Avalanche Tricolor: a escolinha do professor Renato

 

 

Grêmio 3×0 São José
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Renato abraça o pupilo Darlan em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A imagem de Renato em sala de aula chamou atenção dos jornalistas há algumas semanas. Obrigado a participar de curso promovido pela CBF para ter direito a treinar uma equipe na primeira divisão do futebol brasileiro, Renato foi considerado exemplar pelos colegas de turma. Participativo, colaborador e de bem com a vida. Foi como descreveram nosso treinador, que teve de assistir às aulas já com a temporada rolando porque se negou a interromper suas merecidas férias no fim de dezembro. No que tem todo meu apoio — férias são uma instituição a ser respeitada.

 

Pelo histórico recente, Renato estava “jogando” em posição trocada. Em lugar de sentado na carteira dos alunos, deveria ter ocupado a mesa de professor, desenhando na lousa as estratégias e técnicas que aplicou no Grêmio desde que retornou ao clube, em 2016. Um conhecimento que o levou a conquistar a Libertadores, a Recopa Sulamericana, a Copa do Brasil e o Campeonato Gaúcho.

 

Mais do que os próprios títulos —- mas talvez apenas por tê-los conquistado —-, nestes quase 30 meses em que está no comando gremista, Renato deu aula de sabedoria. Soube recuperar a autoestima de alguns jogadores, trouxe de volta a categoria que outros tinham esquecido e foi paciente com os mais jovens. Contrariou o pedido de torcedores que gostariam de ver alguns talentos recém-surgidos já entre os titulares. Puxou a orelha do garoto ansioso tanto quanto do craque consagrado. E o fez com cátedra —- como dizem os mais antigos.

 

O jogo bem jogado do time titular — com toque de bola em velocidade, passes precisos, troca de posição intensa, marcação sobre pressão e forte competitividade — contaminou o clube como um todo. Quem entra na equipe, segue a mesma apostila. Se muda toda a equipe, todos se esforçam para reproduzir o mesmo modelo. Na base, os guris entenderam o recado e fazem a lição de casa. Na escolinha do professor Renato, todos têm de ter na ponta da língua os conceitos que fazem o futebol um espetáculo a ser assistido.

 

Um bom exemplo foi o que vimos nesta noite de sábado, na Arena, quando Renato escalou o time alternativo, já que na terça-feira temos mais um desafio pela Libertadores. Que prazer estar na plateia diante de um equipe que é capaz de encantar desde o primeiro minuto, mesmo que este time não seja o que consideramos titular.

 

O primeiro gol, aos 28 minutos de partida, é de dar orgulho a qualquer pai de aluno. Juninho Capixaba e André tabelaram pela esquerda. Nosso atacante deu um passe perfeito, completado pelo corta-luz de Jean Pyerre, que deixou Montoya em condições de abrir o placar.

 

A gente ainda curtia a beleza do gol inicial quando, dois minutos depois, André —- mais uma vez ele —- deixou seus dois marcadores sem ação ao passar de calcanhar para Pepê. O guri, com cacoete de goleador, encobriu o goleiro adversário. Nota dez.

 

Para completar a goleada, aos 31 do segundo tempo, Diego Tardelli, recém-chegado, foi hábil ao deixar a bola passar para André, que enxergou Pepê entre os zagueiros, que matou no peito, livrou-se da marcação e cruzou em direção ao gol. André —- ele estava merecendo deixar sua marca —- completou para as redes.

 

Descrevo os três gols porque mostram de maneira mais expressiva os ensinamentos de Renato. Poderia, porém, lembrar de outros momentos, como a condução de bola de Matheus Henrique, 21 anos, a personalidade de Darlan, 20 anos, que está aparecendo somente agora na equipe, e a forma como Thaciano, 23 anos, se impõe no meio de campo. Todos alunos exemplares.

 

Com a bola no pé, Renato foi mestre. Pensando futebol, é Ph.D.

Conte Sua História de São Paulo: uma chance a mais para Antônio, preso e drogado

 

Por Roberto Livianu
Ouvinte da CBN

 

 

 

Crônica originalmente escrita para o livro “50 tons de vida”:

 

 

Antônio era o filho mais novo de oito irmãos. Nascido em Nova Lima, região metropolitana de BH, teve infância humilde mas nunca faltou afeto nem alimento na mesa.

 
 

 

Sua mãe, Maria Antonieta era costureira e dava um duro danado para nada faltar aos filhos, para que todos estudassem, para que se sentissem amados, protegidos e amparados.

 
 

 

Flávio, o pai, morreu prematuramente em acidente do trabalho, na obra em que trabalhava como peão, na construção civil. Um andaime tragicamente desabou sobre ele.

 
 

 

Aos dezoito anos, Antônio resolveu tentar a vida em São Paulo, onde vivia Pedrinho, um primo seu, que trabalhava como garçom. Mas logo percebeu que não seria nada fácil vencer ali sem dinheiro, sem amigos poderosos, sem caminhos. Especialmente após ter feito amizade com Carlinhos, moleque do bairro que não trabalhava, usava crack e levaria Antônio para este labirinto.

 
 

 

Sem emprego e já viciado, saiu desesperado em busca de dinheiro para comprar a pedra. No seu trajeto, um salão de beleza. Entrou, colocou a mão sob a camisa e exigiu cinquenta reais. Estava cometendo seu primeiro assalto. Não foi convincente, não obteve o dinheiro e na saída foi preso em flagrante pela PM.

 
 

 

Dois meses depois foi solto num habeas corpus pedido pela Defensoria Pública, conseguindo responder ao processo em liberdade.

 
 

 

Passados dois anos, era um homem diferente. Trabalhava como servente de pedreiro e estava muito arrependido. Tornou–se evangélico e conseguiu libertar-se do crack. Chega o dia da audiência no fórum e a vítima pede para depor sem ele presente.

 
 

 

Surpreendentemente, o promotor vai até ele na sala em que estava e pergunta se estaria disposto a se explicar para a vítima e de pedir perdão a ela. A felicidade toma conta apesar de tudo e ele responde que é o que mais gostaria que acontecesse.

 
 

 

O promotor convence a vítima a rever sua posição e ela aceita estar presente e se encontrar com Antônio, para ouvi-lo. O mineirinho emociona-se, explica o que se passou em sua vida, pede perdão à vítima e as lágrimas correm em seu rosto copiosamente.

 
 

 

Suas palavras são sinceras. Ele e a vítima, Dona Letícia, abraçam-se e a cena emociona a todos na sala. A juíza, o promotor, a defensora, escrevente, estagiários.

 
 

 

O trauma sofrido pela vítima em virtude do assalto parece ter-se restaurado em grande medida. A prática se inspira na justiça restaurativa, que é instituto ainda embrionário no Brasil, mas muito utilizado na Nova Zelândia, no Canadá, África do Sul e em muitos outros países, onde se busca a aproximação de agressor e agredido por facilitadores da sociedade nos círculos restaurativos, funcionando o juiz como homologador.

 
 

 

A pena foi aplicada e o processo foi julgado, tendo ele recebido o benefício do regime prisional aberto e a sensação do promotor naquele dia foi muito especial, de dever cumprido. Sentiu-se leve, feliz e em paz. Sentiu ter feito justiça.

 

 

Roberto Livianu, promotor de Justiça, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também sua história da cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Mundo Corporativo: como organizar sua vida digital no local de trabalho

 

 

“Eu acredito que a tecnologia vem para ajudar justamente na produtividade para que a gente consiga ter mais acesso e consiga fazer um trabalho melhor, mas, naturalmente, dentro do dia a dia do trabalho, a gente tem várias gerações interagindo que pensam diferente, que têm experiencias diferentes, e equalizar isso para transformar em um novo caminho para uma empresa é realmente um desafio muito grande” — Hélio Sá Moreira, Inpartec

 

Hoje, no ambiente de trabalho existem várias ferramentas digitais à disposição. Isso não significa que as empresas estejam ficando mais produtivas ou que a vida ficou mais fácil para você no escritório. Sem planejamento e uso racional da tecnologia, a tendência é que você perca ainda mais tempo para entregar um produto ou um serviço. Preocupado com esse cenário, o Mundo Corporativo entrevista com Hélio Sá Moreira, CEO de uma consultoria especializada em “digital workplace”, ou seja, em ajudar os profissionais a usarem da melhor maneira possível os recursos tecnológicos.

 

Na entrevista ao jornalista Mílton Jung, Moreira dá algumas dicas de como o colaborador pode organizar sua vida digital no local de trabalho e não desperdiçar seu tempo com a perda de foco muito comum diante da quantidade de informação disponível. Uma melhora que vai influenciar a produtividade e os resultados na empresa. Segundo ele, a partir de pesquisa realizada com 25 clientes, o retorno sobre o investimento em tecnologia que antes da implantação da estratégias de “digital workplace” era, em média de 25% passou a variar entre 75% e 95%.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br, na página da CBN no Facebook e no perfil @CBNOficial no Instagram. O programa vai ao ar, aos sábados, no Jornal da CBN. Colaboram com o Mundo Corporativo, Guilherme Dogo, Rafael Furugen, Isabela Ares e Débora Gonçalves.

Uma proposta para tornar o debate público mais humanizado

 

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Foto: Pixabay

 

“Em casa onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Mais vivo do que nunca, o dito popular traduz parte da verdade que assistimos na sociedade brasileira, expressa de forma histérica nas redes sociais —- e não apenas nas redes sociais.

 

Nesta semana, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, em conferência realizada em Salt Lake City, comentou sobre os efeitos perversos que comentários em redes sociais podem provocar nas pessoas — especialmente na forma como essas mídias estão moldando as crianças.

 

Obama diz não ler as reações às falas dele nos meios de comunicação tradicionais ou nas redes sociais, porque entende que foram planejadas para alimentar a ansiedade (“designed to feed possible anxiety”). E ao tratar do tema, fez questão de ressaltar que sua posição não se relaciona apenas a comentários tóxicos: os elogios podem fazer as pessoas pensarem que estão fazendo tudo certo, quando talvez não estejam.

 

Entendo que Obama se refira a arquitetura digital que tende a retroalimentar determinados comportamentos concentrando pessoas de grupos com o mesmo viés em torno de seus perfis — e privilegiando a opinião dos mais expressivos nas redes, não necessariamente da opinião pública.

 

 

TED@BCG - October 3, 2018 at Princess of Wales Theatre, Toronto, Ontario, Canada

 

Ao mesmo tempo, deparo com a fala de Julia Dhar, especialista em debate público, em apresentação no TED Talks, que já tem mais de 2 milhões de visualizações. Ela nos oferece pontos importantes para a reflexão, em tempos de intensa discussão, quando todos gritam e ninguém tem razão — como nos lembra o ditado popular que abre este post.

 

Apresenta em sua fala e se dedica a desenvolver em sua atividade profissional, a ideia de transformar o bate-boca em bate-papo, sem que percamos a noção de que estamos diante de um debate de ideias.

 

Defende argumentos e contra-argumentos. Avanços e recuos. Aceitação e oposição. É uma admiradora das discussões, desde que produtivas —- o que somente será possível se algumas técnicas forem aplicadas e mudanças de comportamento, aceitos.

 

Para não cairmos na armadilha que as discussões acaloradas e, muitas vezes, sem qualquer respeito ao contraditório nos proporcionam —- levando muitas pessoas a preferirem o silêncio —, Julian Dhar convida o cidadão a seguir regras aparentemente simples.

 

Sugere primeiro que se crie uma realidade compartilhada, que significa encontrar pontos em comuns, mesmo que mínimos. É preciso “envolvimento com a ideia oposta, de modo direto e respeitoso”. Isso exige que saibamos ouvir a voz de quem argumenta de forma contrária, de quem não pensa como eu. Segundo a pesquisadora Juliana Schroeder, da Universidade Berkeley, esse exercício humaniza as pessoas: facilita o envolvimento com o que pessoa tem a dizer.

 

Em seguida, Julian Dhar pede que se separe a ideia em discussão da identidade do interlocutor: “atacar a identidade da pessoa que argumenta é irrelevante, porque não foi escolha dela”. Sugere que se lide com a melhor visão da ideia, mais clara e menos pessoal.

 

Finalmente, alerta que nos apegamos às nossas ideias de maneira a acreditar que são realmente nossas e que, por extensão, somos delas. Ou seja, ao aceitarmos que somos proprietários daquela ideia também nos transformamos em propriedade dela e, assim, fica muito mais difícil nos desapegarmos. Para não sermos reféns dessa situação, Julian Dhar sugere que sejamos capazes de desenvolver o que chama de “humildade da incerteza” ou a possibilidade de estarmos errados: “é essa humildade que nos faz tomar decisões melhores”.

 

Em resumo:

  1. Crie uma realidade compartilhada — concorde com algo

  2. Separe as ideias da identidade

  3. Abrace a humildade da incerteza

 

Segundo Julian Dhar, os princípios do debate podem transformar a maneira como falamos uns com os outros; nos levar a parar de falar e começar a ouvir; parar de rejeitar e começar a persuadir; parar de nos fechar e começar a abrir nossa mente.

 

Ela propõe que ao mediarmos debates ou entrevistas façamos a seguinte pergunta: “sobre o que você mudou de ideia e por quê?”.  Antes de levarmos à frente essa proposta, quem sabe não está mais do que na hora de perguntarmos a nós mesmos: “sobre o que eu mudei de ideia e por quê?”.

 

Se jamais mudei, eis aí um problema a ser resolvido.

Avalanche Tricolor: o guri que vestia a camisa 3 está de volta

 

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Libertadores – Gigante de Arroyito/Rosário ARG

 

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Todos querem a camisa de Geromel, como se vê na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A estreia na Libertadores 2019 me colocou diante de uma das raras fotos que consegui preservar da época em que jogava na escolinha de futebol do Grêmio. Perfilado, com os braços soltos ao longo do corpo, sobre a linha lateral do gramado do saudoso estádio Olímpico, fui flagrado por um dos fotógrafos esportivos que aguardavam o time principal entrar em campo. Não tenho o nome do autor da foto, mas se o fez, tenho certeza, foi para presentear meu pai, que deveria estar orgulhoso de ver o guri naquela posição.

 

Naquele tempo, não tínhamos acesso ao uniforme oficial dos clubes de futebol. Comprava-se as camisetas na lojinha do bairro. A minha era de um tecido mais grosso, com o azul, o preto e o branco desbotados pelas inúmeras lavagens feitas por minha mãe. Com a gola em vê e sem direito a emblema do Grêmio no peito, o único adereço que havia —- e não aparece na foto —- era o número 3 nas costas, que mais do que minha posição preferida, revelava a admiração por um dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa, Atilio Genaro Anchieta — capitão da seleção do Uruguai e do próprio Grêmio. Uma espécie de Geromel dos anos de 1970.

 

Ver aquela foto me fez voltar para um tempo em que a Libertadores era sonho distante para os gremistas. Nos satisfazíamos com o aguerrido campeonato gaúcho. Nos orgulhávamos das vitórias sobre times do eixo Rio—São Paulo. Ganhar um campeonato brasileiro seria uma façanha. Foi lá, porém, que forjamos o caminho que nos levou ao topo do Mundo e nos coloca, hoje, entre os maiores times do futebol do planeta.

 

Em campo, o Grêmio é respeitado mesmo pelos arquirrivais argentinos, contra quem travamos alguns dos grandes e heróicos clássicos sulamericanos. Afinal, estamos em nossa décima nona participação de Libertadores, competição que já vencemos três vezes — a última em 2017, ou seja, coisa recente, que segue na memória dos adversários. Sem contar o futebol qualificado que temos jogado há três anos, desde o retorno de Renato ao comando técnico do time —- futebol reconhecido aqui e lá fora.

 

Nossa reputação, contudo, não significa vida fácil contra nossos adversários. Ao contrário. Eles transformam a partida em uma guerra. Como se ganhar do Grêmio fosse um troféu à parte na competição. Por isso, não surpreende a maneira até violenta com que fomos recebidos em campo na noite de ontem, na Argentina — boa parte dessa violência ocorreu sem qualquer punição por parte do árbitro.

 

Pelas fotos feitas por Lucas Uebel —- fotógrafo oficial do Grêmio e autor das imagens que costumo reproduzir nesta Avalanche —, o árbitro não apenas deixou de advertir o adversário com a rigidez necessária como também não viu um pênalti sobre Geromel, no qual teve sua camiseta de número 3 agarrada pelo marcador. Foi um pouco antes do entrevero que ocorreu entre o mesmo Geromel e o atacante adversário, já na área gremista, ao fim do primeiro tempo.

 

Independentemente da marcação mais forte do que as regras esportivas recomendam ou da disposição do adversário para nos superar —- e isso são apenas motivos de mais orgulho para esse gremista —-, o Grêmio foi maduro em campo. Não perdeu a cabeça, mesmo tendo sofrido gol logo no segundo minuto de partida. Evitou cair em provocações. Colocou a bola no chão, trocou passes, esperou brechas na marcação adversária e chegou ao empate.

 

O gol que marcou foi resultado dos muitos méritos que essa equipe leva a campo, além da própria maturidade para encarar reveses. Após pressionar muito, ameaçar jogadas por um lado e por outro, contamos com a visão de jogo e a precisão do passe de Marinho. Ele estava marcado pelo lado direito e teve capacidade de enxergar Everton lá do outro lado. A partir daí, ficamos por conta do talento de nosso atacante que driblou dois marcadores dentro da área e completou a jogada colocando a bola no fundo do poço.

 

Não tenho mais aquela camiseta desbotada da foto antiga. As que me acompanham em casa estão emolduradas ou dobradas no armário a espera de um espaço na parede — ainda quero ter uma de Geromel, um Anchieta redivivo e melhorado pelo tempo. Mas o guri com a camisa 3, sem emblema, lá do gramado no estádio Olímpico, voltou a se revelar na noite dessa quarta-feira de cinzas, ao vibrar como louco, com os punhos cerrados e o grito de gol que nos garantiu o primeiro ponto na estreia da Libertadores, jogando fora de casa naquele que é conhecido por Grupo da Morte.

A Moda e o desapego da nova geração

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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foto: Pixabay

 

Acredito que as chuvas que se apresentam em todo o país em tons mais fortes do que os habituais possam abrir um espaço maior para a questão da sustentabilidade.

 

Nesse aspecto o setor de Moda, conceitualmente e operacionalmente dentro das tendências comportamentais e mercadológicas, vem sinalizando novidades. Parece que voltamos ao passado, com um toque promissor.

 

A reutilização das roupas é uma prática antiga. Antes do consumismo, surgido na segunda metade do século passado, premidos pela escassez, o reuso e o reparo das roupas eram comuns. As roupas usadas eram até mesmo penhoradas ou serviam como moeda de troca. Na obra “O casaco de Marx: roupas, memória, dor”, Marx penhorava seu casaco e o retirava no inverno — ou quando tinha que ir à Biblioteca do Museu Britânico.

 

No século XVIII, surgiram as primeiras lojas do mercado de roupas usadas, que se estenderam à periferia das cidades no século XIX, quando até 1860, aproximadamente, ocorreram resistências ao usado, em virtude da falta de higiene. Fazendo com que se distinguisse o novo do usado, embora essa divisão não impedisse a expansão desse mercado, que só veio a perder com o surgimento da industrialização.

 

Hoje, esse mercado aluga roupas de festas e roupas de luxo.

 

De acordo com pesquisa acadêmica em Juiz de Fora* com lojas de locação de roupas de festa:

 

A motivação para o aluguel de roupas envolve a questão do preço, da exclusividade, da moda e da deterioração dos artigos novos com o tempo e que, apesar de ainda haver restrições ao aluguel, relacionadas à questão da falta de higiene e da energia negativa, trata-se de um tipo de comércio em expansão.

 

A pesquisa cita a contribuição da RIO 92 para a reutilização das roupas, quando lançou a política dos 3Rs, Reciclagem, Reutilização e Redução. Entretanto, a Moda, como a maioria, não reagiu a contento. Porém, depois de massificada, segmentada, restrita a nichos, customizada e, provavelmente, massivamente customizada, encontrará uma nova geração que tem muito a dizer e mudar — como opção de vida e como estilo de viver. Usufruir o presente e respeitar o futuro, ao preservar os recursos.  Estudos já demonstram que esses jovens preferem o Uber a ter um carro, alugar Bike a possuir uma, comprar cartões de jogos virtuais a ter os jogos. E optam por “ficar” a “namorar”.

 

A McKinsey, de acordo com artigo do Mercado & Consumo, de Luiz Alberto Marinho, prevê que o negócio de venda e aluguel de vestuário usado, baseado no Fenômeno da Posse Transitória, poderá ultrapassar o Fast Fashion.

 

É provável.

 

A Rent the Runway, de aluguel de roupas on-line, inaugurada em 2009, possui mais de 9 milhões de associados e fatura US$ 100 milhões anuais.

 

A esse cenário podemos acrescentar o sistema de prestações para adquirir o uso de roupas novas, sem a posse. Ou trocar roupas usadas por usadas, ou por novas — como a BROWNS está se preparando.

 

É bom lembrar que as mídias sociais expõem os jovens com mais frequência e aceleram o obsoletismo das roupas.

 

Para quem é da Moda que tal pegar o desapego da nova geração?

 

Boa sorte!

 

A Prática do Aluguel de Roupas – Ciro Vale IFSMG, Tania Maciel UFRJ, Claudio Cavas UFRJ

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

Conte Sua História de São Paulo: os engravatados que serviam lanche na Casa Califórnia

 

Patricia Rivarola
Ouvinte da CBN

 

 

Uso óculos desde muito pequena, o meu problema com o estrabismo e miopia foi detectado logo na pré-escola. O primeiro médico que me atendeu foi na Escola Municipal de 1º Grau Dr. Antonio Carlos de Abreu Sodré, na zona sul de São Paulo – Vila Sabará, na época em que algumas escolas públicas prestavam serviços médicos aos alunos, como dentista e oculista. E os meus primeiros óculos também foram fornecidos pela escola, gratuitamente, uma enorme de uma armação preta!
Minha mãe foi empregada doméstica por muitos anos e quando tinha folga me levava aos médicos, inclusive ao oculista — era uma grande aventura. Eu morava na zona sul e com minha mãe pegava o ônibus até o centro da cidade, cruzava a Praça do Patriarca, chegava na Liberdade e tinha a minha consulta.

 

Agora, o mais divertido e gostoso era depois da consulta: a hora do lanche.
Sabe onde? Na Casa Califórnia. Da Liberdade voltávamos ao centro: Rua Direita, 15 de Novembro até chegar a São Bento. Era um pequeno espaço com aquele piso preto e branco. Havia alguns bancos altos, uns três ou quatro; e era um milagre conseguir sentar em um deles. Logo na entrada tinha a máquina onde ficava rolando a linguiça. Do outro lado, havia um balcão onde as pessoas compravam para levar para casa a famosa “linguiça calabresa de Bragança”. No fundo da loja, um imenso balcão.

 

O atendimento era uma história à parte. Era feito por dois senhores engravatados! Eu achava aquela cena o máximo. Naquela correria da lanchonete, onde não havia nenhum conforto nem uma mesinha com cadeiras, as pessoas comiam em pé. O atendimento era rápido porque havia muitos fregueses. Esses dois senhores, vestidos em camisa de mangas compridas, calça social, sapato lustrado, bigode bem aparado, cabelos no gel e gravata. Eles ficavam no caixa, aquela máquina registradora verde, gigante. Minha mãe fazia o nosso pedido: um sanduíche para cada uma e um suco de limão. Recebíamos uma ficha de metal verde e outra preta para cada item.

 

Depois de receber as fichas, ao lado do caixa, já entregava uma delas para um senhor meio marrento, mas ligeiro, que preparava o suco em uma máquina de metal. Depois, o sanduíche. Vinha um rapaz que tinha uma fisionomia de ser do nordeste. Para mim, só ele saberia preparar meu sanduíche: espetava a linguiça com a faca, colocava no pão e incrementava com o vinagrete. Que delícia!

 

Quando adulta, voltei à Casa Califórnia, já havia mudado de lugar antes de retornar ao ponto de origem. Mas nunca mais foi a mesma Califórnia da minha época.

 

Patrícia Rivarola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Mundo Corporativo: o local de trabalho inspira e retém talentos

 

 

 

 

“Hoje para reter talento, muito mais importante do que salário, plano de carreira, etecetera e tal, é o valor agregado que as empresas estão entregando na vida desses funcionários, ou seja, com jornada flexível, seja com outros tipos de ambientes de trabalho, e, por incrível que pareça, o espaço agrega bastante” Tiago Alves, IWG no Brasil.

 

 

O lugar onde você trabalha, o tipo de escritório que você usa … tudo isso pode ser transformador no seu negócio. Vai depender da escolha que você fizer —- e, claro, que esta escolha deve levar em consideração as características e a cultura da sua empresa. Coworking, escritórios compartilhados ou sede própria são algumas das opções no mercado. Para entender a diferença desses ambientes, o Mundo Corporativo entrevista Tiago Alves, presidente do IWG no Brasil, grupo que reúne marcas como a Regus e a Spaces.

 

 

Alves defende que o uso dos espaços compartilhados pode ajudar no desenvolvimento de novos produtos e serviços:

 

 

“… como as empresas hoje tem uma necessidade de se conectar com inovação, uma das formas mais rápidas delas mostrarem inovação par aos seus funcionários e estarem conectadas com o que está acontecendo de novo é migrar o seu espaço para um ambiente colaborativo”

 

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site cbn.com.br, na página da CBN no Facebook e no perfil do Instagram @CBNoficial. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN. Colaboram com o Mundo Corporativo: Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Jovens dedicarão mais tempo ao rádio do que a televisão, até 2025

 

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“O rádio é a mídia do futuro”.

O caro e raro leitor deve ter lido a frase acima uma dezena de vezes neste blog. Se um dia me deu o privilégio de ler “Jornalismo de Rádio”, lançado pela editora Contexto, em 2004, talvez lembre-se dela na página de abertura. Foi-me dita por Alberto Dines, em um bate-papo na redação do Portal Terra. Reafirmada por ele quando pedi licença para dar o devido destaque na publicação. E defendida em cada parágrafo do livro por mim.

 

Volto a citá-la porque fui apresentado ao relatório “Previsões de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações 2019”, da Deloitte Global, emprese de auditoria e consultoria.

 

A análise é bem mais ampla: fala da tecnologia 5G, inteligência artificial, smart speaker, computadores quânticos, entre tantas outras inovações. Por óbvio me ative ao capítulo “Rádio: receita, alcance e resiliência” —- que reafirma minha crença tornada pública há 14 anos.

 

Saber que o rádio foi considerado em estudo que avalia tecnologias tão avançadas já foi um ótimo sinal. Aprofundar nos números, então, mexeu com o entusiasmo deste jornalista que dedicou — e dedica —- boa parte da carreira ao rádio.

 

Em resumo, o que os números e as análises revelam:

Mais jovens ouvintes — o que sinaliza um futuro promissor.
Mais ouvintes ouvindo por mais tempo — o que aumenta o engajamento.
Mais ouvintes que trabalham, que têm boa educação e maior renda — o que pode atrair melhores anunciantes.
Mais de um terço dos ouvintes em busca de notícia —- e essa me deixou ainda mais feliz, é lógico.

O estudo da Deloitte Global diz ainda que a tendência é que os jovens de 18 a 34 anos passarão mais tempo ouvindo rádio do que assistindo à TV até 2025. E para bancar essa previsão, compara o cenário atual no qual identificou-se que a audiência de TV está caindo três vezes em relação a taxa de audição de rádio.

 

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reprodução de relatório Deloitte

 

A previsão é que o alcance semanal permanecerá quase onipresente, com mais de 85% da população adulta ouvindo rádio, pelo menos semanalmente, no mundo desenvolvido. Quase 3 bilhões de pessoas no mundo todo ouvirão rádio, em 2019. E a receita global chegará a US$ 40 bilhões.

 

Se você ainda enxerga tudo isso com incredulidade, não se incomode. Está apenas sendo refém de um viés inconsciente, construído ao longo do tempo por visionários do caos radiofônico. Eu continuarei acreditando no potencial deste veículo e contando com a sua audiência.

“Radio is the voice whispering in our ear, in the background of dinner, in an office, or while driving the car. It is not pushy or prominent … but it is there”

 

“Rádio é a voz sussurrando em nossos ouvidos, no fundo do jantar, no escritório ou dirigindo o carro. Não é insistente ou proeminente … mas está lá”

Leia o estudo completo com previsões para tecnologia, mídia e telecomunicações 2019

O consumidor e o bônus das inovações tecnológicas

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O varejo mundial há muito tem pesquisado, estudado e inovado sobre o atendimento ao consumidor. Com esse objetivo, criaram-se novos canais, novas formas e novos conceitos, colocando o foco essencialmente na satisfação do consumidor.

 

Do mercado de massa passamos pela segmentação, pelos nichos e chegamos à customização. E  deveremos atingir a massificação da customização, com o propósito de conquistar e fidelizar o consumidor.

 

Mas e o consumidor?
Está feliz? Está confortável?
Ou, está ameaçado na sua privacidade?

 

Para responder essas questões, buscamos a professora, consultora e escritora Regiane Relva. Foi ela quem nos instigou ao tema, após termos assistido a sua palestra sobre o Novo Varejo, em evento da ALSHOP, há uma semana.

 

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Palestra de Regiane Relva em Dubai sobre inovação no varejo

 

 

Regiane, doutora em Administração da Tecnologia da Informação pela FGV, adverte que a maioria dos consumidores não está visualizando a invasão de privacidade que as novas ferramentas tecnológicas acarretam.

 

Para comprovar essa expectativa, cita recentes visitas aos Estados Unidos e a China.

 

Em Nova York, em janeiro, a NRF testemunhou um enorme crescimento de oferta de tecnologia, a ponto de abrigar 792 expositores.

 

Se nos Estados Unidos existe o potencial de perda de privacidade, na China o controle das pessoas já é um fato.

 

O WeChat, plataforma que substitui a mídia social e demais, enviando e recebendo mensagens e pagamentos, é do governo. Além disso, há cidades com áreas totalmente cobertas por câmeras comportamentais.

 

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Ao mesmo tempo, o que se viu em Nova York, na NRF, é que as inovações chamam a atenção com aplicações em VISÃO COMPUTACIONAL e INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 

Na Visão Computacional, o destaque fica com as câmeras de captação de comportamento, ressaltando as reações faciais e corporais.

 

Na Inteligência Artificial, aglutinam-se ícones como o Big Data; a Biometria utilizando íris, visão e voz; o RFID, que é a identificação por radiofrequência; a AIDC, que é a captura automática de dados para identificação; o Celular;e a IOT, que é a inteligência das coisas fazendo com que todos os equipamentos se comuniquem entre si.

 

Com o comportamento do consumidor previsto por este conjunto de ferramentas, as empresas que as utilizam tem conseguido fornecer uma experiência de compra diferenciada.

 

Entretanto, a professora Regiane manda um recado:

adiante deste bônus há ônus, sobretudo na privacidade das pessoas.

 

E faz um convite:

Aula inaugural, em 9 de março, do MBA em Gestão e Inovação em Cidades Inteligentes, como Coordenadora do Smart Campus Facens, em Sorocaba — trabalho no qual recebeu, em 2017, o Prêmio Smart City UK London.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung