Avalanche Tricolor: Feliz 2023!

Grêmio 3×0 Brusque

Brasileiro B (pela última vez) – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Gabriel Santos, esperança para 2023

Eu merecia! Você merecia! Um jogo tranquilo, sem compromisso. Com jogadores soltos em campo, trocando passe sem medo do erro.  Movimentando-se com leveza e destreza. Arriscando chutes de fora da área e tabelando na cara do gol. Com liberdade para criar e se movimentar. Assim foi a partida de despedida do Grêmio na Série B diante de sua torcida, na noite desta quinta-feira. 

O primeiro a brilhar foi Guilherme que marcou um golaço ao se livrar do marcador e bater forte e bem colocado — o primeiro dele desde que vestiu a camisa tricolor. Depois, foi a vez de Gabriel Silva, com seu bigode de pós-adolescente e cabelo cortado à moda antiga, que está apenas desabrochando no futebol. Marcou duas vezes — o segundo gol mais lindo do que o primeiro.  

Lá atrás, Adriel, com corpo esguio e movimentos seguros, pouco foi exigido, mas se fez presente quando requisitado. Mesmo que do goleiro se espere defesas precisas e bom posicionamento, confesso a você que me chamou atenção a forma como lança a bola com os pés e a intervenção que fez de cabeça em uma das poucas tentativas de contra-ataque do adversário. São sinais de um talento cada vez mais exigido à posição.

Na defesa, Bruno Alves apenas confirmou ter sido das boas contratações para a temporada, enquanto Kannemann, com todas as dificuldades físicas que encarou, tem de ter seu contrato renovado o mais rapidamente possível. Time que se preza não pode abrir mão de uma liderança como ele. Leonardo Gomes é outro nome que apareceu na reta final e precisa ser mantido na lateral direita.

No meio de campo, Villasanti é imprescindível; Lucas Leiva, necessário; e Bitello, uma revelação — foi nosso maior destaque no ano e fará diferença na Série A. 

Fora do jogo, vi Diego Souza, nome mais importante de nosso ataque, que estava no camarote comendo pipoca, na tranquilidade de quem sabe que fez o que precisava para nos devolver à Primeira Divisão. Se permanecer no elenco será jogador importante pelo que representa ao grupo, apesar de não ter capacidade de ficar em campo por muito tempo. 

Não vi Geromel, mas soube que treinou durante a semana, mesmo que tenha sido poupado depois da conquista alcançada. Hoje à noite, senti falta de uma homenagem ao capitão. Ele merecia essa menção, pois foi irretocável em todos os jogos que participou. O Grêmio lhe deve muito.

Tem ainda Biel e Ferreirinha, ambos em recuperação, que têm velocidade e podem dar ritmo ao time, em um esquema mais ajustado e num esquema mais bem treinado. Tem também Campaz — se o cito é porque ninguém pode ter custado tanto sem nunca nos oferecer muito. Quem sabe ano que vem não seja o ano em que seu futebol vai esplandecer.

O Grêmio precisará ir além para se fazer relevante nas competições que disputará em 2023. Por enquanto, vale o fato de termos nos credenciado a voltar para a elite do futebol brasileiro com duas rodadas de antecedência.  Que a nova direção saiba fazer do Tricolor um grande time e nunca, nunca mais nos faça passar o que passamos neste ano. 

Eu mereço! Você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, merece! Um time melhor. E um Governo muito melhor para 2023.

Avalanche Tricolor: personagens da nossa história

Grêmio 2×0 CSA

Brasileiro B — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Lucas Leiva comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Dois têm 37 anos. O terceiro, tem 35. Os três têm muita história boa para contar. Têm dores e sofrimentos para compartilhar, também. Enxergam o futebol como poucos jogadores o fazem dentro de campo. E exercem uma liderança difícil de ser medida para quem nunca viveu o cotidiano do vestiário de futebol, local em que dramas pessoais, fragilidades emocionais e disputas internas contaminam o ambiente. Situações que precisam ser atendidas na conversa ao pé de ouvido, no puxão de orelha diante dos colegas e, às vezes, em uma chacoalhada de ânimo, naquela corrente de abraços que mais parece curso de autoajuda. 

Geromel e Diego Souza (os de 37) e Lucas Leiva (o de 35) são os personagens desta vitoriosa e otimista Avalanche, escrita com sentimento bem diferente daquele que ecoava no inquieto coração deste escrevinhador (que, apenas por curiosidade, tem 59 anos), na semana passada. Lá havia um misto de frustração, tristeza e desencanto com o que havia assistido e ouvido de alguns dos nossos. Que por serem nossos queremos que sejam perfeitos, quando sabemos que as pessoas, por seres humanos que são, não são assim: erram, se omitem, pecam, traem tanto quanto acertam, transformam, glorificam e vencem. Nós somos assim, eles são assim, eu sou assim —- muito mais talvez do que todos os outros.

Lucas Leiva, o mais novo dos veteranos, pediu para voltar. Queria encerrar carreira no time pelo qual é apaixonado. Os torcedores, mesmo escolados com a decepção proporcionada por outros que, recentemente, tomaram a mesma decisão, oferecemos a ele o benefício da dúvida. Teve dificuldade para se readaptar ao futebol (mal) jogado na Série B e aos desacertos de um time que até agora não entendeu o que está fazendo na segunda divisão. Foi reposicionado em campo e dá a impressão que se redescobriu mais à frente, onde mata suas sede e fome de gol. Marcou o primeiro de hoje, o segundo dele nas duas últimas partidas disputadas.

Diego, nosso goleador, soube-se agora, além de enfrentar a violência, a pressão dos zagueiros e o peso da idade, precisa superar a dor de uma hérnia inguinal que entra em campo com ele, acompanha-o em cada disputa de bola e torna os movimentos ainda mais difíceis. Hoje, mais uma vez, subiu ao lado dele, mais alto do que todos os marcadores para, de cabeça, definir a vitória. Se o número de gols somos capazes de registrar —- foram 13 apenas nesse campeonato —, incontáveis foram as vezes em que vimos nosso atacante orientando companheiros, sinalizando o melhor caminho a percorrer, mostrando qual o comportamento adotar diante dos diversos desafios que temos pela frente. Um líder na tabela de goleadores gremistas tanto quanto um líder à frente do grupo de jogadores.

Geromel foi pouco exigido na noite desta terça-feira quando demos mais um passo importantíssimo à Série A. Foi eficiente, como costuma ser, nas poucas vezes em que a bola rondou o espaço ocupado por ele. Mas é personagem, sim, desta Avalanche porque ninguém, nenhum outro jogador, veterano ou novato, se dedicou de forma tão séria à missão de elevar o Grêmio a seu patamar quanto nosso zagueiro, nesta temporada. Em campo, nunca deixa qualquer um que esteja vestindo nossa camisa esquecer o significado de vesti-la. É respeitoso com o adversário. Elegante no comportamento. Sério na execução de sua tarefa. Preciso, muito preciso nos movimentos que realiza. 

Lucas, Diego e Geromel, veteranos que escolhi para serem personagens desta Avalanche, são, por merecimento, protagonistas da história do Grêmio. E da nossa ascensão que está cada vez mais consolidada.

Avalanche Tricolor: o sorriso de Lucas Leiva

Grêmio 3×0 Sport

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegte/RS

Lucas Leiva comemora gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Punho cerrado, braço estendido em direção ao céu e corpo elevado por um dos colegas. Assim Lucas Leiva comemorou o primeiro gol dele desde que voltou ao Grêmio e o segundo na vitória importantíssima desta noite — não apenas porque nos deixa mais próximo da classificação à série A , mas também porque corremos o risco desta ser a última partida na Arena, nesta temporada. Havia também um sorriso estampado no rosto desse gremista que, após vitoriosa carreira no exterior, decidiu encerrar sua jornada no time do coração.

Um sorriso que não escondia o alívio de quem sabia da dívida que tinha com o clube, pois desde que retornou não havia conseguido impor o futebol que lhe alçou ao sucesso. O próprio Lucas confessou, ao fim da partida, a frustração de não ser capaz de repetir com a camisa do Grêmio o talento que lhe projetou internacionalmente — ops, não é de bom tom usar essa palavra em uma Avalanche Tricolor, vamos então mudá-la para mundialmente. 

Nesta terça-feira, jogando mais à frente , pela total ausência de armadores e criadores no meio de campo, Lucas demorou para entender sua função. Participou de alguns lances, mas sem o diferencial que esperamos de alguém com a capacidade dele. 

Foi no segundo tempo, quando se imaginava lhe faltaria fôlego para manter a intensidade na marcação na saída de bola, que Lucas apareceu. Iniciou a jogada do primeiro gol no meio de campo e participou da sua finalização já dentro da área adversária, com a conclusão de Biel — em tempo: é incrível a dedicação desse menino de apenas 21 anos. O segundo gol, como já disse, foi de autoria dele e resultado de lançamento de Diogo Barbosa e da presença de Rodrigo, recém-entrado, dentro da área. Lucas disputou com o zagueiro e bateu forte, estufando as redes.

O sorriso na comemoração voltou a se repetir na entrevista final, ao comentar o placar elástico sobre um adversário que vinha se assanhando na competição e já era visto como uma “touca” do Grêmio, diante das estatísticas favoráveis nas últimas temporadas. Lucas Leiva estava feliz com o gol e a vitória — o terceiro gol foi marcado por Bitello. Uma felicidade que me representava em campo. Uma felicidade apropriada para o momento, sem a ilusão de que está tudo resolvido e menos ainda de que estamos esbanjando qualidade técnica.

Foi o próprio Lucas Leiva quem disse ao repórter que o abordou ao lado do campo que no Grêmio nada é fácil, tudo vem com sofrimento, mas, no fim, na maioria das vezes, as coisas dão certo. 

Que Lucas siga nos dando o direito de sorrir!

Em tempo: o que você vai ler a seguir, é claro, é opinião de um torcedor gremista; mesmo assim, espero que você tenha parcimônia em compreender o que penso sobre o assunto. Torcedores do Santos invadiram o gramado e um deles tentou dar uma voadora no goleiro Cássio do Corinthians. O time paulista foi punido com perda de mando de campo nos dois próximos jogos da Copa do Brasil, no ano que vem. Alguns torcedores se engalfinharam nas arquibancadas, na partida contra o Cruzeiro, e o Grêmio foi punido com a perda de três mandos de campo, que se for mantida representará o fim da presença gremista em seu estádio nesta temporada. É justo?

Avalanche Tricolor: um jogo com as caras do Grêmio

Grêmio 2×2 Cruzeiro

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Gol de Diego Souza, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O escanteio foi cobrado para o meio da área, onde havia aglomeração de adversários, mas mesmo com os espaços aparentemente ocupados, Diego Souza apareceu imponente sobre todos, subiu alto e no movimento de cabeça fez a bola sair do alcance do goleiro e parar dentro das redes. O gol de empate do Grêmio saiu em um momento difícil da partida, quando estávamos atrás no placar, caminhando para o fim do primeiro tempo e potencializando os questionamentos que temos sobre as qualidades do time — o que tornaria a volta para o jogo bastante complicada.

Diego descobre gols onde muitos de nós duvidamos. Usa de seu corpo para conter o tranco dos zagueiros, limpa o campo para que os companheiros se apresentem, batalha contra os adversários e sua condição física —- impactada pela idade. Lidera o time, mesmo quando não está com a braçadeira de capitão. Conversa com os mais jovens, posiciona os colegas, esbraveja para mexer com o brio de quem pensa em baixar a cabeça e compartilha palavras de incentivo quando percebe que alguém se abateu com o erro. Ainda joga com a torcida, porque sabe que tem crédito na Arena — hoje marcou seu décimo segundo gol na temporada.

Mal iniciado o segundo tempo, o esforço de Diego para recolocar o Grêmio na partida foi recompensando em uma das melhores jogadas que o time fez nessa competição —- considerando participação da equipe, marcação intensa, precisão nos passes, movimentação correta e, claro, conclusão. 

O lance se  iniciou na entrega de Biel para roubar a bola e impedir o contra-ataque do adversário no meio de campo. O desarme de nosso atacante virou passe para Villasanti, que da intermediaria lançou Ferreirinha. Nosso ponteiro esquerdo usou da habilidade para chamar a marcação, enquanto Nicolas fazia a ultrapassagem. Assim que percebeu Nicolas em condições de receber, Ferreirinha entregou a bola no ponto certo. Nosso lateral esquerdo com apenas um toque cruzou para Bitello, que entrava em velocidade no meio da área, para completar de cabeça, e dar vantagem no placar.  Um golaço pelo conjunto da obra.

Ali aparecia o Grêmio que os torcedores gostariam de ver jogando o tempo todo. Havia os ingredientes de um time capaz de voltar à Primeira Divisão com tranquilidade — o que, nesta altura do campeonato, não duvido que aconteça. Claramente, o Grêmio tem pontuação, equilíbrio e força para ficar entre os quatro primeiros colocados. Estamos distante oito pontos do primeiro time fora da zona de classificação. 

O espetáculo não foi completo porque um ‘bate-cabeça’ na nossa área permitiu o empate, quando o jogo parecia mais bem resolvido para nós. Um lance que — assim como o do segundo gol — talvez também diga muito do Grêmio que vem sendo reconstruído desde a tragédia que foi 2021. É capaz de ajustar-se em alguns momentos; e desconjuntar-se em outros. Aliás, tem sido esse o desafio de Roger: manter o time na parte mais alta da tabela, arriscar momentos de iluminação — como os dos gols de Diego e Bitello —- e reduzir os riscos nos instantes de sombra. 

Em tempo: antes de fechar essa Avalanche deparei com mais um torcedor de rede social espumando sua raiva contra Roger, como seo treinador não tivesse mérito algum e a ele cabesse toda a responsabilidade pelos cometidos. Chamava-o de convarde. Logo lembrei-me do time que montou para enfrentar o principal adversário da competição. O volante que escalou em lugar de Campaz estava dentro da área adversária quando marcou seu gol. As mudanças que fez ao longo da partida — mesmo as por questões físicas — tinham a intenção de levar o Grêmio mais para frente e pressionar o adversário no campo de ataque, jamais segurar o resultado. E quando o gol de empate saiu não se fez de rogado: tirou um zagueiro e escalou um meia-atacante. Covardia é atacar as pessoas, por preconceito ou intolerância.

Avalanche Tricolor: o bom filho a casa torna

Grêmio 2×1 Ponte Preta

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Uma torcida empolgante em foto de Mílton Jung

A casa onde morei ainda está por aqui. Também está a casa onde me descobri. O estádio onde forjei minha personalidade se sustenta como pode, mesmo que aos pedaços — suas linhas são visíveis na vizinhança. Por outros cantos que passeei, na cidade em que nasci, me reencontrei. Porto Alegre está cheia das minhas marcas tanto quanto eu tenho as dela. Nestes primeiros dias de férias, fui apresentado a novos espaços e paisagens que me conquistaram. Cenários recuperados. Outros recriados. 

Nesta toada de saudade e orgulho, de emoção e lembranças, voltei à Arena para assistir ao Grêmio, neste sábado. Fazia pouco tempo que havia estado por lá. E encontrei um clima bem diferente daquele início de campeonato. O torcedor está mais crente das suas possibilidades, apesar das desconfianças de plantão —- comuns para quem vivenciou o desastre de 2021. Ao menos descobriu que, a despeito dos limites do time, sua força será essencial para a retomada do rumo.

Logo que entrei na Arena, ouvi o hino ser entoado, em um coro puxado pelos alto-falantes. Em seguida, outras músicas ecoaram nas arquibancadas, inspirados na cantoria promovida pela turma da Geral. Alguns jogadores, mais do que outros, eram ovacionados. E empurrados pelo incentivo do torcedor. A maioria que estava lá, dentre velhos e adultos, jovens e crianças, queria mesmo é ver o ídolo que a casa torna: Lucas Leiva.

E enquanto Lucas não vinha, o time entregava o que tinha de melhor para o momento: uma intensidade incrível na marcação, velocidade na retomada da bola, e imposição sobre o adversário. Nem sempre tudo isso chega acompanhado do talento querido, mas é o suficiente para empolgar o torcedor.

Que empolgação! Há muito não assistia à torcida do Grêmio cantando quase toda a partida. Vibrando pelas pequenas conquistas. Comemorando lances banais. Emitindo uma energia que impulsionava o time à frente. Com um clima desses nada parecia capaz de nos impedir de chegar ao gol. Chegamos logo aos nove minutos e de forma magistral: um lançamento preciso de Villasanti que surpreendeu o zagueiros e encontrou Diego Souza, em condição legal, dentro da área. A bola morreu no peito dele e de bicicleta foi para o fundo da rede. 

Que explosão! Foi tamanha que muitos sequer perceberam que havia o risco de o gol ser anulado, e seguiram comemorando enquanto havia a checagem da imagem pelo VAR. Nesse ritmo alucinado, a pressão foi ainda maior. E antes de meia hora de jogo, em nova escapada veloz, Ferreirinha chutou no travessão e Campaz completou para o gol.

Quando o segundo tempo chegou, algo estranho aconteceu: mesmo com o time tendo desaparecido em campo, os torcedores seguiam cantando e pulando. É como se ninguém acreditasse que alguma coisa poderia dar errado na tarde desse sábado. O entusiasmo aumentou assim que Roger acionou Lucas Leiva no banco. A comemoração do torcedor era tal que muitos sequer viram que o Grêmio havia tomado um gol na cobrança de escanteio. Mais do que isso: que o Grêmio sofria forte pressão e corria riscos de desperdiçar os três pontos dentro de casa.

Até o apito final, a dúvida sobre o resultado persistia, dados os perigos que nos expomos. De certo, mesmo, só a forma como os torcedores — a ampla maioria deles —- decidiram abraçar o time, fenômeno que tenho identificado há algumas rodadas e, hoje à tarde, se comprovou em plena Arena do Grêmio.

Tive o prazer de vivenciar tudo isso, ao lado de gente querida, amigos e mais de 41 mil torcedores, em Porto Alegre. Voltar para essa casa me remete à felicidade dos tempos de guri, que me faz desejar começar tudo de novo, sempre ao lado do Grêmio, onde o Grêmio estiver!

Avalanche Tricolor: redivivo e pentacampeão!

Grêmio 2×1 Ypiranga

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Festa gremista em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Puxei a cadeira azul claro, de ferro, relíquia original do saudoso Olímpico, pra frente da TV, pouco antes de a decisão dessa tarde de sábado se iniciar. Foi a maneira que encontrei de reviver as finais que me levavam ao estádio da Azenha, geralmente ao lado do pai. Hoje, substituo aquela companhia incrível com quem confidenciava minhas preocupações e ansiedades com a performance de nosso time pela dos filhos, especialmente a do mais velho, o Gregório. E talvez pela presença deles — e dele —, tenho, também, muito mais pudor em revelar meu sentimento e entusiasmo, por juvenil que costumam parecer.

Não foram apenas o estádio e o meu decoro que mudaram. Naqueles tempos de Olímpico, às decisões eram reservadas o domingo, dia santo, sagrado e de festa para algumas culturas e religiões. Dia de futebol para todos os brasileiros — hoje não mais. As finais eram um privilégio dos dois grandes de Porto Alegre, com as exceções de praxe. Atualmente, os times do interior se mostram presentes e tem beliscado a taça com muito mais frequência. Haja vista que os cinco títulos seguidos conquistados pelo Grêmio foram disputados contra quatro times diferentes.

Tudo é muito diferente se comparar com o que vivenciei no passado, quando levantar o troféu de campeão Gaúcho era a maior das vitórias almejadas. Desde lá, sonhamos mais alto, ganhamos o Brasil, estendemos nossas fronteiras ao continente e alcançamos o topo do Mundo.

Nessas reviravoltas da vida da bola, cá estávamos nós, mais um vez, depositando todas nossas fichas nessa competição — e assistir à decisão sentado em um cadeira do Olímpico, mesmo que em frente a televisão, fez do sábado um “domingo de final”.

Redivivos no gramado estavam Everaldo, Babá, Alcindo e Joãozinho. Havia Anchieta, Tarcísio, Iura e Loivo. Não faltaram Bonamigo, Cristovão, Cuca e Valdo. Nem Danrlei, Adilson, Paulo Nunes e Jardel. Todos craques que de alguma maneira ficaram na minha memória. E na história do Grêmio.

Redivivo na cadeira do Olímpico estava eu, o guri que forjou sua personalidade nas dependências do velho estádio, apreciando o sabor de uma conquista estadual.

Redivivo, na Arena, neste sábado, estava Roger que entrou para o seleto grupo de gremistas que conquistaram o título gaúcho como jogador e técnico, completando um ciclo que havia sido interrompido em 2016 quando desperdiçou o direito de ser campeão no comando do time com uma derrota na semifinal.

Redivivo estava o Grêmio, de Geromel, que, após o revés de 2021 e os tropeços no início de 2022, volta a ser campeão. Penta Campeão!

Avalanche Tricolor: forjados pelas batalhas e aflições, não desistiremos jamais

Grêmio 2×2 Flamengo

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Ferreirinha em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Se é de batalhas e aflições que queremos escrever essa jornada de 2021, o capítulo desta noite foi escrito a contento. Diante do mais caro time do futebol brasileiro, de uma crise técnica poucas vezes vista e de um silêncio retumbante na nossa Arena – pela punição imposta à torcida que assistiu a alguns alucinados invadirem o campo rodadas atrás -, sofremos dois gols já no segundo tempo e vimos o rigor do árbitro punir com expulsão um dos nossos atacantes. A derrota seria inevitável e desistir de lutar a única opção, não estivéssemos falando de um clube que já nos propiciou alguns dos mais impossíveis resultados da história do futebol.

Como se algo estranho ao campo da bola transcendesse a razão, o passe que foi inseguro durante quase todo jogo chegou preciso ao pé de Ferreirinha – que já havia recebido todo tipo de bola, mas sem conseguir finalizar de forma correta. Nosso ponteiro esquerdo, que em toda a partida arriscava dribles sem sucesso, livrou-se de três marcadores e deu o presente que Borja, recém-entrado no time, mais esperava. Nosso centroavante com um carrinho empurrou a linha do VAR para longe e a bola para as redes. 

As possibilidades de levar ao menos um ponto deste jogo ainda eram pouco consideradas pelos críticos quando mais uma vez o sobrenatural protagonizou. Ferreirinha, incansável. Ferreirinha, insistente. Ferreirinha, que há algumas partidas vem tentando sem sucesso marcar gols após desconsertar seus adversários, desta vez cortou uma, duas vezes e colocou a bola fora do alcance do goleiro, estufando as redes e empatando a partida.

Os matemáticos e pragmáticos seguem céticos às nossas chances de escaparmos da Inominável a quatro rodadas do fim do campeonato. Passarão os dias falando de percentuais, projeções e possibilidade de queda. Da impossível tarefa de construir no fechamento da temporada o que não fomos competentes de fazer ao longo de todo ano. Tomados pela lógica, se esquecerão que fomos forjados nas batalhas e nas aflições. E delas nos alimentaremos para persistirmos até o fim lutando pela presença na elite do futebol brasileiro. 

Avalanche Tricolor: que vergonha!

Grêmio 1×3 Palmeiras

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A tabela de classificação já não era favorável na noite de sábado, quando sentei diante do computador para planejar o domingo futebolístico. Confesso que, pela primeira vez, o abatimento se expressou no coração deste torcedor (quase) sempre crente nas conquistas impossíveis do tricolor. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe da minha tese — diante do desespero que assistimos nesta temporada — de que estamos disputando uma Batalha dos Aflitos estendida, em que os aflitos somos nós próprios. E haveremos de vencer, mesmo que tudo aponte no sentido contrário.

O que era ruim, pior ficou.

Tomamos uma virada ainda no primeiro tempo, o VAR apitou mais do que o árbitro – acertou nos dois lances cruciais, registre-se – e o azar deu às mãos à intranquilidade e passeou pelo gramado da Arena. Com cada vez menos rodada para se recuperar e a dificuldade de o treinador e o time enxergarem soluções a curto prazo, a esperança de uma reviravolta se esvaía.

Foi, então, que, ao fim da partida, ouvi as palavras de Geromel, que voltou ao time dois meses depois de se recuperar de uma lesão no pé e fez um jogo quase impecável, a despeito da falta de ritmo:  

“Temos de trabalhar. Não podemos desistir. Só juntos sairemos desta situação. Sabemos que é uma situação incomoda. Faltam 11 jogos e precisamos de seis vitórias. Temos que sair desta situação”. 

A afirmação de nosso zagueiro e capitão mexeu com meu ânimo. Tudo que estava prestes a desmoronar, me pareceu novamente possível — ao alcance de um time que,  com um chacoalhão e a inclusão dos jovens que deram mais ritmo no segundo tempo, se revelará imortal, como dito em seu hino e história. Estava prestes a levantar do sofá, sacudir a poeira e fazer minha reverência à camisa autografada por Geromel que está estendida em um quadro no memorial que mantenho em casa. Mas as cenas que vieram em seguida, me abateram de vez. 

Os alucinados torcedores invadindo o gramado da Arena, quebrando o que viam pela frente, vandalizando o VAR e correndo como baratas tontas (e covardes) me levaram ao fatídico ano de 2004 quando fomos rebaixados. Uma época em que o clube estava destruído, ao contrário de hoje; tínhamos um time muito inferior ao atual; e a sequência de violência nas arquibancadas do Olímpico nos tirou o direito de jogar em casa e com torcida quando mais precisávamos deste apoio. Uma atitude que praticamente definiu nosso destino.

Os torcedores que assim agiram neste fim de domingo, em Porto Alegre, me fazem sentir muito mais vergonha do que o rebaixamento que nos ameaça de forma mais intensa a cada fim de rodada. 

Avalanche Tricolor: evoluindo e sem sarcasmo

Grêmio 1×1 América MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Guilherme Guedes comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio está evoluindo. 

Foi o que ouvi do comentarista Lédio Carmona, do canal SporTV, lá pelos idos do segundo tempo da partida. A despeito de sua análise ser sempre cuidadosa e equilibrada, não me contive. Pensei cá com os meus gatos: até os doentes quando morrem, evoluem. A óbito. Meu sarcasmo talvez não seja justo, especialmente com o jornalista de qualidade incontestável como o Lédio. Mas o é com o momento que estamos assistindo, na Arena.

Mesmo que o time tenha demonstrado um pouco mais de organização desde que Scolari assumiu o comando técnico e tenhamos alcançado uma consistência maior na defesa, é evidente que estamos com problemas difíceis de serem superados, neste momento. Há uma fragilidade física, há erros de fundamentos e, principalmente, há um desequilíbrio emocional que torna todas as manobras táticas mais complexas.

Na partida desse sábado à tarde, o primeiro gol teve a mão do técnico e de uma juventude que pede passagem na equipe.

A escapada de Ruan pelo meio, a velocidade e condução da bola de Vanderson, no lado direito, e a conclusão nas redes de Guilherme Guedes, chegando na esquerda, mostrou o protagonismo destes guris de talento — que temo seja desperdiçado pelo mau momento da equipe. Sem esquecer de Fernando Henrique: nosso volante faz parte dessa turma de jovens que entende do riscado, marca forte, desarma bem e distribui o jogo.

Scolari, assim que chegou, mudou a maneira do Grêmio jogar. Fechou a casinha, como costumam dizer por aí. Chegamos a formar uma linha de seis marcadores na defesa, com a fixação dos alas mais próximos da área e o recuo dos ponteiros. Hoje, sem Geromel nem Kannemann —- que falta nos faz essa dupla —-, entrou com três zagueiros e postou seus dois volantes na entrada da área. Apostou na velocidade dos atacantes e no oportunismo de Diego Souza que sucumbiu na primeira escapada. 

Douglas Costa —- e vou me apoderar da opinião do Lédio Carmona mais um vez —- fez sua melhor partida pelo Grêmio. Puxou o ataque, virou o jogo, deixou os colegas bem posicionados e tentou, sem sucesso, chutar a gol. Em uma dessas tentativas, sua vulnerabilidade física se expressou.

O resultado contra outro time que busca fugir do rebaixamento não nos ajudou em nada. Apenas estancou aquela sangria desatada da péssima arrancada no Brasileiro, no qual somamos seis derrotas, em onze jogos disputados. Empatamos hoje, depois de sair à frente. Desperdiçamos mais dois pontos na tabela. Mas ao menos não perdemos. Desde que Scolari chegou, estamos invictos no Brasileiro: uma vitória e um empate. Não é nada, não é nada, são 71% dos pontos que o Grêmio conquistou até aqui na competição. 

Pensando bem — e sem o sarcasmo destilado enquanto a bola rolava —, o Lédio tem razão: o Grêmio está evoluindo.

Avalanche Tricolor: vai passar!

Grêmio 2×2 Santos

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O gol de calcanhar há 50 anos, já contei.

O título que narrei há 20 anos, contei também.

Quem sabe o dia que assisti a Pelé jogar? 

Não, já falei.

Deixe-me pensar mais um pouquinho … 

Já sei, aquele jogo que chorei pela derrota acachapante.

Melhor não falar em derrota, né! 

É, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, está difícil de encontrar boas histórias para contar em lugar de me despedaçar em lamentos pelos maus resultados no Campeonato Brasileiro —- não que tenha sido um  jogo mal jogado, especialmente diante das últimas fracas apresentações, mas, novamente, fomos incapazes de vencer uma partida.

O ponto ganho foi ponto amargo. Só o ‘conquistamos’ porque perdemos os outros dois que a vitória nos oferecia, mas que entregamos em duas oportunidades — uma em uma bola mal dividida no meio de campo e outra em uma bola em que sequer tentou-se dividir. Resultado que nos mantém mais uma rodada naquela-posição-que-você-sabe-qual-é (melhor não citar aqui para não dar mais azar).

Um amigo de redação para me consolar, logo cedo, comentou: calma, Milton, é só o começo do campeonato. É exatamente isso que me preocupa. Ainda temos todo um Brasileiro pela frente.

Mais amargo do que isso só acordar de madrugada para trabalhar e descobrir que a máquina de café estava quebrada. Mas esta é outra história e hoje não estou com disposição de contar histórias nesta Avalanche. 

Vai passar!