Cidadania marca encontro do Adote um Vereador

 

Havia um clima de agitação no centro da cidade nesse sábado quando integrantes do Adote um Vereador se encontraram pela primeira vez neste ano. O local escolhido foi o bar do Pateo do Colégio, onde a cidade de São Paulo começou a ser construída. Não muito distante dali, pela manhã, centenas de estudantes haviam participado de audiência pública para discutir o preço da passagem de ônibus, no plenário da Câmara Municipal.

A presença de tantas pessoas nas dependências do legislativo paulistano, não fosse pelos abusos cometidos, é o cenário que idealizamos desde o nosso envolvimento nesta rede de cidadãos, que se propõe a acompanhar o trabalho dos vereadores. Alguns integrantes haviam assistido ao debate acalorado na Câmara e aproveitado para dialogar com parlamentares e manifestantes.

Ainda me surpreendo como são ativas e motivadas estas pessoas. Dá orgulho.

No Pateo, em torno de uma mesa de bar, tivemos a oportunidade de ouvir as sempre entusiasmadas opiniões e sugestões das “terroristas” da ONG Voto Consciente. As chamo assim desde que cinco delas foram expulsas das galerias da Câmara por terem estendido uma faixa em protesto contra o comportamento da Mesa Diretora, na época comandada pelo vereador Antônio Carlos Rodrigues (PR).

Moças que pensam e agem são, realmente, um perigo para alguns senhores.

(O que devem ter imaginado estes mesmos parlamentares quando viram os estudantes subirem à mesa da Câmara, nesse sábado?)

Da experiência do Voto Consciente à persistência do Adote um Vereador é possível identificar que avanços ocorreram, apesar da insistência de alguns políticos de manterem comportamento retrógrado. Por exemplo, ainda hoje dados oficiais são publicados de maneira a dificultar a fiscalização do cidadão e contra isto é necessário lutar.

No encontro deste sábado, foi apresentada aos participantes a ideia que começa a ser construída em outros fóruns: o Movimento Brasil Aberto, que defenderá a aprovação de lei de acesso à informação pública que está no Congresso Nacional. Assim que estiver formalizado, certamente contará com o apoio de todos que estiveram reunidos.

Aliás, este tema nos levou de volta ao trabalho realizado pelo cidadão Maurício Maia que criou programa para reunir informações sobre os gastos dos vereadores com a verba indenizatória. Um rápido olhar foi suficiente para identificar prática comum entre os parlamentares: aumentar consideravelmente os gastos no último mês do ano.

Em dezembro de 2010, foram gastos R$1.333.383,36, quase o dobro da média mensal da verba indenizatória usada por todos os 55 vereadores. A maior parte do dinheiro ainda vai para correios (R$ 1.737.165,41) e material gráfico (R$ 1.719.982,80). As duas categorias juntas representam 44,38% dos R$ 7.790.566,90 desembolsados pela Câmara para atender os gabinetes. Ressalte-se: nesta conta não estão incluídos os salários dos parlamentares e funcionários e os gastos gerais do legislativo.

Conheça este trabalho acessando o link que leva a “Prestação de Contas da Câmara Municipal de São Paulo”.

Outros temas agitaram a mesa do bar, no Pateo do Colégio, e novas ideias surgiram do bate-papo que durou duas horas e meia. A unir todos os assuntos a fundamental presença do cidadão no legislativo, seja na Câmara Municipal seja na Assembleia de São Paulo. Não necessariamente com a veemência usada por alguns grupos que estiveram no Palácio Anchieta no início do dia. Mas com o mesmo desejo de que as coisas melhorem na política paulistana.

Avalanche Tricolor: Agora é pra valer

 

Nova Hamburgo 2 x 0 Grêmio
Gaúcho – Olímpico

Novo Hamburgo é cidade bem cuidada (ao menos era na época em que morei em Porto Alegre), próxima da capital e interessante para quem gosta de calçados. Hoje, estava em festa devido ao centenário do time da casa. Mesmo com todo o respeito que tenho pela cidade colonizada por alemães, dou-me o direito de escrever esta Avalanche de olho no futuro.

Antes que você, desavisado, me acuse de estar sendo prepotente ao não dar bola pro jogo desta tarde, entenda o seguinte: o Grêmio com uma rodada de antecedência havia conquistado tudo que era preciso até aqui neste primeiro turno de campeonato. Líder, isolado e distante de todos os demais adversários – inclusive aquele que você um dia já ouviu falar – entrou em campo para cumprir tabela, literalmente.

Tudo bem, havia uma atração em especial: a estreia de Carlos Alberto que vestiu seu número preferido, o 19, e mostrou que tem personalidade suficiente para ajudar o time no maior dos nossos desafios nesta temporada, a Libertadores. Precisa apenas ser mais bem apresentado aos seus companheiros, coisa que os próximos treinos serão suficientes. O vigor com que voltou para roubar bolas, confesso, me surpreendeu, porque o jogo distribuído com precisão e a forma como leva a jogada já conhecíamos.

Carlos Alberto se unirá a um elenco em formação que ainda precisa de alguns ajustes neste início de temporada, mas que está consciente da importância que damos a competição que se inicia, efetivamente. Até então, havíamos apenas entrado em campo para provar que merecíamos o lugar conquistado no Brasileiro 2010; e o fizemos muito bem contra o Liverpool do Uruguai, como conversamos em Avalanches anteriores.

Na quinta-feira, o Olímpico Monumental será cenário de nosso primeiro passo em busca do terceiro título da Libertadores quando teremos como adversário o Oriente Petrolero, da Bolívia. Ninguém espere um jogo e tanto na estreia. Como falei, ajustes ainda são necessários: dar confiança à defesa, acertar a ala esquerda, calibrar o passe no meio de campo e afinar a conclusão no ataque. Até mesmo o elenco precisa ser fechado.

Nada disso – absolutamente, nada disso – será suficiente para tirar do time que entrar em campo, seja quais forem os escolhidos de Renato, uma marca inconfundível do futebol gremista: a nossa gana pela vitória.

Confira e me cobre: cada bola será disputada como se fosse a última, toda dividida como se fosse vida ou morte e nenhuma jogada estará perdida sem que antes sangue e suor escorram pela nossa nova camisa tricolor.

Porque é assim que forjamos a história do Imortal. E assim será a partir desta quinta-feira, na Libertadores.

De comunidade e saudade

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De comunidade e saudade” na voz e sonorizado pela autora

Olá

Estou sentada no chão, numa almofada que fiz no ano passado, com o couro de uma saia cor de capuccino com muito leite, presente da Neyd. Entre o sofá e a mesa de centro, entro num silêncio macio, acolhedor, suspirando, aqui e ali, depois de chegar em casa, interagir com a valentina, tomar uma ducha, ler e responder e-mails.

Por mais gostoso que seja o programa, a viagem, o dia; a hora do pouso é especial. Me preparo para ele, para o ninho, como me preparo para a festa, para a praia, o inverno, o templo. Me ponho como me sinto melhor pra ocasião, e o silêncio é uma forma de sintonizar a nova frequência.

E revejo o dia.

Hoje curti a prima Magaly. Papeamos até! Vi Amanda, filha dela, linda, que desabrocha como num filme que passa rápido. Nossas energias resultam numa receita gostosa, e curtimos cada minuto. Mas chegar lá foi uma aventura! Pela estrada afora, uma reforma aqui, um afunilamento ali, razão nenhuma aparente acolá, e você nunca sabe o que vai encontrar, ou nunca acha o que esperava achar. A rua que ia até ali foi bloqueada, e a gente não chega, nem perto, na hora que pretendia chegar.

No trajeto, passei pelo inferno, pelo purgatório, e só então cheguei ao céu, ao meu destino, que era a casa dela. Falamos sobre isso, sobre os pequenos vilarejos antigos onde moravam todas as gerações das famílias, onde os alunos da escola eram a turminha miúda das mesmas famílias, e o pároco conhecia todos e o pecado de cada um.

Eu, jogada feito folha ao vento, pelo desejo incontrolável de liberdade e de vida, e pela necessidade do estável e da proteção, voltei para casa me roendo de inveja daquela gente do passado imaginado e de um passado mais recente!

Então fiz uma viagem até lá, onde já existe uma mescla esfumaçada entre o que sei por ter vivido e o que sei por ter ouvido dos que viveram. Mas isso não vem ao caso. Minha bisavó portuguesa era muito forte e temperamental, e nunca ouvi menção ao seu marido, meu bisavô, mas seguramente existia ou tinha existido porque era pai da minha avó, que eles trouxeram de Portugal. Minha avó, por sua vez, se apaixonou e se casou com meu avô, que viera, trazido pelos seus pais, da Espanha. Dessa união nasceram meu pai, meu tio e minha tia, e eventualmente eu. Pois bem, morávamos todos na mesma casa: bisavó, avô e avó, pai, mãe, tio, tia e eu. Éramos oito. A casa era grande. Minha bisavó era uma exímia cozinheira e mantinha um restaurante caseiro – que naquele tempo se chamava pensão – e alimentava os graduados de um quartel que existia no bairro. Meu pai saía na rua comigo, e todo mundo cumprimentava. Meu avô me sequestrava e me levava ao bar, para me exibir para os seus amigos, e dizia: mi neta!

Apaixonado pela música sertaneja, dava baforadas divertidas no cigarro de palha que ele mesmo enrolava com o fumo que picava na palma da mão. Tinha sotaque forte, usava um lenço de seda no pescoço, preso por um anel de ouro e nunca saía sem chapéu. Era sertanejo de coração. Minha avó pouco atuava no grupo. Ela era doente e, talvez por isso, mal-humorada. Ou seria o contrário? Meu pai era o galã do pedaço e meu tio o galã número dois – hierarquia era respeitada. Minha mãe nem se fazia ouvir, naquele plantel, e minha tia e ela eram aliadas. Lindas, as duas.

Hoje, para me aproximar de um pedacinho da minha família, para eliminar a intervenção do celular, para saber dos seus viveres, chorares e rires, atravessei obstáculos, vivi aventuras, senti meu corpo cuspir adrenalina com maior dose e frequência do que deveria para o bem dele e para o meu, para poder estar perto da minha tribo.

E você, está perto da tua?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

A moda gay

 

 


Por Dora Estevam

Tenho visto muita moda masculina nos últimos tempos. Algumas fotos e vídeos de desfiles compartilhados aqui com você internauta. Muitas produções, looks e shapes que estão pipocando nas passarelas que certamente irão para as lojas para tentar vender. Só que também percebi que muito do que é mostrado não é exatamente a moda que um heterossexual usaria.

A moda masculina tem mostrado  modelos de roupas que os gays gostam de usar. Os cortes são mais ousados, as cores mais alegres. Não que todo gay saia por ai todo colorido, não é isso. Mas é fato que os gays se vestem super bem.

Tem muito gay discreto que respeita antes a profissão. Eu diria que é como um executivo ou um parlamentar que no exercício da função precisa usar costume, mas no fim de semana relaxa e veste bermuda e sandália para ficar a vontade. Normal. Como também tem gay danoninho, que se veste com regata, shorts e chinelinho.

Vamos relembrar alguns fatos do processo da moda masculina-gay.

Que o gay tem uma personalidade singular não se discute. Ele passeia pelo lado masculino e feminino com a maior facilidade. No passado, precisou se vestir de maneira mais viril para esconder a homossexualidade, mas para liberar o lado gay teria que assumir o jeito sem ser marginalizado, vestindo os coloridos e os acessórios da moda. Daí veio a onda “ eu sou gay e demonstro através do meu comportamento e pela minha roupa”. Foi uma verdadeira farra, reccorreram às roupas masculinas por falta de opção, valia de tudo para contrapor: brinco e tamancos.

Só para você se situar estamos falando da década de 70.

Com o surgimento da Aids as coisas tomaram outro rumo. Ser gay, magrinho, fininho, queimadinho do sol virou sinônimo de doença. Então os moços começaram a recorrer para as academias: a regra era tornar o corpo mais fortinho, comer mais e ficar com cara de mais saudável. Magreza e cara branquinha, pálidos, estavam fora das características de fragilidade que já estavam sendo confundidas com o aspecto de doença.

Mas a mudança se estendeu até a forma de se vestir, muitos preocupados com os comentários voltaram a se vestir com roupas masculinas, com isso a caricatura de mulher estava descartada.

Já nos anos 80 ninguém mais falava do gay mulherzinha, afeminado, ficou totalmente fora de moda.

Com os corpos definidos e a pele bronzeada, o visual ficou com cara de macho. Só que os amigos criativos deram um jeitinho de não serem tão durões assim. Na prática os tecidos eram estampados e listrados, na cartela de cores prevaleceram os tons sur tons.

Um estilo mais andrógino que para completar os nossos amigos passaram a usar bigodes.

Apesar de tudo isso temos que lembrar que os melhores estilistas nacionais e internacionais de moda são gays, eles tem um papel fundamental na moda. Com isso passaram a divulgar a moda gay em bairros como Village, ao Norte de Nova York. Daí para frente a moda homossexual foi se expandindo até virar em centenas de lojas que não só atendiam ao público gay mas também aos simpatizantes.

Ainda nesta década não posso deixar de relembrar que o gay começou a usar aquelas roupas de couro, lenços no pescoço, adereços como brincos…emfim tudo para se distanciar daquele gay dos anos 70.

Hoje mesmo o “rapaz alegre” procura se vestir de maneira mais simples: jeans e camiseta. Mas não dá para negar que a moda masculina hoje é sugerida para o homem gay.

O fato é que o gay vai sempre se diferenciar, seja num echarpe jogado no pescoço ou um brinco bacana.

Não que o brinco seja um adereço gay, mas uma forma de o homem brincar com a moda masculina.

Por fim, hoje até a publicidade é feita com casais gays, em situações rotineiras como comer um salgadinho a beira da piscina com seu amor.

Curtam o clip.


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Depois de 17 anos, vereadores são condenados em SP

 

Foram 17 anos a espera de uma decisão. Mas valeu a pena. Os 55 vereadores que estavam na Câmara Municipal de São Paulo entre 1993 e 1994 foram condenados a devolver o que receberam de salário acima do previsto na lei. Cada um deve reembolsar, em média, os cofres públicos em R$ 95 mil.

Leia reportagem do Estadão sobre o assunto

A ação contra os vereadores foi apresentada por quatro cidadão paulistanos: Rancisca Belizia Shlithler, Raymundo Medeiros, Rosemary Oneil Minson e Paulo Antonio de Oliveira.

Raymundo Medeiros, 74 anos, foi entrevistado pelo Heródoto Barbeiro na edição de hoje do Jornal da CBN. A fala deste senhor é um exemplo para os cidadãos paulistanos:

Ouça a entrevista com Raymundo Medeiros

Na lista de condenados existem vereadores da atual legislatura e o prefeito Gilberto Kassab. Veja o nome dos 55 condenados:

Ana Martins
Joao Brasil Vita
Murilo Antunes Alves
Devanir Ribeiro
Edivaldo Alves Estima
Nelo Rodolfo
Aldaiza Sposatti
Antonio Sampaio
Cosme Lopes
Darcio Arruda
Roberto Tripoli
Avanir Duran Galhardo
Hanna Gharib
Lidia Correa
Jose Viviane Ferraz
Jose Mentor
Mario Noda
Mauricio Faria
Arnaldo Madeira
Francisco Whitaker Ferreira
Almire Guimaraes
Antonio Paiva M. Filho
Oswaldo Sanches
Guilherme Gianetti
Gilberto Nascimento
Adriano Diogo
Odilon Guedes
Ushitaro Kamia
Prefeitura Municipal de Sao Paulo
Marcos Cintra
Jooji Hato
Mario Dias
Tereza Lajolo
Bruno Feder Netto
Wadih Mutran
Paulo Kobayashi
Vital Nolasco
Alberto Calvo
Alex Freua Netto
Arselino Tatto
Gilberto Kassab
Dalmo Pessoa
Henrique Pacheco
Camara Municipal de Sao Paulo
Osvaldo Giannoti
Zulaie Cobra Ribeiro
Archibaldo F. Zancra
Italo Cardoso
Marcos Mendonca
Paulo Roberto Faria Lima
Emilio Meneghini
Antonio Carlos Caruso
Aurelio Nomura
Vicente Viscome
Jose Indio Ferreira Nascimento
Eder Jofre
Manoel Sala

Agora o outro lado

Nota divulgada pela Câmara Municipal de São Paulo:

A decisão da Justiça, motivada por ação popular, trata da devolução de valores de Imposto de Renda não retidos na fonte no período de 1º de Janeiro de 1993 a 1º de janeiro de 1994. Após este período o Imposto de Renda voltou a incidir sobre os valores pagos aos 55 vereadores da Câmara Municipal de São Paulo, medida aplicada até a presente data Cabe esclarecer que em nenhum momento a ação questionou a fixação da remuneração dos parlamentares que está de acordo com o teto constitucional.

Assessoria de Imprensa da Presidência Câmara Municipal de São Paulo

Cidadão com medo é vida longa para vigia de rua

 

Zé da Rua trabalhava com um apito e montado em uma bicicleta. Sempre preferiu à noite para exercer sua atividade até que um pessoal de moto se aproximou e sugeriu que ele desse expediente de dia, pois eles iriam tomar conta da segurança noturna. Valorizando a própria vida, logo convenceu os moradores do quarteirão de que seria muito mais útil controlar as casas quando os donos estivessem fora, trabalhando ou na escola. Hoje, abandonou o apito e trocou a bicicleta pela moto que conseguiu comprar com o dinheiro que arrecada de 20 moradores, a maioria velhos conhecidos do Zé. Dois dos quais foram inclusive trancados com ele em uma mesma sala durante assalto com refém.

Grande parte das ruas de São Paulo e cidades de médio porte contam com a presença destes guardinhas, um serviço na maioria das vezes informal e vulnerável. Em alguns casos explorado por policiais ou grupos que mais se parecem com milícias que coagem os moradores a pagar pela suposta segurança.

Os vigilantes de rua ganharam destaque nesta semana após o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo impor a eles a responsabilidade pela falha no sistema de segurança que permitiu o assalto a casa do secretário de Transportes Saulo de Castro, que na gestão anterior de Geraldo Alckmin era o responsável por combater a violência, no Estado.

O delegado Marcos Carneiro Lima disse que “somente a polícia não consegue resolver problema desta envergadura” e propôs que todos vigilantes fossem cadastrados e fiscalizados. Sugeriu que passem a atuar como olheiros da polícia.

“O delegado falou o que não devia”, criticou o pesquisador dedicado à segurança pública Guaracy Mingardi.

A ideia o fez lembrar do inspetor de quarteirão, figura que existiu em diferentes épocas no País com funções bastante distintas nem sempre nobres. A última referência foi na década de 1980 quando os homens que atuavam na função, escolhidos pelo delegado, ganhavam carteirinha e passavam a abusar de seus poderes: “alguns brincavam de ser polícia e davam tiros”.

O governador Geraldo Alckmin e o secretário de Segurança Antonio Ferreira Pinto também consideraram a ideia desproposital, apenas fizeram isso de forma polida e tentaram defender o colega de governo com o velho jargão: “foi mal interpretado”.

Ambos aproveitaram a oportunidade para lembrar a derrubada nos índices de violência no Estado, noticiada com destaque nos últimos dias. Números oficiais mostram que temos 10,48 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, próximo do que a Organização Mundial de Saúde considera razoável.

Há um dado, porém, que intriga.

Calcula-se que há cerca de 1,8 milhão vigias de rua, 400 mil no Estado de São Paulo. Todos irregulares, pois a Constituição prevê que esta é área exclusiva das polícias Civil e Militar, explica Carlos Roberto Silveira, do Sindicato dos Vigilantes e Segurança de São Paulo

Se o avanço no combate à violência foi tão significativo quanto mostram as estatísticas fica difícil entender porque a população se submete a contratar de forma precária vigilantes que oferecem serviço de qualidade duvidosa. Sem falar na quantidade de equipamentos disponíveis em torno da casa: muros altos, cerca elétrica, alarme e câmeras.

É esta a resposta que o cidadão busca pois está cansado de ter de pagar dobrado para um mínimo de tranquilidade. Sai dinheiro de impostos para financiar a segurança pública e do salário para a privada. E o medo permanece, conforme levantamento ‘Características da Vitimização e do Acesso à Justiça’, do IBGE: a sensação de insegurança afeta 47,2% dos brasileiros, 21% dos quais dentro de casa

Walter Maierovitch, do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi, por telefone repetiu o que havia escrito recentemente em sua coluna semanal na revista Carta Capital: “o medo de se tornar vítima de crime virou um problema social e não só no Brasil. É causa da desconfiança, afastamento da vida comunitária, paranoia, autodefesa, enclausuramento etc”.

Meu ex-colega de CBN, sempre por mim consultado quando a coisa está complicada para o lado do cidadão, conta conversa que teve com Gianni de Genaro, que foi chefe da polícia italiana, na qual este sustentou que não adiantava apenas ter um número suficiente de homens em patrulhamento ostensivo ou em ações preventivas. Os policiais tinham de ter capacidade de dialogar com as pessoas e compreender suas reais necessidades, em cada comunidade.

Em cidades e países ricos, a exposição de tecnologia para vigilância também colaboram no combate ao crime, desde que usada inteligência de prevenção, como ocorreu em Nova York no governo Rudolph Giuliani.

Para Maierovitch é preciso reduzir a sensação de insegurança e restaurar a confiança no policial que deve estar próximo da população – o que não se faz pela força: “É sabido que a baixa dos índices de violência, por si só, não reduz o medo”.

Enquanto houver medo, Zé da Rua terá vida longa no emprego.

A melhor lição do internato e os críticos de vinho

 

Por Milton Ferretti Jung

Em 1947, eu estava internado no Colégio São Tiago, na então pequena cidade de Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Muitos educandários ofereciam internatos para filhos com mau comportamento, guris de cidades interioranas nas quais não existiam escolas do nível exigido por seus pais e também porque a prática era moda na época.

Confesso lisamente – sei que meus netos jamais me imitarão – que o motivo de ter sido afastado da casa paterna durante o ano letivo, inclusive sem licença para visitá-la no relativamente longo feriado de Páscoa, era o pouco empenho nos estudos.

Cheguei ao internato depois das férias de meio de ano. Achei mais interessante trocar o Roque Gonzales, em Porto Alegre, em que as tais férias duravam apenas quinze dias, pensando haver feito um bom negócio, engano do qual iria me arrepender já no momento em que meus pais e eu desembarcamos do trem que nos levara da capital do estado para Farroupilha.

Mal os “velhos” se despediram de mim, deixando-me aos cuidados dos maristas do São Tiago, driblei meus “carcereiros” e fugi, tentando achar a linha férrea, sei lá com que esperança ou pretensão. Os irmãos não tardaram a me encontrar e me levaram de volta.

No primeiro dia de aula do segundo semestre me fingi de doente e fiquei no dormitório. O Irmão Inácio, o mais velho dos maristas do colégio, apareceu com uma garrafa de vinho e um copo. “Bebe – disse – que te fará bem”. Foi a primeira vez que me receitaram o “néctar dos deuses”.

Em casa, minha irmã e eu tomávamos um pingo de vinho misturado com água, ao invés de refrigerante. Alguns médicos também garantem que um copo de vinho nas refeições faz bem para a saúde. Há controvérsias. Seja lá como for, beber moderadamente é o que se recomenda.

Todo este preâmbulo, o maior nariz de cera que cometi até hoje, foi para encaminhar um assunto que me provoca grandes dúvidas. E o vinho surge novamente no texto. Aqueles que se consideram “experts” na matéria, o bebem com enorme prazer e são capazes de detectar num único gole – o que me espanta – os mais diversos sabores.

Leiam, por exemplo, a opinião de um especialista sobre determinado vinho, cuja marca não revelo para não fazer “merchandising”:

no sabor,é compacto,firme,nervoso,com grande persistência,com seu gosto achocolatado e sua eterna juventude,o 89 é curiosamente bordalês,muito complexo com frutas secas,tabaco,madeira “fina”,madeira velha,uma pitada de estábulo.

E eu, na minha santa ignorância, pensava que o bom vinho somente necessitasse de uvas de boa safra. Vivendo e aprendendo.

Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Lição de casa

 

São Luís 0 x 1 Grêmio
Gaúcho – Ijuí (RS)



A viagem é longa até Ijuí, são quase 400km de estrada desde a capital Porto Alegre. O estádio é acanhado, insuficiente para receber todos os torcedores gremistas que vivem nas Missões. E o gramado mais se parece com um charque, molhado por uma chuva que é rara neste verão gaúcho.

Havia ainda um adversário que admitia sua inferioridade a cada falta cometida, único recurso que encontrou para impedir que a bola seguisse nos pés do time tricolor.

Para enfrentar estas condições não bastaria jogar futebol, era preciso coragem e muita disposição. Provavelmente tenha sido este o maior desafio de Renato Gaúcho na conversa de vestiário. Mostrar ao seu time que mesmo neste campeonato pouco atrativo, disputado em meio a uma competição que pode nos oferecer a glória – a Libertadores -, vestir a camisa do Grêmio gera alguns compromissos. Lutar sempre e buscar o melhor, estão nesta lista de tarefas.

E a equipe que nos representou neste fim de noite deu sinais de que entendeu o recado. Bastaram sete minutos de partida – e o gol de Maylson – para impor sua superioridade e mostrar que é o melhor time do Rio Grande do Sul na atualidade.

Exagero de minha parte ? Com uma rodada de antecedência soma 17 pontos, mais do que qualquer outro adversário pode fazer. Garantiu assim o direito de disputar as partidas do mata-mata sempre em casa, a nossa casa, o Olímpico Monumental.

Os pouco acostumados com o Campeonato Gaúcho devem estar desdenhando tais feitos. Importante, então, lembrar que outras equipes tradicionais do estado ainda estão desesperadas dado o perigo de ficarem fora da fase decisiva do primeiro turno.

O Grêmio, não. O Grêmio fez a lição de casa – e a de fora de casa. Por isso, nesta madrugada, enquanto retorna para Porto Alegre, poderá dormir o sono dos justos. E competentes. Eu, também, porque, afinal, já está mais do que na hora.

Existe Moda Brasileira?

 

Por Carlos Magno Gibrail

Álbum de figurinhas da moda brasileira

“Sim, a Moda Brasileira é aquela produzida no Brasil”.

Resposta dada por Alexandre Herchcovitch, um dos estilistas brasileiros com prestígio internacional num seminário há alguns anos.

A intenção da pergunta era evidentemente provocativa, no sentindo de questionar a importância dos criadores nacionais no âmbito global.

De lá até cá, o avanço dos estilistas e das marcas nacionais, que não foi pouco, não mudou a assertiva da resposta de Alexandre.

Sob o aspecto da criação de moda é inquietante, mas evidente que a ascensão mundial dos estilistas está ligada ao poder econômico do país de origem. Assim foi com os japoneses, que deslumbraram Paris na década de 80 com uma nova perspectiva, orientada pelas formas geométricas e linhas do tecido, contraponto ao ocidente, obsessivo em mostrar o corpo. Ainda nos anos 70, Kenzo foi o primeiro a abrir espaço em Paris, e na década seguinte surgiram Yohji Yamamoto, Issey Miyake e Rei Kawakubo (Comme dês Garçons).

De outro lado, as engrenagens do sistema econômico da moda não têm permitido ao Brasil desempenho equivalente ao da economia nacional. Menos pela existência de organizações e marcas competentes, que já são relevantes e mais pelas condições do comércio internacional, com youan desvalorizado e impostos nacionais excessivos.

É uma situação tão mais preocupante quanto se adentra aos reais benefícios do setor de confecção, altamente intensivo de mão de obra propiciando até mesmo trabalho domiciliar com inegável e invejável função social, ao mesmo tempo em que apresenta baixo investimento na criação de postos de trabalho.

O amadurecimento do SPFW e demais eventos de moda certamente contribuirão para as mudanças necessárias ao setor. O espaço aberto para a discussão da Moda precisa ser mantido para evitar que os chineses venham buscar aqui “negócios da China”.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

NB: Nas imagens da esquerda para a direita, de cima para baixo: Pedro Lourenço, Denner, Amir Slama, Walter Rodrigues, Glória Coelho, Alexandre Herchcovitch e Clodovil

Bode do Heródoto faz escola em Los Angeles

 

Ouvinte-internauta da CBN já foi apresentado ao bode Mané, criado nas terras de Heródoto Barbeiro na Grande Taiaçupeba – maldosamente confundida com Mogi das Cruzes. O caprino seguidamente é chamado pela repórter Cátia Toffoletto a resolver problemas na conservação de praças e parques de São Paulo. Há quem jure tê-lo visto em pleno trabalho voluntário neste verão em que as subprefeituras não dão conta do gramado.

Sei que Mané ficou famoso e costuma ser requisitado pelos passantes paulistanos, tenho dúvidas porém se foi ele quem inspirou a Agência de Desenvolvimento de Los Angeles, nos EUA, a contratar 100 cabras para “cortar” a grama em uma área de cerca de 10mil m2. Foram pagos US$ 3 mil para um trabalho de 10 dias que teria custado mais do que o dobro se fosse empregada mão de obra humana, diz a agência.

George Gonzales que exerce a inédita função de Guarda-Cabra conta que os animais da raça Boer se transformaram em atração turística com motoristas parando seus carros para fotografar o rebanho que contrasta com os arranha-céus de L.A.

A reportagem publicada pelo LA Times, sugerida ao Blog pelo Sérgio Mendes – que entre outros trabalhos participa da rede Adote um Vereador – relata que por estar tão próximo de Hollywood, muitos espectadores acreditaram que as cabras eram parte de algum filme em produção ou uma instalação de arte.

Com todo este cartaz das cabras de Los Angeles, periga o bode Mané do Heródoto ficar com ciúmes. Ele é muito sensível.