado. E  já se foram cinco partidas — a quinta, nesta noite no Morumbi quando entramos em campo pressionados e tensionados por um movimento que tem tração interna, proporcionada por torcedores frustrados que tentam descredenciar o excelente trabalho de Renato no comando gremista.

O Grêmio chega a sua nona final de Copa do Brasil. Já venceu cinco vezes esta competição. O desafio para ser hexacampeão é imensurável. Mas esse é um problema a ser encarado apenas no ano que vem. Por enquanto, incrédulos e crentes leitores — e caros torcedores — desta Avalanche, o que temos a celebrar é um feliz Ano Novo. Porque Renato e o Grêmio nos deram esta oportunidade de fechar 2020 —- que já vai tarde — com uma alegria no coração e uma lágrima de satisfação. 

Até 2021!

A esperança de seguir em frente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de @jplenio no Instagram por Pixabay

 

Confesso que nunca fui de superstições na virada do ano. Essa coisa de comer lentilhas, guardar sementes de romã ou pular as ondas como forma de atrair a fortuna ou a sorte não me empolgavam. Não que eu não precisasse disso para o ano que viria, mas preferia comer as lentilhas porque eram saborosas e estar na praia porque era revigorante. Agora, se tem algo que sempre me comoveu na passagem do ano é a sensação de ciclo encerrado e de renovação.

Pertinho da meia-noite, quando todos estão ali reunidos, aguardando para iniciar a contagem regressiva, um filme passa pela minha cabeça, uma espécie de retrospectiva de tudo o que eu vivi ao longo do ano. Ensaio aqui, enquanto escrevo este último artigo do ano, a sensação de fechar os olhos e percorrer o que me marcou: conquistas, decepções, superações, fracassos… E inevitavelmente vem a pergunta instigadora: onde e como estarei daqui a um ano?

A contagem regressiva e em seguida os fogos que clareiam o céu são para mim o marco simbólico de que a partir daquele momento algo novo me espera. Situações que eu nem sei quais serão, mas que eu já desejo experimentar, com uma esperança enorme de que o futuro, mesmo incerto, já está chegando e poderá ser desfrutado, trazer coisas novas, coisas boas.

Em 31 de dezembro de 2019 senti da mesma maneira mas nem a mais remota previsão apontava para o que viveríamos em 2020. Um ano difícil! Com certeza! De oportunidades para poucos e de perdas para muitos.

Existem anos que ficam marcados por grandes eventos. Em 1969, o homem chegou à Lua. O Brasil foi Tetracampeão no futebol, em 1994. O atentado às Torres Gêmeas de 2001. Esse ano de 2020, infelizmente, será o ano da pandemia.

Prefiro manter as minhas tradições de réveillon. Fecho os olhos e penso em tudo que vivemos. Apesar de a pandemia, consigo me recordar de muitas coisas boas. Agradeço pela vida, pelos projetos realizados, pelos familiares e amigos. E quase com a contagem regressiva “pipocando” na cabeça – acho que prefiro contar rápido para ver se 2020 já fica lá no passado – respiro fundo e projeto uma esperança enorme para 2021. 

Longe da lista de metas, tenho um desejo: “que tudo se realize no ano que vai nascer”. Para mim, para você. E se tudo não for possível, que não nos falte a esperança para seguirmos em frente e alcançarmos aquilo que faça sentido para cada um. Por uma vida melhor. Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo! 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A responsabilidade ética da comunicação corporativa no combate à desinformação

Empresas têm de ter canais abertos e transparentes de comunicação (Foto: Pixabay)

 

A comunicação corporativa precisa se engajar no combate à desinformação, a começar pelo desenvolvimento de programas pedagógicos para seus colaboradores —- pelas mãos dos quais passam e são repassadas quantidades enormes de mensagens falsas sobre os mais diversos temas, inclusive sobre a própria empresa. A Rádio Corredor se potencializou com a velocidade digital e não se limita mais ao ambiente do  escritório.  Pessoal bem preparado e canais de comunicação abertos e transparentes tendem a reduzir a algaravia do chão de fábrica ou da sala de cafezinho; e ganham mais importância ainda para aproximar profissionais que trabalham à distância, desde o início da pandemia.

O poder de influência das empresas e sua capacidade de investimento devem se voltar para proteger a sociedade e sustentar projetos jornalísticos que se transformam em contraponto às mentiras propagadas voluntária ou involuntariamente. É uma responsabilidade ética que as corporações devem assumir diante da sociedade.

Esses são alguns dos temas que conversei com André Felipe de Medeiros, em entrevista concedida ao podcast FalAção, da Aberje —- Associação Brasileira de Comunicação Empresarial:

Avalanche Tricolor: Vanderson, Alisson e Churín foram as boas notícias deste domingo

Grêmio 2×1 Atlético GO

Brasileiro — Arena Grêmio

Vanderson rumo ao ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Foi o último jogo do ano no Campeonato Brasileiro, mas não o último do Grêmio. 2020, que já vai tarde, só termina para nós quarta-feira na decisão da vaga à final da Copa do Brasil. A presença em tantas competições simultâneas tem cobrado um preço alto do elenco —- algo nem sempre bem compreendido pelos torcedores que querem a mesma excelência de futebol todas às vezes que o time entra em campo.

Na noite deste domingo, exceções a Vanderlei no gol e a Darlan na frente da área, todos os demais jogadores saíram do banco de reservas —- verdade que alguns em condições de estar no time titular,  como é o caso de Alisson, que retornou aos gramados depois de dois meses recuperando-se de lesão. Pelo que mostrou nesta primeira partida, volta com a mesma intensidade e qualidade de jogo de quando teve de parar. Será uma alternativa para a decisão.

Graças a ele e seus companheiros, a partida desta noite foi um ótimo programa dominical.

Na lateral direita foi muito bom assistir ao desempenho de outro guri gremista: Vanderson, de apenas 19 anos. Demonstrou personalidade na parceria com Alisson. Chegou fácil ao ataque e não teve medo de ir a linha de fundo. Foi assim que, em cruzamento forte e na pequena área, provocou o gol contra que abriu o placar. Soube-se por ele próprio que essa é uma das suas características, inclusive elogiada por Renato nos dias que antecederam a partida. 

Vanderson de Oliveira Campos nasceu em Rondonópolis e foi para o interior de São Paulo, onde o Grêmio o descobriu e o levou para Porto Alegre. No início deste ano foi vice-campeão da Copa São Paulo e, ao longo da temporada, chamou atenção da comissão técnica nos times de base e aspirantes. É a quarta opção para a lateral, mas pode furar essa fila. Antes precisará ser lapidado por Renato e companhia —- como já foram tantos outros guris que passaram pelas mãos do técnico e se transformaram em patrimônio gremista.

Lá na frente, além do próprio Alisson, destacaram-se Pinares e Churín, especialmente porque foram produtivos quando mais se precisou deles. Logo depois do gol do empate, quando o time estava caindo de rendimento, após mais uma investida de Vanderson pela direita, Pinares passou a bola pelo alto e por trás dos marcadores, e Churín —- como se espera de um atacante — bateu forte e sem deixar a bola cair no gramado. 

O resultado mantém o Grêmio na disputa das primeiras colocações e invicto há 11 jogos pelo Campeonato Brasileiro, encerrando sua participação em 2020 na competição. 

Conte Sua História de São Paulo: o Natal com os primos da cidade

Por Marcos Horta

Ouvinte da CBN

 

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Minha mãe e seus dez irmãos são de Juiz de Fora, Minas Gerais. Aos poucos, cinco deles vieram para São Paulo em busca de um futuro melhor. Ela permaneceu lá e quando nasci, dois já haviam falecido. Assim, em Juiz de Fora ficaram ela e mais dois. Um deles solteiro e um pouco afastado da família; outro com esposa e dois filhos, com os quais convivíamos intensamente. Meu pai faleceu quando eu tinha três anos; e depois de um tempo minha mãe, que já sentia muita falta dos outros irmãos e irmãs, começou a passar os natais em São Paulo. 

Assim, a cada ano, víamos a família crescer. Uma irmã e um irmão tiveram cinco filhos cada um e outro teve duas filhas. A esposa de outro irmão falecido, em Juiz de Fora, veio para São Paulo também, com mais três filhos. Isso significava, a partir de um determinado ano, encontros entre 16 primos com idades muito próximas. Somando-se a eles três casais de tios, pais, mais duas tias solteiras —- e sempre outros primos e primas dos meus primos e seus pais —  que apareciam durante a noite de Natal, nunca tínhamos menos de 30 pessoas reunidas na casa de uma das irmãs da minha mãe.

Ela morava em um vilinha de cinco sobrados, travessa da rua Leandro Dupret, na Vila Clementino. Por esse momento eu esperava a eternidade de um ano, acrescida de mais alguns anos pela duração de oito horas e meia da viagem de ônibus entre Juiz de Fora e São Paulo. Mas eu sabia que valia a pena desde a chegada na rodoviária Júlio Prestes e seu telhado de acrílico colorido, passando pelo caminho para a casa da tia onde seria o Natal. Eu encantado com as luzes da cidade, até quando os tios nos levavam à rodoviária e lá acenavam pra nossa partida. 

Mas o Natal! Ah o Natal! 

Casa devidamente decorada com uma árvore enorme e linda esperando pelos presentes que seriam entregues pelo Papai Noel. Numa estratégia muito bem montada, os tios chegavam com sacolas cujos conteúdos nem os primos que vinham com eles sabiam. Depois que todos estavam lá, uma das tias ficava com as crianças, que subiam para os quartos para dormir. Os outros saíam para  a Missa do Galo, na época à meia-noite. Assim, o Papai Noel poderia entrar. Aceitávamos ir para cama. Dormir, era difícil. Eram mais de 15 crianças, cada uma com sua ansiedade, fora as risadinhas e cochichos. 

Quando os parentes voltavam da missa, éramos chamados e, ao descer as escadas, os olhinhos de cada um iluminavam a sala de tanto brilho diante da árvore rodeada de presentes. Antes de abri-los, tínhamos de cantar Noite Feliz e participar da ceia —- o que durava duas eternidades. Com tudo isso, fica fácil imaginar a alegria e o clima de união que pairava no ar inebriado de amor e embalado pelo som do violão e das músicas cantadas por tios e primos.

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Marcos Horta é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

O Natal no Morro da TV

Vista de Porto Alegre no Morro da TV (arquivo)

A história de Natal que vou contar, o caro e raro leitor de boa memória deste blog haverá de lembrar. Em um e outro texto, já rabisquei algumas reminiscências natalinas em família lá na minha casa de Porto Alegre —- trato-a como minha porque no bairro do Menino Deus morei desde os primeiros anos de vida até o dia em que embarquei para São Paulo e mesmo que isso tenha ocorrido no século passado, e algumas mudanças tenha sofrido, as paredes, o piso, o telhado ainda estão tomados por minhas memória afetivas.

Tão tradicional quanto a Missa do Galo à meia-noite era o ritual em família a espera do Papai Noel, no dia 24 de Dezembro. Enquanto fomos crianças, mantivemos a cerimônia que se iniciava no meio da tarde com um rigoroso banho de chuveiro sob a supervisão da mãe: “esfrega atrás da orelha”, “ensaboa a cabeça”, “não esquece de secar bem os dedos do pé”. Roupa nova e cabelos penteados, meu irmão, minha irmã e eu corríamos para o carro em que o pai nos levaria para passear. O destino sempre foi o mesmo: o Morro da TV, a poucos minutos de casa.

Por mais curta que fosse a viagem, a ansiedade nos acompanhava até o alto daquele morro. Nem tanto pelo belo visual que tínhamos disponível, com boa parte da orla do Guaíba no horizonte; ao fundo a chaminé do Gasômetro, ainda sem o restauro que lhe transformou em ponto turístico; e os prédios que marcavam a geografia do centro da cidade. Sabíamos que a saidinha era estratégica. Seria em tempo suficiente para o Papai Noel chegar e deixar os presentes embaixo da árvore —- se ficássemos em casa haveria o risco de flagrarmos o bom velhinho e quebraríamos a magia que ainda inundava nossas mentes.

Naquela época, não éramos apenas nós que subíamos o Morro. Outras crianças podiam ser encontradas lá em cima, sempre acompanhadas de perto pelos pais. As mães … bem, as mães curiosamente não apareciam. Deviam ter o mesmo problema que a minha que alegava compromissos de última hora para não nos acompanhar no passeio: aprontar os pratos da ceia, era o mais comum; outras vezes era a necessidade de dar os últimos retoques na limpeza da casa. As mães realmente faziam muitas coisas. Tinham tantos afazeres que nunca percebiam a passagem do Papai Noel.  Ele entrava, deixada os presentes, dava no pé e elas juravam que não tinham sequer ouvido algum barulho: — Bah, Mãe! Ano que vem vê se presta atenção!

Assim que voltávamos, já era possível ver o colorido das luzinhas da árvore de Natal refletindo no vidro da porta.  Mal a mãe nos recebia, subíamos correndo a escada sem dar bola para o alerta do pai: cuidado para não cair. Cair? Nós nos jogávamos no chão para identificarmos os nossos nomes nas caixas de presente espalhadas entorno da árvore. Pelo tamanho e formato tentávamos descobrir o que havia dentro. O cheiro dos pratos no fogão e o som com as músicas natalinas gravadas em uma fita K-7 preenchiam o ambiente, enquanto desembrulhávamos os pacotes. Tão excitante quanto saber a surpresa que nos havia sido reservada, era ver o que os irmãos tinham recebido —- os da minha irmã mais velha nem podia tocar; os do meu irmão mais moço, eram nossos.

Hoje não tem mais o pai nem a mãe. Também não sou mais o guri de calça curta daquele tempo. O Morro da TV foi tomado por facções criminosas e as famílias não são bem-vindas. Nem de casa podemos sair, sob o risco da contaminação. A despeito de transformações e restrições, persisto na ideia de acreditar que o Natal se faz presente todo o ano para nos lembrar que podemos sempre renascer, reinventar nossos caminho, reforçar nossas amizades, rever nossos comportamentos e nos renovarmos diante de Deus.

 Feliz Natal!

Avalanche Tricolor: o Papai Noel é azul e tem nome

Grêmio 1×0 São Paulo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O Papai Noel passou mais cedo aqui em casa. E vestido de azul. Porque essa é a tradição no Rio Grande, que começou lá pelo fim dos anos de 1950 como uma brincadeira de torcedores arqui-rivais. O resultado do último Gre-Nal do ano, que fechava o Campeonato Gaúcho, decidia nos costumes do nosso povo que cor seria o Papai Noel.

Em 1961, um jovem de apenas 22 anos havia sido escalado para ficar no vestiário a espera do apito final e invadir o gramado dos Eucaliptos — antigo estádio colorado —-  em caso de vitória tricolor, que veio em uma incrível virada de 3 a 2 com um homem a menos em campo —- sim, a imortalidade nos acompanha desde o início de nossa história. 

Após superar a barreira de policiais que tentavam impedir qualquer invasão de torcedores, o Papai Noel foi parar nos braços dos jogadores e erguido como um troféu para a história. Vestindo a parafernália do bom velhinho, naquele ano, estava o jovem que mais tarde se transformaria em um dos mais gremistas dos jornalistas gaúchos, Paulo Sant’Ana. Se não foi o primeiro Papai Noel azul certamente foi o mais famoso de todos até a noite de hoje.

Nesta ante-véspera de Natal, o Papai Noel azul que invadiu a sala de casa pela tela da televisão foi outro. Atende pelo nome de Diego Souza, mas pode chamá-lo de Goleador. O atacante que passou a partida sendo escorraçado pelos adversários teve uma e apenas uma chance de chutar a gol; e de costas para o gol. Tudo começou na sem-vergonhice de Ferreirinha, o guri driblador que Renato acabara de colocar em campo. Com cara de piá que ainda acredita em Papai Noel, Ferreirinha se lançou para cima do marcador e o deixou para trás com velocidade e talento no drible. Cruzou forte e fez a bola chegar a outro dos nossos guris, Pepê, que de cabeça jogou para dentro da pequena área, onde os zagueiros se atrapalharam para deleite de Diego Souza.

O gol de Diego não é definitivo para nos colocar em mais uma final de Copa do Brasil … 

A propósito: a performance do Grêmio nesta Copa é inacreditável. Fomos o primeiro campeão. Chegamos a semifinal em quase metade das edições disputadas. E vencemos cinco Copas do Brasil. Tem de respeitar.

Como dizia, caro e raro leitor desta Avalanche, o gol de Diego não é definitivo. Tem muito jogo pela frente na partida de volta no Morumbi. E um adversário bem treinado e embalado. Posso lhe garantir, porém, que independentemente do que vier acontecer, este ano o Papai Noel é azul, não só porque ganhamos o Campeonato Gaúcho lá no início da temporada, mas, principalmente, porque o “bom velhinho” tá batendo um bolão veste a camisa 29.