Sua Marca: o que aprender com a estratégia da Natura de investir em Tammy Miranda, no Dia dos Pais

 

“Com o tempo, muda a marca, muda o tema, mas não mudam as pessoas” – Cecília Russo.

A campanha publicitária da Natura para o Dia dos Pais nas redes sociais usou a imagem de Tammy Miranda, ator, transexual,  casado com Andressa Ferreira e pai de Bento, que está com seis meses. O lançamento causou polêmica, críticas à empresa, pedidos de boicote à marca e uma contra-reação de celebridades e público apoiando a atitude da Natura.

 

O tema foi discutido na edição do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com comentários de Cecília Russo e Jaime Troiano. Eles lembraram que não é uma novidade ações desse tipo que causam forte debate na sociedade. Há cinco anos, por exemplo, o Boticiário levou para o ar sua campanha publicitária com um casal homossexual e sonorizado com a música “Toda foram de amor”, de Lulu Santos.

 

A questão é entender se vale a pena a marca se envolver nestas polêmicas:

“Tem uma resposta que é um pouco frustrante, porque começa com depende … Marcas podem e devem ser catalisadoras de discussões na sociedade e, às vezes, têm esses canal de mídia para usar e trazer alguns temas”, diz Cecília.

Por que então depende?

 

Jaime Troiano responde:

“Um condição essencial é que as marcas não podem apenas jogar para a torcida, apenas se aproveitar de uma causa, um buzz, uma discussão, como se fosse uma fachada … É preciso que elas pratiquem da porta da rua para fora aquilo que fazem da porta da rua para dentro, porque marca não é tapume”.

É preciso, como dizem os americanos: “walk the talk”, ou seja, fazer o que se fala.

 

A consistência na narrativa da marca é fundamental para se ter sucesso em iniciativas como essas que provocarão debate na sociedade.

“Polêmicas apenas valem a pena se você genuinamente estiver comprometido com elas. Caso contrário, não seja tapume; não seja falso”, ensina Cecília.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é apresentado por Mílton Jung e vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. Para comentar e sugerir temas, escreva para marcasdesucesso@cbn.com.br

Mundo Corporativo: empresas com cultura de compliance sólida se saem melhor na crise, diz Márcia Makishi

 

 

“Quem já tinha essa cultura de compliance disseminada e bem absorvida pelos seus colaboradores tem conseguido manter as operações com muito mais regularidade até porque as pessoas já estavam acostumadas a seguir as regras e não precisam de uma supervisão ou de monitoramento constante.” —- Márcia Makishi

Garantir a integridade corporativa com as mudanças provocadas pela pandemia do coronavírus foi um dos desafios impostos a gestores e colaboradores. As empresas que já vinham desenvolvendo politicas de compliance conseguiram se adaptar mais rapidamente, mesmo assim foi necessário agilidade e revisões nos procedimento porque boa parte das equipes passou a trabalhar à distância, sob novo regime ou diante de controles sanitários mais rígidos.

 

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, Márcia Makishi, advogada especialista em compliance da Innovativa Executivos Associados, comentou que geralmente quando se fala de políticas de integridade a tendência é pensar em ações anti-corrupção, mas o tema é muito mais amplo pois trata-se da segurança da informação, privacidade de dados, questões trabalhistas e da cultura da empresa.

“Tudo isso demandou uma resposta muito rápida das empresas, das organizações. Vamos pegar, então alguns aspectos: nós tivemos mudanças em regras trabalhistas, e que não são permanentes, são temporárias. Tem de ter o cuidado de fazer a adaptação correta nesse processo na relação com seus trabalhadores. Faz parte das regras de compliance, até porque a relação da empresa com seus colaboradores é uma das mais sensíveis”.

Com a tendência de as empresas permitirem o trabalho remoto ou criarem um sistema híbrido com o funcionário podendo estar alguns dias na empresa e outros à distância, os responsáveis pelas políticas de integridade da empresa terão de redobrar suas atenções para que as regras sejam respeitadas:

“O trabalho remoto não significa um isolamento daquele funcionário, portanto um dos itens importantes do trabalho remoto é justamente criar formas diferentes de comunicação”.

O Mundo Corporativo é gravado às quartas-feiras, 11 horas, e pode ser assistido no canal da CBN no You Tube. O programa vai ao ar, aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboram com o programa Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Conte Sua História de São Paulo: “estas pensando que é o Pintacuda?”

 

 


Por Maria Helena Leonel de Queiroz
Ouvinte da CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte Maria Helena Leonel Gandolfo:

 

Meu pai havia se casado com a filha de um comerciante português. O tio Carlos, irmão do papai, com a filha de um rico industrial italiano. Em 1936, morávamos em um sobradinho na Lapa. E meu tio num belo palacete na Rua Estados Unidos. No dia 12 de julho um importante acontecimento marcava a estreia da cidade de São Paulo no cenário automobilístico internacional: o I Grande Prêmio de São Paulo.

 

Pilotos europeus e sulamericanos, que um mês antes haviam participado do IV GP Cidade do Rio de Janeiro, no Circuito da Gávea, inscreveram-se para a prova que iria se realizar nas ruas do Jardim América. O circuito, com cerca de 2.500 metros, tinha sua linha de largada e de chegada na Av. Brasil, em frente ao prédio do Automóvel Clube e formava o quadrilátero com as ruas Colômbia, Estados Unidos e Canadá. Um percurso de 60 voltas, totalizando 150 quilômetros.

 

Alguns corredores, os mais renomados, eram o italiano Carlo Pintacuda, com sua Alfa Romeo 8C35, o argentino Augusto MacCarthy com um Crysler V-8; e os brasileiros Manuel de Teffé, com sua Alfa Romeo 6C1750 e Chico Landi, com um Fiat. Mas a estrela, sem dúvida, era a francesa Hellé-Nice, que disputava a corrida com seu Alfa Romeo 8C35, pintado de azul — artista de teatro, acrobata e dançarina no Cassino de Paris, Mariette Hélène Delangle, nascida em 15 de dezembro de 1900, havia iniciado sua carreira como piloto nos anos 30.

 

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Meu tio, por morar na Rua Estados Unidos, mandou fazer no jardim um palanque para assistir à corrida com todo o conforto junto com seus amigos. Meus pais, obviamente, figuravam entre os convidados. Nós, as crianças, ora brincando no jardim, ora subindo no palanque, estávamos na maior excitação, ouvindo o barulhão dos carros que passavam.

 

Até que, lá pela 50ª volta, aconteceu o acidente. Dizem uns que foi quando Helenice tentou ultrapassar Manuel de Teffé e os carros se entrechocaram. Outros, que ela perdeu a direção para não atropelar um policial que atravessou a pista. Outros ainda contam que uma fã de Teffé, para atrapalhar Helenice, empurrou contra seu carro um fardo de feno.

 

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Tenha sido esta ou aquela a causa, a conseqüência foi que, correndo a 160 km/h, o carro capotou duas vezes e investiu contra a multidão que assistia à corrida, matando cinco pessoas e ferindo mais de 30. Helenice, lançada fora do carro, foi hospitalizada, recuperando-se após ter ficado três dias em coma. Traumatizada, ela deixou de participar de corridas de grande prêmio passando a disputar apenas provas de ralis.

 

A corrida de São Paulo chegou ao fim com a vitória de Pintacuda mas o acidente causou grande agitação. Durante dias e dias não se falava de outra coisa. Por isso é que Helenice e Pintacuda são dois nomes que logo me vêm à cabeça quando se fala em Fórmula 1. Naquela época, quando alguém pisava exageradamente no acelerador era certo ouvir o comentário: “Está pensando que é o Pintacuda?”

 


Maria Helena Leonel Gandolfo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: de sorteio do porco à entrevista sem perguntas, coisas estranhas que vivi no futebol gaúcho

 

Grêmio 0x0 Nova Hamburgo
Gaúcho —- Arena (?) Alviazul, Lajeado/RS

 

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Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA no Flickr

 

Futebol do jeito em que as coisas andam já é estranho por si só. Jogado em campo de várzea, sem torcida e com direito a lances bizarros, só da pra assistir com um copo de vinho na mão, um sofá inteiro para a gente se esticar e o cobertor para aquecer o frio que fez nessa tarde, em São Paulo.

 

O Grêmio jogou em Lajeado, no Vale do Taquari, região que está sob bandeira laranja há algumas semanas —- o que significa que tem risco médio de contaminação da Covid-19. A partida era para ser em Novo Hamburgo, na casa do adversário, mas lá a coisa está mais complicada ainda — a bandeira é vermelha. E se é vermelha, não se joga futebol.

 

O estádio escolhido para o jogo leva o apelido de arena. Que me desculpem os simpáticos torcedores do Lajeadense: as arquibancadas e o gramado não merecem o nome que recebem. A bola trocava de direção a cada passe, driblava por conta própria os marcadores e proporcionava cenas cômicas sempre que algum atacante tentava acertá-la em gol. Não foi de surpreender o zero a zero.

 

A precariedade da estrutura oferecida para o jogo serviu ao menos para me lembrar de momentos icônicos que vivenciei nos gramados do Rio Grande do Sul como repórter esportivo da rádio Guaíba de Porto Alegre.

 

Na segunda linha daquele timaço que formava o “Futebol da Guaíba”, cabia a mim as paradas mais difíceis, como os jogos de sábado à tarde, disputados pelo São José, em estádio que levava o nome do bairro do Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre —- em uma época em que estádio de futebol era apenas um estádio de futebol. Para atrair torcedores, no intervalo das partidas, o clube promovia sorteios. Em uma das partidas fui convidado a tirar da urna o bilhete premiado. Com a pompa e a solenidade que o momento exigia, chamei pelos microfones do estádio o número vencedor e o prêmio maior lhe foi entregue: um porco vivo que, depois de sorteado, poderia ter o destino que o novo dono bem entendesse.

 

Naqueles tempos, eram os anos 80,  repórter de campo era repórter de todo campo. Tinha liberdade para circular pelo entorno do gramado, descrever o lance com os detalhes que só ele havia visto e reproduzir as cenas proporcionadas pelos técnicos e jogadores na casamata (que aqui em São Paulo preferem chamar de banco de reservas). Não havia esta história de só entrevistar jogador escolhido pela assessoria de imprensa do clube e esperá-lo na área reservada à imprensa. A medida que o cronômetro se aproximava do fim da partida, nos deslocávamos para o lado do gramado e nos preparávamos para uma corrida desesperada em direção ao personagem do espetáculo.

 

Em um jogo qualquer do Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho, no estádio Olímpico Monumental —- esse sim merecia o título de Arena de Todos os Campeões —-, me posicionei a espera do final da partida. Nem bem o trilar do apito do árbitro havia se encerrado, abusei da minha juventude e com o microfone na mão e um fio enorme a me seguir, corri em busca da palavra do craque. O esforço para chegar antes dos concorrentes, me fez perder o fôlego. Sem conseguir dizer uma só palavra, restou-me estender o microfone em direção a ele que respondeu a uma pergunta que jamais consegui fazer. Após alguns minutos, nos quais o meu entrevistado disse o que bem entendia e minha respiração voltava ao ritmo normal, ao menos tive um saída espirituosa: “(fulano de tal) falou no microfone da Guaíba e mostrou que além de bom de bola é bom de papo, nem precisei fazer pergunta e ele já me respondeu”.

 

Como a Inteligência Artificial na Moda reduzirá liquidações, preços e poluição

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Um dos mais inovadores autores organizacionais da era moderna, Eliyahum Goldratt, após desvendar as restrições dos processos industriais quando focou nos gargalos, levou adiante o raciocínio para a distribuição dos produtos fabricados. E enquanto na área industrial o gargalo era o inimigo a ser encontrado, no varejo o desafio era a previsão de vendas.

 

O israelense Goldratt, já físico renomado, passou a dirigir sua atenção para os desafios corporativos ao adentrar inicialmente nos problemas dos processos industriais.

 

Sua metodologia inspirada na física e denominada de Teoria das Restrições (TOC-Theory of Contraints) foi aplicada com sucesso. O conceito das restrições em otimização matemática é limitativo — por exemplo,  X não pode ser maior do que 5 –, mas nas organizações a restrição é dispersa, como algo que está impedindo o melhor rendimento, mesmo quando nada está errado. Pode ser problema com equipamentos, pessoas, sistemas e no caso de vendas poderá estar partindo de uma previsão imprecisa.

 

A contribuição de Goldratt para a distribuição e alocação do sortimento adequado foi expressiva, mas é com a IA — Inteligência Artificial que haverá uma aproximação da velha obsessão pela mercadoria certa no momento certo e de forma certa.

 

O mundo da Moda, pela evidência em valor, US$2,4 trilhões anuais; pela empregabilidade, a segunda maior absorvedora de mão de obra; e, também, pela incomoda posição de ter a cadeia produtiva das mais poluidora e o consumo com alto desperdício; é um setor promissor para reter os benefícios da Inteligência Artificial.

 

Além disso tem inúmeros SKU (Stock Keeping Unity – Unidade de Manutenção de Estoque) o que lhe dá uma complexidade acima do padrão geral de produtos. Por exemplo, se for uma mercadoria de moda podemos ter o estilo, a estação, o produto, o modelo, a cor e o tamanho.

 

De acordo com reportagem da Época Negócios (acesso restrito a assinantes), a Renner está implantando a Inteligência Artificial para o abastecimento das lojas. Inicialmente o sistema teve que ser ampliado para absorver as variáveis e suas combinações na composição do sortimento adequado, pois apenas com 5 tamanhos e 3 cores, surgirá 15 opções para considerar.

 

No caso de Moda e de distribuição para as várias regiões brasileiras, com diferenças climáticas, antropométricas, culturais, o sortimento terá que atender a essas variáveis, procedendo a um sistema de “n” combinações.
Os resultados na Renner, de acordo com a Época, foram positivos e gerou aumento de 12% nas vendas e a redução de 18% no estoque. O nível de atendimento evoluiu, a cada 10 clientes 9 são atendidos e apenas um não encontra o produto que procura.

 

Com a meta de 17% do abastecimento ficar a cargo da IA, e com isso obter aumento de 5% nas vendas e redução de estoque de 10%, considerando 97% de nível de atendimento previstos para este ano, a Renner deverá reduzir a liquidação, reduzir os preços e reduzir a poluição. Afinal, menor sobra, indicará melhor monitoramento dos recursos escassos e das restrições.

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

 

Do mito de narciso às “carteiradas”: saiba com quem você está falando!

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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foto: Pixabay

 

Na mitologia grega, Narciso era um herói reconhecido por sua beleza, mas era orgulhoso e tinha uma arrogância que ninguém conseguia modificar. Devido à tamanha beleza, Narciso era indiferente aos sentimentos alheios, vivia sozinho e desprezava as outras pessoas por acreditar que ninguém era merecedor de seu amor. Incorrigível, recebeu como castigo dos deuses apaixonar-se pela própria beleza, refletida num lago. Permaneceu ali, contemplando sua imagem, definhando até a morte.

 

O mito de Narciso simboliza a importância exagerada atribuída à autoimagem, o excesso de vaidade e a tendência a desvalorizar outras pessoas para manter a superioridade. Para os gregos os excessos ou aquilo que passasse da medida, que fosse exagerado, promovia o desequilíbrio nas condutas humanas e era um empecilho à virtude, a capacidade de agir com prudência e bom senso.

No Brasil, o comportamento de superestimação de si mesmo é frequentemente evidenciado em situações conhecidas como “carteiradas”, nas quais a ideia de superioridade é revelada pela conhecida frase: “você sabe com quem está falando?”.

Análises históricas e sociais buscam compreender os motivos pelos quais tal atitude parece tão enraizada em nossa sociedade. O antropólogo Roberto Da Matta, em entrevista recentemente publicada pelo portal G1, indicou o forte componente aristocrático da sociedade brasileira, avesso ao igualitarismo pelo desejo de manter privilégios, numa sociedade na qual ter privilégios é equivalente a não ter limites.

 

Na mesma reportagem, a historiadora Lilia Schwarcz avaliou que essa cultura da “carteirada” cresceu num ambiente em que historicamente poucos mandavam e muitos obedeciam:

“O sistema colonial e o esquema de capitanias hereditárias, o regime escravocrata que perdurou por mais tempo aqui do que em outros países, o coronelismo e o nepotismo político que confunde as esferas do público e do privado deram condições para a carteirada reinar”.

Na psicopatologia, o perfil caracterizado por um padrão de grandiosidade, necessidade de ser admirado e falta de empatia é compreendido como um transtorno de personalidade: o transtorno de personalidade narcisista. Esse transtorno, de causa ainda desconhecida, atinge aproximadamente 1% da população, sendo mais frequente em homens e pessoas mais jovens.

 

Pessoas com transtorno de personalidade narcisista superestimam suas habilidades, julgando-se superiores ou mesmo especiais. Há uma preocupação excessiva em serem admiradas por seus talentos, com supervalorização de aspectos como inteligência, beleza, poder e influência. A necessidade exagerada por admiração torna essas pessoas muito sensíveis às críticas, podendo reagir com raiva, desprezo e até mesmo de maneira agressiva. Suas atitudes frequentemente envolvem falta de empatia, arrogância e a ideia de que suas vidas são invejadas pelas outras pessoas, que são vistas como inferiores.

 

Ter uma boa imagem de si mesmo e confiança na capacidade de realizar coisas permite um relacionamento saudável conosco e com as demais pessoas. Mas como desde a antiguidade já alertavam os gregos, o problema está no excesso.

 

Confesso que algumas vezes já ouvi a frase “você sabe com quem está falando?” e, muitas vezes sem poder responder exatamente o que eu pensava, me fixava na resposta: “não sei, mas posso imaginar”.

 

Oh, Narciso! Mal sabia que aprisionado à imagem refletida para si mesmo, não compreendia que as águas para as quais olhava eram mais profundas.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sem blog e sem solução, mas com direito a mais um pôr do sol na minha vida

 

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Uma barbeiragem burocrática tirou este blog do ar por três dias —- menos do que isso até, porque o problema apareceu no meio do sábado e foi resolvido ao longo da segunda-feira. Pareceu-me uma eternidade. O recado que recebi era de que o administrador tentava avisar o proprietário do site dos motivos que impediam sua publicação e pedia para que os leitores do blog —- ou aqueles que tentassem acessá-lo —, o avisassem: “queremos garantir que eles recebam a mensagem”.

 

O fim de semana foi de rara paz no coração —- proporcionada por uma escapadela para uma área pouco habitada, distante de qualquer pessoa e com acesso à moradia sem risco de contaminação — nem de vírus nem de gente. Higienizada com 72 horas de antecedência e acesso remoto, cercada por uma reserva ambiental privada e todo sua flora e fauna à solta, a casa era o que, nestes tempos de paranoia sanitária, sem pestanejar, eu definiria de paraíso — com direito a pôr do sol, até porque não há paraíso sem pôr do sol (e outro dia podemos falar sobre isso).

 

Tinha até Wi-Fi e sinal 4G conectando você ao mundo. Abri mão desse privilégio e preferi afastar-me do celular na medida do possível — minha gurizada, como trabalha no remoto, mesmo no fim de semana, precisava dessa tecnologia à disposição.

 

Claro que caí em tentação. Já passavam das duas da tarde quando resolvi dar uma olhadela na tela do celular e me chamou atenção entre as centenas de notificações do WhatsApp a mensagem do Ric, amigo querido e colaborador deste blog (há algum tempo ele tem dado preferência ao Instagram). Foi ele quem me alertou para as dificuldades de acessar o blog — confesso que fiquei feliz, não pelo bloqueio, mas por saber que o Ricardo Ojeda Marins (é assim, com nome e sobrenome que ele assina seus texto) segue me seguindo. Aliás se você quiser ler as inúmeras colaborações que o Ric já fez ao blog, acesse este link.

 

Dali em diante foi aquela maratona que você conhece bem quando dá problema na sua internet, no seu perfil em uma rede social ou em qualquer outro serviço digital ou não. Escreve para quem você acha que entende. Espera que quem você acha que entende escreva para quem ele acredita realmente entender. E de repente você é surpreendido por alguém que você achava que entendia lhe fazendo uma pergunta típica de quem não entende o que você, claro, entende menos ainda, caso contrário não precisava sequer fazer a pergunta que deu início aquele círculo de desentendimento.

 

O círculo de desentendimento persistiu no fim de semana todo e invadiu a segunda-feira. O blog seguiu alertando aos caros e raros leitores que “o mapeamento deste domínio expirou e precisa ser renovado” — que no balcão do bar significava que “esse cara que você curte ler, é caloteiro ou esquecido, porque até agora não pagou a conta da renovação do contrato”.

 

Mais de quatro meses de quarentena, dezenas de sessões de terapia e algumas caixas de remédio —- tarja preta, vermelha, rosa e todas demais cores que pintam como solução terapêutica —-, me ensinaram que se não tem como resolver o problema agora, o problema está resolvido (nem que seja por agora). E só voltará a sê-lo quando a busca por uma solução estiver a seu alcance.

 

Joguei o celular sobre as roupas que estavam espalhadas no chão do quarto, fechei o computador e o deixei descansando sobre o edredom emaranhado que cobria os pés da cama. Desliguei-me da tecnologia. E conectei-me comigo mesmo.

 

Troquei as tramas do passado, as encrencas do futuro e os problemas sem solução do presente pela grama que se estendia da porta da casa até a beirada da montanha —- uma geografia que se transformava em mirante natural para apreciar a figueira e todos os seus majestosos galhos que cresceram alguns andares abaixo.

 

Aproveitei um tiquinho de vida que ainda se faz presente no nosso cotidiano tão cheio de morte e luto — e fiquei feliz em saber que depois de me sentir cidadão privilegiado por ter uma família ao lado, uma saúde, física e mental, capaz de sempre se recuperar, e o direito a apreciar mais um dia que fosse de pôr do sol, aquele problema tecnológico deixou de ser problema, a solução foi oferecida nesta segunda-feira e o blog segue seu rumo, conversando todos os dias com seus caros e raros leitores — cada vez mais caros e raros.

Sua Marca: culpar o serviço terceirizado é culpar a si mesmo

 

“Uma marca, por exemplo, que está vendendo excelência, ela tem que entregar excelência em todos os pontos de contato, sejam eles internos ou sejam terceirizados”

Terceirizar a prestação de serviços no seu negócio pode ser opção diante das dificuldades impostas pela pandemia —- no entanto, os cuidados para a contratação dessas empresas devem ser redobrados levando em consideração as novas exigências impostas pela realidade e pelo cliente. Jaime Troiano e Cecília Russo falaram desse tema com o jornalista Mílton Jung, no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

 

A relação do cliente é com a marca, portanto não interessa se o serviço de manobrista oferecido pela empresa é próprio ou terceirizado. Para o consumidor, o carro comprado em uma concessionária pode ter até serviços instalados por outras empresas —- por exemplo, a blindagem ou o sistema digital a bordo —, mas para ele o seu interlocutor é a própria concessionária.

 

Esses foram dois dos exemplos que Jaime e Cecília trouxeram para a conversa desse sábado, em que alertaram para a necessidade de os gestores de marcas padronizarem o tipo de atendimento aos clientes independentemente da empresa que esteja prestando esse serviço. Lembraram que a terceirização não justifica erros que sejam cometidos em qualquer um dos pontos de contato com os consumidores

“O serviço terceirizado tem de ser feito quase como se fosse alguém da própria empresa; desde a forma como se apresenta o uniforme que você usa, a linguagem
que você fala, por isso a seleção dos profissionais é fundamental numa escolha de empresa terceirizada, para que eles representem a marca”— Jaime Troiano

A sugestão para que esses serviços agregue valor a marca —- em vez de causar dor de cabeça ao consumidor —- é seguir o alerta que aparece nas placas de aviso de travessia em linha férrea: pare, olhe e escute. Esse é um exercício essencial para identificar se vale a pena terceirizar alguns serviços do seu negócio.

“Tome cuidado para não descuidar do cuidado com sua marca”, brinca com as palavras Cecília Russo.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. Você pode acompanhar todos os comentários também em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: a coragem além-mar da vó Antônia

 

Por Neusa Pereira
Ouvinte da CBN

 

 

Antônia senta–se à porta da cozinha e olha pro terreiro. Pensativa vê sua horta. As galinhas ciscam aqui e ali. A parreira de uva que começa a cachear. Sente uma enorme tristeza. Como que uma saudade antecipada. Talvez nunca mais veja tudo aquilo. Já pensara na situação. Uma grande guerra havia chegado à Europa. A primeira de muito tempo. Não se lembrava de ouvir falar de uma assim. E tudo a assusta. Chora quando vê a fila de moços da vizinhança passar pela sua porta. Seguem pra ajudar as tropas de Portugal. Ela, com um único filho ainda adolescente, o Jaime, não tem, no momento, essa preocupação. Mas, seu coração se condói ao ver as famílias vizinhas chorosas e aflitas. Tinha raiva dos ingleses.
Ouvira dizer que, era por culpa deles que seu país se aventurava no inferno.

 

Aos pés de Nossa Senhora da Conceição, ao lado da cama, Antônia reza. Que proteja aquelas crianças que já empunham um fuzil. Que conforte, dê esperança e força. Ora também por ela e pela família. Que encontrem uma alternativa. Uma saída pra fugir da guerra. Com olhos fixos na santa, espera. Uma mensagem. Um alento. Olhos nos olhos. Pensamentos nos pensamentos. E, Antonia, então, silenciosamente, abaixa a cabeça e, como que respondesse a alguém murmura pra si mesma: sim, farei isso.

 

Naquela noite, na mesa do jantar: pão, sopa de fubá com couve, azeite e vinho caseiro. O de quase sempre. Silenciosa, Antônia faz seu prato e, com ele ainda parado no ar, arranja forças e sentencia: “A guerra está a chegar cada vez mais perto. Vamos ter que ir embora. Deixar nossa casa. E, vamos para o Brasil.”. O filho apenas olha pra ela. O marido, Pompeu, homem de saúde frágil, de pouca conversa e, de muito respeito pela mulher, naquele dia diz zangado: “Estás a variar mulher? Sabes onde é o Brasil? Tens ideia que vamos a atravessar um oceano inteiro pra lá chegar? Sabe-se lá quantos dias, com a saúde que tenho?”
Sei, sei, respondeu Antônia impaciente. Sabia que o marido era doente. Ia ser penoso. Mas não ia esmorecer. “Raios, diz ela, e vamos pra onde homem de Deus? Queres ficar aqui? Esperar bomba a cair em nossa porta? Soldados a fuçar a casa? A nos matar? Exageras, fala o marido. Então, ficas. Vou e levo Jaime”, finaliza Antonia. Silêncio. Marido e mulher se olham. Começam a jantar. Como se o assunto houvesse terminado. Pra lá iremos! Pensava ela.

 

Longe sabia que era. Ela já ouvira falar. Mais de mês de viagem. Mas, lá, tudo havia de se arrumar. Brasil não era a terra que um português legítimo, o Cabral, havia posto no mapa? Terra onde até a mesma língua se falava? E, quantos patrícios sabia estarem por lá! Sofria ao pensar. Talvez mais que todos. A decisão era dela.

 

Dia nublado, sacos, sacolas, malas, caixotes. Rosário preto nas mãos. Com sua saia comprida e lenço na cabeça, Antônia, Pompeu e Jaime, embarcam para o Brasil. Terceira classe com dezenas de outras famílias. Está aliviada.
Dias e dias a viajar. Olhar o mar. Pensar no futuro. Esperar. Então, ao longe, sombras no horizonte. Terra. Brasil, ali! Emocionada, ajoelha e reza. Agradecimento, alegria, esperança. Chora. Na fila do desembarque, segura firme a mão de Jaime. Se sente forte, protetora, capaz.

 

Assim, a mulher analfabeta, camponesa de Trancoso, começa uma nova vida. Enfrenta dificuldades. Encontra soluções. Trabalha. É mão forte no orçamento e nas decisões da casa. Como milhões de outras mulheres corajosas e valentes do mundo daquela época, Antonia, sem saber, engrossa as fileiras dos que aprendem na necessidade. Na luta. Na briga pela sobrevivência. E, ela, aprendeu ,porque decidiu. Empreendeu, construiu. Criou uma nova família brasileira. Empoderavam-se as mulheres do mundo. Empoderava-se dona Antônia da Conceição Pereira, minha avó.

 

Neusa Pereira e dona Antônia da Conceição Pereira são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreve você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Mundo Corporativo: diálogo e empatia ajudam a corrigir erros na pandemia, ensina Fabile Migon, da Zoop

 

 

“A gente bota todo foco em empatia. Empatia é a nossa chave para cuidar e saber como as pessoas podem e devem lidar nesse momento que a gente esta vivendo” — Fabile Migon, Zoop

Para os profissionais responsáveis por cuidar dos colaboradores dentro das empresas, a necessidade de manter um relacionamento à distância se transformou em mais um enorme desafio nesta pandemia. Mesmo em setores em que a tecnologia é a base do negócio, como no caso da Zoop, uma plataforma de serviços financeiros e meios de pagamento, a adaptação exigiu esforço redobrado. No caso de Fabile Migon, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN, havia outro complicador: ela havia assumido a vice-presidência de Gente e Cultura da empresa cerca de dois meses antes de as atividades serem paralisadas no escritórios e todos os colaboradores terem de trabalhar em casa.

“(Quando) você vive este estresse, você vive esta ansiedade, você tem dois pólos:: pegar essa adrenalina; e vamos fazer acontecer; e aquilo te dá gás, te dá energia, te dá foco, motivação e brilho nos olhos e segue em frente; ou você pega esse estresse e paralisa: medo, receio, ansiedade”

Para Fabile Migon, um das estratégias que deram certo na empresa foi a de manter as mesmas características que os colaboradores reconheciam na Zoop: ser humana, divertida e leve com os colaboradores. Uma das ideias foi dar seguimento a programas realizados dentro do escritório como o de as equipes tomarem café da manhã juntos para conversar sobre os mais variados temas, desde que não estivessem relacionados ao trabalho nem a pandemia. Para isso foi criado o programa #cafécomgente em que os profissionais se conectam online e falam de séries, livros e assuntos que podem trazer mais humanidade para o ambiente de trabalho.

 

As reuniões do CEO com os colaboradores aumentaram de frequência para que houvesse maior transparência sobre os cenários que a empresa estava enfrentando. Além disso, foi criado um atendimento terapêutico exclusivo, em que os funcionários podiam ligar a qualquer momento para falar de suas ansiedades e preocupações.

“Então, o diálogo, a comunicação, a proximidade, a empatia faz com que a gente vá corrigindo coisas ao longo do caminho e não deixe para corrigir lá na frente; a ponto de ‘meu Deus, as coisas já aconteceram e a gente não foi corrigindo’. Então, é humanidade mesmo. É você estar próximo das suas pessoas que é o maior ativo que a gente tem”.

O Mundo Corporativo é apresentado pelo jornalista Mílton Jung e vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa também está disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.