Foto-ouvinte: Se tem lixo, tem ratos

 

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“Passo todos os dias pela Av. Almirante Delamare, em Heliópolis, zona sul de São Paulo, e sempre gostei desse grafite, onde se lê “Se tem lixo, tem ratos”. No dia em que o semáforo me deu a chance de tirar uma foto havia essa equipe da prefeitura tentando recolher a montanha de entulho e lixo permanentes no local. Pelo visto não deram conta, pois ainda tem muito lixo por lá. Nenhuma crítica ao trabalho deste pessoal, pois várias vezes eu vi pilhas de entulho serem recolhidas em um dia e reaparecerem logo depois” Texto e foto do ouvinte-internauta Victor Zamora

Uma realidade quase apocalíptica

 

São Paulo é cenário de histórias construídas pelo poeta Alceu Sebastião Costa, ouvinte-internauta do CBN SP. O texto enviado ao programa foi ponto de partida para outros escritos “focados na figura simpática dos catadores de rua, pelos quais tenhos grande carinho e respeito” – conforme contou em e-mail. De nossa parte, o agradecimento pela gentileza de compartilhar com os leitores do Blog uma dessas histórias:

Por Alceu Sebastião Costa
Poeta-parkinsoniano Feliz

No cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, jazia o anônimo cidadão. Só a matéria estava ali presente, pois a alma embarcara apressada no trem para o infinito. Premida, talvez, pelas contingências da próxima escala.

Segundo as testemunhas, o atropelamento se dera por volta de 11horas da noite de garoa fina, que lembrava a nostálgica São Paulo de antigamente.

As horas seguintes caminharam preguiçosas. Desfizeram-se rodas e rondas de curiosos. Muita cachaça rolou, enquanto o hoje virava ontem, dando vez a um novo amanhã.

Apesar de solitário, ao morto não faltaram preces colhidas, pelos misteriosos anjos da noite, do acervo de uma piedosa e insone mãe, moradora em Jaçanã.

Quando os gorjeios melancólicos do sabiá-laranjeira, oculto no arvoredo da Praça da República, anunciaram a alvorada, o agito diurno começava a dominar a cena na esquina famosa, imortalizada por Caetano nos versos boêmios de “Sampa”.

Pouco a pouco, o local foi sendo ocupado por figuras maltrapilhas e silenciosas. Ordeiras chegavam, ordeiras estacionavam as suas carrocinhas, de forma a não atulharem o leito da via pública.

Logo, mais de meia centena ali estava para o resgate do companheiro, fazendo por solidariedade o que a autoridade por dever não fazia.

Quatro deles, no devido tempo, tomaram a dianteira e colocaram aquele corpo inerte e enrijecido sobre o que restara da respectiva e bem cuidada carrocinha. Então, respeitosamente beijaram e depositaram sobre o seu peito a surrada bandeirola verde-amarela, que algum desajeitado torcedor lançara ao vento e ele recolhera, guardando-a como se um troféu sagrado.

Circundando o cadáver, o estranho grupo ouviu atentamente o pronunciamento emocionado do líder Adoniran:

“Minha querida São Paulo, fria, vela o corpo de mais um humilde e anônimo colaborador, tombado pelo desvario do corre-corre diário. O falecido passa agora a figurar, com louvor, do honroso quadro estatístico de acidentes fatais no trânsito da Paulicéia. O momento é de profundo pesar e oportuniza séria reflexão. Não chore por mim nem por ele nem por você, São Paulo!

A época ainda é boa para o plantio. Temos que amolecer a terra com o suor. Deixemos as lágrimas para as alegrias das colheitas. O pouco de dignidade que nos resta é a garantia da nossa crença na melhoria do porvir. Palavra dos “Catadores de Rua”.

Todos os companheiros presentes ergueram as mãos para os céus e se curvaram em reverência. Ato contínuo, como chegaram, ordeiros se retiraram, levando o defunto, sob a teimosa garoa dos bons idos paulistanos.

Uma suave brisa beijava e balançava o surrado pendão da esperança, agora desfraldado, encimando a carrocinha que abrigava o corpo, à frente do cortejo. Pena não ter o inocente catador de rua consolidado o seu anseio de ver o lábaro ostentando o fulgor estelar dos Demônios da Garoa, seus devotados ídolos, cujos autógrafos almejara um dia obter.

Curiosamente, a chuva fina e o canto triste do sabiá marcavam presença solene naquela manhã cinzenta, como que buscando exorcizar a cidade grande dos seus demônios.

E a Câmara de São Paulo abre os ouvidos também

 

Depois dos olhos, os ouvidos abertos. Uma semana após colocar na internet as imagens das comissões permanentes, a Câmara de Vereadores de São Paulo cria a Ouvidoria do Parlamento, um canal que receberá as reclamações, sugestões e informações do cidadão. O órgão terá o papel de analisar e encaminhar as mensagens ao setor responsável do legislativo e cobrar respostas.

Ouça a entrevista com o presidente da Câmara Municipal, vereador José Police Neto (PSDB), ao CBN SP

O Ouvidor tem de ser um servidor concursado da Câmara e terá mandato de um ano, podendo ser reconduzido ao cargo por decisão do presidente do legislativo. Ele terá o direito de pedir documentos que esclareçam situações expostas pelo cidadão e poderá recomendar mudanças de procedimentos administrativos e promover estudos com a intenção de melhorar a relação da Casa com a sociedade.

Os prazos para atendimento das reivindicações também estão estabelecidos no ato de criação da Ouvidoria. Os servidores e órgãos da Câmara terão até cinco dias úteis para responder aos pedidos feitos pelo Ouvidor e este terá dez dias úteis para informar as providências adotadas. Este tempo pode ser estendido dependendo do grau de dificuldade do pedido.

A Ouvidoria será acessada pelo eleitor através de diferentes canais: na página da Câmara na internet, por telefone com uma linha 0800, pelo correio e fax, além de atendimento pessoal.

A intenção é acabar com a reclamação comum de cidadãos que enviam mensagens com diferentes solicitações aos vereadores e muitas vezes não obtém qualquer tipo de resposta. Além disso, existe a expectativa de que a sociedade colabore com ideias para que o trabalho do parlamento seja qualificado.

O contato direto com o parlamentar se manterá, mas o eleitor ganhará um reforço e tanto com a Ouvidoria do Parlamento.

Leia, também, o post “De olhos e ouvidos abertos na Câmara Municipal” (05.02.2011)

Córrego está engolindo rua, em São Miguel

 


Por Marcos Paulo Dias
Ouvinte-internauta e jornalista

Ao passar pela  Rua Ubirajara Pereira Madeira, na  Vila Rosária, São Miguel Paulista, zona Leste de SP, fui surpreendido por uma placa artesanal com a mensagem: “proibido passar caminhões – perigo não entre”. De imediato fui  “garimpar”, apurar os fatos, e encontrei o autor da sinalização pirata, Sr. Antonio Alves Soares,  72 anos, comerciante.   Da iniciativa, explicou: “a rua está desbarrancando, ficando  estreita, há muito lixo , ratos e alagamentos, esgosto,mal cheiro e moradores de rua também tomam banho  neste local, por isto resolvi tomar esta iniciativa”.

Córrego na RosáriaOutro morador,  Marcelo  Helano, no bairro há 15 anos, disse que percebe que com o passar dos anos a situação só vem piorando, o trânsito de caminhões como o de coleta de lixo, entregas de gás, entre outros, terá de ser interrompido devido ao desmoronamento da rua. Ele também pontuou que acontece com frequência descarte irregular de lixo e entulho de todo tipo de material como sofá, armários, pedras, areia, garrafas, roupas velhas, animais mortos durante a madrugada. “A falta de consciência e desrespeito dessa parcela da população contribui para a proliferação de insetos e até mudança do percuso do corrégo, assoreando as bordas”. Acabou tornado-se perigoso, pois é muito comum queda de animais como cavalos  e veículos afirmou o morador que mostrou-se indignado com a situação.

A  moradora Ednéia Santana aproveitou para lembrar que há uma creche municipal paralela ao Córrego e, mesmo assim, nenhuma providência foi tomada pelo Poder Público. informou ainda  que há alagamentos na avenida Rosária, próximo dali, por conta do corrégo e bueiros entupidos. Nesta avenida,  há grande movimentação de pedrestres, veículos e ponto de parada de ônibus. Disse que já  recebeu  visitas de candidatos em tempo de eleição, prometendo a limpeza e canalização do córrego e nada foi feito até agora.  “Somos Cidadãos e pagamos impostos ” desabafou a moradora.

No local observei que foram executadas obras apenas em um trecho mais a frente ou seja ainda falta canalizar a parte de cima, onde está a Rua Ubirajara Pereira Madeira. Moradores já fizeram abaixo-assinado e registraram protocolo (o último deles de número 9707 695 em 12 /01/ 2011) na subprefeitura da região. Eles também me mostraram uma pastinha com cartas, registros, documentos e fotografias –  inclusive de acidentes ocorridos recentemente.

Que saber o pior, na subprefeitura o córrego de nome de batismo Una consta como canalizado.

Vereador pode aplicar redutor em salário de R$ 15mil

Os vereadores de São Paulo têm dito que são obrigados a aceitar o reajuste de 61,8%, determinado pela Câmara dos Deputados, que elevará o salário deles para R$ 15.013,00 por mês, em março. Alegam que a Constituição Federal impõe o teto de 75% do subsídio dos deputados estaduais. Não é bem assim, como explicou o presidente da Comissão de Direito Administrativo da OAB-SP Adib Sad, em entrevista ao CBN São Paulo.

O advogado deixou muito claro que a legislação fala apenas em teto e não obriga a aplicação automática do gatilho salarial, apesar desta ser uma prática comum no setor público.

A Constituição diz que o subsídio dos vereadores deve ser fixado pelas respectivas câmaras municipais observando os limites máximos de remuneração de acordo com o número de habitantes do município.

Nas cidades com até 10 mil moradores, os vereadores não podem receber mais de 20% do subsídio dos deputados estaduais; este percentual sobre para 30% nos municípios que tenham de 10 mil a 50 mil habitantes; 40% naquelas com 50 mil até 100 mil; 50% para as cidades de 100 mil até 300 mil; 60% nas com 300 mil até 500 mil; e 75% para as que têm mais de 500 mil moradores – onde se encaixa a cidade de São Paulo.

Sendo assim, os vereadores se tivessem interesse poderiam determinar que o reajuste salarial fosse abaixo dos 61,8% – o que seria algo inédito no que se refere ao serviço público.

Há outra regra que complica o reajuste salarial dos vereadores de São Paulo e, conforme informamos em post abaixo, leva o Ministério Público a investigar o aumento que receberão em março. A Constituição Federal diz que o subsídio deve ser fixado sempre para a legislatura seguinte, é o princípio da anterioridade. Adib Sad apesar de não ter uma resposta definitiva sobre a questão, afirma que a tese da irregularidade deve ser analisada, sim, pelo Ministério Público.

Suplentes de vereador tentam vaga no Tapetão

A investigação do Ministério Público sobre a legalidade do reajuste de 61,8% no salário dos vereadores de São Paulo (veja post abaixo) é apenas um dos casos envolvendo o legislativo municipal que passa por análise de promotores ou vai parar nos tribunais. Há duas vagas na Câmara que podem ser decididas, também, no tapetão – com o perdão do linguajar futebolístico.

David Soares x Seu Madruga

A primeira põe em choque os vereadores David Soares (PSC) e Jonas Santana, o Seu Madruga (PRP). Eles fizeram parte da coligação que elegeu Marcelo Aguiar (PSC) vereador, em 2008. Este, porém, renunciou ao cargo para assumir vaga na Câmara dos Deputados, no dia 1º de fevereiro.

Naturalmente, David Soares seria o suplente a assumir o cargo, tendo sido o segundo mais votado na coligação, com 27.494 mil votos. Filho de R.R Soares da Igreja da Graça, empresário e proprietário de emissoras de TV, porém, desfiliou-se do PSC, assinou ficha pelo PDT e mudou domicílio eleitoral para o Mato Grosso, interessado em disputar a eleição de 2010 como suplente de Senador em uma chapa com o PT. Seu nome, porém, foi descartado na coligação e ele voltou ao PSC e à São Paulo.

As variantes na vida política do vereador David Soares abriram espaço para que o terceiro vereador mais votado da coligação PSC-PRP reivindicasse a vaga de Marcelo Aguiar: Seu Madruga, líder comunitário, catador de material reciclável, e o mais votado no PRP, 7.705 votos. Os defensores de sua candidatura alegam que Soares abriu mão da suplência de vereador no momento em que mudou o domicílio eleitoral.

A Câmara de São Paulo deu posse dia 1º de fevereiro a David Soares, mas Seu Madruga ainda acredita na possibilidade de o Ministério Público Eleitoral mudar esta decisão. A pretensão dele é muito difícil pois a lei leva em consideração a condição legal do candidato na promulgação do resultado.

Em conversa na Câmara, Seu Madruga confessou que ficaria feliz se Soares aceitasse um acordo para que ele tomasse posse e permanecesse como vereador ao menos uns três meses. A proposta não foi aceita.

Quito Formiga x Afanásio Jazadi

A outra discussão bem mais encrencada do ponto de vista jurídico é em torno da vaga do vereador Jooji Hato (PMDB) que vai renunciar em 15 de março para assumir o cargo de deputado estadual na Assembleia de São Paulo. A princípio quem tomará posse é Quito Formiga do PR – que em entrevista ao CBN SP anunciou que representa os espíritas na Câmara -, que integrou a coligação com PMDB e DEM, em 2008.

Com base em decisão do STF sobre a posse de suplentes na Câmara dos Deputados, o ex-deputado estadual Afanásio Jazadi (PMDB) foi a Justiça para requerer a vaga do partido dele na Câmara de Vereadores. Em dezembro do ano passado, o Supremo entendeu que a vaga de um parlamentar que havia renunciado para não ser cassado era do partido e não da coligação. Afánazio seria o quinto suplente da coligação e o primeiro do PMDB.

Nos próximos dias, a Câmara de Deputados terá de dizer se acata decisão do STF e aceita que seja dada posse ao suplente do partido.

Agora o outro lado

O ex-deputado e suplente de vereador Afanásio Jazadi, em nota, nega que esteja requerendo a vaga do vereador Jooji Hato. Leia:

“Radialista Milton Jung

Tomei conhecimento, somente há pouco, que V. Sa. teria tratado do
assunto “suplentes da coligação ou do partido”, com o Vereador Kito
Formiga, em seu programa.

Fui citado várias vezes – segundo alguns ouvintes – sem ter sido
procurado pela sua Produção para eventual versão de minha parte.

Independente do ali tratado, afirmo a V. Sa. que não ingressei em juízo
contra quem quer que seja sobre referido assunto. Muito menos, por
enquanto, tenho questionamentos a fazer.

Como o bom e velho jornalismo não foi seguido à época, espero que, ao menos, essa minha posição seja colocada o mais rápido possível, como satisfação a meus eleitores, muitos deles seus ouvintes.

Gratíssimo!

AFANASIO JAZADJI
11-3241-4422
http://www.afanasio.com.br”

Vereadores defendem salário de R$ 15 mil em SP

 

O Ministério Público Estadual alega que a Câmara de Vereadores não respeitou a regra da anterioridade prevista na Constituição. De acordo com a norma, o subsídio dos vereadores é fixado pela legislatura anterior, assim o salário de R$ 15.013 só valeria a partir de 2013.

A Câmara de Vereadores se defende explicando que foi aplicada regra em vigor no município, desde 1992, que vincula o valor do reajuste dos parlamentares paulistanos ao dos deputados federais. Sendo assim, nos dois primeiros anos de trabalho, os vereadores continuaram com o salário de cerca de R$ 9 mil da legislatura anterior.

Apesar de provocados, poucos vereadores aceitaram responder por Twitter se aprovavam o reajuste em seus subsídios e se consideravam justo o salário de R$ 15.013 por mês.

Cláudio Vieira, do Adote um Vereador, enviou mensagens para os 39 perfis de vereadores que estão na rede, apenas cinco responderam e tiveram material publicado no Blog Adotei Marco Aurélio Cunha. Alguns dos novos vereadores entrevistados pelo CBN SP também falaram do tema. Em um caso e no outro, ninguém se rebelou a regra que impõe o reajuste nem ao novo valor.

Conte Sua História de SP: Amigos do Tatuapé

 

Os amigos do Tatuapé são o tema da história enviada, por e-mail pelo ouvinte-internauta Eduardo Pennacchioni, que foi ao ar nesse sábado, no CBN SP. Leia, ouça, se inspire e Conte Sua História de São Paulo:

Meu nome é Eduardo Pennacchioni – nascido em 1955 no bairro do Tatuapé Este bairro sempre foi diferenciado e sempre assemelhou-se a uma cidade do interior no convívio de seu moradores. Tenho alguns amigos, cuja amizade começou no colégio e também éramos vizinhos. Eu tinha aproximadamente 16 anos.

Como o Bairro tinha uma carcteristica de manter um bom relacionamento entre os vizinhos, a amizade entre nós se mantém até os dias de hoje, ou seja, há mais de 35 anos. Criamos uma espécie de confraria para encontros semanais em uma pizzaria do bairro, para falarmos um pouco de negócios, tomar um chopp ou vinho, comermos uma pizza e, finalmente, jogarmos palitinho, sim palitinho… e vermos que ficará de Pato.

Nestes encontros que já passaram dos 20 anos, vimos os filhos crescerem e agora vieram os netos e o encontro do palitinho continua. Mesmo quando alguém viaja para o exterior faz questão de ligar na hora do jogo para saber quem ficou de Pato. E de longe participar da brincadeira. Gostaria que esta historia de amizade ficasse registrada, para demonstrar que isso acontece em São Paulo e mais precisamente em meu bairro Tatuapé.

Ouça a história de Eduardo Pennacchioni sonorizada por Cláudio Antônio

Conte Sua História de São Paulo enviando o texto ou agendando uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa.

De peeling

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça De Peeleing na voz e sonorizado pela autora

Olá

esta semana também foi difícil. Há tempo venho encarando um perrengue atrás do outro. Só ensina quem precisa aprender? tenho plena consciência disso. Meus ouvidos são os primeiros a ouvir o que digo.

Neste ponto é preciso parar para refletir sobre ouvir e escutar, que nós brasileiros usamos indiscriminadamente, sem perceber a diferença abissal entre os termos; e a gente fala, o outro ouve, mas não escuta; e vice-versa.

Pois bem, levando em conta meus ouvidos, parece que têm ouvido bem, mas escutado mal e porcamente. Os filtros andam tão sujos quanto estava o filtro do ar condicionado do meu carro.

Faz tempo que minha vida pede mudança. Um dia dói aqui, outro ali, em todos os meus corpos. E eu, que sempre fui mulher de grandes transformações, me vejo covarde, hesitante; tenho preferido perder a lutar. Tenho aberto mão da vida.

Hoje me dei conta de que ainda estou viva e de que nós, terráqueos, não precisamos apenas de mudança; precisamos de transformação, e transformação profunda. Só ela renova. No ano passado fiz, pela primeira vez, um peeling no rosto; leve e superficial, que me deixou o rosto amarelo durante horas, até poder lavar. A dermatologista disse que meu rosto se livraria da pele que demorava a se renovar. É evidente que se tivesse deixado o processo correr por conta da vida, se permitisse que meu rosto tivesse continuado, preguiçoso, a produzir um tanto de células hoje, outro tanto amanhã, eu poderia continuar a ter, como sempre tive, uma pele que se renova, no seu ritmo.

Mas a intervenção da dermatologista deixou minha pele sem chão. Em dois ou três dias, começou a descascar, sem trégua, e foi bonito de ver que a nova pele se mostrava no mesmo ritmo em que a velha oferecia espaço.

Hoje, olhei para trás e, em vez de ver o que já tive, o que já fiz, ou as aventuras maravilhosas que vivi, percebi claramente quanta vida ainda existe para mim, debaixo desta pele da minha vida. Toda a magia que vivi até hoje foi impulsionada pela transformação corajosa que provoquei ou aceitei.

Está na hora de largar o osso que venho roendo enquanto rosno dia após dia, e de convidar o planeta Marte a dar uma boa espanada na minha Lua natal, separando o joio do trigo.

Me recuso a ser escrava do passado; me recuso a ser escrava de mim. Minha vida precisa de um peeling. E a tua?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung