Conte Sua História de São Paulo: “tenho a cor negra no sangue que a pele não mostra”

Rodrigo G. Tomaz

Ouvinte da CBN

foto do autor

Amarelo, preto, vermelho, branco. 

Sua foto o que diz? 

Meu pai foi negrinho engraxate, minha avó preta empregada, a mãe dela escrava, e Zé Índio meu vô.

Tenho cor clara pra quem olha, mas melanina não define quem sou.

Sou ítalo africano brasileiro americano. 

Sou cidadão do mundo, tenho um pouco de tudo.

Já fui menino de rua, do mato, da loja, da escola, agora da Califórnia. 

Tenho uma história mulata que minha aparência sonega. 

Sou o mesmo que eles, aqueles julgados por fora. 

Injustiça que mata. 

Mas foi mais fácil pra mim. 

Subir os vidros do carro, esconder os pertences, sentir o medo no olhar. 

Já estive dos dois lados, se assustar e ser julgado, mas qualquer roupa me muda de patamar.

Posso ser rico, ser pobre, bem vestido ou rasgado. 

Sou apenas o que decido ser.

Tenho a cor negra no sangue, que a pele não mostra.

Mas a vida é injusta, e foi mais fácil pra mim.

Sou igual mas diferente. E é bem mais fácil pra mim.

Eu nunca fui presidente, atleta de elite, ou guitarrista dos bons. Não fui artista famoso, escritor respeitado, ou então pensador. 

Por que eu seria superior? 

Eu sou melhor em quê? 

Se tem um vírus que mata, bota o lenço na cara. 

No espelho o que vê?

A cor do pano te muda?

Você se sente mais forte, mais esperto, mais nobre? 

A cor muda você? 

Se tapamos o rosto, se olhamos no olho, não somos todos iguais?

Você se acha distinto, mas é melhor em quê? 

Rodrigo Tomaz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: diversidade gera inovação, diz Emerson Feliciano, consultor de carreiras

“Se o seu modelo de pensamento não estiver programado para o sucesso profissional, não importa o que você faca, você não vai gerar o resultado que você espera”

Poucos, muito poucos, são os negros que sentam nas cadeiras reservadas aos conselheiros das 500 maiores empresas brasileiras. Nem 5% delas, diz pesquisa do Instituo Ethos. E se você circular por suas sedes, perceberá que o mesmo acontece com os cargos de executivos (4,7%) e gerentes (1,3%). Foi com esses números que Emerson Feliciano iniciou sua entrevista no programa Mundo Corporativo. Mesmo com a ressalva de que prefere as histórias aos números, o consultor recorreu às estatísticas para dar noção do grande caminho que se tem para equilibrar a balança étnico racial no ambiente empresarial.

Ele próprio encontrou barreiras na sua trajetória profissional, o que somado ao racismo estrutural e a falta de oportunidade que atinge mulheres e homens negros, o levou a se dedicar no treinamento e mentoria de carreiras. Emerson criou o curso Mentoria P&D – Profissional e Diferenciado e trabalha com o objetivo de permitir que profissionais de diversos níveis dentro da empresa alcancem mais rapidamente seus objetivos de promoção.

“Quando a gente fala do negro, o modelo de pensamento não é voltado para o sucesso. Porque quando ele decide fazer uma faculdade, uma pós-graduação, a primeira palavra de cancelamento vem de casa: o que você vai fazer com isso? Isso é muita para você? Na sua família ninguém fez faculdade”.

A falta de referências também é apontada como uma barreira mental que os negros enfrentam no cenário corporativo. Emerson diz que basta fazer o “teste do pescoço”: levante o pescoço e olhe ao seu entorno, veja quantos negros são líderes dentro das empresas, quantos são os que dão aula na universidade, quantos são os militares que ocupam os postos mais altos …

“Claro, se a gente for olhar para trás,  quanto a gente pensa neste racismo estrutural e racismo institucional, vemos que pouco o negro ocupou os lugares de “poder” dentro da sociedade. Isso é uma marca que a gente precisa aos poucos quebrar e eu, dentro do mundo corporativo, converso com os meus colegas diretores para que a gente vá quebrando cada vez mais esse racismo”.

A mudança de mentalidade é um dos cinco pilares com os quais Emerson Feliciano trabalha no desenvolvimento de profissionais e na preparação para a ascensão nas empresas. Vamos a eles:

  1. Mudança de mentalidade
  2. Propósito (por que e por quem você está fazendo aquilo?)
  3. Habilidades comportamentais
  4. Preparação
  5. Ação

“O conhecimento é estático, é como uma moeda de ouro lá no fundo do oceano. Você sabe que está lá, mas no fundo do oceano não vale nada. Você precisa de ação para fazer esse seu conhecimento se destacar”.

Para as empresas, o recado de Emerson é quanto ao potencial que está sendo desperdiçado a medida que se mantém os padrões anteriores e se impede a diversidade étnico-racial. A começar por mudar seus indicadores de lucro pelos indicadores de desempenho: satisfação do cliente, imagem da empresa e diversidade, por exemplo. O instituo McKinsey mostrou em pesquisa realizada em 12 países de que as empresas que investem na diversidade lucram 36% a mais:

“… porque quando você coloca essas pessoas que vêm de culturas diferentes para pensar juntas, cara, isso gera uma inovação que as empresas ainda não conseguiram entender o poder desse ativo. Quando conseguirem certamente a gente vai vai investir muito mais na diversidade.

Assista à entrevista completa com o consultor Emerson Feliciano, no Mundo Corporativo:

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo, Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Avalanche Tricolor: pelo direito à ilusão

Grêmio 3×0 Bragantino

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comentaristas de futebol são craques (ou deveriam ser) em enxergar aquilo que poucos de nós conseguimos ver em campo – a movimentação estratégica, o ocupar de espaços, a aproximação por bloco, a marcação alta, e todo esse cabedal de conceitos que os técnicos tentam levar dos treinos para o vestiário e do vestiário para o campo de bola. Os torcedores, por sua vez, veem coisas que a razão não explica, que só enxergamos porque assistimos ao jogo através dos olhos do coração

Hoje, alguns minutos de partida foram suficientes para a turma da análise técnica entender que o Grêmio jogava diferente, com velocidade, agilidade e troca de passe; jogava de forma incisiva, pra frente, pressionando e chutando a gol. O quarteto Campaz, Jonatha Robert, Diego Souza e Ferreirinha encantava os críticos pela movimentação, pelos dribles, por um futebol alegre que contrastava com a pressão psicológica e a tensão que cada um dos nossos jogadores tem carregado desde que nos metemos nesse atoleiro da tabela de classificação.

Diego parecia ter reencontrado companheiros que andavam afastados da área. Coube a ele marcar o primeiro gol de pênalti. De rebote do pênalti. Porque na cobrança, preferiu o centro do gol e viu o goleiro adversário defender a bola parcialmente. Completou, então, de cabeça para as redes. O que, convenhamos, já sinalizava uma mudança de astral. Nesses tempos difíceis que vivenciamos, a possibilidade de a bola ir para outro destino, era gigantesca.

Tivemos, também, Lucas Silva que marcou o seu gol, ao chegar forte na área e receber livre a bola que havia sido traçada entre os marcadores por Campaz e passada com precisão por Ferreirinha. E fechamos a goleada com um chute impressionante de Jonatha Robert, lá de fora da área, em uma bola que, cheia de remelexo, encontrou as redes.

Como disse, se aos comentaristas cabe a análise fria e lógica, a nós torcedores é reservado o direito à paixão. Com ela aflorando no peito, trago aqui aquele que considero o personagem do jogo, o craque da bola, o merecedor do Motoradio – que deveria ser revivido apenas para premiá-lo uma vez na vida. Falo de Walter Kannemann, um monstro, que personifica a alma de nossa imortalidade a cada bola que disputa, a despeito das dores no quadril que o perseguem há algumas temporadas. Foi ele o autor dos dois lances que selaram a nossa sorte na partida desta noite e – por que não sonhar – podem escrever um novo fim para nossa história.

No primeiro lance, Kannemann impediu a investida adversária jogando-se de cabeça quase aos pés do atacante, sem temer pela vida. Caiu ao chão com a mão no rosto. E foi retribuído pela ousadia. A bola que tirou de peixinho chegou ao nosso ataque que só foi parado dentro da área com a sinalização do pênalti que abriu o placar. Da cobrança e do gol todos se lembrarão. Da festa dos nossos jogadores, também. A cena se repetirá nos programas de esporte, hoje e amanhã. Kannemann talvez sequer apareça nas imagens, mas o torcedor se viu representando mesmo foi na valentia de seu zagueiro. 

O segundo lance veio quase ao fim da partida, em uma escapadela do time adversário que encontrou nossa defesa desguarnecida – supostamente desguarnecida. Porque havia Kannemann para nos proteger. No momento em o atacante já havia encoberto Brenno e a bola parecia ter encontrado seu caminho em direção ao gol, Kannemann em um esforço descomunal esticou-se como pode, alcançou a bola com a canela e a despachou para longe, fazendo-a se chocar no travessão. 

Um desavisado nos dirá que foi um esforço desnecessário, pois o placar já estava resolvido. Ledo engano. Kannemann saltou naquela bola porque jamais se aceitou derrotado – e isso será essencial para nós que ainda sonhamos com a salvação. Em seu lance, acompanhando a raça e a determinação, havia a sorte, que fez a bola bater no travessão em vez de seguir o caminho do gol. Vítimas que temos sido do Inevitável da Silva – tema da Avalanche anterior -, isso não é pouca coisa, não. Kannemann foi gigante em um jogo em que nosso ataque brilhou. E nos deu o direito à ilusão.

Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: o Inevitável da Silva

América MG 3×1 Grêmio

Brasileiro – Estádio Independência, BH/MG

Lucas Silva em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A cena que abre o documentário Batalha dos Aflitos tem o diálogo de dois jogadores gremistas no vestiário. Um deles havia sido personagem de um gol irregular contra o Grêmio, que sacramentou o rebaixamento do tricolor, em 2004. Um gol de mão que – sem VAR nem vergonha – foi validado pelo árbitro da partida e causou revolta, que pouco serviu para mudar o nosso destino. Há coisas na vida inevitáveis. Por mais que nos esforcemos, astros, búzios, deuses, seja lá qual for a força extraordinária que nos cerca, agem para que o destino traçado se realize. 

Poderia ser o Sobrenatural de Almeida, que  Nelson Rodrigues criou para explicar os casos inexplicáveis que ocorriam contra o seu tricolor – o Fluminense. Seria criativo demais para um crônica de minha autoria e para o futebol do meu tricolor. Vejo em campo a atuação eficiente do Inevitável da Silva que grita alto e grita forte – usurpando o lugar-comum dos locutores de TV – nestes momentos de sofrência.

O craque mata a bola na canela. O meia-boca é protagonista de si mesmo. O jovem revelação surge mas o lance é fugaz. O goleiro com pinta de gigante, é pequeno diante da avalanche de chutes a gol. O músculo se esfacela, e o fôlego se extingue em uma frequência que impede recuperação e tira do embate todo e qualquer reforço. O técnico escala sem convicção e usa da mesma coerência na substituição. É inevitável.

Se dos seus não se pode esperar nada, imagine dos outros. O adversário acerta o passe com uma precisão que sequer ele acredita. O impedimento não se realiza por milímetros. O goleiro fecha o gol, mesmo que precise derrubar o atacante na área, porque sabe que o destino está a seu favor – ao menos, é inimigo do seu inimigo. É inevitável.

Como esperar que o árbitro identifique alguma infração contra você se o próprio é incapaz de sinalizar irregularidades que fazem parte do be-a-bá do futebol – como o lance desta noite em que o goleiro adversário dá dois toques na bola em cobrança de tiro de meta, de forma escandalosa, e sequer o auxiliar auxilia. Esperar que sinalize pênalti a favor – mesmo que o lance seja visto e revisto por todos os ângulos possíveis – é de uma ingenuidade atroz. Ah, o árbitro .. o juiz, o crucificado vitalício, nas palavras benditas de Nelson Rodrigues.

As reações em campo são as mesmas de sempre. As mãos vão para a cabeça em gestual que simboliza o inacreditável. Os palavrões surgem em gritos ensurdecedores. O tipão com jeito de vingador, parte para a violência. Chuta, peita, faz pose de herói. Leva amarelo, vermelho ou é flagrantemente ignorado. Nada do que faz muda a história. Só faz o nada. Um olha para o outro com indignação, com a certeza de que toda aquela encenação nos levará ao mesmo lugar que o futebol que jogamos: ao nada. É inevitável.

Ao Grêmio restam sete jogos. Hoje, ao fim da partida, ouvi alguém dizer na televisão que seriam necessários cinco vitórias para reescrever o nosso destino. Era isso ou o inevitável.

A mim, resta torcer! É inevitável!

Conte Sua História de São Paulo: lições de um cadete do Barro Branco especialista em despedidas

Luiz Eduardo Pesce Arruda

Ouvinte da CBN

reprodução Governo de SP

Quando ingressei na Polícia Militar, em 1977, como cadete da Academia do Barro Branco, havia duas oportunidades de se dar bem: ser atleta de uma das equipes da academia ou na CORP – a Comissão de Relações Públicas da Academia. Como para atleta não servia, restou-se a CORP. E como funcionava: todo sábado, 16 cadetes engalanados e sorridentes dirigiam-se a um baile de debutantes, escalados pela academia. Um dançava com a aniversariantes, os demais com as amigas. Todos elegantemente vestidos, de uniforme azul de gala, quepe branco, e espadim reluzente. Arrasavam corações já na entrada do baile.

Eu bem que tentei, mas nunca era escalado. Não sabia dançar. Restou-me a comissão de pêsames. A despeito do motivo do evento, eu passei até a curtir as saídas da academia para os velórios. A paz, o ritual, a lembrança da finitude humana, a insensatez da vaidade, a fugacidade da beleza física. Tudo aquilo dizia muita à minha alma jovem. Era uma materialização de Esclesíastes, na reprimenda à vaidade. E sempre havia café ou um lanchinho para acompanhar.

No fim do curso, quase cinco anos depois, formado em câmara ardente, nos velórios mais prestigiosos de São Paulo, tornei-me uma referência, uma lenda viva, reconhecida pelos pares como o maior expert no assunto.

— Arruda, conheceu o coronel João, o Aviador?

— Fui no velório dele

— O coronel Pedro, o Paraquedista?

— Não conheci em vida, mas fiz câmara ardente para ele.

E fazia minha recomendações: no cemitério da Quarta parada tem um trailer de lanche e a calabresa com queijo é muito honesta. O Gethsêmani e o Morumbi têm uma lanchonete que é uma beleza, mas leva dinheiro porque é tudo muito caro. Se for escalado no Perus ou Santo Amaro, leva lanchinho de casa, porque o serviço é bem fraquinho.

Ao chegar no local, identifique a viúva e os parentes, faça expressão séria, ofereça os pêsames em nome da Academia e cuidado para não entrar em rodinha de gente inconveniente, bêbada e piadistas —- essa fauna sinatrópica que não vive sem um velorizoinho. Mas também, convenhamos, sem esse povo não tem a menor graça.

Luiz Eduardo Pesce Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: eu só quero é ser feliz

Grêmio 1×0 Fluminense

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O árbitro havia apitado o fim do jogo mas antes de comemorar qualquer coisa ainda procurei para ver onde a bola estava. Precisava me certificar de que nada de errado ainda poderia acontecer. No gol que marcamos, aos 28 do segundo tempo, não foi diferente: apesar da explosão repentina de quem vê a bola na rede, segurei a alegria até a certeza de que não teria o que revisar. 

Torcer para o Grêmio nesta temporada tem sido um sofrimento atrás do outro. Mesmo nos momentos em que o futebol pode nos proporcionar alguma satisfação, surge algo para nos frustrar. 

A bola é lançada na área, seu zagueiro a despacha para longe, mas de alguma maneira ela desvia no braço de um companheiro, e o pênalti é descoberto. Seu atacante é derrubado antes de finalizar em gol: pênalti a seu favor — pode contar com o erro na marca fatal. Seu time sai na frente, faz um gol impossível, e em seguida sofre a virada para provar que a felicidade é um sentimento fugaz, nesses tempos de carência.

Por isso, nesta noite, foi surpreende ver que o técnico decidiu lançar o time para frente, apostar em gente com energia e disposição. Que o lance que deu origem ao gol adversário foi em “flagrante” impedimento — só identificado pela linha virtual do VAR — e, portanto, foi anulado. Que quando Mateus Sarará recebeu a bola próximo da área adversária, ninguém se aproximou para impedir o cruzamento. Que o zagueiro foi incapaz de segurar Diego Souza no chão. Que nosso goleador foi capaz de saltar mais alto do que todos, manusear a cabeça e desviar a bola para dentro do gol — sem nenhuma suspeita de irregularidade.

Se o Grêmio jogou bem ou não, deixo para o analista analisar.

Se o resultado muda nosso rumo no campeonato, deixo para o destino nos destinar. 

Hoje, como se canta na canção:

“eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz

Onde eu nasci, é

E poder me orgulhar …”

Consumidor é ‘figital’ e quer uma relação mais simples e acessível com as marcas

Desde que passamos a fazer parte desta barafunda que a pandemia nos impôs, entender o que está acontecendo é um desafio. Temos muitas pretensões, e poucas convicções. Achamos coisas, imaginamos cenários e quando arriscamos um ‘com certeza’, damos um cavalo de pau na frase para concluir com um definitivo “eu acho”. Pensando bem, melhor assim do que esses loucos que andam a solta nos planaltos e palácios, com suas verdades mentirosas. 

Mesmo diante da incerteza, não duvidamos que a gente está muito mais digital. A despeito das desigualdades de acesso, comprar pela internet foi o recurso que restou para a maioria de nós neste mais de ano e meio de pandemia. Hábito que veio para ficar —- mas não ficar sozinho como bem mostra a pesquisa “A nova jornada do consumidor no e-commerce”, promovida pela MRM Commerce, em parceria com a MindMiners.

Segundo o levantamento, o consumidor brasileiro passou a comprar mais pela internet — foi o que disseram 80% das 1.000 pessoas que participaram da pesquisa. E a maioria, 68%, vai manter o hábito ao fim da pandemia  — o que se pode perceber mesmo agora quando o mal ainda está entre nós, mas muitos vivem como se o pós-pandemia já tivesse se realizado.

Até aqui, sem muito novidade. Comprou-se mais pela internet, mais gente vendeu pela internet, então acostumou-se a fazer negócio pela internet. Óbvio! O ponto que considero interessante, porque ratifica o que tenho ouvido de vários convidados no programa Mundo Corporativo, é que não seremos só ‘físicos’ tanto quanto não seremos só ‘digitais’. 

Senão, vejamos.

Para 71% das pessoas, a jornada começa  com a pesquisa na loja física e a compra se realiza na internet. E o fazem especialmente pelo preço, comodidade, facilidade e diversidade de produtos e marcas. 

Mas não se engane, porque muitos desses não têm o menor pudor de percorrer o caminho inverso, também. Haja vista que  65% afirmaram que começam a pesquisa na internet e compram na loja física. E o fazem principalmente para poder levar o produto na hora e pela experiência na loja. 

reproduçao de tabela da pesquisa MRM Commerce/MindMiners

Aqui uma observação: 39% buscam a experiência na loja, e apenas 22% dizem que compram lá por causa do vendedor. Na minha cabeça, uma experiência gratificante só se faz plena com a participação do vendedor, que vai muito além do moço que me pergunta: “o senhor tá procurando alguma coisa?” — mas isso é assunto para outro artigo e de preferência escrito por alguém que seja entendido no assunto; no máximo sou um consumidor experiente e gastador (apesar da fama de pão duro, entre os amigos do Hora de Expediente).

De volta à pesquisa e ao ponto. 

Se não somos só físico nem só digital, então, somos ‘figital’, um neologismo que tem aparecido com frequência na avaliação de consultores do setor de varejo que estende seus braços para outras áreas da economia.  O problema é que muitas empresas estão demorando para entender que se o consumidor é ‘figital’, o negócio também tem de sê-lo. As operações não podem ser dissociadas, a experiência tem de ser única em todos os ambientes. Meu contato com a marca vai do computador para o celular que me acompanha até o shopping. De lá, segue com aconselhamento ou consultoria, sem que vender seja o único objetivo. E se migro de um espaço para o outro, a percepção tem de ser de que estou sendo atendido pela mesma pessoa ou persona. 

Antes de me despedir, mais um destaque entre tantos  números, dados e informações disponíveis em “A nova jornada do consumidor no e-commerce”.  Facilidade é elemento que predomina nesse relacionamento. Seja na navegação no site, que se reflete na boa experiência de compra online – 69% escolheram a marca devido a esse item; seja em encontrar o que se precisa, no online ou no físico; seja na forma de se comunicar. 

A vida já é complicada demais. O consumidor não tem tempo para se perder em meio a sites, serviços e atendimentos com várias camadas de relacionamento, filtros, códigos, senhas e perguntas mal feitas. Se a ideia é manter o cliente ao seu lado na jornada pós-pandemia – no físico, no online ou seja lá onde for – simplifique-a! Eu agradeço!

Aqui, você tem acesso a pesquisa completa

Avalanche Tricolor: de experiência, esperanças e fracassos

Inter 1×0 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Das boas coisas que o tempo nos oferece, a experiência é uma delas, a despeito de saber que essa também é feita da intensidade com que se vive as coisas — senão, como explicar jovens capazes de transformar o mundo como temos vistos recentemente.  No que se refere ao tema de sempre desta coluna,  sou muito experiente — e não escrevo isso para me gabar, apenas para constatar que de Grêmio já vivi muito e intensamente. Sofri como a maioria de vocês, nascidos nestes anos de 2000, nunca sofreram. Chorei na arquibancada, ao lado do gramado e dentro do vestiário, abraçado a meus ídolos. Chorei de dor e de amor. Vivenciei a escassez e a abundância de títulos — sequências que nos ensinam que nada daquilo que experimentamos no momento será eterno (vai passar!). 

Derrotas em clássicos sempre ocorreram. E em uma quantidade inimaginável para os tempos atuais. O que assistíamos até recentemente beirava o ineditismo, chegava ao limiar do impossível, a medida que falamos de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Há quem diga que é a maior. Humilde, como os gaúchos devem ser, a coloco entre as maiores do futebol mundial. Portanto, não surpreende a turma do lado de lá ter dado volta olímpica, desfraldado bandeira, tocado tambor e até feito pose de foto do título(?). Das galhofas com símbolo adversário, prefiro não comentar. Me falta isenção. 

E por isento que não sou, uso a experiência em situações como essa. Em lugar de iniciar meu texto assim que o árbitro encerrou a partida e os jogadores ainda se engalfinhavam no gramado, preferi contemplar o cenário com um copo de vinho em mãos. Ao mesmo tempo que o álcool percorria meu corpo e ascendia ao sistema límbico, atingindo meu senso crítico, meu sangue corria menos quente entre as veias e esfriava meu ânimo. Nesse jogo de compensações que a biologia humana disputa em situações como essa, meu desejo de dizer algumas “verdades” arrefeceu – sim, entre aspas, porque a verdade a que me refiro tem a ver com a reação que costumamos expressar quando a razão se cala e a emoção exacerba, geralmente traduzida em ataques desnecessários, palavras deseducadas, e injustiças. Embevecido – ou seria embebido – preferi a cama às palavras. Deixei para escrever essa Avalanche em momento mais oportuno.

Que bela decisão tomei – pensa o humilde escrevinhador cá com as listras tricolores da sua camisa.

Hoje cedo, quando ninguém ainda estava acordado em casa, deparei com a crônica do colunista de esporte dominical de O Globo, Marcelo Barreto, que tinha como cena de fundo o clássico carioca Botafogo e Vasco, e protagonista, um torcedor vascaíno, desses que se apresentam como “doentes”, apesar de já dar sinais de consciência. O time carioca caiu quatro vezes para a Série B e a possibilidade de permanecer por lá ano que vem chega a ser maior do que a nossa de cair, nesta altura da competição. Ou seja, o clássico de hoje deve ser determinante em diversos aspectos.

Marcelo descreve as reações do amigo vascaíno que fez de sua paixão, resignação — a medida que a idade avançava. Hoje, com o coração endurecido no tempo e na intensidade, não impõe mais medo nos amigos, que temiam atos extremos e vida colocada em risco como resposta às frustrações em campo. O cronista diz que “meu amigo aprendeu a esperar. E ainda não perdeu a esperança. Mas está a um passo de normalizar o fracasso.” As duas primeiras frases guardarei como lição nesta tristeza que me abate; a última, lutarei até o fim para não me dominar. Porque se tem algo com que não devemos jamais nos contentar é com o fracasso, sob o risco de perdemos o título que realmente conta na nossa história: o da imortalidade.

Mundo Corporativo: empresas tem de ser onipresentes na jornada do consumidor, diz Lyana Bittencourt

Foto de Mikhail Nilov no Pexels

“Nesse mundo atual, ninguém sabe tudo, ele é colaborativo, ele é integrado, ele é co-criado. E isso Isso muda. Isso muda as empresas”

Lyana Bittencourt

Ao entregar um cartão de visita é comum a empresária Lyana Bittencourt, CEO do grupo que leva o nome da família, ouvir seus interlocutores perguntando se foi o pai quem fundou a organização. “Foi a mãe”, responde com orgulho. Sim, foi Dona Cláudia quem, há 36 anos, abriu a empresa que presta serviço, orientação, conhecimento e estratégia de atuação para redes de negócios. E abriu, também, caminho para Lyana dar sequência ao trabalho que hoje atende cerca de dois mil clientes:

“Minha mãe deve ter vivido (essa situação) mais ainda, mas eu, quando eu ia para as reuniões, não tinha uma mulher disputando comigo, eram só empresas lideradas por homens. Meus principais competidos são liderados por homens. A nossa é a única feminina. E feminina em espírito”.

A despeito disso, ser uma referência como liderança feminina não é o seu propósito. Ao menos não é essa a intenção quando acorda pela manhã. Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Lyana disse que o que busca é fazer o seu melhor trabalho, ter uma empresa admirada e ajudar os clientes a realizarem seus sonhos. Entende que ser líder é consequência de um bom trabalho. Como sugestão às mulheres – e homens, também – que pretendem assumir o comando dos seus próprios negócios, recomenda:

“Esse foi um aprendizado que tive com a minha mãe desde muito cedo. Ame aquilo que você faz, descubra algo que te faça acordar; e seja verdadeiro no que você faz. O mundo não tolera mais o fake, o disfarçado”. 

E por falar em mundo … o desafio do momento é entender quais cenários permanecerão em pé depois da experiência que vivenciamos nesta pandemia. Lyana Bittencourt, que realiza consultoria especializada no desenvolvimento, gestão e expansão de redes, enxerga que as empresas terão de ser mais líquidas, flexíveis e adaptáveis. Terão de interpretar as demandas do consumidor omnichannel, que quer ser atendido da maneira que deseja, no local em que estiver e pelo meio que lhe convier.  Ou seja, nem só físico nem só digital: figital. 

“E se as empresas não estiverem atentas a serem essa solução completa que o consumidor deseja, elas vão perder para outras empresas que estão mais completas e mais onipresentes na jornada. Então, eu quero ser uma marca onipresente. Eu tenho que estar no celular do consumidor. Eu tenho que ter a loja. Eu tenho que ter o meu e-commerce. Eu tenho de ter meu market place”. 

Assista ao Mundo Corporativo com Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, que fala de outras estratégias necessárias para as empresas estarem sintonizadas com o momento atual.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.