A vã Filosofia!

 

Por Julio Tannus
 

 

Desde criança ficava intrigado com os fenômenos da eletricidade – as descargas elétricas, o acender e apagar das luzes… Não deu outra, me formei em engenharia elétrica, dei aula na universidade por dez anos, nas cadeiras de Teoria da Eletricidade, Eletromagnetismo, Máquinas Elétricas. Até que, após as primeiras aulas particulares com a filósofa Marilena Chauí, me dei conta que a fonte primeira de conhecimento dos fenômenos contidos na física estava na filosofia. Passei, então, por um bom tempo, a me dedicar de corpo e mente às ciências humanas. E depois, juntando as exatas com as humanas, ingressei no marketing, nos estudos de mercado e na pesquisa de mercado.

 

E a Filosofia? Deixou nossos bancos escolares. É uma grande perda. Retomo então a indagação que Marilena Chauí faz: Para que a filosofia? Inútil? Útil? E ela mesma responde: O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil?

 

O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.

 

Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?

 

Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos.

 

Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.

 

Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana.

 

Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.

 

Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso mundo.

 

Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.

 

Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?

 

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.

 

 
Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e às terças-feiras escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: ao infinito e além

 

Botafogo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

 

 

Pode ter sido a camisa com o número 1 nas costas de Marcelo Grohe. Fiquei sabendo, nesta semana, que desde que ele passou a vesti-la, em lugar da 12 com a qual jogou as duas primeiras partidas como titular, o Grêmio não perdeu uma. Pode ter sido meu Ipad, que tem me permitido acessar a TV conectada em casa mesmo enquanto estou de férias na Itália. Foram três vitórias incontestáveis que assisti daqui da Maremma, região da costa de Toscana, que tornaram ainda mais agradáveis os dias de descanso. Alguém pode até imaginar que tudo está ligado a mística do adversário, aquele com o qual se alguma coisa pode dar errado, tenha certeza de que dará. Era a estreia da grande estrela internacional Seedorf diante de sua torcida e com a oportunidade de o time carioca entrar no sedutor G4. Por que daria certo?

 

Para os que preferem as superstições, tudo pode ter levado o Grêmio à vitória no encerramento da 11a. rodada do Campeonato Brasileiro. Melhor mesmo que tentem encontrar nas forças do além a resposta para a conquista de ontem contra um adversário direto na disputa pelo título, diante de um cenário tão desfavorável. Assim não perceberão que um novo time está sendo formado, com jogadores se posicionando melhor em campo e descobrindo seu papel no elenco. E talvez se surpreendam quando virem o Grêmio no topo da classificação. É lá que pretendemos chegar. Quando isto acontecer, não se engane, não será fruto do acaso, mas resultado do equilíbrio de alguns jogadores que estão conseguindo dar a equipe tranquilidade e qualidade.

 

Talvez você não tenha percebido, mas no parágrafo acima analiso o Grêmio fazendo uso do gerúndio, pois este indica uma ação em andamento e é isto que ocorre no tricolor gaúcho. O Grêmio não é um time pronto, e nosso desempenho logo após o gol da vitória se justifica nesta verdade. Sofremos uma pressão que poderia ter sido amenizada com a bola no chão, tocada de pé em pé, como fazíamos até então. Zé Roberto e Elano, no entanto, cansaram e ambos são referência e experiência no meio de campo. Por outro lado, ao conseguirmos conter o assédio do adversário, com bola tirada quase de dentro do gol, atacante derrubado no pescoção e nosso goleiro demonstrando uma incrível personalidade, ficou claro que, além de tudo, temos sorte. E é sempre bom contar com ela nos momentos decisivos, mesmo porque nossa meta é ambiciosa nesta temporada.

 

Lembrando o personagem de Toy Story, Buzz Lightyear: ao infinito e ir além.

De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Adoro domingo. Acordo com certeza daquilo que quero e do que não quero e me deixo levar pelas surpresas do dia, se houver. É o descompromisso com o externo que me encanta. Os minutos passam, os eventos batem à porta, quando batem, e eu abro ou não. Posso ler, escrever, pensar, meditar, dormir, ver uns filmes, comer pipoca, cozinhar se me der na telha, criar, ouvir música, papear, aprender. Tem luxo maior? Um dia inteiro pra mim; oportunidade escancarada de ficar comigo mesma e com aqueles que amo e que me fazem bem, de preferência sem sair do meu ninho.

 

Ah! se a gente pudesse sempre praticar o ócio criativo sem culpa. Se a gente se aceita e gosta da própria companhia, então é um prato cheio. Jardim, sol e um bom livro que me leva a memórias e sonhos que tecem em mim um presente de infinitas dimensões. Minha oficina cheia de pano, linha, flor, brilho, renda, chita, botão, recheio… um exército de seres inanimados se oferecendo para vir a ser.

 

Valentina na caminha curte o seu presente, e nos fazemos companhia silenciosa e compreensiva, cada uma a seu modo. Estamos juntas há quatro anos e respeitamos nossos limites numa dança bem dançada, sem pisar nos pés uma da outra. Quando quer comer ou beber água senta na minha frente, dá lambidinhas no focinho, e fica me encarando, um olhinho no norte e o outro no nordeste, o que lhe confere um charme irresistível.

 

iPad e iPhone na mesa redonda – sou macmaníaca assumida – para ter a possibilidade de manter contato com o mundo lá fora. Faz anos que cancelei minha assinatura de jornal diário. Compro quando quero, leio o que quero, onde e quando quero. Isso é luxo!

 

Sempre que mergulho em mim vejo muito mais e melhor o lado de fora, ouço o chamado de uma florzinha rara que brota valente num vaso abandonado e superlotado, recebo a visita barulhenta de pássaros famintos pela banana fincada na primavera, brinco de alquimista no fogão e me emociono com a delícia de um simples omelete com pão fresquinho e uma salada de tomate e cebola só com azeite e sal, ou simplesmente gelatino no sofá. Neste inverno relâmpago que atinge São Paulo mantenho a lareira acesa, vivinha, e fico lendo as formas que o fogo me oferece. Curto meu filho e nossas cachorras e a chegada de um amigo aqui, outro ali, pra tomar um café e só ficar perto, falando abobrinha e rindo muito.

 

Calça de pijama divertida, chinelos comprados em Embu das Artes – numa tarde deliciosa com o Cláudio, a Karen e a Sofia, dando muita risada -, meias tricotadas pela minha sogra, a Dona Ruth, que me conhece muito bem, e… preciso de mais?!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: micro e pequenas consideram a ética essencial

 

Setenta por cento das micro e pequenas empresas consideram que a ética é essencial para o sucesso do seu negócio. Este é um dos resultado de pesquisa inédita feita pela Fundação Nacional da Qualidade que foi entender como os empresários brasileiros se comportam quando o tema é ética nos negócios. O presidente da Fundação, Ricardo Correa, em entrevista ao Mundo Corporativo, da rádio CBN, também conta algumas das estratégias que as corporações estão usando para combater irregularidades internas e reduzir os riscos de serem alvos de corrupção.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. Aos sábados, o programa é reproduzido no Jornal da CBN.

Kassab cria campo de distorção sobre Plano de Metas

Post publicado no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

Steve Jobs era conhecido por criar um campo de distorção da realidade capaz de convencer as pessoas do entorno dele a buscar os resultados mais impossíveis. Foi assim que levou seus técnicos a aperfeiçoar de maneira incrível algumas das muitas traquitanas eletrônicas que usamos atualmente. Em São Paulo, parece que o criador da Apple tem inspirado o prefeito Gilberto Kassab (PSD) que, para avaliar seu desempenho, resolveu distorcer a verdade e desconsiderar os fatos. Recentemente deu nota 10 para sua gestão, na contramão do que os institutos de pesquisa demonstram quando ouvem a opinião do paulistano. Péssimo e ruim são os conceitos que mais encontram adeptos, enquanto diminui cada vez mais aqueles que dizem ser a ótimo ou bom o trabalho realizado por ele na cidade. Também não podíamos imaginar diferente, já que o alcaide, em janeiro, também deu nota 10 para a implosão de parte do prédio do Edifício Moinho que havia pegado fogo. E, como se sabe, a implosão falhou.

 

Nesta semana, Kassab voltou a aplicar o campo de distorção da realidade ao falar do Plano de Metas, apelidado pela prefeitura de Agenda 2012. Em entrevista ao programa Canal Livre, da Tv Bandeirantes, não apenas assumiu a autoria do projeto de lei que criou o sistema, como disse que nenhuma outra cidade teria aprovado a lei devido a má fé das entidades que acompanham o plano de metas, em uma referência direta ao trabalho realizado pela rede Nossa São Paulo.

 

Que o prefeito não esteja informado de que o Plano de Metas está em vigor em 29 cidades brasileiras e segue em tramitação na Câmara dos Deputados, onde, se aprovado, vai atingir a União, os Estados e todos os municípios, não me surpreende. Ultimamente ele esteve mais dedicado a sobrevivência de seu novo partido político, as costuras para ficar de bem com tucanos e petistas e a eleição de seu sucessor. Agora, não há o que justifique a distorção da verdade quanto a criação do Plano de Metas, projeto de emenda à lei orgânica que foi elaborado pela rede Nossa São Paulo que convenceu os líderes dos partidos na Câmara Municipal a aprovarem a ideia. Oded Grajew, coordenador geral da ONG, acredita que as afirmações erradas de Kassab se devam a algum lapso de memória ou falha da assessoria dele. Para mim é apenas mais um exercício do prefeito Kassab em seu campo de distorção da realidade.

Bons exemplos que podem salvar vidas no trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os bons exemplos, venham de onde vierem e versem sobre o tema que versarem, deveriam ser sempre seguidos. O DETRAN do Rio Grande do Sul promoveu um evento, nesta semana, que trouxe a Porto Alegre autoridades de diversos países para ouvi-las discorrer acerca de trânsito. Refiro-me ao Congresso Internacional de Trânsito Idéias que Salvam Vidas. A iniciativa foi oportuníssima. Na Austrália, representada por Janet Dore, diretora executiva da Transport Accident Commission, a queda no número de mortos em acidentes caiu 60%, enquanto no Brasil, tivemos aumento de 25% na última década. Foram mais de 40 mil as pessoas vitimadas na trágica batalha travada em rodovias e áreas urbanas. A realização desse Congresso, em Porto Alegre, veio bem a calhar. Afinal, na capital gaúcha, são vistos, costumeiramente, nas nossas ruas e avenidas, motoristas despreparados ou tresloucados, conduzindo de maneira irresponsável os seus veículos, dos de duas rodas em diante.

 

Estou usando por base, neste texto, reportagem de Itamar Melo, publicada pelo jornal Zero Hora. Por falar em veículos de duas rodas, vem daí de São Paulo um dos bons exemplos, cujos resultados – os paulistanos devem saber melhor do que eu – se não são mais significativos, não é por falta de iniciativas das autoridades do setor. Desde 2005, para combater a mortandade de motociclistas, especialmente motoboys, foram oferecidos cursos gratuitos de pilotagem, teóricos e práticos. As empresas – e isso poderia ser feito em Porto Alegre – proporcionam aulas profissionalizantes e incentivos às que implantarem programas de prevenção.

 

Para resumir e não cansar a beleza dos raros leitores destas que costumo chamar de mal digitadas linhas, cito uma frase da campanha que visa a evitar tragédias, nas estradas, cometidas por quem bebe, lembrada pela australiana Janet Dore, diretora executiva da Comissão de Acidentes de Trânsito do Estado de Victoria: “Se bebe e depois dirige, você é um maldito idiota”. Já na Espanha, representada no Congresso, por Maria Segui Gomes, em 2003, o índice de mortes no trânsito era de 21,8 por milhão de habitantes. Em 2009, esse índice, que chegava a ser uma dos mais altos da Europa, havia caído para 5,9, poupando 10 mil vidas.

 

Preciso enviar este texto para o Mílton para que ele o poste no blog nesta quinta-feira. Estou digitando-o na terça-feira. Talvez possa voltar aos pontos altos do importante evento numa próxima quinta.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: uma vitória de virada e com direito a passeio

 

Grêmio 3 x 1 Sport
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Era meia noite e meia em Ansedonia (ITA) quando a partida do Grêmio estava começando, em Porto Alegre, e a decisão de assistir ao jogo poderia comprometer a programação de férias na manhã seguinte. Com os dias que faltam sendo contados na ponta do lápis, deixar um passeio de lado com a família nem sempre é boa escolha, principalmente quando se acorda com céu azul e o sol iluminando a costa da Toscana – que é a promessa cumprida de todos os dias neste verão italiano. Estava, porém, curioso para conferir se o bom futebol da rodada anterior, quando vencemos em Belo Horizonte, se repetiria diante da torcida e contra um time que tendia a jogar fechado, muito fechado. Não resisti e antes mesmo de os times entrarem em campo, peguei meu Ipad, fui para um canto da casa onde a internet navega mais rápido e comecei a torcida.

 

Mais uma vez éramos o dono da bola, no sentido de estar com ela nos pés muito mais do que o adversário, o que tem se repetido jogo após jogo, mas faltava criatividade para furar um bloqueio tão intenso, o que, somado ao constante risco de tomarmos um gol de contra-ataque e de cabeça, seria suficiente para estragar meu programa e provar que tinha feito uma escolha errada. Ir para o intervalo da partida em desvantagem fez minha frustração aumentar e me questionar sobre o desempenho de domingo passado. Se imaginava que poderia dormir tranquilo sem ver o segundo tempo, ledo engano. Permanecer acordado e na torcida eram obrigações naquele instante. O Grêmio precisaria de toda força e inspiração, mesmo que de outro continente, para derrubar aquele paredão construído em seu caminho.

 

Valeu a pena. E me desculpe Leandro, menino tão tímido para jogar quanto para falar, que desabrochou ao entrar e marcar dois gols, considerado por muitos o personagem da partida. Me perdoe Marcelo Moreno que parece ter acordado após o desastre de dois jogos atrás e retomou seu papel no ataque marcando gols decisivos nas últimas partidas. Me senti muito mais recompensado mesmo foi pelo que vi Elano fazer no meio de campo gremista ao usar o drible para desmontar o adversário e a inteligência para dar oportunidade a seus companheiros. O primeiro gol surgiu de um desses momentos de criatividade do recém-contratado, apesar de que na estatística não lhe caberá sequer o mérito da assistência. No terceiro, teria todo o direito de concluir a gol, pois era quem mais havia tentado marcar, a maior parte das vezes de fora da área. Mas foi inteligente e solidário ao dar sequência a mais bonita troca de passes de toda a partida e oferecer a Leandro o prazer do gol. O talento foi reconhecido pela torcida que gritou seu nome, o que não fiz apenas porque acordaria meus companheiros de viagem, e eram quase duas e meia da madrugada.

 

Agora são nove da manhã por aqui, quatro horas no Brasil, estou de café tomado, diante do cenário que a quinta-feira me prometia, e sem um pingo de sono, apesar de a partida ter se encerrado tão tarde. Ou seja, tanto tive a satisfação de confirmar que temos um novo time como terei a alegria de agora pela manhã dar seguimento aos passeios destas férias.

Além da engenharia de tráfego

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Considerar o trânsito além da engenharia de tráfego foi o propósito de Enrique Peñalosa, economista e doutor em Administração Pública, ao assumir a cidade de Bogotá entre 1998 e 2001. Submetendo a técnica à cidadania e transformando radicalmente uma cidade de mais de sete milhões de habitantes.

 

Optando por Bogotá como uma cidade cidadã, agiu como um Administrador Geral, e tomou medidas radicais: comprou o Country Club e construiu um parque público, estabeleceu mais de 300 km de “Ciclorutas” nas avenidas da cidade, colocou obstáculos no meio fio impedindo o estacionamento em frente a grandes prédios e áreas de compras, demoliu a grande área dos drogados e criou um jardim infantil, instituiu o “Pico y Placa” rodízio de carros com quatro finais de placas diárias, aumentou o espaço para os ônibus, alargou as calçadas, substituiu áreas de garagem por espaços públicos.

 

Estas realizações deram a Penãlosa uma extraordinária bagagem, testada na RIO +20 e também na excelente entrevista publicada em 24 de junho no caderno Cotidiano da Folha, realizada por Vaguinaldo Marinheiro e Regiane Teixeira e, enaltecida por Ruy Castro em sua coluna no dia 13.

 

Ficou claro que como Administrador soube tratar a cidade como um todo, assim como diferenciar o público do privado, evidenciando que o automóvel é um bem privado e deve ser tratado como tal. Ou, como exemplificou, se é aceito que guardar suas roupas não é da alçada da prefeitura, por que o carro também não é da conta de cada um? Assim como cidade rica não é aquela em que os pobres andam de carro, mas onde os ricos usam transporte público. Vide New York, London, Zurich. E, mais: “Devemos pensar em cidades para os mais vulneráveis. Para as crianças, os idosos, os que se movimentam em cadeiras de rodas, os mais pobres. Se a cidade for boa para eles será também para os demais”.

 

Será?

 

Enrique em 2007 e 2011, embora mais famoso e festejado inclusive internacionalmente, perdeu as eleições para o cargo que tanto revolucionou.

 

Será que para as grandes cidades brasileiras teremos algum candidato disposto a Administrar Geral e considerar o que reza a Constituição no sentido de igualdade de todos perante a lei como Enrique Penãlosa assim a lê?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Em família, pedalando na natureza de La Feniglia

 

Bicicleta em Ansedonia

 

Pedalar é uma das melhores maneiras de conhecer uma região, sendo assim não podia rejeitar o convite da família assim que cheguei a Ansedonia. Perto da casa onde estou aproveitando as férias, é possível alugar bicicletas a € 6 e andar o dia inteiro, a única obrigação é estar de volta antes das oito da noite, caso contrário você vai ter de ouvir poucas e boas do dono do negócio, que, por sinal, arrisca algumas palavras (e palavrões) em português, fruto do casamento com uma brasileira. Eles haviam descoberto o passeio alguns dias antes e não viam hora de me apresentar o programa que, sabiam bem, iria me agradar em cheio.

 

Antes de seguir em frente nesta história, dadas as imagens que tenho acompanhado da campanha eleitoral em São Paulo, considero ser importante o alerta aos raros e caros leitores do blog que, apesar de aparecer em fotos com uma bicicleta, não me lançarei candidato a prefeitura nem a vereador.

 

Dito isto, vamos as minhas pedaladas.

 

Pedalando em la Feniglia

 

Logo no primeiro dia de descanso éramos cinco embarcando em quatro bicicletas, lógico que o carona sobrou para mim, supostamente o mais bem preparado para pedalar em longa distância, já que a maioria dos meus companheiros de viagem não se atreve a “bicicletiar” quando está em São Paulo. O caminho sugerido não poderia ser mais inspirador, uma trilha de seis a oito quilômetros nas dunas de La Feniglia, uma reserva florestal que liga Ansedonia a Monte Argentario, tomada de pinheiros mediterrânicos que amenizam o intenso calor desta época do ano. Ao contrário do que se poderia imaginar, o terreno é firme e com subidas amenas, o que me permitiu percorrê-lo com tranquilidade, apesar do peso do meu carona. O trajeto segue em paralelo a praia e a cada um quilômetro você tem o acesso ao mar lhe convidando para uma parada. A trilha sonora, composta por uma enormidade de cigarras, embala cada pedalada. E a copa das árvores se encontrando criam a sensação de um extenso túnel verde com sombra e ar agradável.

 

Bicicleta na praia

 

Das muitas coisas legais neste caminho é saber que a qualquer momento você pode descansar na beira do mar. Antes de entrar na praia você encontra locais apropriados para estacionar as bicicletas, apesar de a maioria das pessoas preferir deixá-las o mais próximo possível das barracas. E são muitas as famílias que usam a bicicleta para chegar ao local, apesar de haver estacionamentos para carros nas duas pontas, do lado de Ansedonia e de Monte Argentario. Muitos combinam os dois tipos de transporte. Nossa intenção não era ficar na praia, portanto fizemos apenas um pit stop, entramos no mar, nos refrescamos e logo retornamos às bicicletas. É possível pedalar até o lado de trás desta faixa de areia de onde se consegue ver a cidade de Orbetello e o lago que a cerca e, se tiver fôlego, seguir em frente para cruzar por um santuário de pássaros. Um dos poucos obstáculos foi uma cobra que cruzou nosso caminho, que parecia bem mais assustada do que todos nós.

 

Orbetello

 

Desta vez, decidimos não entrar em Monte Argentário e retornamos pelo mesmo caminho, assim que avistamos a saída de La Feniglia. Em todo passeio encontramos famílias pedalando, muitas transportando sacolas, barracas e outros penduricalhos típicos de quem pretende ficar o dia à beira mar. E o dia merecia este descanso. Nós estávamos entusiasmados demais para pararmos por muito tempo em qualquer lugar, queríamos mesmo era pedalar e aproveitar toda a paisagem. E o fizemos com muito prazer.

As Depredações Escolares: lugar público, terra de ninguém

 


Por Julio Tannus

 

As depredações nas escolas públicas em nossa cidade não são de hoje, e também não é nosso privilégio.

 

Escola abandonada

 

No início da década de 80, no Governo Franco Montoro, e a pedido do então Governador de São Paulo, através de sua Secretaria de Educação, foi-se a campo para levantar o máximo de informações sobre essa questão. Falou-se com diretores de escola, educadores, alunos e todo o elenco participante desse espaço vital para a sociedade como um todo.

 

Desde então, vários problemas vem sendo levantados, e entre outros, relacionados à:

 

Vagas

 

A instabilidade e a incerteza quanto às vagas geram mal-estar no seio da população, que termina por imprimir sua revolta contra o prédio escolar. Qualquer tentativa de negociação para resolver a questão passa, necessariamente, pela ampliação do número de vagas oferecidas.

 

Local

 

As favelas e os bairros desfavorecidos fazem com que a escola seja um lugar privilegiado, pelo seu tamanho em relação aos barracos, pelo seu prédio mais bem equipado que as moradias populares e, principalmente, por representar o Estado e ser patrimônio público. Por precárias que sejam as instalações escolares contam com salas de aula e cadeiras para acolher um número importante de pessoas. Apesar da precariedade das instalações elétricas, elas existem e, mesmo não sendo um modelo apropriado, podem ser utilizadas. Enfim, a escola tem sanitários, água encanada e outros pequenos benefícios que os barracos dos moradores nem sempre possuem.

 

Diferenças Sociais

 

Escolas localizadas em áreas onde subsistem sociedades diferentes, umas mais pobres que outras, um mais desfavorecido que o outro – miseráveis e pobres. E aí se formam grupos ou “panelas”, gerando-se conflitos permanentes. E os conflitos entre grupos são fatores que contribuem para o surgimento da depredação escolar.

 

Manutenção

 

Qualquer dano no prédio escolar é estímulo para a promoção reprodutiva de depredações. Desta forma, os banheiros, as descargas, os azulejos, as torneiras, os vidros, e outros objetos danificados devem ser reparados o mais breve possível.

 

É dessa época a ideia de ocupar os prédios escolares nos fins de semana com várias atividades – esportes, cultura, lazer – a fim de se coibir tais depredações, que nesse período são mais agudas.
Várias outras iniciativas têm sido tomadas, entretanto, todas elas incapazes de solucionar o problema.

 

Dois textos cobrem de forma ampla o assunto:

 

Formas contemporâneas de negociação com a depredação
Hélio Iveson Passos Medrado

 

Iniciativas públicas de redução da violência escolar no brasil
Luiz Alberto Oliveira Gonçalves
Marilia Pontes Sposito

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung