Conte Sua História de São Paulo: a casa 147 dos Vedolins

Ieda Vedolin

Ouvinte da CBN

Hospedaria dos Imigrantes, SP, reprodução Wikipedia

Essa história, começa com a mensagem que recebi de Eduardo Vedolin, meu sobrinho, que durante a pandemia pesquisou como foi a imigração da família:

“O Ano de 1886 foi de muito luto nas famílias daquela cidade — Campo de San Martino, região do Veneto. Devido as más condições de vida da época deve ter tido alguma doença que atingiu a todos. — ou causada pela desnutrição ou por uma peste contagiosa. Foi quando houve maior número de mortes registradas na cidade, vitimando pessoas de todas as idades. 

A casa 147, onde moravam os Vedolins, foi testemunha disso. Em menos de um mês, três pessoas morreram: a Elisabetta, então com 20 anos, a pequena Matilde, com apenas dois, e a mãe, Angela, com 55. A casa tinha sete moradores, passou a ter apenas quatro no fim de 1886. E, em breve, teria cinco, pois a Catarina já estava grávida do Emílio, mas ele não chegaria a morar nem por um ano nela.

Provavelmente isso motivou o casal Osvaldo e Catarina a buscar novas condições de vida, fora daquele lugar. E deixaram a casa 147 em fevereiro de 1888, com destino ao porto de Genova. Embarcaram no vapor Ila de Lozana para Santos, chegando em 19 de março do mesmo ano”

No emaranhado de nomes e datas que se seguiram a mensagem de Eduardo, relembramos nossa história. Meus pais, avós de Eduardo, Wilma Thomé e Attilio Vedolin, foram namorados de infância que acabaram por se casar, tendo seus pais e avós partido da Itália em direção ao Brasil no fim do século 19. A primeira parada de todos foi na Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nos relato, tivemos passagem pelo Belenzinho, pela Vila Operária Maria Zélia, pelo Brás e seus casarões que serviram de lar aos Schiavo e Thomé. 

Neste inicio de século 21, dentro de nossas casas, voltamos ao passado de nossos ancestrais. Imaginamos os medos diante do desconhecido, fomos tocados pela esperança de uma vida melhor, e encontramos histórias de coragem e esperança. 

Ieda Vedolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração da carta foi uma gentileza do cônsul da Italia Fillipo La Rosa. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para conhecer outras histórias da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Mundo Corporativo: “a gente não quer uma comunidade de idiotas”, diz Glauter Jannuzzi

Foto de fauxels no Pexels

“Os gregos diziam que os idiotas eram aquelas pessoas que nao cultuavam o bem comum apenas o bem privado. Então, a gente não quer uma comunidade de idiotas …”

Na costura entre o que escreveu o autor húngaro Frigyes Karinthy, em 1929, sobre o estreitamento da relação das pessoas, e a tecnologia do blockchain, de data mais recente (2008), Glauter Jannuzzi nos oferece uma colcha de conhecimento que fortalece a ideia da vida em comunidade. Ele é diretor de Comunidades da Microsoft para a América Latina, empreendedor social e autor do livro “O poder do peoplechain — como comunidades podem tornar empresas e profissionais mais valiosos’ (AltaBooks).

Peoplechain foi como Glauter batizou essa corrente que se faz necessária entre as pessoas, seja no ambiente empresarial seja no campo pessoal:

“O conceito de comunidade ou de meetups é a ideia de que quando você sai do ambiente corporativo e vai para um de comunidade, você se sente mais seguro para mostrar o que você sabe; e encontra quem ajuda você a preencher algumas lacunas e alguns gaps de conhecimento”.

Na formação desses grupos, criados na maior parte das vezes de forma expontânea, ganham os indivíduos. E as empresas também: aquelas consideradas mais valiosas, tais como Apple, Microsoft e Google, já perceberam que não é possível trabalhar somente com os seus colaboradores e funcionários. Para alcançar o conhecimento e atender as novas demandas que surgem a todo momento, precisam estar conectadas com a comunidade ao seu entorno.

Diante das mudanças provocadas pela pandemia, que necessariamente não impede a formação desses grupos, Glauter alerta para o risco de substituirmos a conexão humana pela digital:

“Estamos há um ano e um pouquinho na frente de telas e às vezes perdemos a conexão humana com aqueles que nos cercam, na família, na vizinhança …. estamos tendo um momento de contra-senso: ouvimos muito falar em influenciadores e corremos o risco de criarmos egossistemas. Ou seja estamos muito conectados há várias pessoas, mas talvez não nas causas mais importantes”.

Ego e vaidade, aliás, são os principais motivos de atrito em comunidades. As duas palavras apareceram em destaque: 46% das respostas de cerca de 300 pessoas, de 20 países da América Latina, quando Glauter quis saber quais as “tretas” que mais precisavam ser resolvidas nessas relações. Claro que ao buscar a opinião delas, a maioria líderes de comunidades, ele foi além:

Com base nas respostas e na experiência que desenvolveu ao longo do tempo, Glauter descreve no livro “O poder do peoplechain” como funciona o método PLACE, que envolve cinco passos:

Seguindo essa trajetória, Glauter definiu dois tipos de profissionais que podemos encontrar no mercado de trabalho: o rico e o pobre — termos que não se referem ao poder econômico de cada um, mas a capacidade de criar relações produtivas nas comunidades:

“O profissional pobre, ele pensa muito no próprio umbigo, ele está sozinho, ainda vive em um mundo de ilha, isolado no mundo. Consegue até gerar o seu patrimônio, mas está muito focado na própria persona, no ego, e acaba criando um “egossistema” e não um “ecossistema”. E o profissional rico, ao contrário, ele não é uma ilha, é uma ponte,  entre outras pessoas, e nesse sentido, ele sabe dar valor ao tempo e as pessoas com as quais se conecta”

O conceito do peoplechain, o resultado completo da pesquisa que desenvolveu e a descrição do método PLACE estão publicados no livro “O poder do peoplechain”. O caro e raro leitor deste blog pode comprar o livro no site da Altabooks com desconto de 50% ao usar o cupom CBN50.

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN, na nossa página do Facebook e no canal do YouTube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, e em podcast. Colaboram com o programa: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves.

Avalanche Tricolor: gol, gol, gol ….

Grêmio 8×0 Aragua

Sul-Americana — Arena Grêmio

Foram necessários poucos minutos para saber o risco que corríamos de golear o adversário. Foi um, foram dois, foram gols atrás de gols. Por um lado. Por outro. Por cima. Por baixo. Confesso, perdi a conta no meio do caminho. E tive de algumas vezes conferir o placar na tela da televisão. Falar de um jogo assim, querer entender essa superioridade, é desnecessário. Por isso, deixo as palavras de lado e reproduzo as imagens de Lucas Uebel, fotógrafo do Grêmio FBPA, que acompanha o time onde o time estiver. Hoje, teve direito a cumprimento de Maicon, que marcou de penalti. Considere-se cumprimentado por mim, também, Lucas — a quem não conheço pessoalmente, mas usufruo da arte de registrar os mais belos momentos da nossa Imortalidade.

A situação do jovem brasileiro na pandemia: sem ensino e sem emprego, tem esperança?

Foto de Tim Gouw no Pexels

A vida não está fácil para ninguém —- eu sei, começar um texto com essa frase que já virou lugar-comum não é muito inspirador para você seguir com a leitura. Porém, o fato é que a frase está cada vez mais comum desde que a pandemia se iniciou. E de tão comum, ganhou expressividade. Parece contraditório, mas faz sentido. Especialmente se você for um jovem que por jovem que é teve de enfrentar o que enfrentamos desde o ano passado sem a experiência da dor que forjou a personalidade e a alma dos adultos.

É da juventude que quero falar nesse bate-papo com você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Porque para eles, os jovens, as coisas estão bem difíceis. Podes crer (acho que nenhum jovem usa mais essa expressão, né ?!?).

Imagine a situação do cara ou da cara. No pico de sua energia e com hormônios em alta rotação, foram todos convocados a se trancarem em casa, se afastarem dos parceiros, segurarem o tesão pela vida e abrir mão de parte dos direitos que conquistaram. 

Enquanto alguns perderam o direito às relações, outros tiveram roubados o direito a educação. 

Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Costas do Estado do RS, informa em texto escrito na Gazeta do Sul, que 91,9% das mais de 3,6 mil redes municipais tiveram de completar o calendário escolar de 2020 com atividades não presenciais:

“Dados do IBGE indicam que 1,4 milhão de crianças e adolescentes não frequentaram a escola em 2020, sendo que outros 4,1 milhões, embora vinculados a algum estabelecimento, não tiveram acesso a atividades educacionais (para se ter uma dimensão do que representam esses números: todo o Estado do RS possui 2,2 milhões de alunos na educação básica)”

Perderam relações, perderam qualidade de ensino e perderam, também, o direito ao trabalho —- como mostram números divulgados nos últimos dias por diferentes instituições. 

Ainda nessa quarta-feira, em gravação do programa Mundo Corporativo, Helen Andrade, head de Diversidade e Inclusão da Nestlé, lembrou que para a turma dos 18 aos 24 anos, a taxa de desemprego no Brasil está na casa dos 30%, segundo cálculo do IBGE. Tema que preocupa a empresa que ela representa — hoje, o maior grupo de alimentação do mundo. Para tentar conter esse drama, a Nestlé tem  desenvolvido programas para incluir esses jovens no mercado de trabalho. Apostam na ideia de que com a juventude e a criação de projetos para manutenção e atualização de profissionais com mais de 50 anos, conseguem criar um ambiente colaborativo e criativo, unindo vivacidade e vivência. A experiência, porém, é exceção no mercado de trabalho brasileiro.

Sem emprego e sem escola, esse jovem é também um sem esperança. E como é triste para nós, que somos pais, assistir ao desalento da juventude. Porque são rapazes e moças que tinham nos programas de estágio ou de aprendizagem, além da formação profissional e da permanência na escola, a possibilidade de complementarem a renda familiar. Considere que o salário médio em São Paulo é de mais ou menos R$ 650,00 — ou seja, se estiver no mercado de trabalho, essa turma leva  para casa mais dinheiro do que o auxílio-emergencial, já não fossem suficientes a formação técnica, a absorção de conhecimento, o desenvolvimento da personalidade e autoestima adquirida.

É triste. É doloroso. É um perigo porque jovens sem esperança não esperam o futuro, tentam soluções imediatas nem sempre as melhores e mais saudáveis. 

Como de desespero já estamos cheios, trago algumas informações que talvez nos ajudem a respirar um pouco mais —- ainda que atrás de uma necessária máscara de proteção.  Dois estudos divulgados nos últimos dias sinalizam que talvez o mercado de trabalho comece a acenar novamente para os mais jovens, mesmo diante de muitas das restrições que ainda vivemos pela incompetência na gestão da crise sanitária que encaramos desde março do ano passado. 

Um levantamento feito pelo CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola, que reuniu informações do seu banco de dados, identificou que o número de vagas abertas para jovens cresceu 28,9% no 1º trimestre de 2021 se comparado aos últimos três meses de 2020. No Estado de São Paulo este aumento chegou a 38,9%.

Se olhar para os dados do CAGED, tivemos o melhor primeiro trimestre de toda a série histórica agora em 2021, com recorde de abertura de vagas para aprendizes de 14 a 24 anos. Na análise feita pelos técnicos da Kairós  Desenvolvimento Social, houve um saldo positivo, entre contratados e demitidos de 43.570 postos de trabalho.

Antes de comemorar, lembre-se: disse que talvez possamos respirar, mas ainda sem tirar a máscara. Temos de colocar os números nos seus devidos lugares,  

Tanto o CIEE como a Kairós comparam o primeiro trimestre deste ano com o último trimestre do ano passado —- o ano em que a tragédia sanitária assolapou nossas expectativas e enterrou nossos sonhos. E, principalmente, do sonho de muitos jovens aprendizes que fazem parte de grupos mais vulneráveis. 

Infelizmente, se queremos ter um olhar mais preciso sobre o que acontece na nossa vida, de acordo com números e estatísticas, é preciso pegar o retrato de agora e comparar com a fotografia tirada no mesmo período do ano passado. Ou seja, primeiro trimestre de 2021 com o primeiro trimestre de 2020 —- quando os efeitos da pandemia ainda não tinham sido plenamente absorvidos pela economia.

Segundo o CIEE, nessa perspectiva, a oferta de oportunidades de estágio e aprendizagem despencou 28,7%, no Brasil. Olhando aqui para a região em que vivo, o tombo foi ainda maior na capital paulista, 29,3%. No Estado de São Paulo 27,2%.

A Kairós traz outro cálculo que demonstra o quanto ainda precisaremos reagir para nos recuperarmos do legado de 2020. Lembra do saldo de 43.570 vagas abertas que falamos antes? Está distante ainda das 72.885 vagas de aprendiz que foram fechadas desde abril do ano passado, quando começaram os efeitos da pandemia. 

Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós, lamenta que “não houve nenhuma medida do governo para proteger esse grupo (de jovens), nem responsabilidade social das empresas para manter as vagas”.

Já Marcelo Gallo, superintendente Nacional de Operações do CIEE, prefere destacar a perspectiva de que haverá um crescimento gradual do número de vagas ao longo do ano — o que pode ser um alento para quem já viu o mês de maio se iniciar e até agora não encontrou o seu espaço no mercado de trabalho. 

Entre número e estatísticas, diagnóstico e prognósticos, nós, pais, temos a responsabilidade, assumida diante da sociedade quando aceitamos a ideia da paternidade, de mostrarmos a todos esses jovens —- em especial aos nossos jovens filhos, que ainda estão sob nosso campo de observação — que  toda e qualquer saída para esse cenário está pautada na ideia de oferecemos a eles um ambiente eticamente saudável. Porque nos cabe, independentemente da dimensão das crises que enfrentamos —- humanitária, sanitária e econômica — a missão de oferecermos aos nossos filhos a educação —- e não apenas o ensino — que permita que eles façam as melhores escolhas diante dos problemas que têm de administrar o tempo todo no relacionamento com os amigos e com a família, no emprego ou na falta dele, na escola ou na vida.

Carecemos de presença

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Khoa Võ no Pexels

Queria escrever um texto suave que falasse de esperança e prosperidade.

Queria escrever sobre meninos correndo livres pelas ruas e praças.

Sobre pessoas e abraços apertados. 

Mas há uma ausência de palavras.

O tempo, que antes parecia um aliado, agora nos escapa, nos confunde.

O presente, marcado por escassez de novidades, reforça em nossas memórias uma melancolia sorrateira, daquelas que precisamos vigiar para não enveredar.

É preciso um certo esforço para que o coração seja acalmado. É preciso um certo esforço para evitar que ele retenha feridas de uma face da realidade, ainda pouco conhecida.

Resistimos.  E pouco a pouco, com esperança tímida, imploramos ao futuro que se encarregue das mudanças que nos permitam sorrisos, afagos, encontros.

Somos equilibristas nessa tal linha da vida…

O que nos sustenta? Não estamos sós. 

Somos a somatória das pessoas que passam por nós. Por vezes, esquecidas ou distantes, mas nunca ausentes; porque de certo modo, carregamos cada uma dentro de nós.

Sua presença repercute em nossas crenças, medos e expectativas. Sua presença ressoa no olhar acolhedor, nas mãos que nos amparam ou nas palavras que nos encorajam.

Carecemos de presença.

Dessas que nos permitam percorrer um caminho que nos leve a encontrar um sentido e seguir com esperança.

Desejamos ser presença. 

Dessas que permitam ao outro percorrer um caminho mais feliz, com uma vida digna e um futuro melhor. 

Como diria Saint-Exupéry:

“O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: meu WhatsApp com o Diego Souza tá bombando!

Caxias 1×2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Devo ser figura rara entre usuários do WhatsApp. O número de grupos no meu mensageiro é restrito. Aquele famoso da família, jamais foi construído. De amigos, nunca tive — refiro-me ao grupo, lógico, porque amigos consegui manter alguns na minha lista. Bem poucos para ser sincero. Mas isso resolvo no divã. O grupo do Jornal da CBN só se formou há um ano e por causa da pandemia. O outro que tenho são das duas turmas de aula que frequento. Têm data para expirar. O da Igreja preservo porque é apenas para receber recados. Ninguém pode escrever nele, além do administrador. 

Quem entra no meu WhatsApp, vê de cara a mensagem: “vale a pena?”. Pode parecer antipático, mas tem o objetivo de alertar as pessoas para que reflitam antes de escrever. Hoje, desperdiçamos muito tempo gerenciando a quantidade gigantesca de mensagens que navegam pelas mais diversas ferramentas de comunicação. Assim, sugiro: vamos escrever o estritamente necessário e ajudarmos a combater um fenômeno que tem causado sérios problemas de saúde mental: a infoxicação —- resultado do volume de informação que intoxica nosso cérebro, dificulta o entendimento dos fatos, e causa estresse e ansiedade.

Falo desses fatos em uma coluna destinada a comemorar (ou lamentar) resultados em campo porque graças a uma missão que assumi desde que Diego Souza foi contratado — por indicação de Renato, lembra?!? — meu WhatsApp está movimentado.

Já contei em Avalanches passadas que, ao saber que o filho querido do meu amigo Luiz Gustavo Medina é fã do atacante gremista —- vista qual camiseta estiver vestindo —-, decidi enviar uma foto de Diego comemorando cada gol marcado pelo Grêmio. Confesso que começou como uma tentativa, sem sucesso, de cooptar o menino, são paulino por influência do pai, para o nosso Imortal e hoje virou um ritual. 

Diego marca, saco o celular, registro a comemoração na tela da TV e envio para o WhatsApp do Teco. Pra ter ideia, só neste domingo, foram duas imagens transmitidas. Uma ainda no primeiro tempo, quando nosso goleador aproveitou uma bola desviada pelo zagueiro adversário e em um chute cruzado colocou o Grêmio à frente no placar. A outra foi na cobrança de pênalti no segundo tempo, quando parecia que não encontraríamos mais espaço na defesa que se postava diante da área para segurar o empate alcançado ainda antes do intervalo — a propósito, uma curiosidade: sabia que o Grêmio não desperdiçou nenhum pênalti neste ano?

Com os dois gols que deixaram o Grêmio em vantagem na semifinal e — se confirmarmos a classificação — levarão a decisão do Campeonato Gaúcho para a Arena, Diego Souza chegou a melhor marca dele em um início de temporada —- e duvido que outros tenham conseguido algo semelhante, neste ano: em nove partidas disputadas marcou 11 gols. Sim, mais de um gol por partida. Aos 36 anos, o artilheiro combina força, precisão e experiência para estar bem colocado, saber vencer a disputa pesada dentro da área e encontrar o momento certo para o chute. 

Graças a Diego Souza, meu WhatsApp tá bombando! 

Rádios precisariam de mais de 10 dias para anunciar os mortos da Covid-19, no Brasil

Na época da escola — e estamos falando lá do fim dos anos 1970 e início de 1980, em Porto Alegre —, nosso sonho de consumo era passar no vestibular e entrar em uma das duas grandes universidades à disposição: a PUC, a melhor das particulares, e a UFRGS, que pronunciados URGS, sem o F de Federal. No ritual de passagem, havia um hábito que sempre achei curioso — e não sei isso acontecia aqui pelas bandas de São Paulo: a lista de aprovados era anunciada no rádio, com a leitura de curso após curso e de nome após nome. As famílias colavam o ouvido no aparelho e ficavam chuleando para que o nome do rebento fosse anunciando pelo locutor. 

Nome lido na rádio era motivo de festa em casa. Lembro de minha mãe, todas as vezes que ouvia o nome de um dos filhos na lista, corria para pintar uma faixa e estender na frente da casa — desconfio que até tivesse a faixa pintada de antemão. Naquela época, claro, não havia rede social, whatsapp e internet na forma que conhecemos. E a única maneira de ostentar o orgulho da família, era com um trapo de pano e mal pintado pendurando na frente de casa: “aqui tem um bixo” —- assim mesmo com “x”. Fui exposto duas vezes, na primeira quando passei no curso de jornalismo na PUC, na segunda quando passe no vestibular para educação física na federal. 

De minha parte, o que me chamava a atenção era a forma como os locutores de rádio anunciavam o nome de cada candidato e curso, em uma velocidade incrível e entendível. Ocupavam parte da tarde com aquela transmissão que era interrompida apenas para a leitura dos reclames comerciais —- os cursinhos pré-vestibulares eram os principais anunciantes.

Por que lembrei dessa história? 

Na sexta-feira, fui levado a falar sobre a triste marca de mais de 400 mil pessoas mortas por Covid-19, no Brasil. Logo me veio à mente o site Inumeráveis, criado no início desta tragédia, que decidiu registrar o nome e, na medida do possível, a história de cada uma das centenas de milhares de vidas perdidas durante a pandemia. Imaginei que pudéssemos, para marcar a importância de cada um na vida deste país e, em particular, na vida de suas famílias, abrir nossa programação de rádio para ler o nome e o sobrenome dos mortos:

“Abadia de Fátima Alves, Abdiar Martins de Moura, Abdon Albuquerque Cavalcante, Abel Augusto Teixeira, Abel da Cruz Neto, Abel Jorge Cassimiro, Abein Maria Pereira Cardoso, Aberal Riberia, Abigail  Pinto Magalhães, Abila Silveira Bueno …..”

Decidíssemos ler a lista de nomes aprovados para essa passagem da vida para a morte — e aqui deixo que cada um dos raros e caros leitores deste blog dê a conotação que sua crença e religião oferece ao momento — não bastaria dedicar apenas uma tarde da programação de rádio. Um dia inteiro não seria suficiente para ler o nome dos mais de 404 mil mortos por Covid-19 — número superado neste sábado, quando escrevo este texto. Uma semana teria se passado e os locutores continuariam a divulgar o nome e o sobrenome, naquela que seria a mais extensa transmissão de rádio ja ouvida neste país. Mesmo assim, a lista não estaria completa. 

Considerando que um minuto seria necessário para que 30 nomes fossem registrados; as rádios teriam de dedicar mais de 10 dias de sua programação para nominar todos os mortos, no Brasil. Talvez fosse o caso de alguma emissora dedicar-se a essa missão — o que seria um marco na história diante dessa que é a maior tragédia vivida pela nossa geração. Anunciante não faltaria: a programação seria patrocinada pelo Governo Federal – Pátria Amada, Brasil.

Mundo Corporativo: para Clodoaldo Nascimento, da Yes!Idiomas, escolas terão três modelos de ensino após a pandemia

Foto de Cristian Rojas no Pexels

“O online veio para ficar. Ele vai ser uma ferramenta que nós vamos utilizar no nosso dia a dia de diversas formas, seja para atender a pessoas que trabalham e tenha dificuldade de tempo seja para atender a pessoa que quer aprender rápido e em qualquer lugar” 

Clodoaldo Nascimento/Presidente da YES!Idiomas

Escolas de inglês passaram a anunciar cursos 100% online como se o modelo fosse uma inovação, apesar de a estrutura tecnológica já estar à disposição e negócios das mais diversas áreas se sustentarem no digital, há muito anos. De acordo com Clodoaldo Nascimento, presidente da YES!Idiomas, entrevistado do programa Mundo Corporativo, a demora para essa migração —- que apenas ocorreu devido a pandemia —, está ligada ao apego a um padrão  que fez sucesso ao longo do tempo:

“Na verdade, talvez, (havia) aquela coisa de você quebrar o paradigma. Por exemplo, a ideia de que a aula é presencial, o professor tem de estar perto do aluno, falar no pé do ouvido dele. Principalmente nos idiomas temos às vezes essa dificuldade da pronúncia. E tinha a dificuldade de conexão. Isso fez com que gente procrastinasse essa vontade de levar para o EAD.Não teve jeito. A gente teve de antecipar este EAD”.

No caso da YES a troca das aulas presenciais para o ensino à distância ocorreu nas 180 escolas e no atendimento aos cerca de 60 mil alunos, nos 18 estados em que a rede de franquia atua, no Brasil. Clodoaldo disse que a transformação teve de ser feita em 15 dias, período em que a franquia teve de oferecer plataformas para a realização dos cursos, aulas foram gravadas e as unidades regionais criaram serviços de apoio para orientação dos alunos:

“Quando a gente viu que tinha esse problema, eu reuni minha parte pedagógica reuni minha parte operacional. E montamos um comitê de crise. 24 horas por dia, a gente ficava pensando na melhor maneira de a gente poder entregar o melhor produto. Nós tivemos de apressar um processo que talvez levasse anos e nós tivemos de fazer em duas semanas”.

Ao mesmo tempo que correm para se adaptar, as escolas tradicionais de idioma assistem ao surgimento de opções de ensino de língua estrangeira por aplicativos, que podem se transformar em concorrentes no setor.  Clodoaldo entende que os APPs não tiram alunos das escolas, são complementares ao ensino e, provavelmente, serão usados pelas instituições. Para ele, a partir de agora, haverá três modelos a serem ofertados no setor:

“A gente só tinha um modelo, eu acho que nós vamos ter três, que é o modelo tradicional presencial, a gente não pode deixar de ofertar porque tem pessoas que têm a predileção. Vamos ter um modelo híbrido, que vai ser uma coisa mais flex, na questão tempo. E vamos ter o 100% online”.

Mesmo que o ensino seja à distância, a gestão continuará sendo presencial, destacou Clodoaldo Nascimento, que é presidente da YES!Idiomas desde 2004. Ele começou como vendedor de cursos de inglês, em 1989 e dois anos depois chegou na YES, onde foi funcionário e concessionário até assumir o comando da rede. Par quem pretende investir no setor de franquias, Clodoaldo alerta:

“É preciso ter disponibilidade de tempo, saber que ele vai operar aquela franquia, porque o sucesso de uma franquia é uma coisa que tem a ver com parte da franqueadora — você está associado a uma marca, que já está no mercado, está consolidada —  mas só a marca consolidada, sozinha, ela não faz nada. Ela precisa de alguém que esteja atrás do balcão, dando o seu tempo, fazendo a coisa realmente acontecer”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site, na página do Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e domingo, às 10 da noite em horário alternativo. Está disponível também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves. 

Avalanche Tricolor: dois gols de um Grêmio que já conhecemos



Lanus 1×2 Grêmio

Sul-Americana — estádio La Fortaleza, em Lanús (ARG)

Festa de Ferreirinha no segundo gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Há quem já enxergue o redesenho do futebol do Grêmio, que está sob nova direção há pouco mais de uma semana. E veja nos dois gols marcados no freguês argentino, na noite dessa quinta-feira, as mudanças impostas pelo técnico Thiago Nunes. Longe de mim querer tirar o mérito do treinador ao escrever esta Avalanche, na manhã de sexta-feira, após ler parte da crônica esportiva e especializada do Rio Grande do Sul. A despeito de a chegada dele provocar o efeito ‘chefe novo’ que influencia o desempenho tanto de acomodados quanto de  desmotivados, tem potencial para tornar o time ainda mais forte, pelo que já mostrou na carreira que construiu até aqui. Porém, por mais que confie —- e eu sempre irei confiar —-, é preciso parcimônia na análise e um refresco na memória. 

Em 2017, o Grêmio enfrentou o mesmo Lanús em competição mais nobre e fase mais decisiva. Disputamos o título da Libertadores e vencemos a primeira partida no mesmo estádio de ontem —- La Fortaleza —- e com o mesmo placar de ontem. Coincidências, é lógico. Pois nem Grêmio nem Lanús conseguiram na temporada anterior alcançar a mesma performance da época em que se candidataram ao maior título sul-americano. Haja vista que hoje temos de nos contentar com a Sul-Americana.

Resgato o primeiro jogo daquela decisão porque basta um Google —- veja no vídeo a seguir —- para lembrar que os dois gols que nos abriram caminho para o título surgiram de jogadas semelhantes a que nos permitiram chegar aos gols de ontem: pelas pontas, com velocidade e talento.

Em 2017, o Grêmio saiu na frente no placar após a cobrança de escanteio do adversário. A defesa despachou a bola da área e foi parar nos pés de Fernandinho. Nosso atacante disparou contra os marcadores em altíssima velocidade até chegar na cara do gol e marcar. 

O segundo gol começou em outra arrancada de trás, com jogada  pelo lado esquerdo, em alta velocidade. A bola caiu nos pés do iluminado Luan e  nosso 7 usou de seu talento, driblou quem podia, deixou os zagueiros para trás e de cavadinha encobriu o goleiro para marcar aquele que foi o gol mais bonito da Libertadores.

A vitória de ontem começou a ser construída após a defesa tirar uma bola da área, o meio de campo brigar pela disputa dela e encontrar Ferreirinha inspirado na ponta esquerda. O guri, atrevido, fez um giro sobre o marcador e correu em direção ao gol para servir Leo Pereira, que também vinha em velocidade. 

Depois de levarmos o empate, reagimos novamente pelas pontas. Luis Fernando — aquele que fazia alguns arrancar os cabelos quando Renato mandava aquecer ao lado do gramado — arrancou pela direita, deixou o marcador para trás e serviu a quem estivesse chegando na área. Era Tiago Santos que estava a espera da bola quase na pequena área. Sim, aquele “volantão”, “perna de pau” e “velho”, que ao ser contratado foi motivo de críticas e pedidos de demissão de Renato, estava, aos 41 minutos do segundo tempo, lá no ataque para dar assistência à Ferreirinha que, mais uma vez, usou de talento para fazer a bola chegar nas redes.

A esta altura, você, caro e raro leitor desta Avalanche, deve estar pensando: o Mílton parece viúva do Renato. Que pareça!

A minha admiração e respeito por ele sempre será enaltecida neste espaço, mesmo com todas as ressalvas que já fiz e registrei em Avalanches passadas. Mais do que isso, porém, é que faço questão de dar crédito a quem merece, sem desmerecer os demais. 

Assim que Renato chegou ao comando do Grêmio, em setembro de 2016, muitos passaram a elogiar a maneira como o time estava se apresentando em campo —- como se aquela performance tivesse sido inventada naquele momento. Esquecíamos de que a lógica do jogo havia sido montada por Roger,  que mudou a maneira do Grêmio se comportar em campo, valorizando a bola no pé, o toque rápido e o deslocamento em velocidade. Renato aprimorou a marcação e soube aproveitar muito bem a estrutura deixada por seu antecessor. Fez o nosso futebol evoluir e se tornar campeão.

Com Tiago Nunes nossa expectativa é a mesma. O treinador vai implantar o que pensa ser o futebol moderno, a partir de um modelo de jogo que já conhecemos há algum tempo e se transformou em uma de nossas marcas. Ele não vai reinventar o Grêmio. Vai evoluir com o Grêmio. E nos fazer campeão, mais uma vez! É a minha esperança.

O povo da Antártica que se cuide

Na confusa forma de falar e pensar, especialmente quando é exigido dele o improviso —- e como improvisa?!? —-, o presidente Jair Bolsonaro fez uma convocação em favor do turismo no Brasil  que incluiu entre os nossos dotes a Antártica:

“Conheça o Brasil por dentro e por fora. A verdade acima de tudo. Amazônia, Antártica …” —- disse enquanto divulgava um canal de viagens. 

Essa extensão territorial que só cabe nas afirmações do presidente motivou uma série de brincadeiras na internet, que costuma não perdoar. Porém, contaminado por este cenário conspiratório que inclui de tentativa de invasão das nossas florestas por forças estrangeiras a vírus produzido em laboratórios chineses, fiquei preocupado com o improviso de Bolsonaro. 

Teria sido um ato falho? Destes em que o nosso inconsciente fala mais alto e revela desejos íntimos?

Diante de outros atos (também falhos) do presidente, não me surpreenderia em saber que sua Casa Civil —- aquela que faz coisas escondidas do presidente —- estaria, em parceria com seu Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Defesa, planejando ocupação da Antártica pelo Brasil. Não seria o primeiro. 

Em 1978, o General Jorge Rafael Videla, ditador, enviou para a Antártica algumas famílias, incluindo uma jovem grávida, de quem nasceu naquele continente um menino, batizado Emílio —- que teria sido a primeira pessoa a nascer na região. A intenção da ditadura argentina era povoar a Antártica e ficar com ao menos um naco do continente, quiçá dominar o todo.

A medida sem sucesso, tresloucada e típica dessa turma, contrariava de forma explícita o Tratado da Antártica, de 1959, assinado pela Argentina e mais 28 países que, no passado, reivindicavam um pedaço de terra (ou de gelo) e depois entraram em acordo, abriram mão de suas pretensões e aceitaram a ideia de que a região deveria ser área livre em nome da exploração científica e em favor da humanidade. 

A propósito: como mostra a história, o ditador argentino em seu sonho conquistador entrou numa fria.

Claro que pode ser apenas ignorância geográfica do presidente ou uma trapalhada provocada por um cérebro preocupado com fantasmas inexistentes (vide os comunistas de plantão) e riscos iminentes (eis aí  a CPI da Covid), mas —- diante de tantos absurdos que já assistimos nos debates internos deste governo —  é sempre bom ficar em alerta. Vai saber o que passa na cabeça de Bolsonaro.