De tempos difíceis

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Toda dor passa? Passa, mas deixa cicatriz.

 

Não acredito em dor grande, média ou pequena. Já tive dor de todo tipo, uma danada dor de dente que levou a intervenção no seio da face, uma cirurgia na coluna e, ai que dor! morfina por três dias. Tive dor de parto e de partida, de fratura e contratura, de incompreensão e solidão. Toda dor é simlesmente dor. Material e imaterial.

 

Já tive muita dor de amor e pouca dor de cabeça, sofri a dor da insegurança, das duas faces do ciúme, da indiferença, de maus-tratos e preconceito. Sofri a dor da traição, tanto de amor quanto de amigo, a do desdém, da descrença, da maledicência e do abandono.

 

Agora, levando em conta a tradição céu-terra-inferno, ou a dor passa aqui na terra, ou a gente perde a parada para ela e se joga, não na vida, mas para fora dela. Fica pulando entre inferno e terra, cada vez mais longe do céu.

 

O que fazer? Onde se apoiar? Na comida, na bebida, nos amigos, nos amores, na promessa do céu? Não. O apoio não está longe e muito menos fora. Está dentro. Mas onde? Como deixar irem as crenças embaladas desde o berço? Virar tudo de cabeça para baixo? Aceitar a situação em que o mundo se encontra, vivendo desencontros e desencantos?

 

Não sei. Confesso. Enquanto se está neste lugar de dor, fica tudo turvo, sem sentido.

 

Diz-se que é preciso dar valor a cada dia que costura os viezes da existência, que é preciso ter fé, é preciso meditar, comer bem, malhar, tomar vitaminas e regulador de humor, não descuidar dos afazeres nem dos amigos verdadeiros, aceitar as falhas alheias e as nossas, com uma boa pitada de humor.

 

Será?

 

Freud diz que humor é preciso, porque é o princípio do prazer que combate a crueldade das circunstâncias reais, mas o fato é que a cada dor que passa, outra chega, como se estes tempos estivessem mais inclinados à dor do que ao amor.

 

E então? Qual a saída quando a dor insiste em não dar trégua?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: o ranking de reputação das empresas no Brasil

 

 

São três as variáveis que levam as pessoas a formar a reputação de uma empresa: as ações e o comportamento, ou seja aquilo que ela faz; a comunicação e o marketing, portanto aquilo que ela diz; e o que dizem dela. A afirmação é de Ana Luiza Almeida, da Reputation Institute Brasil, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN, que apresenta o resultado de pesquisa sobre a reputação das empresas brasileiras em 21 setores da economia. A seguir o quadro com as empresas que ficaram no topo de cada setor:

 

Brasil Reputation Pulse 2013

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da Rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Marcas de luxo aderem ao e-commerce

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

O e-commerce no segmento do luxo ganha cada vez mais relevância. Hoje, são evidentes e inúmeras as oportunidades para esse mercado na internet. Apesar de ter uma demanda bem maior nos Estados Unidos e Europa, o Brasil vem aumentando sua presença online com diversas marcas nacionais aderindo a esse formato.
Nos Estados Unidos e Europa, grifes como Ralph Lauren, Tiffany&Co., Louis Vuitton, Gucci, Prada, Armani e outras, há alguns anos, aderiram ao comércio eletrônico e vêm obtendo êxito. A Ralph Lauren, além do mercado americano, já possui loja online em nove países da Europa, Japão e, em breve, atenderá também a Coréia.

 

No Brasil, o e-commerce se amplia em segmentos como moda e acessórios, decoração e homeware. A Trousseau, especializada em homeware, por exemplo, tem mix de produtos oferecidos na internet que apresenta o mesmo requinte de suas lojas físicas. Pode-se comprar desde um sabonete à sua luxuosa linha de lençóis em algodão egípcio. A renomada boutique Mares Guia, loja multimarcas que reúne moda feminina de grifes de luxo, também possui ambiente de compras online, onde pode-se encontrar peças como saias, casacos ou, até mesmo, vestidos para festas.

 

A Boutique Daslu, um ícone no segmento do luxo no Brasil, desde os tempos áureos sob o comando de Eliana Tranchesi já apostava no comércio digital. Sua loja online disponibiliza itens da Daslu Casa, linha de homeware da grife, além de peças de roupa feminina, masculina, teen e bebê. De olho no público masculino, a grife Sergio K. também tem na internet peças-chave de suas coleções, como as cobiçadas pólos, camisas e sapatos da grife.

 

No site da dinamarquesa Bang&Olufsen, referência na produção de televisores, sistemas de som, caixas acústicas e produtos multimídia pode-se encontrar produtos como aparelhos de som, caixas acústicas e acessórios da marca. Admiradoras dos icônicos sapatos da grife Schutz também podem vivenciar experiências adquirindo seus produtos online. Sapatos, sandálias e bolsas estão entre os itens comercializados ali. Já o segmento de joias não ficou de fora. Grifes exclusivas como Silvia Furmanovich, Jack Vartanian e Carla Amorim também proporcionam a seus clientes online algumas peças de suas coleções.

 

O segmento de beleza e cosméticos é fortemente presente na internet. A Sephora, maior rede de produtos de beleza do mundo e que desde 2010 adquiriu o portal brasileiro Sacks, aposta na venda de produtos de beleza das melhores e mais desejadas marcas do mundo, como Chanel, Dior, Salvatore Ferragamo e outras, além de uma marca própria, a Sephora Collection. Também forte no segmento, o website ShopLuxo, que pertence à rede de lojas Suil, composta por Calèche, Vent Vert e Suil Parfumerie, aposta na venda de cosméticos de grifes desejadas.
Com uma proposta mais exclusiva, o site Umimo tem foco no mercado do luxo e premium, e une elegância e beleza com produtos de marcas prestigiosas. A prestigiosa grife Chanel já está no e-commerce brasileiro, disponibilizando a seus clientes itens de sua linha de beleza, como maquiagens, perfumes masculinos e femininos, esmaltes e outros.

 

O e-commerce de luxo no Brasil recebeu, em agosto deste ano, uma grife tentadora: a francesa Louis Vuitton, uma das mais desejadas e copiadas do mundo. Disponível para todo o país, a loja online da grife oferece produtos das linhas feminina e masculina de desejados acessórios, como suas icônicas bolsas, malas de viagem, óculos, cintos, lenços, relógios e sapatos. A LV online é uma forma de atender a seus consumidores residentes de cidades que ainda não possuem loja física da marca, além de poderem comprar produtos, por exemplo, para presentear alguém, o que online certamente lhes proporcionará uma economia de tempo. Afinal, ter tempo tornou-se um dos principais objetos de luxo do mundo contemporâneo.

 

Muitas marcas de luxo temiam que a venda pela internet afetasse sua aura de exclusividade, além de certo receio em provocar uma possível banalização das mesmas. No entanto, existe uma demanda do próprio consumidor pelos endereços eletrônicos das marcas de luxo. Para as marcas o maior desafio é, no mundo digital, oferecer a seu consumidor todo o luxo e experiência de compra já oferecidas em suas lojas físicas. É imprescindível investir em tecnologia, logística e uma comunicação eficaz entre a loja online e seu cliente. Um layout simples e elegante aliado a um atendimento de qualidade e agilidade de entrega certamente colaborarão para o sucesso da marca na internet. Os produtos de luxo já trazem em si o alto valor agregado, porém a percepção deste também é fortalecida no momento de experiência da compra. Vale lembrar que muitos consumidores utilizam a loja digital para se atualizar das novidades e conhecer peças de coleções novas, podendo decidir efetuar a compra pela internet ou até mesmo ir a uma loja da grife.

 

Ricardo Ojeda Marins é Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Atualmente cursa MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

O seguro morreu de velho

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O meu pai, seu Aldo, como preferia ser chamado, comprou o seu primeiro carro em 1937. Como nasci em 1935, não posso dizer que lembro desse automóvel. Conheci-o em fotografias, lamentavemente desaparecidas na poeira do tempo. Tenho uma vaga ideia de que o carrinho, com os seus dois cilindros, recusou-se a subir uma lomba em uma estrada de terra. Faltou-lhe força. A Segunda Guerra estava por começar quando papai trocou o DKW por um Chevrolet 1939, zero quilômetro, importado, como todos os automóveis daquela época, dos Estados Unidos. Desse tenho, até hoje,boas lembranças fotográficas, guardadas com saudade. Em uma dela, apareço já grandinho, junto com minha irmã, sentada sobre o capô.

 

Não sei qual era a quilometragem do Chevrolet quando o meu pai decidiu o colocar na garagem da nossa casa, sobre quatro cavaletes. Houve que preferisse usar o que chamavam de gasogênio, uma traquitana danada que substitua a escassa gasolina. Já o motor do carro do meu pai era ligado seguidamente a fim de evitar que sofresse danos com a longa paralisação. O meu querido velho acreditava piamente que, ao final da guerra, o preço dos automóveis não fosse subir. Mas aumentou de maneira considerável. Não tenho a mínima ideia de quanto obteve com a venda precipitada do Chevrolet.

 

O Citroën, terceiro carro do meu pai, veio da França, de navio. Era para ser negro brilhante. Aliás, como os primeiros Ford, nunca se viu um Citroën que não fosse, originalmente, preto. O revendedor da marca, explicou que a mão definitiva de tinta seria dada tão pronto o produto desembarcasse em Porto Alegre. Isso acabou caindo no esquecimento. Fosse hoje em dia e, no mínimo, a revenda iria se incomodar com o PROCON. Pintura à parte, o Citroën foi o primeiro automóvel que dirigi. Papai o adquiriu quando eu estava internado no Colégio São Tiago, em Farroupilha, na Serra gaúcha. Fui surpreendido com a visita do meus pais que foram me apresentar o francesinho. Ele acabou sendo o meu primeiro carro, depois de passar vinte anos na casa paterna. O seu Aldo o vendeu para mim em um negócio de pai para filho, isto é, sem juros. Precisei reformá-lo de cima para baixo. Saiu caro.

 

Após o Citroën, o meu pai passou a trocar de carro com mais frequência. Teve uma coleção de Fucas. O último, um 1966, quem herdou foi o meu caçula, o Christian. Hoje,ele tem um Fusca apetrechadíssimo. Já eu, sempre que papai comprava um Fusca zero km, ficava com o usado. E era um excelente negócio. Todos tinham baixa quilometragem. Só não consigo recordar a partir de qual automóvel passei a fazer seguro. A propósito de seguro-auto, fiz todo o intróito que se viu acima (se é que alguém enfrentou tal sacrifício), vou relatar a surpresa que tive ao renovar, faz uma semana, o do meu Beetle.

 

Depois de saber qual o preço do seguro, o moço do BB, que me ligou para acertar a renovação, disse-me que eu teria direito, em saídas noturnas, se houvesse ingerido bebida alcoólica ou, simplesmente, não estivesse disposto a dirigir, bastava ligar para determinado número de telefone para pedir que um táxi me buscasse. Tratava-se de um serviço gratuito, uma cortesia inesperada. Aí, o moço do Banco do Brasil lembrou-se de perguntar o ano do meu nascimento. Disse-lhe que era 1935. O rapaz ficou sem jeito e titubeou ao tentar explicar que, lamentavelmente, a cortesia valia somente para quem tivesse até 70 anos. Minha primeira reação foi dar uma risada. Desliguei o telefone e cai em mim. Por que será que pessoas com mais de 70 anos são discriminadas pela seguradora? Creio que os mais idosos teriam, inclusive, mais direito de se valer da “cortesia”.

Avalanche Tricolor: trabalho recompensado

 

Náutico 0 x 2 Grêmio
Brasileiro – Arena Pernambuco

 

 

A semana tem sido dura. Às manhãs normalmente difíceis pela responsabilidade de comandar o Jornal da CBN, se soma uma série de outros compromissos profissionais. Temos gravado edições extras para o Mundo Corporativo: na segunda, foi uma, hoje, mais duas. Estive em eventos nos quais realizei palestra sobre comunicação – atividade para a qual (ainda bem) tenho sido bastante requisitado -, além de apresentar o prêmio Melhores de São Paulo, entregue pela Revista Época São Paulo. Por mais que esses trabalhos me ofereçam momentos de prazer, o tempo de sono diminui, o corpo e a cabeça não descansam como deveriam, especialmente para quem, como eu, sai da cama ainda de madrugada (apenas acompanhado dos sabiás que cantam na janela). Imagine no meio da semana ficar acordado para assistir aos jogos do fim da noite, como foi o desta quarta-feira. Sei que muitos abandonariam essa tarefa, mas eu não consigo botar a cabeça no travesseiro sabendo que o Grêmio está em campo, principalmente na disputa de competição tão equilibrada quanto a desta temporada.

 

Diante da agenda cheia e do esforço para me manter em pé, a única coisa que esperava era ser retribuído por uma vitória gremista. Ganhei mais do que isso: vi Rhodolfo tomar conta da área e desarmar os adversários com dois carrinhos de dar inveja até ao Felipão; vi Wendell estrear com personalidade e talento apesar da pouca idade, sinalizando que não devemos mais nos preocupar com a ala esquerda; vi Maxi Lopes entrar em campo e desorientar sua marcação com belos dribles; além de ter visto Kleber brigar pelo espaço dentro da área, Barcos voltar a marcar e Paulinho comemorar o gol que concluiria os trabalhos desta quarta-feira à noite.

 

Com a vitória de hoje, que nos mantém na disputa pelo título, digo com tranquilidade que todo o meu trabalho foi recompensado. O de Renato e o do Grêmio, também

 


A foto que ilustra este post é de André Kuse/Grêmio.net

Um tratado para o Tordesilhas

 

Carlos Magno Gibrail

O estrelado e premiado restaurante Tordesilhas na capital paulista está protagonizando uma discórdia oriunda de moradores nas proximidades de seu endereço na Alameda Tietê. A especialidade da casa, focada na culinária brasileira, tem deixado a vizinhança “gordurosa”. O fato do olfato e do tato prejudicados pelas frituras, provavelmente passaria despercebido não fosse a fama do restaurante e a qualificação dos moradores.

 

Menos mal que o caso pontual esteja na mídia, pois pela tendência da ocupação do solo na cidade esta situação poderá ser cada vez mais frequente. O Plano Diretor de São Paulo está na pauta da cidade, e é preocupante se analisarmos a evolução dos anteriores, pois adensamento e uso misto das áreas urbanas vêm se acentuando através dos anos; com os argumentos de redução dos custos de habitação e de vida para o adensamento, e da melhoria da mobilidade para o uso misto. Quando na realidade precisamos também considerar a lei de mercado para os imóveis no caso do adensamento e a dificuldade da mobilidade em virtude das necessidades de deslocamento geradas pelo mercado de trabalho. Ou seja, as vantagens preconizadas não estão aparecendo, enquanto o sistema vigente está levando ao agravamento das condições. Além do que a população cresce em descompasso com eventuais melhorias.

 

O IBGE atualizou os dados censitários mostrando que São Paulo está com 11,8 milhões de habitantes, quase o dobro do Rio, a segunda maior cidade do país. Diante deste assustador número de gente, tudo indica que a convivência no uso misto do solo precisa ser encarada de forma civilizada, urbana e racional. Quem procurar morar perto de padarias, supermercados, lojas, restaurantes e demais atividades deve estar consciente dos reflexos inevitáveis destas operações. Ao mesmo tempo, os comerciantes instalados próximos a moradias devem respeitar os vizinhos, utilizando inclusive as tecnologias à disposição,para que todos possam usufruir condignamente os sentidos naturais do ser humano. Visão, audição, olfato, paladar e tato.

 

Aqui, nem o papa nem o meridiano resolverá. O tratado deverá conter o trato da liberdade de cada um indo até a liberdade do próximo. O Tordesilhas tem condição de cumpri-lo, e chamá-lo de Tratado da Tietê.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

A força relativa das redes sociais

 

O dono do Rock in Rio, Roberto Medina, em entrevista ao Caderno 2 do Estadão, na edição dominical, falou sobre como construiu o festival que se iniciou em 1985 e se transformou neste gigantesco espetáculo de música que viaja o mundo. Chamou-me atenção, dentre as muitas afirmações, a análise que fez sobre a importância relativa das redes sociais nas decisões que toma para escalar o elenco de atrações que, muitas vezes, extrapola a balada do rock. Não ignora a opinião que circula na rede, mas usa o termômetro certo para medir a temperatura do público. Lembra ter sido muito criticado quando contratou Shakira, na Espanha, e “endeusado” ao acertar com o grupo Rage Against the Machine. Enquanto ela foi um sucesso de público, eles foram um dos que menos pessoas levaram à Cidade do Rock na história do festival. Para Medina, “o cara que se manifesta nas redes sociais é o mais radical, o mais ativista, é mais duro e mais heavy. Muitos incorrem no erro de dar peso demasiado às redes sociais. Tem de olhar também, mas com cuidado”.

 

Destaco a análise do empresário porque vai ao encontro do pensamento que me pauta há algum tempo no comando dos programas na rádio CBN. Jamais podemos nos deslumbrar com o que escrevem nas redes sociais (e mesmo com a opinião enviada por e-mail) entendendo que lá está a opinião de todo o público. O ouvinte indignado tende a escrever mais, se dispõe a parar a atividade que realiza para reclamar, e quando escreve carrega na tinta, sendo até mais duro do que seria diante de um diálogo aberto, frente à frente. A indignação move às pessoas. A satisfação nem sempre. Além disso, os grupos mais articulados e organizados conseguem aparecer mais, fenômeno que ocorre historicamente antes mesmo do surgimento das redes digitais.

 

Recentemente, minha caixa de correio encheu de reclamações contra a decisão do prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, de criar faixas exclusivas para ônibus, medida que espremeu os carros nas já insuficientes ruas e avenidas da capital paulista. Eram motoristas incomodados com o transtorno provocado pela prefeitura que privilegiou o transporte coletivo. Assim que os repórteres da CBN foram ouvir os passageiros, coletaram uma enxurrada de opiniões favoráveis devido a redução do tempo das viagens. Tivesse ficado apenas com o pensamento reinante na internet (e-mail, Facebook e Twitter) teríamos transmitido uma impressão errada da cidade em relação a ação da prefeitura.

 

Impossível ignorar as redes sociais, estas já mostraram sua força de mobilização, mas é fundamental que aqueles que tratam com a opinião pública e os que precisam tomar decisões em qualquer instância saibam equilibrar as forças, levem em consideração a parcela silenciosa da sociedade e, principalmente, confiem na experiência e no conhecimento que construíram. Quem sabe, assim, serão um dia elogiados também nas redes sociais.

Conte Sua História de SP: o pequeno espelho me faz feliz

 

Por Maria Lúcia de Oliveira Souza

 

 

Meus pais, “Seu Francisco” e  “Dona Conceição”, chegaram a São Paulo no início dos anos 60. Assim que desembarcou na rodoviária, minha mãe foi direto para maternidade Leonor de Barros, estava grávida do segundo filho, meu irmão José. Lembro-me do meu pai, caminhando pelas ruas frias da cidade e eu abraçada ao seu pescoço. Ele procurava um lugar como abrigo. Foi o Centro Imigração que cedeu acolhida por três dias. Tempo suficiente para meu pai conseguir trabalho e moradia na zona rural do município de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Em Mogi, meu pai foi trabalhar com japoneses. Teve que amassar muito barro para construir uma pequena casa. Eu tinha apenas dois anos de idade, meu irmão acabava de chegar do hospital e assim se iniciava a guerra pela sobrevivência desta pequena família que mais tarde se tornou bastante numerosa.

 

Meus pais estavam felizes, pois deixaram suas terras para vir para cidade dos sonhos. Aos fins de semana, para ampliar os ganhos com o trabalho,  meu pai era  “Seu Francisco, o Mascate” – o vendedor de porta em porta. Toda vez que via sua mala de trabalho aberta, com todos aqueles pequenos objetos para venda, eu ficava repleta de felicidade. Ela tinha um pouco de tudo. Eram, em sua maioria, objetos que agradavam as mulheres pobres do bairro. Nela se encontravam presilhas, pentes, lenços, brincos, colares, agulha, linha, espelhos, maquiagem, fitas, flores de pano … Tinham até sachês de chá! Mas o que eu gostava mesmo era do espelho. Pegava um daqueles e ficava me olhando, apreciando os cabelos cacheados, a cor morena, os tristes olhos e as sobrancelhas fortes. A pequena Maria, a menina de quatro anos de idade, sorria e voltava a guardar o espelho.

 

Um dia muito feliz era quando acordava cedo para acompanhar meu pai até a região do Brás para comprar objetos e fazer as reposições necessárias. O trajeto era feito sempre de trem, uma viagem muito longa. O início das compras sempre começava com um pastel de carne. Enquanto eu devorava, ele ficava observando serenamente a minha satisfação com a primeira refeição do dia. Depois de mãos dadas íamos às compras. Com uma das mãos segurava firmemente a minha e com a outra, a mala.

 

Passaram-se 50 anos e ainda vou para o Brás fazer compras. Meu pai não está mais de mãos dadas comigo. As barracas de pastéis mudaram de lugar e ganharam espaço mais confortável, (bem como o meu pai Francisco). A mala? Ah! A mala permanece a mesma, guardada no lado esquerdo do peito. Dela, agora não mais a menina Maria, mas a Dona Maria, tira o pequeno espelho e nele vê o passado que lhe faz tão feliz no presente.

 

Maria Lúcia de Oliveira Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: vitória para lembrar e relembrar

 

Grêmio 3 x 2 Portuguesa
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Ao deixar Porto Alegre, em 1991, meu primeiro encontro com o Grêmio foi na final da Copa São Paulo de futebol júnior, no estádio do Pacaembu. Fomos goleados pelo incrível time comandado pelo atacante Dener, da Portuguesa, que mais tarde vestiu a camisa tricolor, antes de ir para o Vasco, no Rio, onde morreu precocemente em acidente de trânsito. Fiquei admirado com a performance daquela equipe e passei a acompanhá-la com mais carinho. O encanto se encerrou quando, mais uma vez, a Lusa apareceu no caminho do Grêmio, na final do Campeonato Brasileiro de 1996. Aqui em São Paulo, todos torciam para a Portuguesa, ao menos ninguém lhe queria mal. Eu, cercado de paulistas por todos os lados, praticamente sozinho, com a força e a vontade que apenas os gremistas são capazes de ter diante das adversidades, defendia nossas cores e acreditava no título, mesmo depois da derrota por 2 a 0, no primeiro jogo, em São Paulo. Ao meu lado, havia apenas o Gregório, meu primeiro filho, que não tinha mais de 50 dias de vida, mas já se apresentava coberto no berço pelo manto do Imortal. De plantão, assisti à última partida na redação da TV Cultura, onde todos eram contra mim naquele momento. E foi diante de todos eles que comemorei como louco os gols de Paulo Nunes e Aílton, suficientes para nos dar o bicampeonato brasileiro.

 

Apesar do histórico restrito, se comparado aos demais grandes do futebol paulista, a Portuguesa sempre foi traiçoeira às minhas expectativas. No ano passado, você deve lembrar, foi a Lusa quem interrompeu a trajetória de vitórias gremistas no Brasileiro. Portanto, não me surpreendeu a dificuldade que tivemos para vencê-la no sábado à noite, na Arena. Não bastasse isso, outra vez nossos limites foram testados. Nem sempre a bola chegava ao ataque da forma que gostaríamos, apesar do talento de Zé Roberto. Nem sempre a defesa se posicionava da maneira que desejaríamos, mesmo tendo três zagueiros e dois volantes próximos da nossa área. E, como sempre, nos expomos a riscos e sofrimentos para provarmos quanto somos capazes de superar nossas restrições. De positivo, a sequência de jogadas pelas laterais e o desempenho de Kléber que deixou de ser apenas um trombador, para se tornar fundamental no ataque.

 

Outro fator importante, é que aos poucos construímos uma história na Arena Grêmio, levando para lá a força que emanava das arquibancadas do Olímpico Monumental, inclusive com o aumento na média de público por partida, próximo de 25 mil pessoas. Em nove meses de vida, foram nove jogos pelo Brasileiro e apenas uma derrota. Que essa fique para a estatística e o jogo contra a Portuguesa seja mais um na caminhada de 2013, quando espero comemorar o título da mesma forma que em 1996, mas com mais companheiros ao lado, pois hoje, além do Gregório tenho o Lorenzo.

De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

Flor

 

Olá,

 

luxo? me perguntei, sequestrada pelo título do artigo de Ricardo Ojeda Marins.
Parei tudo, foquei o máximo que tenho conseguido focar numa coisa de cada vez e me dei conta de que tenho vivido o luxo a vida inteira. Já tive, já não tive, vivi na abundância, no aperto, amei, desamei, ri e chorei como todo mundo, de toda raça, de todo credo e de de todo tamanho de conta bancária. Fui e deixei de ser tanta coisa, vivi papéis variados, mas o luxo dos luxos ainda acho que é reconhecer o luxo do dia a dia.

 

Ter amigos que valem a pena e reconhecer que nem sempre se é o amigo que vale a pena, é luxo. Luxo é receber o telefonema de um amigo querido dizendo que vem te ver, e ele vem. Ter pouquíssimos ingredientes na cozinha e preparar um prato divino, é luxo. Luxo é não querer parecer o que não é e não sentir insegurança de mostrar o que é.

 

Viver é luxo. Fazer parte do elenco da maior novela já encenada, é puro luxo. Luxo é excelência sob medida em cada fase da vida. Comer pastel na feira com quem a gente quer bem, num papo firme daqueles, é luxo. Luxo é bolinho de chuva, é milho na espiga na praia num dia de sol, caminhada e silêncio; é a caixa de bolinhas de chocolate recheadas de licor, esvaziada durante a projeção de Meia Noite em Paris. Luxo é o vestido de couro italiano estampado comprado na Neiman Marcus em Nova Iorque e o Cornetto comprado no boteco da esquina em São Paulo para acompanhar mais um episódio de House.

 

Luxo é prestar atenção no outro. Paz e a simplicidade do Papa Francisco são luxo.
Luxo é saber se comportar sem luxesa, mas com finesa. Acordar e saber que os filhos estão vivos e bem, é luxo. Luxo é ser capaz de reconhecer o luxo disfarçado de trivial.
E você, se pergunta?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

PS: Bem vindo Ricardo Maríns. Parabéns pelo excelente texto. Um luxo.

 

Maria Lucia Solla escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung. Tê-la aqui desde o início deste blog é um tremendo luxo.